quinta-feira, 17 de abril de 2008

parte III

Continuando a postar a análise de Negro Drama, mais uma parte do meu trabalho de Iniciação Científica. Para entender tudo ver o primeiro post sobre isso no dia 28 de fevereiro, é foi há dois meses atrás mais ou menos que eu comecei essa história que ocupou um ano inteiro da minha vida, dos meus estudos e foi muito importante para mim na minha jornada na Unesp e hoje eu divido com as poucas, mas boas pessoas que visitam esse blog. No próximo post já vou começar a análise de JESUS CHOROU.

Obrigada mais uma vez!

Negro Drama: parte III e última

A luta que o enunciador afirma só tem sentido, ou seja, só significa diante da posição de subjugado que o negro ocupa no país, como afirma Darcy Ribeiro

"O fato de ser negro ou mulato, entretanto, custa também um preço adicional, porque a crueza do trato desigualitário que suportam todos os pobres, se acrescentam formas sutis ou desabridas de hostilidade".

Por outro lado, a luta continua, é travada diariamente. O enunciador demonstra isso através do ciclo vicioso. Volta ao passado e termina essa parte mais uma vez com o “negro drama”, de forma pessimista, onde muitas vezes a saída está no crime e não em outras formas como a educação (referência ao “caderno”)

Vi um pretinho e seu caderno era um fuzil , NEGRO DRAMA

A segunda parte da música é cantada por Mano Brown, é uma autobiografia declarada que vem dar veracidade aos argumentos acerca das condições do negro levantadas por Edy Rock na primeira parte e, da mesma forma, demonstrar mais um exemplo de vitória.

Crime, futebol, música, [...],
Eu também não consegui fugir disso aí
Eu sou mais um, Forrest Gump é mato ,
Eu prefiro contar uma história real
Vou conta a minha


Na narrativa de Mano Brown a relação entre o negro pobre da periferia de São Paulo e os receptores do discurso, classe média e alta, sofre maior tensão. Porque nessa narrativa existe a acusação da apropriação da cultura negra, pasteurizada nos costumes da classe média e alta, que veremos mais à frente.
Seguindo a linha da narrativa, Brown descreve o momento da chegada de sua mãe, uma negra, nordestina e mãe solteira, na grande cidade de São Paulo


Uma negra e uma criança nos braços,
Solitária na floresta de concreto e aço.
Veja, Olha outra vez, o rosto na multidão,
A multidão é um monstro sem rosto e coração.
Hey, São Paulo! Terra de arranha-céu
A garoa rasga a carne, é a Torre de Babel,
Família Brasileira, dois contra o mundo,
Mãe solteira de um promissor, vagabundo,
Luz, Câmera e Ação, Gravando a cena vai
O Bastardo mais um filho pardo sem Pai


O trecho descreve como se deu a inclusão desses novos moradores com “a floresta de concreto e aço”. Nesse ponto edifica-se outro aspecto histórico da marginalização, a vinda dos retirantes para São Paulo. Não há uma definição clara na música que a mãe de Brown foi uma retirante, isso é informação de sua biografia. Porém, elucidado esse fato compreende a intenção nesse trecho de demonstrar a dor e solidão daquelas duas pessoas à margem da grande cidade.
A mãe de Brown veio para São Paulo menina, muito antes de ele nascer. O primeiro momento de solidão a menina nordestina no meio da Torre de Babel paulistana, onde ninguém se entende e muito menos a entende, uma multidão sem rosto e sem coração.O segundo momento foi quando foi mãe solteira, como Brown afirma na letra e ela confirma em entrevista a Caros Amigos “meu marido me deixou quando eu estava de um mês” . Nessa parte da narrativa existe a fusão das dificuldades pessoais de Mano Brown com a totalidade de experiências assim que se repetem. A verdadeira família brasileira, aquela gerada no miolo do “povão”.Assim como Edy Rock nas primeiras estrofes, Brown costura mais aspectos do cotidiano do marginalizados. Na sua história particular ele reedifica as falas de Edy Rock.
A relação do homem negro do gueto com a classe média branca assume novos aspectos nessa parte da música

Inacreditável, mas seu filho me imita
No meio de vocês ele é o mais esperto
Ginga e fala gíria, gíria não dialeto
Esse não é mais seu
Entrei pelo seu rádio, tomei, você nem viu [..]
Seu filho quer ser preto, que ironia
Cola o pôster do Tupac ae [...]
Sente o Negro Drama, vai, e tenta ser feliz


Nesse momento aparece a tentativa apropriação da cultura. Os negros sempre sofreram dessa injustiça, foi assim com o blues, com soul e o funk, estilos musicais germinadores do rap . A cultura geminada no cerne das comunidades negras e de suas influências é apropriada pela classe média e pasteurizada a seus costumes. A questão vai além do consumo, não é o “playboy” comprando CDs, ouvindo Racionais no aparelho de som do seu carro importado, é assimilação de um discurso proveniente da periferia, de pessoas que sofrem a discriminação racial, social e cultural como “seu” (do indivíduo da classe média).

