A profecia se fez como previsto
Análise da música Capítulo4, Versículo 3 .
“Devo ter muito inimigo por aí. É que Deus me guarda. Acho que ele sabe das minhas intenções que são boas. Minha intenção é boa.”
Mano Brown (Março de 2003)
Antes de realizar a análise da presente letra é preciso contextualizar o álbum do qual essa música faz parte, uma vez que esse contexto remete a temática analisada, ou seja, os elementos religiosos e o tom messiânico presentes no discurso dos Racionais.
Sobrevivendo no Inferno é o quarto disco dos Racionais, lançado em 1997. O álbum representou a transposição das barreiras da periferia, o rap passou de arte marginal dos subúrbios paulistanos para as paradas de sucesso de várias rádios da cidade, com direito a prêmio de melhor clipe de rap, com o clipe de Diário de um Detento, no Vídeo Music Brasil promovido pela MTV Brasileira.
Quanto a temática, o álbum traz a vida entre o céu e o inferno, metáfora que remete a melhora de vida alcançada, que pode ser representada pelo sucesso com o rap ou ainda as melhorias que o rap e os outros elementos da cultura hip hop propiciaram a periferia - o céu- e as mazelas, injustiças e miséria que ainda fazem parte do cotidiano periférico - o inferno. Assim as letras desse trabalho passeiam por esses dois mundos de forma lírica e recheada de elementos metafóricos que lembram as profecias religiosas.
"Em Sobrevivendo no Inferno [...] discurso torna-se messiânico. Nele, o céu e o inferno, Deus e o Diabo travam uma luta sem trégua na consciência do periférico, que vivendo no mundo das incertezas e simulações não visualiza outra saída senão a de cuidar de si e dos parceiros de batalha".
Versículo 4, capítulo 3 segue a tendência de todo o álbum, apresenta elementos alegóricos do céu e do inferno, viaja entre o mundo da bíblia e da pistola (crime). A escolha dessa música vai além dela possuir esses elementos para análise. A letra sob o pano de fundo de um tom messiânico, algo como a enunciação de uma profecia, aborda as temáticas trabalhadas nas letras anteriores. Assim essa análise faz um retrocesso das anteriores, confirmando a presença desses pontos levantados em várias obras do grupo, porém, em uma linguagem peculiar caracterizada por elementos religiosos.
Minha intenção é ruim, esvazie o lugar.
Eu to em cima, eu to afim.
Um, dois pra atira.
Eu sou bem pior do que você está vendo
A primeira faz pum, a segunda faz ta.
Eu tenho uma missão e não vou parar.
Meu estilo é pesado e faz tremer o chão
Minha palavra vale um tiro e
eu tenho muita munição
[...]
Minha atitude vai além e
Tem disposição pro mal e pro bem
Assim como nas outras músicas o primeiro locutor é representado por Mano Brown, que vai construindo suas falas em cima dessa dualidade céu e inferno, num discurso maniqueísta, sua personalidade “tem disposição pro mal e pro bem”. No entanto, a palavra é a verdadeira arma dele como explicita acima. Os termos “missão” e “minha palavra” logo no início já indicam a característica profética desse discurso. Ele tem uma mensagem para passar aqui e nada pode o deter isso, palavras muito importantes que beiram a força de um tiro. O enunciador exerce assim um papel semelhante de um profeta, que pode ter sua mensagem interpretada para atitudes benéficas como para ações ruins, dependendo para quem se destina e quem assimila essas palavras.
Na seqüência o enunciador segue com a ambientação dos elementos contraditórios, maniqueístas.
Talvez eu seja um sádico, um anjo
Juiz ou réu
Bandido do céu
Malandro ou otário
Insano ou marginal,
Antigo e moderno
Fronteira do céu ou inferno
Verso violentamente pacífico
O uso dos termos contrários (anjo, sádico; juiz, réu; etc) além de seguirem a trajetória da narrativa de representar os dois mundos céu e inferno, e o rap como a linha tênue entre esses dois espaços, indica como o próprio enunciador é visto, como ele pode ser classificado de acordo com quem o classifica. Para os críticos de sua mensagem, ou seja, os críticos do rap, ele é o sádico, o réu, o bandido.
Muitas vezes se questionou uma tendência de exaltação do crime por parte das letras de rap, não só do grupo, mas de todos os grupos em geral, na mídia. As narrativas, que retratam a crueza da vida periférica sem concessões para a violência que é parte integrante desse cotidiano, sofrem críticas justamente nesse ponto, de mostrar a verdade.Característica que é mascarada de culto a violência pelos críticos mais taxativos.
"Existem críticas sobre a maneira ambígua como traficantes e bandidos aparecem nas letras das músicas e nos clipes. Referindo-se aos Racionais, afirmou o jornalista Mário Marques: “Eles são politicamente corretos, são contra drogas, mas não chegam a condenar explicitamente o crime por saberem que o meio em que vivem não é exatamente favorável a uma rotina alheia à marginalidade".
Já os outros termos parecem indicar a forma como os rappers são vistos pelas pessoas da sua comunidade que os admiram, assim como os outros os ativistas do movimento hip hop, aqueles que de alguma forma a cultura hip hop trouxe benefícios. Por isso talvez ele seja um sádico ou um anjo, o adjetivo de sua personalidade é definido conforme a interpretação da sua mensagem e quem realiza essa interpretação. Assim a duplicidade é contínua na presença de dois ouvintes, assim sendo duas interpretações e duas intenções (pro bem e pro mal)
"A música cunha imagens contraditórias e agressivas [...]se volta para o ouvinte, aquele que é seu igual e seu inimigo, aquele a quem pretende aconselhar ao mesmo tempo que confundir, sabotando o raciocínio, abalando os sistemas vitais".
Na continuidade da narrativa a idéia de profecia, de força da palavra nesse discurso é explicitada nos versos seqüentes.
E a profecia se fez como previsto.
1997 depois de Cristo
A fúria negra ressuscita outra vez
Racionais, capitulo 4, versículo 3
Aleluiaaa, Racionais no ar...
Nesse momento a inserção do grupo na missão anunciada no início da letra, é o papel do grupo de rap Racionais na mensagem que está sendo “profetizada”. O previsto seria a volta do grupo que desde de 1993 não gravava um disco, após cinco anos, ou seja, “1997 depois de Cristo” a “fúria negra” (adjetivação dada pelos próprios integrantes) volta com essa mensagem, localizada no Capitulo 4 (referência ao quarto álbum), Versículo 3 (referência ao número da música no álbum). A localização da música, que também é seu título, é feita do mesmo modo que as mensagens bíblicas, mas um referente do discurso profético, de “recorte bíblico” . A finalização desse trecho com o termo Aleluia ressalta essa característica de missão, de palavra a ser proferida e que é “louvada”.
Na seqüência, desse início de estilo definidamente profético em diversos termos e trechos explicitados acima, o enunciador volta a descrição do ambiente periférico, mas uma vez apresentando dois lados da mesma face, a face do dia-a-dia na periferia.
Continua...
Notas
BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.
Alguns trechos da letra foram suprimidos. A letra inteira segue em anexo.
ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.16
NETTO, José Apóstolo. Dos Racionais aos Emocionais Emecis: um olhar marginal da relação música, favela e dinheiro, ago.2003. Disponível em: Espaço Acadêmico:
NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90, p.66-83,nov.2001. p.71
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo
Termo utilizado pelo jornalista Bruno Zeni na definição do título da música.
Bombeta: boné.
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