quinta-feira, 29 de maio de 2008

próximo capítulo

No próximo post eu começo a análise da última música...Capítulo4, Versículo3

explicações a parte e mais do projeto

Olá...faz um tempinho que não escrevo, estou um pouco aterefada esses dias e estou prestes a sair do desemprego, toma que eu traga notícias boas aqui na próxima semana. Bom continuando a dose Racionais MC´S eu posto agora mais uma parte do meu relatório.

Continuando a análise de Jesus Chorou

Mesmo a figura de Jesus, em partes da letra, como a transcrita acima, e no próprio título remete a idéia de traição. Segundo os evangelhos - a figura de um líder, que lutou por um ideal e foi traído por aqueles pelo quais lutava e entregue por um discípulo seu, história que é conhecida através do Novo Testamento da Bíblia. Algo semelhante, em escala menor e em outro contexto, é claro, ao que ocorre com o enunciador do discurso.

Nas estrofes seguintes segue essa visão que vai se sedimentando com mais exemplos, enquanto Brown pensa “mil fitas”, mais e mais pessoas da sua comunidade vão gerando o sentimento de frustração e dor no enunciador, por suas atitudes vazias, por seus conselhos que vão à margem contrária de tudo que ele acreditou até o momento como ético.

Periferia- corpos vazios e sem ética
lotam os pagodes rumo a cadeira elétrica.
Eu sei você sabe o que é frustação
máquina de fazer vilão...
eu penso mil fita, vou
enlouquecer...
e o piolho diz assim quando me vê: - Famoso pra
caráio, durão, ih truta
faz seu mundo não Jão,
a vida é curta..
só modelo por ai dando boi...
Rasgar as madrugadas só de mil e cem..
se sou eu truta hã, tem pra ninguém...


No trecho acima o enunciador aponta a falta de perspectivas das pessoas da periferia nos primeiros versos, a cadeira elétrica como símbolo da cadeia, do lugar onde o crime os leva, os pagodes como atividades vazias que vivem lotadas. Tem-se ai um desabafo sobre essas atitudes, não como um tom de censura, mas de frustração, como ele cita na frase posterior. A frustração é outro sentimento frisado nessa letra. A decepção de não atingir as pessoas com a sua mensagem como ele pretendia, através da criação de uma cultura emancipadora diferente de simplesmente freqüentar “o pagode”.

E para finalizar essa parte, mas um exemplo de um indivíduo da sua comunidade que se posiciona de forma crítica ao discurso empregado por Brown. Mas uma vez o enunciador é “aconselhado” a vestir a sua imagem de celebridade e aproveitar o seu status alcançado, sem esse idealismo de fazer para e pela periferia, de retorno sempre às raízes.
O retorno, a importância de ser um indivíduo da favela e de certo modo ter orgulho da sua comunidade é algo intrínseco ao discurso dos Racionais, alguns trechos de músicas do grupo dão veracidade a essa afirmação

O dinheiro tira o homem da miséria, mas não pode arrancar de dentro dele a favela.

A minha área é tudo o que eu tenho. A minha vida é aqui e eu não consigo sair. É muito fácil fugir, mas eu não vou. Não vou trair quem eu fui, quem eu sou. Eu gosto de onde eu vou e de onde eu vim, ensinamento da favela foi muito bom pra mim .

Na rua eu conheço as leis e os mandamentos .

A toda comunidade da zona sul. Mês de janeiro São Paulo Zona Sul
Todo mundo à vontade calor céu azul. Eu quero aproveitar o sol Encontrar os camaradas pra um basquetebol .



Justifica-se novamente nesse momento a dor de Brown expressa em toda a letra de Jesus Chorou, diante da importância que aquelas pessoas representam pra ele, com exceção do primeiro indivíduo que o criticou, que não era daquela área. A constatação, através dos fatos e palavras de que tudo o que acredita parecia não ser o caminho certo para elas, criou, como já foi dito, uma crise de consciência no enunciador.