"Eles (classe média) vão entrar no rap e começar a falar de outras coisas, vão usar a linguagem deles, e a tendência é somente serem consumidos e o resto ser esquecido, como tudo o que aconteceu. Com o samba foi assim, os sambistas só pararam de apanhar com os instrumentos na costas depois que o homem do asfalto começou a dizer que o samba era bom, começou a produzir e o outro virou coadjuvante".

O garoto filho do “senhor de engenho” não se contenta em ouvir a música, ele quer ser preto. E isso é o lado negativo da explosão do hip hop é a apropriação por parte da classe média, ela compra esse discurso e o faz seu, ela compra as roupas dos meninos e meninas da periferia usam e faz disso uma grife, uma marca. O injusto é que essa apropriação é excludente e exclui justamente os seus idealizadores, tira a legitimidade dos seus percussores.
Por outro lado, na última estrofe do trecho Brown derruba essa intenção com o diferencial decisivo: “o negro drama” narrado em todo o contexto da letra. Por mais que se tente a assimilação, essa não vai passar de algo plástico, porque não tem como parte integrante a experiência cotidiana dos “manos” dos Racionais.

O que você fez por mim?
Eu recebi seu tickt, quer dizer kit,
de esgoto a céu aberto, e parede madeirite,
De vergonha eu não morri, to firmão, eis me aqui,
[...]
Eu sou o mano Homem duro do gueto, Brown,
E de onde vem os diamante?
Da lama, valeu mãe
NEGRO DRAMA, DRAMA, DRAMA.


A estrofe acima é o reforço da mensagem da música. O ressentimento, taxado de “racismo ao contrário”, fundamenta-se nesse ponto, no que sobrou para o coadjuvante na história oficial- negro morador da favela- esgoto a céu aberto e parede maderite, ou seja, a própria favela e todas sua mazelas. Mas de onde vem o diamante se não da lama? Essa é mensagem final de Brown o caminho foi e ainda é adverso, as estrofes do negro drama confirmam, a narrativa se edifica nesse mote. No entanto, a revolução começa a ser feita “a começar pelas armas: sua palavra em primeiro lugar”.Da lama saem os diamantes, do gueto saem os novos cronistas da periferia.
E a estrofe final

E ae na época dos barracos de pau lá da pedreira
o que vocês fizeram por mim
O que vocês deram por mim
Agora ta de olho no dinheiro que eu ganho
Ta de olho no carro que eu dirijo[...]
Ae o rap fez ser o que sou hoje
Ice Blue, Edy Rock, Kl Jay
E Toda família, toda a geração que faz o rap
A geração que revolucionou, e que vai revolucionar [...]
Você sai do gueto, mas o gueto nunca sai de você [...]
O mundo inteiro ta de olho em você pela sua origem
É desse jeito que você vive é Negro Drama
Eu não li, eu não assisti, eu vivo o Negro Drama
Eu sou o Negro Drama
Sou fruto do Negro Drama [...]


O fechamento da música é discurso raivoso de Mano Brown afirmando mais uma vez todas as questões levantadas no decorrer das estrofes. A marginalização/discriminação por parte das classes média e alta branca, a apropriação da arte (Agora ta de olho no dinheiro que eu ganho) e a oportunidade dada pelo Rap, a possibilidade de revolução, ao menos, na auto-afirmação do negro.
Em suma, o retrocesso a toda mensagem passada por essa música a fim de reforça-lo. Com destaque para as últimas fases (Eu não li, eu não assisti, eu vivo o Negro Drama Eu sou o Negro Drama,Sou fruto do Negro Drama), nesses trechos o enunciador deixa explicito que nada do que foi dito é algo que ele soube por intermédios de terceiros ou que ele presenciou como observador. Ele viveu e ainda vive todo esse estigma, assim como sua mãe, por isso ele é “fruto do negro drama”.


Notas


RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentindo do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 235.

Mato:
mentira, invenção, ficção.

KALILI,Sérgio. Mano Brown é um fenômeno.Caros Amigos. São Paulo, n.10, jan.1998. p. 33.

Spency Pimentel em seu livro “Livro Vermelho do Hip hop” (PIMENTEL, Spensy Kmitta. O Livro Vermelho do Hip Hop. 1997.Trabalho de Conclusão de Curso- Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 1997) discorre sobre o que seria a “árvore genealógica musical” do rap. Assim “o rap possui uma árvore genealógica no universo musical, é bisneto do spiritual e do blues, neto do soul, filho do funk, irmão do rock, primo do reggae, do samba, do maracatu e da embolada”.

Homem do asfalto: os indivíduos que não moram na favela, no morro.

CAROS AMIGOS. O hip hop é um instrumento de transformação. In: Caros Amigos. São Paulo, n.99, jun.2005.p.35

segunda-feira, 14 de abril de 2008

mais de Negro Drama

Demorou, mas, está aui mais uma paret da análise de Negro Drama. Partindo de onde eu parei, ou seja o post que está logo abaixo.

