segunda-feira, 28 de abril de 2008

Parte II de Jesus Chorou

Mais uma parte do meu relatório...

Análise de Jesus Chorou - PARTE II

tava eu mais dois truta e uma mina
num Tempra prata show filmado ouvindo Guina
o bico se atacou ó, falou uma pá do cê...
Esse Brown aí é cheio de querer ser, deixa ele moscar e cantar
na quebrada, vamo ver se é isso tudo quando ver as quadrada,
periferia nada, só pensa nele mesmo, montado no dinheiro e vocês
aí no veneno [...]
cada um no seu corre [...]
eu mesmo se eu catar voa
numa hora dessa, vou me destacar do
outro lado de pressa, vou comprar uma house de boy
depois alugo,vão me chamar de senhor não por vulgo
mas pra ele só a zona sul que é a pa [...]
porque eu não pago pau pra ninguém [...]


A crítica não está no fato de Brown ter alcançado o status através da música, ser uma referência no cenário nacional, e sim no seu discurso pró-periferia, pró-zona sul (onde o cantor mora e sempre morou), segundo o “bico” o cantor é hipócrita nessas falas. Está montado no dinheiro e na fama enquanto os seus amigos, os chamados “trutas”, continuam no mesmo cotidiano da favela, no mesmo “veneno”. Para ele, Brown deveria assumir que é uma celebridade, comprar uma casa de “boy” e passar para o outro lado (o lado do mercado consumista) e parar de lutar pela sua “quebrada”, como ele mesmo faria, se tivesse a oportunidade (eu mesmo se eu catar voa uma hora dessas). O sentido do verbo voar nesse trecho é de escalada na vida social, é passar de uma classe subjugada para as mais altas, algo alcançável para Brown em virtude do seu status obtido através do rap.
E por que isso abala tanto Brown? Entre os motivos, o principal é que essa imagem criada pelo “bico” desfaz tudo que o hip hop prega, tudo que o enunciador lutou e ainda luta através da sua arte, da sua música. Se caso cedesse a esses “conselhos”, Brown, contribuiria com desmantelamento da “marca identitária” do hip hop

"Não pode ficar nem isolado sem levar a mensagem, nem se submeter à lógica estritamente comercial que predomina no mercado e na mídia, pois, isso colocaria em risco a própria mensagem e anularia a missão".

A falta de compreensão é representada na figura de uma pessoa, no entanto, esse desconhecimento do verdadeiro sentido do movimento cultural no qual o rap se insere é algo que passa por diversos lugares e pela mídia, também. A figura dos Racionais se torna mais suscetível a isso pelo fato de serem avessos as grandes mídias, o que cria uma áurea de arrogância e superioridade em volta dos integrantes.
Milton Salles produtor/ideólogo/interlocutor dos Racionais, em entrevista a Caros Amigos, justifica essa escolha taxativa dos integrantes de não aceitar convites da grande mídia

"O problema, mais do que como a mídia vai tratar o rap, é você ser instrumento de manipulação, massa de manobra. É você estar dando subsídio que vende produto, é de repente você estar dentro do Faustão, dentro da Rede Globo, e com isso você manter o Ibope do dragão".

Por outro lado, esse posicionamento é a “volta para dentro”, a preocupação do grupo, que veio da favela, com a própria favela é fazer algo da periferia para periferia, esse posicionamento está na gênesis do movimento

"O compromisso não está só na mensagem da música, mas na atitude: continuar na quebrada, lutar pelos manos, não se vender à indústria milionária do disco e da televisão que lança e derruba modas".


A dor de Brown está justamente nesse ponto, quando a sua posição é distorcida e seus ideais incompreendidos e transformados em hipocrisia. A resposta do enunciador vem nas estrofes seguintes

Quem tem boca fala o que quer
Pra ter nome, pra ganhar atenção
das mulhé ou dos homens...amo
Minha raça, luto pela cor,
o que quer que eu faça é por nós, por
Amor, não entende o que eu sou,
não entende o que eu faço, não
Entende a dor e as lágrimas do palhaço...


