quinta-feira, 29 de maio de 2008

próximo capítulo

No próximo post eu começo a análise da última música...Capítulo4, Versículo3

explicações a parte e mais do projeto

Olá...faz um tempinho que não escrevo, estou um pouco aterefada esses dias e estou prestes a sair do desemprego, toma que eu traga notícias boas aqui na próxima semana. Bom continuando a dose Racionais MC´S eu posto agora mais uma parte do meu relatório.

Continuando a análise de Jesus Chorou

Mesmo a figura de Jesus, em partes da letra, como a transcrita acima, e no próprio título remete a idéia de traição. Segundo os evangelhos - a figura de um líder, que lutou por um ideal e foi traído por aqueles pelo quais lutava e entregue por um discípulo seu, história que é conhecida através do Novo Testamento da Bíblia. Algo semelhante, em escala menor e em outro contexto, é claro, ao que ocorre com o enunciador do discurso.

Nas estrofes seguintes segue essa visão que vai se sedimentando com mais exemplos, enquanto Brown pensa “mil fitas”, mais e mais pessoas da sua comunidade vão gerando o sentimento de frustração e dor no enunciador, por suas atitudes vazias, por seus conselhos que vão à margem contrária de tudo que ele acreditou até o momento como ético.

Periferia- corpos vazios e sem ética
lotam os pagodes rumo a cadeira elétrica.
Eu sei você sabe o que é frustação
máquina de fazer vilão...
eu penso mil fita, vou
enlouquecer...
e o piolho diz assim quando me vê: - Famoso pra
caráio, durão, ih truta
faz seu mundo não Jão,
a vida é curta..
só modelo por ai dando boi...
Rasgar as madrugadas só de mil e cem..
se sou eu truta hã, tem pra ninguém...


No trecho acima o enunciador aponta a falta de perspectivas das pessoas da periferia nos primeiros versos, a cadeira elétrica como símbolo da cadeia, do lugar onde o crime os leva, os pagodes como atividades vazias que vivem lotadas. Tem-se ai um desabafo sobre essas atitudes, não como um tom de censura, mas de frustração, como ele cita na frase posterior. A frustração é outro sentimento frisado nessa letra. A decepção de não atingir as pessoas com a sua mensagem como ele pretendia, através da criação de uma cultura emancipadora diferente de simplesmente freqüentar “o pagode”.

E para finalizar essa parte, mas um exemplo de um indivíduo da sua comunidade que se posiciona de forma crítica ao discurso empregado por Brown. Mas uma vez o enunciador é “aconselhado” a vestir a sua imagem de celebridade e aproveitar o seu status alcançado, sem esse idealismo de fazer para e pela periferia, de retorno sempre às raízes.
O retorno, a importância de ser um indivíduo da favela e de certo modo ter orgulho da sua comunidade é algo intrínseco ao discurso dos Racionais, alguns trechos de músicas do grupo dão veracidade a essa afirmação

O dinheiro tira o homem da miséria, mas não pode arrancar de dentro dele a favela.

A minha área é tudo o que eu tenho. A minha vida é aqui e eu não consigo sair. É muito fácil fugir, mas eu não vou. Não vou trair quem eu fui, quem eu sou. Eu gosto de onde eu vou e de onde eu vim, ensinamento da favela foi muito bom pra mim .

Na rua eu conheço as leis e os mandamentos .

A toda comunidade da zona sul. Mês de janeiro São Paulo Zona Sul
Todo mundo à vontade calor céu azul. Eu quero aproveitar o sol Encontrar os camaradas pra um basquetebol .



Justifica-se novamente nesse momento a dor de Brown expressa em toda a letra de Jesus Chorou, diante da importância que aquelas pessoas representam pra ele, com exceção do primeiro indivíduo que o criticou, que não era daquela área. A constatação, através dos fatos e palavras de que tudo o que acredita parecia não ser o caminho certo para elas, criou, como já foi dito, uma crise de consciência no enunciador.

Nas falas de todos os interlocutores percebe-se que a presença da fama, do dinheiro e do status alcançado pelo enunciador é o desencadeador dessas opiniões, por isso esse discurso personificado na letra de autoria de Brown refletir a relação dele e dos demais integrantes do grupo com o sucesso alcançado. Um misto de frustração, desilusão e revolta.

A trajetória do grupo deixa evidente que eles sempre procuraram a independência em relação à indústria fonográfica, possuem seu próprio selo, sua gravadora, seus meios de distribuição, evitam a exposição em grandes mídias. Ações de visionários, de pessoas que previam a apropriação dos elementos da cultura hip hop pelo mercado. Por outro lado, o que se tem registrado nesse relato de Brown é a fragilidade dele ao lidar com isso quando sai desse meio de controle. No momento em que a roupagem de celebridade é colocada pelas pessoas da sua comunidade e, como já foi dito, as suas verdades são taxadas de hipocrisia (Famoso pra caráio, durão, ih truta faz seu mundo não Jão, a vida é curta/ periferia nada, só pensa nele mesmo, montado no dinheiro e vocês aí no veneno).

O enunciador encerra a música voltando-se para o único apoio que parece existir naquele momento, a sua fé.

Se só de pensar em matar já matou
Prefiro ouvir o pastor: Filho meu,
Não inveje o homem violento
E nem siga nenhum dos seus caminhos...
Lágrimas...
Molha a medalha de um vencedor
Chora agora ri depois,
Ae, Jesus Chorou!


O aparecimento da fé nesse momento vem como algo que dá o suporte, o apoio como em outra música do grupo “aquele que não deixa o mano aqui desandar” . Diante dos percalços apresentados no decorrer da narrativa, a desilusão com seus companheiros e, também, com sua mãe que desacreditaram em algum momento do seu discurso e de seu projeto a favor da comunidade, o que resta ao enunciador é “ouvir o pastor”. Nessas frases pode-se ver um pouco da relação de integrantes do grupo com a fé, com a religião. Recorte analisado mais profundamente na próxima letra, no entanto, tem-se um indício dessa relação de proteção, de apoio diante de situações adversas.

Os versos finais vêm com tom de otimismo, o velho ditado chora agora ri depois deixa claro essa intenção, uma espécie de presságio. Toda a dor expressada nessa letra terá sua recompensa, seu valor será mostrado.

Nesse momento o enunciador ressalta a sua esperança no movimento, na sua caminhada no cenário musical do rap. A qualquer momento isso será reconhecido da forma que se deve: uma cultura marginal que tem as diretrizes para causar uma melhora nas condições da vida na periferia, em virtude de todas as características do movimento que já foram apresentadas até aqui.

Assim a narrativa se encerra, com as lágrimas sendo uma exteriorização, também, da felicidade (“as lágrimas molham a medalha do vencedor”), seguindo o tom mais otimista das estrofes finais.


NOTAS

RACIONAIS MC´s. Negro Drama. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56 min 02s), faixa 5 ( 6min 51s)

BROWN, Mano. Fórmula Mágica da Paz. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 11.

RACIONAIS MC´s. Na fé irmão. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56 min 02s), faixa 7 (6min 05s)

ROCK, Edy; BROWN, Mano. Fim de semana no parque. In: RACIONAIS MC´s. Raio-X Brasil. São Paulo: RDS Fonográfica, p.1993. 1 CD. Faixa 1.

BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.