Nas falas de todos os interlocutores percebe-se que a presença da fama, do dinheiro e do status alcançado pelo enunciador é o desencadeador dessas opiniões, por isso esse discurso personificado na letra de autoria de Brown refletir a relação dele e dos demais integrantes do grupo com o sucesso alcançado. Um misto de frustração, desilusão e revolta.

A trajetória do grupo deixa evidente que eles sempre procuraram a independência em relação à indústria fonográfica, possuem seu próprio selo, sua gravadora, seus meios de distribuição, evitam a exposição em grandes mídias. Ações de visionários, de pessoas que previam a apropriação dos elementos da cultura hip hop pelo mercado. Por outro lado, o que se tem registrado nesse relato de Brown é a fragilidade dele ao lidar com isso quando sai desse meio de controle. No momento em que a roupagem de celebridade é colocada pelas pessoas da sua comunidade e, como já foi dito, as suas verdades são taxadas de hipocrisia (Famoso pra caráio, durão, ih truta faz seu mundo não Jão, a vida é curta/ periferia nada, só pensa nele mesmo, montado no dinheiro e vocês aí no veneno).

O enunciador encerra a música voltando-se para o único apoio que parece existir naquele momento, a sua fé.

Se só de pensar em matar já matou
Prefiro ouvir o pastor: Filho meu,
Não inveje o homem violento
E nem siga nenhum dos seus caminhos...
Lágrimas...
Molha a medalha de um vencedor
Chora agora ri depois,
Ae, Jesus Chorou!


O aparecimento da fé nesse momento vem como algo que dá o suporte, o apoio como em outra música do grupo “aquele que não deixa o mano aqui desandar” . Diante dos percalços apresentados no decorrer da narrativa, a desilusão com seus companheiros e, também, com sua mãe que desacreditaram em algum momento do seu discurso e de seu projeto a favor da comunidade, o que resta ao enunciador é “ouvir o pastor”. Nessas frases pode-se ver um pouco da relação de integrantes do grupo com a fé, com a religião. Recorte analisado mais profundamente na próxima letra, no entanto, tem-se um indício dessa relação de proteção, de apoio diante de situações adversas.

Os versos finais vêm com tom de otimismo, o velho ditado chora agora ri depois deixa claro essa intenção, uma espécie de presságio. Toda a dor expressada nessa letra terá sua recompensa, seu valor será mostrado.

Nesse momento o enunciador ressalta a sua esperança no movimento, na sua caminhada no cenário musical do rap. A qualquer momento isso será reconhecido da forma que se deve: uma cultura marginal que tem as diretrizes para causar uma melhora nas condições da vida na periferia, em virtude de todas as características do movimento que já foram apresentadas até aqui.

Assim a narrativa se encerra, com as lágrimas sendo uma exteriorização, também, da felicidade (“as lágrimas molham a medalha do vencedor”), seguindo o tom mais otimista das estrofes finais.


NOTAS

RACIONAIS MC´s. Negro Drama. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56 min 02s), faixa 5 ( 6min 51s)

BROWN, Mano. Fórmula Mágica da Paz. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 11.

RACIONAIS MC´s. Na fé irmão. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56 min 02s), faixa 7 (6min 05s)

ROCK, Edy; BROWN, Mano. Fim de semana no parque. In: RACIONAIS MC´s. Raio-X Brasil. São Paulo: RDS Fonográfica, p.1993. 1 CD. Faixa 1.

BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Antes de voltar ao projeto - São Paulo