No trecho o enunciador explicita a sua luta, tudo o que faz pelos negros da sua comunidade (raça, cor) e faz isso movido pelo sentimento do amor. Um discurso que pode até apresentar um tom piegas, mas a resposta vem na intensidade da dor, da revolta de ser incompreendido. E isso reflete a própria personalidade de Brown, um traço de preocupação maior com os outros, como se constata em um trecho de outra música de sua autoria

"Se você der um role comigo vai ver que eu sou um cara meio chapado.
Penso mil fitas ao mesmo tempo, tenho solução pra todo mundo, e pra mim mesmo muitas vezes eu não tenho nenhuma".

As pessoas não entenderem o processo de todo o discurso dos Racionais e todas coisas que os integrantes fazem no sentido de revolução na favela, pelo simples fato de serem exemplos de caminhos alternativos ao crime que podem ser seguidos, abala o enunciador, e essa indiferença é originada no seio do ambiente que ele quer transformar. Incompreensão até da própria mãe como segue no trecho seguinte


[...] e a minha mãe diz: Brown acorda, pensa
no futuro que isso é ilusão, os próprio preto não tá nem ai com
isso não, ó o tanto que eu sofri, que eu sou, o que eu fui, a
inveja mata um, tem muita gente ruim
Pô mãe não fala assim que
eu nem durmo, meu amor pela
senhora já não cabe em Saturno


Assim o fato desencadeador se costura com outros acontecimentos, com outros momentos de não assimilação da mensagem real que o rap dos Racionais quer passar. A música foi feita em 2001, mas esses problemas na interpretação tanto da própria mensagem que está sendo passada como, também, das atitudes dos rappers tem gerado discussões recentes. Mano Brown em um encontro em fevereiro desse ano demonstrou-se preocupado com a forma que mensagem estão sendo interpretadas, na época desabafou que parecia que os “manos” não estavam assimilando as letras direito. Algo que ele já anunciava nessa letra (“não entende o que eu sou, não entende o que eu faço, não entende a dor e as lágrimas do palhaço”).
A conexão dos fatos cotidiano narrados e a relação do grupo com a fama se constrói nas estrofes seguintes, no decorrer dessa parte até o final da letra Brown apresenta um discurso fomentado na sua batalha pessoal contra a “venda” dos ideais do rap ,algo cada vez mais perto de ocorrer diante da visibilidade que o estilo tem angariando nos últimos anos.

Dinheiro é bom, quero sim se essa é a pergunta,
Mas dona Ana fez de mim um homem e não uma puta [...]
Sozinho eu sou agora o meu inimigo intimo
Lembranças más vem, pensamentos bons vai.
Me ajude, sozinho penso merda pra caráio
Gente que acredito, gosto e admiro,
Brigava por justiça e em paz levou tiro: Malcon X,
Ghandi, Lennon, Marvin Gaye, Che Guevara, Tupac, Bob Marley e
O Evangélico Martin Luther King...
Lembrei de um truta falar assim: não joga pérola
Aos porco irmão, jogue lavagem
Eles prefere assim, se tem de usar piolhagem .


O enunciador, assim, não é contrário as possibilidades do ponto de vista material que o rap pode proporcionar, no entanto, defende uma visão do conjunto, de nada adianta a fama de um ou outro cantor de rap se não tiver o retorno para a comunidade como prega a ideologia do hip hop, o que importa para eles é a inserção da mensagem na periferia. E, também, é avesso a “venda” da sua arte, ou seja, apropriação e reformulação do rap pelos interesses comerciais. A ascensão social é algo positivo, no entanto, sem a necessidade de desvirtuar os objetivos da cultura hip hop.

"Para eles (Racionais) a questão do reconhecimento e da inclusão não se resolve através da ascensão oferecida pela lógica do mercado, segundo o qual dois ou três indivíduos excepcionais são tolerados por seu talento podem mesmo se destacar de sua origem miserável, ser investidos narcisicamente pelo star system e se oferecer como objetos de adoração, identificação e consolo para grande massa de fãs".

