segunda-feira, 14 de abril de 2008

mais de Negro Drama

Demorou, mas, está aui mais uma paret da análise de Negro Drama. Partindo de onde eu parei, ou seja o post que está logo abaixo.

Parte II da análise de Negro Drama

A composição dessa imagem é histórica realmente e natural, remete ao próprio estabelecimento das relações em nossa sociedade. Histórica e que se repete, como nas próprias palavras de Mano Brown

Você já nasceu preto, descendente de escravo que sofreu, filho de escravo que sofreu, continua tomando "enquadro" da polícia, continua convivendo com drogas, com tráfico, com alcoolismo, com todos os baratos que não foi a gente que trouxe pra cá. Foi o que colocaram pra gente .

É evidente nesse contexto a relação senzala ontem, favela hoje como o jornalista Bruno Zeni afirma no seu artigo O negro Drama do Rap, segundo Zeni é presente na letra

"A correspondência com a história do Brasil, lugar onde desde o início da colonização, houve o aprisionamento e abate de carne negra e indígena, justificada pela sede do capital [...] como atualmente na periferia das grandes cidades, segundo dizem os Racionais".


A discriminação silenciosa tem suas raízes no chamado mito da cordialidade, a ingênua visão do povo pacífico diante das diferenças e misturas étnicas, sendo o mito uma “narrativa que é solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não se encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade” . Assim tem-se a construção desse país, da cultura senhorial que ainda permeia as relações como afirma Flávio Moura

"Um Brasil idílico foi arraigado no inconsciente do país ao longo dos séculos para tornar um projeto nacional arcaico e mascarar a realidade que ela subjaz: a da iniqüidade e da opressão. Ou seja, por baixo da retórica existe uma sociedade em que relações se dão sempre entre um superior que manda e um inferior que obedece".

E embora a edificação dessas relações tenha a base fincadas nos primórdios do Brasil, quando o negro ainda era escravo e vivia na senzala, o mito tem a funcionalidade de se reinventar em novas situações (ontem senzala, hoje a favela), assim como afirma Marilena Chauí “sob novas roupagens o mito pode repetir-se indefinidamente” .
Nas estrofes seguintes é apresentada uma nova situação, uma possibilidade de reversão desse quadro descrito acima e fundamentado na história. Pretende-se construir um discurso que quebre esse cultural, uma narrativa “onde o lugar do negro seja diferente do que a tradição brasileira indica” .
Uma oportunidade de quebrar esse ciclo natural de desvantagem do negro que, diante da trajetória dos integrantes do grupo foi possibilitada pelo sucesso alcançado através do rap

Eu era a carne,
Agora sou a própria navalha,
Tim, Tim um brinde pra mim,
Sou exemplo de vitórias, trajetos e glórias [...]
Olho para trás e vejo a estrada que eu trilhei,
mo corre ,
Quem teve lado a lado
E quem só ficou na bota


Assim o enunciador é um rapper. Como cantor de rap, ele pôde passar por outro lado, romper a barreira da classe dominante e passar isso para seus iguais. Mas essa superação não se fez de forma fácil, foi e ainda é como uma batalha travada e sua arma é a música (como num trecho de outra música do grupo “minha palavra vale um tiro e eu tenho muita munição”) . Nesse trajeto só os fortes realmente resistem, fortes no sentido do caráter e não força física, aqueles apesar da o status alcançado não esquecem de quem são

"É como se os poetas do rap fossem as caixas de ressonância, para o mundo, de uma língua que se reinventa diariamente para enfrentar o real da morte e da miséria; por isso eles não deixam a favela, não negam a origem".


O dinheiro tira o homem da miséria
mas não pode arrancar de dentro dele a favela
São poucos que entram em campo pra vencer,
a alma guarda o que a mente tenta esquecer
[...]
Negro Drama de estilo,
pra ser se for tem que ser, se temer é milho.
Entre o gatilho e a tempestade,
sempre a provar que sou um homem não um covarde.


Nesse momento a narrativa muda de sentido, o personagem sai do primeiro estado, de negro limitado por sua própria história, por seus 300 anos de escravidão, para um segundo estado proporcionado pelo sucesso que o grupo alcançou, pela possibilidade de lutar por condições melhores e poder utilizar essa forma de comunicação da periferia que é o Rap para fazer algo de bom para sua comunidade, ser “exemplo” para vitória de outros, também, por isso não esquecer nunca quem é, de onde veio. Não se pode arrancar a favela, as raízes desse homem. É justamente ai que está a força dos grupos de rap, ela

"Vem de seu poder de inclusão, da insistência na igualdade entre artistas e público, todos negros, todos de origem pobre, todos vítimas da mesma discriminação e da mesma escassez de oportunidades".

Notas

KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
Grifo da autora: remete ao trecho da música “desde o início por ouro e prata”

ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004

CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 09

MOURA, Flávio. Chauí e Bianchi contra a ficção dos 500 anos.Disponível em: Fundação Perseu Abramo : Acesso em 6.jul.2005.

CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 10.

KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.

Mo corre: maior correria
Ficar na bota: ficar para trás, as pessoas que não persistiram no caminho, foram ficando para trás.

BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.

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