Parte II da análise de Negro Drama

A composição dessa imagem é histórica realmente e natural, remete ao próprio estabelecimento das relações em nossa sociedade. Histórica e que se repete, como nas próprias palavras de Mano Brown

Você já nasceu preto, descendente de escravo que sofreu, filho de escravo que sofreu, continua tomando "enquadro" da polícia, continua convivendo com drogas, com tráfico, com alcoolismo, com todos os baratos que não foi a gente que trouxe pra cá. Foi o que colocaram pra gente .

É evidente nesse contexto a relação senzala ontem, favela hoje como o jornalista Bruno Zeni afirma no seu artigo O negro Drama do Rap, segundo Zeni é presente na letra

"A correspondência com a história do Brasil, lugar onde desde o início da colonização, houve o aprisionamento e abate de carne negra e indígena, justificada pela sede do capital [...] como atualmente na periferia das grandes cidades, segundo dizem os Racionais".


A discriminação silenciosa tem suas raízes no chamado mito da cordialidade, a ingênua visão do povo pacífico diante das diferenças e misturas étnicas, sendo o mito uma “narrativa que é solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não se encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade” . Assim tem-se a construção desse país, da cultura senhorial que ainda permeia as relações como afirma Flávio Moura

"Um Brasil idílico foi arraigado no inconsciente do país ao longo dos séculos para tornar um projeto nacional arcaico e mascarar a realidade que ela subjaz: a da iniqüidade e da opressão. Ou seja, por baixo da retórica existe uma sociedade em que relações se dão sempre entre um superior que manda e um inferior que obedece".

E embora a edificação dessas relações tenha a base fincadas nos primórdios do Brasil, quando o negro ainda era escravo e vivia na senzala, o mito tem a funcionalidade de se reinventar em novas situações (ontem senzala, hoje a favela), assim como afirma Marilena Chauí “sob novas roupagens o mito pode repetir-se indefinidamente” .
Nas estrofes seguintes é apresentada uma nova situação, uma possibilidade de reversão desse quadro descrito acima e fundamentado na história. Pretende-se construir um discurso que quebre esse cultural, uma narrativa “onde o lugar do negro seja diferente do que a tradição brasileira indica” .
Uma oportunidade de quebrar esse ciclo natural de desvantagem do negro que, diante da trajetória dos integrantes do grupo foi possibilitada pelo sucesso alcançado através do rap

Eu era a carne,
Agora sou a própria navalha,
Tim, Tim um brinde pra mim,
Sou exemplo de vitórias, trajetos e glórias [...]
Olho para trás e vejo a estrada que eu trilhei,
mo corre ,
Quem teve lado a lado
E quem só ficou na bota


Assim o enunciador é um rapper. Como cantor de rap, ele pôde passar por outro lado, romper a barreira da classe dominante e passar isso para seus iguais. Mas essa superação não se fez de forma fácil, foi e ainda é como uma batalha travada e sua arma é a música (como num trecho de outra música do grupo “minha palavra vale um tiro e eu tenho muita munição”) . Nesse trajeto só os fortes realmente resistem, fortes no sentido do caráter e não força física, aqueles apesar da o status alcançado não esquecem de quem são

"É como se os poetas do rap fossem as caixas de ressonância, para o mundo, de uma língua que se reinventa diariamente para enfrentar o real da morte e da miséria; por isso eles não deixam a favela, não negam a origem".


O dinheiro tira o homem da miséria
mas não pode arrancar de dentro dele a favela
São poucos que entram em campo pra vencer,
a alma guarda o que a mente tenta esquecer
[...]
Negro Drama de estilo,
pra ser se for tem que ser, se temer é milho.
Entre o gatilho e a tempestade,
sempre a provar que sou um homem não um covarde.


Nesse momento a narrativa muda de sentido, o personagem sai do primeiro estado, de negro limitado por sua própria história, por seus 300 anos de escravidão, para um segundo estado proporcionado pelo sucesso que o grupo alcançou, pela possibilidade de lutar por condições melhores e poder utilizar essa forma de comunicação da periferia que é o Rap para fazer algo de bom para sua comunidade, ser “exemplo” para vitória de outros, também, por isso não esquecer nunca quem é, de onde veio. Não se pode arrancar a favela, as raízes desse homem. É justamente ai que está a força dos grupos de rap, ela

"Vem de seu poder de inclusão, da insistência na igualdade entre artistas e público, todos negros, todos de origem pobre, todos vítimas da mesma discriminação e da mesma escassez de oportunidades".

Notas

KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
Grifo da autora: remete ao trecho da música “desde o início por ouro e prata”

ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004

CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 09

MOURA, Flávio. Chauí e Bianchi contra a ficção dos 500 anos.Disponível em: Fundação Perseu Abramo : Acesso em 6.jul.2005.

CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 10.

KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.

Mo corre: maior correria
Ficar na bota: ficar para trás, as pessoas que não persistiram no caminho, foram ficando para trás.

BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.