quinta-feira, 27 de março de 2008

Mais do mesmo....

Para não perder o "fio da meada", eis aqui mais um capítulo da minha novela de linhas. Agora sim... Racionais MC´S

Capão Redondo: Berço da Rhythm and Poetry dos Racionais MC´s

“Universo, Galáxia, Via –Láctea, Sistema Solar, Planeta Terra, Continente Americano, América do Sul, Brasil, SP, São Paulo, Zona Sul, Santo Amaro, Capão Redondo...Bem-vindos ao fundo do mundo”


Esta é a localização do Capão Redondo dada pelo escritor Férrez no prefácio do seu livro Capão Pecado, uma narrativa que, embora não traga personagens reais, reflete com fidelidade o cotidiano do local, um bairro da Zona Sul paulistana onde os Racionais escreveram suas primeiras letras. Ainda como uma dupla, é verdade, mas muitas das letras feitas por Ice Blue e Mano Brown, vizinhos no Capão Redondo, se tornaram os primeiros sucessos dos Racionais MC´s.
Os quatro integrantes dos Racionais são os MC’s Mano Brown (Pedro Paulo Soares Pereira), Edi Rock (Advaldo Pereira Alves), Ice Blue (Paulo Eduardo Salvador) e o Dj KL Jay (Kléber Geraldo Lelis Simões). O nome do grupo faz alusão ao disco Tim Maia Racional (1975), uma das influências do grupo, outras referências são os cantores Cassiano, Hyldon, Wilson Simonal e Jorge Ben, que é homenageado com uma versão de Jorge da Capadócia no quarto disco do grupo, Sobrevivendo no Inferno.
No início dos anos 90, os Racionais lançam seu primeiro trabalho Holocausto Urbano. O álbum era um reflexo de todos os problemas que moradores da periferia sofriam, inclusive os próprios integrantes, uma vez que todos eram oriundos de zonas pobres da cidade de São Paulo. As músicas traziam temas polêmicos como racismo, miséria, corrupção policial, entre outros problemas da periferia paulistana. Não menos importante foi a atitude pioneira do grupo de realizar um trabalho independente, tanto na sua produção como na divulgação, distanciando-se da indústria fonográfica.
Os Racionais fazem parte da geração que encontrou na praça Roosevelt, em São Paulo, o espaço para divulgação de seu trabalho e para o encontro com outros rappers da cidade. Essa experiência na praça foi crucial para a consolidação do rap como veículo de protesto. O segundo trabalho do grupo, o single Escolha seu Caminho, traz na temática a preocupação sócio-racial desenvolvida nos encontros na praça. O single possuía duas músicas Negro Limitado e Voz Ativa. Escolha seu Caminho foi responsável pela popularização dos Racionais entre os jovens da periferia de praticamente todo o país .
Raio-X do Brasil foi o nome escolhido para o terceiro trabalho dos Racionais, o álbum mostra a evolução do grupo, tecnológica e lírica. Na parte sonora, o Dj KL Jay sampleia e mistura sons de Tim Maia, Jorge Ben Jor, Curtis Mayfild e The Meters, entre outros artistas do funk e do soul antigos. Quanto às letras o grupo desprende-se das letras formais dos trabalhos anteriores, quase didáticas e passam a usar a linguagem da periferia com suas gírias, palavrões e idiomatismos, gerando uma maior identificação com o público alvo: os moradores da periferia. As músicas de maior destaque nesse álbum foram Fim-de-semana no Parque, Mano na Porta do Bar e o hino dos negros, pobres, presidiários, e os demais excluídos da sociedade-Homem na Estrada-, que chegou a ser declamada pelo então senador Eduardo Suplicy em um discurso seu, após jovens da classe média de Brasília serem absolvidos do caso do assassinato do índio pataxó.
Em 1997, após um período de pouca repercussão do Rap nos meios de comunicação, os Racionais produzem e divulgam seu quarto trabalho e, talvez o de maior valor para o grupo e para todo o cenário do rap brasileiro. Sobrevivendo no Inferno representou a consolidação do rap nacional, e elevou o gênero à condição de fenômeno nacional, embora, a independência em relação à indústria tenha sido mantida, uma vez que esse álbum inaugura o selo próprio do grupo- Cosa Nostra.. O álbum possui referências divididas entre a religião e a violência, entre a cruz e a pistola. Mano Brown define esse disco em entrevista ao jornalista da Caros Amigos Sérgio Kalili

"Eu quis fazer uma comparação de um cotidiano violento e da religião. Tipo o que você faz para ter mais segurança? A palavra da Bíblia? Como você vai sobreviver?Às vezes eu vejo os Racionais no meio de um inferno, cercado de uma pá de coisas- é tráfico de um lado, polícia que quer ferrar a gente de outro...Então é como um desabafo de como você faz para sobreviver no meio disso tudo aí."