O reconhecimento da grande mídia, do mercado, portanto, não é o objetivo dos integrantes do grupo, mas parece como um agravante da dor de Brown, já que a fama de algum modo gerou um mal estar na própria comunidade, nos seus “manos”. A partir daí se desfaz a ilusão de que aquilo que ele faz por amor, a “luta pela cor”, produz algum sentido. Para sustentar essa derrota, ele se espelha nos seus ídolos, nos seus exemplos de guerreiros (Malcon X, Ghandi, Lennon, Marvin Gaye, Che Guevara, Tupac, Bob Marley e Martin Luther King). Assim como ele foi desacreditado, esses “levaram tiro”.
A última frase (“lembrei de um truta falar assim: não joga pérola aos porco irmão jogue lavagem eles prefere assim, se tem de usar piolhagem”) sintetiza mas uma vez a desilusão do enunciador, um amigo que assim como sua mãe alerta que aquilo não tem futuro. É desnecessário dar “pérolas aos porcos” já que eles foram acostumados à “lavagem”. Uma metáfora que indica que é inútil Brown tentar trazer algo de bom para periferia, travar essa luta através da música de protesto que é o rap, uma vez que “os próprios pretos não estão nem ai pra isso não”, segundo o amigo Brown tem que usar da sacanagem mesmo, assim como o primeiro que criticou o posicionamento do enunciador, passar para o lado de lá, ser “patrão”.
A mensagem destaque até o momento é uma definição de traição para enunciador em relação aos ideais que a cultura hip hop trouxe para periferia , que mesmo que não tenho mudado a estrutura social do país, causaram uma revolução nessa parcela da sociedade. Expressão maior disso é a frase “O hip hop salvou a minha vida”, a qual o jornalista Spensy Pimentel afirmou ter ouvido inúmeras vezes quando realizava o seu trabalho de conclusão de curso e que em poucos anos se espalhou pelas favelas a fora. O próprio Brown faz referencia, em outro música, à importância que o rap tem na sua vida

"Rap é minha vida. Tudo que eu me envolvo eu sou fanático. Eu amo ou eu odeio. Tudo que eu sei falar hoje, se eu sei trocar uma idéia mais ou menos, é por causa do rap. Se você não sair num mundão você não consegue comparar as coisas, saber o que é certo ou errado. O rap me ajudou a ver tudo isso".



NOTAS

Truta:amigos verdadeiros.

Guina: personagem da música “To ouvindo alguém me chamar”.( BROWN, Mano. To ouvindo alguém me chamar. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 4.)

Bico: o cara intrometido, que entra na conversa quando não é chamado e comumente não é bem-vindo.

Uma pá: um monte de alguma coisa.

NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90,nov.2001.p.66-83. p. 68.

VIANA, Natália. Enquanto isso na sala de justiça.Caros Amigos. São Paulo, n.24, jun.2005. Edição especial. p. 07

AMARAL, Marina. De volta para o futuro.Caros Amigos.São Paulo, n.24, jun.2005. Edição Especial. p.05.

BROWN, Mano. Privilégio 2: o tempo é rei. In: JAY, KL. Equilibrio : a busca. São Paulo: 4P Discos Ltda 2001. 2 CDs (1h46min.). Faixa 21 (18min.32s.)

* A reunião, que pretendia discutir os rumos do rap, durou quatro horas não chegou a uma conclusão, mas todos concordam que esses problemas surgiram com a popularização do rap, no momento que esse ultrapassou as fronteiras da periferia. Perdeu-se um pouco o centro, o objetivo de todo movimento, por isso foi a hora de parar e remanejar os caminhos do rap. Mas já em 2002, Brown demonstrava esse descontentamento com os rumos do sucesso que o grupo alcançava, Jesus Chorou é registro disso.

Piolhagem: sacanagem, vacilo.

KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.

* Todas as características e objetivos que já foram apresentados no relatório parcial e sumamente nesse relatório.

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