terça-feira, 25 de março de 2008

Já que estamos falando de Rap

Essa é uma parte de contexto histórico no meu relatório. Mais uma parte desse trabalho - A história do Rap no Brasil.

Contexto Histórico: a origem do rap nacional

Do seu país de origem o rap nacional herdou as características do local onde nasceu, assim como nos EUA, aqui no Brasil o hip hop se desenvolveu no seio de comunidades periféricas localizadas as margens do maior centro urbano do país, as zonas pobres da grande São Paulo. Como já foi citado o primeiro elemento a aportar aqui foi o break disseminado em meados dos anos 70 através passos do grupo de dança Funk & Cia sob o comando do veterano do hip hop Nelson Triunfo, isso quase trinta anos atrás. A música B.boy Original (1982) de sua autoria resume essa gênese do movimento no país

Dança de rua, dance em qualquer lugar,
Mostre a verdade sua,
Mas nunca se esqueça que sua cultura é original de rua!
Saiu do subúrbio pra se projetar,
No centro da cidade chamou a atenção,
Com sua dança mágica como raio
Ele entrou em comunicação para toda a nação.
Foi assim no Brasil, como lá no Bronx
da periferia para ruas.

O centro da cidade, como Triunfo canta, foi o palco do desenvolvimento dos demais elementos do movimento, inclusive o rap. Os primeiros rappers não tinham consciência do papel social que o rap adquiriu e da sua importância para os jovens das periferias norte-americanas. Exemplo disso foi o primeiro registro fonográfico de um rap no país, já em 1980, Melô do Tagarela, que foi gravado comercialmente por um apresentador de televisão, não correspondendo aos objetivos do estilo - ser genuinamente uma cultura de rua-, embora abordasse temas críticos como a situação política e social da época.
Somente alguns anos depois, com a chegada de maiores informações acerca do movimento Hip Hop e de seus ideais, é que se formou uma primeira geração de rappers compromissados com o caráter de cultura de rua que identifica o movimento. Essa geração foi denominada “Velha Escola”, ou os bate-latas. Esses rappers, que bateram lata na Estação São Bento ou participaram das rodas de rap na praça Roosevelt são considerados os pioneiros do rap nacional, a primeira geração de rappers. Anterior às gravações fonográficas do estilo, essa geração representa a máxima do termo “cultura de rua”, pois, foi ali mesmo, nas ruas que o rap angariou centenas de adeptos sem auxilio de grandes gravações. O rapper Thaíde, um dos pioneiros do movimento, fala sobre essa experiência na estação e do termo batedores de lata

Essa história aconteceu que é o seguinte agente tinha uns problemas para usar a energia elétrica lá (São Bento) e eu falei – Olha eu sou Ogun, do candomblé e eu sei fazer percussão aquela parada toda-, então agente começou a fazer um som na lata pra substituir justamente o som eletrônico já que agente não podia usar a eletricidade, mas precisávamos de um som, ai eu comecei a fazer um som nas latas de lixo e deu muito certo. Agente era um monte de adolescente se encontrando para se divertir, agente não tinha idéia do que ta acontecendo hoje. Agente ia com seriedade apesar da diversão, então agente começou a se preocupar com o que estava fazendo, com as letras, começamos a nos aprimorar, os djs também. O hip hop foi tomando conta do país inteiro. Quando agente viu, tinha pessoas fazendo o que agente fazia na São Bento no país inteiro.

Os raps dessa primeira geração buscavam resgatar a cultura negra, eram comuns as letras que falavam de Zumbi dos palmares e outros líderes negros como Malcom X e Martin Luther King. O resgate da cultura possibilitou conscientização dos jovens negros sobre a história de seus ancestrais e a busca por sua identidade. As músicas, no entanto, possuíam um tom mais festivo do que de denúncia.
As primeiras gravações de grupos dessa geração aconteceram 1988 e 89 com o lançamento de três coletâneas Hip Hop Cultura de Rua, Consciência Black vol.1 e vol.2. O período foi caracterizado pelo lançamento de coletâneas, já que se tratava de um novo estilo musical que refletia certa desconfiança por parte das gravadoras, destaque para Consciência Black, porque foi a primeira a colocar em uma das faixas uma música que revelava explicitamente o cotidiano periférico, a música Pânico na Zona Sul de autoria de Mano Brown e Ice Blue, como uma dupla anterior a formação dos Racionais MC´s.
A segunda geração corresponde aos grupos que ingressaram no movimento hip hop no fim dos anos 80 e início dos anos 90. É nessa geração que está o foco da pesquisa: o grupo Racionais MC’s. Como parte da obra deles é o objeto de pesquisa desse projeto a história e trajetória do grupo será apresentada em tópico separado.
A característica principal da nova safra de rappers que surgiram é a maior politização em relação aos veteranos, maiores informações sobre os ideais do movimento foram sendo assimiladas e, também, a partir disso foi se construindo o rap genuinamente brasileiro, afastando-se um pouco dos precursores norte-americanos e incluído influências nacionais nas bases sonoras, como nomes expressivos do soul e black music tupiniquins como Jorge Ben Jor, Tim Maia, Sandra de Sá, Toni Tornado e outros.
Os tons festivos assim cederam lugar as “crônicas” do cotidiano periférico, tendo como um dos temas centrais o resgate da auto-estima do jovem negro, maioria nesses locais. Foi o momento que o hip hop passou a ter uma função social mais forte, se organizar como um movimento, além de cultural, social. Nessa época se estabelece as características do movimento que foram bem definidas nas palavras do antropólogo Luiz Eduardo Soares, autor do livro Cabeça de porco, “o hip hop acena com a paz politizada, que se afirma com agressividade crítica, isto é com o estilo afirmativo do orgulho reconquistado”.

Notas


Entrevista concedida no lançamento do livro biográfico “Pergunte a quem conhece”, realizado no SESC/Bauru no dia 17 de fevereiro de 2005.

ATHAYDE, Celso; MV BILL; SOARES, Luiz Eduardo.Cabeça de Porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 84

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