A música de maior repercussão foi Diário de um Detento escrita por Brown e Jocenir, preso que sobreviveu ao massacre do Carandiru. A letra é ambientada na época do massacre e transmiti a visão “dos perdedores”, além de descrever o cotidiano de um presidiário no Complexo Carcerário do Carandiru. O clipe dessa música rendeu o prêmio de “Melhor Clipe do Ano” do VMB, festival de música brasileira realizado pela MTV.
O mais recente álbum dos Racionais, Nada como um dia após o outro dia, apresenta músicas que abordam a nova situação dos integrantes do grupo, agora reconhecidos em todo o país e considerados um dos grupos de maior expressão dentro do movimento hip hop. O posto de “famosos” acarreta vários problemas como a inveja, desconfiança acerca da simplicidade dos integrantes, a ingratidão de algumas pessoas próximas, sedução da indústria cultural, a aproximação de pessoas “interesseiras”, e todas essas preocupações são refletidas nesse trabalho. O CD é duplo e traz na capa uma sugestão do preço pelo qual deve ser vendido, uma atitude que, talvez, queira evitar a exploração do mercado fonográfico e explicitar mais uma vez a distância, tão prezada pelo grupo, do sistema empreendido pela indústria cultural.
A importância dos Racionais no cenário do rap nacional é algo indubitável, a sua trajetória confunde-se com a própria evolução do estilo dentro dos ideais do hip hop. Como explicita o jornalista Bruno Zeni

"Os Racionais se tornaram um fenômeno específico por alcançar enorme popularidade tanto na periferia como na classe média intelectualizada sem abrir mão de um discurso combativo que, não raro, beira o incentivo ao enfrentamento racial e de classe."

Eles representam, assim, a resistência do rap nacional na relação com a indústria cultural, ao mesmo tempo que são um dos grandes responsáveis pela ascensão do estilo em meio ao turbilhão do comércio fonográfico.
A escolha de parte da obra dos Racionais com objeto dessa pesquisa justifica-se, por fim, em todos esses pontos apresentados, desde da repercussão nacional do grupo até a postura assumida por seus integrantes desde o início, que eles procuram manter na sua essência, no entanto, sem negar a responsabilidade e a importância que possuem na cultura hip hop, tanto na vertente artística como na mobilização social. Algo que se reflete em todas as classes sociais

"A música dos Racionais está trazendo algo que o movimento negro nunca conseguiu: a comunicação de massa para massa. Suas músicas e suas roupas são cantadas e usadas por jovens negros pobres da periferia, jovens negros da classe média, jovens mestiços de todas as classes e jovens brancos do jardim."

Notas

FERRÉZ. Capão Pecado. São Paulo: Labortexto Editorial, 2000.p. 14

Embora o grupo Racionais MC’s faça parte da segunda geração, os seus integrantes participaram das primeiras manifestações do Hip Hop nacional na praça Roosevelt e na estação São Bento, de maneira individual e não como um grupo formado.

KALILI,Sérgio. Uma conversa com Mano Brown. Caros Amigos.São Paulo, n.3, set.1998. Edição Especial. p. 18.

ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004

NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90,nov.2001.p.66-83. p.69

Boas novidades

Eu descobri recentemente que esse blog tem mais leitores do que eu imaginava, e eu queria agradecer os meus amigos por isso, pela leitura dedicada às minhas palavras nem sempre boas, nem sempre bem escritas, mas, sempre com as melhores intenções. Eu sei que ultimamaente estou postando coisas que escrevi há um tempo e que é necessário sempre escrever para não "enferrujar", no entanto, eu criei esse blog para poder divulgar coisas que já fiz também, como esse relatório que coloco aqui aos poucos. E assim que essa minha missão terminar, voltarei a colocar minha mente para funcionar e criar novas linhas.

Obrigada...

terça-feira, 25 de março de 2008

Já que estamos falando de Rap

Essa é uma parte de contexto histórico no meu relatório. Mais uma parte desse trabalho - A história do Rap no Brasil.

Contexto Histórico: a origem do rap nacional

Do seu país de origem o rap nacional herdou as características do local onde nasceu, assim como nos EUA, aqui no Brasil o hip hop se desenvolveu no seio de comunidades periféricas localizadas as margens do maior centro urbano do país, as zonas pobres da grande São Paulo. Como já foi citado o primeiro elemento a aportar aqui foi o break disseminado em meados dos anos 70 através passos do grupo de dança Funk & Cia sob o comando do veterano do hip hop Nelson Triunfo, isso quase trinta anos atrás. A música B.boy Original (1982) de sua autoria resume essa gênese do movimento no país

Dança de rua, dance em qualquer lugar,
Mostre a verdade sua,
Mas nunca se esqueça que sua cultura é original de rua!
Saiu do subúrbio pra se projetar,
No centro da cidade chamou a atenção,
Com sua dança mágica como raio
Ele entrou em comunicação para toda a nação.
Foi assim no Brasil, como lá no Bronx
da periferia para ruas.

O centro da cidade, como Triunfo canta, foi o palco do desenvolvimento dos demais elementos do movimento, inclusive o rap. Os primeiros rappers não tinham consciência do papel social que o rap adquiriu e da sua importância para os jovens das periferias norte-americanas. Exemplo disso foi o primeiro registro fonográfico de um rap no país, já em 1980, Melô do Tagarela, que foi gravado comercialmente por um apresentador de televisão, não correspondendo aos objetivos do estilo - ser genuinamente uma cultura de rua-, embora abordasse temas críticos como a situação política e social da época.
Somente alguns anos depois, com a chegada de maiores informações acerca do movimento Hip Hop e de seus ideais, é que se formou uma primeira geração de rappers compromissados com o caráter de cultura de rua que identifica o movimento. Essa geração foi denominada “Velha Escola”, ou os bate-latas. Esses rappers, que bateram lata na Estação São Bento ou participaram das rodas de rap na praça Roosevelt são considerados os pioneiros do rap nacional, a primeira geração de rappers. Anterior às gravações fonográficas do estilo, essa geração representa a máxima do termo “cultura de rua”, pois, foi ali mesmo, nas ruas que o rap angariou centenas de adeptos sem auxilio de grandes gravações. O rapper Thaíde, um dos pioneiros do movimento, fala sobre essa experiência na estação e do termo batedores de lata

Essa história aconteceu que é o seguinte agente tinha uns problemas para usar a energia elétrica lá (São Bento) e eu falei – Olha eu sou Ogun, do candomblé e eu sei fazer percussão aquela parada toda-, então agente começou a fazer um som na lata pra substituir justamente o som eletrônico já que agente não podia usar a eletricidade, mas precisávamos de um som, ai eu comecei a fazer um som nas latas de lixo e deu muito certo. Agente era um monte de adolescente se encontrando para se divertir, agente não tinha idéia do que ta acontecendo hoje. Agente ia com seriedade apesar da diversão, então agente começou a se preocupar com o que estava fazendo, com as letras, começamos a nos aprimorar, os djs também. O hip hop foi tomando conta do país inteiro. Quando agente viu, tinha pessoas fazendo o que agente fazia na São Bento no país inteiro.

Os raps dessa primeira geração buscavam resgatar a cultura negra, eram comuns as letras que falavam de Zumbi dos palmares e outros líderes negros como Malcom X e Martin Luther King. O resgate da cultura possibilitou conscientização dos jovens negros sobre a história de seus ancestrais e a busca por sua identidade. As músicas, no entanto, possuíam um tom mais festivo do que de denúncia.
As primeiras gravações de grupos dessa geração aconteceram 1988 e 89 com o lançamento de três coletâneas Hip Hop Cultura de Rua, Consciência Black vol.1 e vol.2. O período foi caracterizado pelo lançamento de coletâneas, já que se tratava de um novo estilo musical que refletia certa desconfiança por parte das gravadoras, destaque para Consciência Black, porque foi a primeira a colocar em uma das faixas uma música que revelava explicitamente o cotidiano periférico, a música Pânico na Zona Sul de autoria de Mano Brown e Ice Blue, como uma dupla anterior a formação dos Racionais MC´s.
A segunda geração corresponde aos grupos que ingressaram no movimento hip hop no fim dos anos 80 e início dos anos 90. É nessa geração que está o foco da pesquisa: o grupo Racionais MC’s. Como parte da obra deles é o objeto de pesquisa desse projeto a história e trajetória do grupo será apresentada em tópico separado.
A característica principal da nova safra de rappers que surgiram é a maior politização em relação aos veteranos, maiores informações sobre os ideais do movimento foram sendo assimiladas e, também, a partir disso foi se construindo o rap genuinamente brasileiro, afastando-se um pouco dos precursores norte-americanos e incluído influências nacionais nas bases sonoras, como nomes expressivos do soul e black music tupiniquins como Jorge Ben Jor, Tim Maia, Sandra de Sá, Toni Tornado e outros.
Os tons festivos assim cederam lugar as “crônicas” do cotidiano periférico, tendo como um dos temas centrais o resgate da auto-estima do jovem negro, maioria nesses locais. Foi o momento que o hip hop passou a ter uma função social mais forte, se organizar como um movimento, além de cultural, social. Nessa época se estabelece as características do movimento que foram bem definidas nas palavras do antropólogo Luiz Eduardo Soares, autor do livro Cabeça de porco, “o hip hop acena com a paz politizada, que se afirma com agressividade crítica, isto é com o estilo afirmativo do orgulho reconquistado”.

Notas


Entrevista concedida no lançamento do livro biográfico “Pergunte a quem conhece”, realizado no SESC/Bauru no dia 17 de fevereiro de 2005.

ATHAYDE, Celso; MV BILL; SOARES, Luiz Eduardo.Cabeça de Porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 84