Eu estive fora uns dias por isso fiquei sem escrever. Tive que dar um tempo no projeto porque precisava postar aquele texto sobre o Caso Nardoni. Esses dias fiquei sabendo que o tal caso até virou personalidade do orkut. Enfim, tem muita gente por aí que não tem o que fazer. Em São Paulo eu participei de um Congresso, na verdade, nada de muito novo, muitas coisas acontecendo ao emsmo tempo e remota possibilidade de ver tudo.
Queria ter visto mais coisas sobre a TV Digital, alguns estudos feitos, experiências lá do Mackenzie, onde foi realizado o Intercom do Sudeste. Enfim, mas pouco eu vi. O Tema principal era a Mídia e o Meio Ambiente, coisa que eu vi muito para ajudar meu pai no trabalho de pós dele. Chato contar isso aqui não é, mas, foi minha ajuda que permitiu que ele terminasse esse trabalho. Coisas como responsabilidade social, ambiental e termos afins foram o alvo de vários trabalhos apresentados. Muita informação, no entanto, poucas novidades, as mesmas soluções e idéias que já nos são marteladas todos os dias. Confesso que perdi várias coisas, várias apresentações de trabalhos que poderiam ser mais renováveis. Sobre a TV Digital falou-se muito da tal interação que ainda é um mito por aqui. Temos a HD, no entanto nada mudou para os brasileiros.
Numa tarde depois de um belo almoço, o frango estava um pouco insosso é verdade, fui assistir a uma exibição de documentários feitos por estudantes no Expocom. Dois me interessaram bastante. Um era sobre a Casa do Hip Hop, lugar que tive a oportunidade de conhecer durante a produção do meu TCC (trabalho de conclusão de curso), muito interessante a proposta de mostrar como culturas populares, como o Hip Hop, são importantes para as comunidades onde estão inseridas. O outro era sobre a favela, porém, sob uma ótica diferenciada. A favela na visão das crianças que moram lá. Uma idéia diferente, pena que não deu para ver os documentários na íntegra.
Fora isso, São Paulo é mesmo um lugar terrível de se morar. Pode ser uma visão caipira da minha parte, porque eu sou mesmo, uma menina do interior, nascida, criada e até hoje aqui. Mas, mesmo quem mora lá não gosta, mora por uma necessidade, acho que é só por isso mesmo que se suporta viver na "floresta de concreto e aço". Trânsito, ônibus lotado, pessoas sempre com pressa, a vida passando diante dos olhos sem a contemplação necessária. Sinto-me uma estranha lá. Caminhando, sempre devagar, olhando tudo. Será que é esse meu destino necessário? Tantas cidades no Brasil, será que lá mesmo que devo ir? Vejo a idéia como uma solução, afinal aqui tenho colhido poucos frutos, no entanto, uma idéia que me dá medo.
Enfim, algumas impressões da minha visita à Capital Paulista. Um passeio pelo Consolação e Rebouças. Ruas que antes conhecia apenas do Banco Imobiliário. Lembram desse jogo? No próximo post mais do meu projeto.
Até lá...

sábado, 3 de maio de 2008

Sobre mais uma novela da televisão brasileira

Não é novidade alguma, ainda mais agora que já faz mais de um mês do primeiro capítulo dessa novela que a mídia criou mais uma vez diante de um acontecimento real. A novela que tem o ibope de todos os brasileiros. Um diferencial: ela passa em todos os canais, embora cada emissora tente abocanhar para si um fato exclusivo, uma entrevista inédita. A pequena Isabella Nardoni teve apenas 5 anos e pouco de vida, mas o suficiente para ser uma das principais atrizes de uma história que envolve crime, ciúme, romance, mentiras, polícia, justiça, populares, revolta, enfim, diversos ingredientes para um grande sucesso de audiência, digno das grandes novelas de Aguinaldo Silva. Me desculpe a comparação, não se trata de desrespeito a vítima, uma linda criança que nem tem culpa de nada, e nem de romancear os culpados. Trata-se aqui de uma crítica a forma como fatos assim são explorados e re-explorados pela mídia, como ela transforma um crime hediondo em um folhetim romanesco. Mas, além disso o fato que mais me incomodou foi a forma que, ao criar esse roteiro novelístico, a mídia envolve os chamados "populares" na trama. Pessoas ditas comum que nada tinham em comum com a família Nardoni, nem ao menos já tinham visto o rosto vivo da menina Isabella e hoje se sentem parte integrante da família. Os populares que se tornam linchadores ou pelo menos assim o sentem. Achei que só eu pensava assim, só eu tinha esse sentimento de repúdio àqueles que saem de sua casa, deixam seu trabalho, escola, enfim o que estavam fazendo para se postar em frente a uma delegacia e gritar palavras de ordem como "Lincha", "Justiça", "Assassinos", "Isabella",e chegar ao cúmulo de cantar parabéns a uma menina que até então nem conheciam. Mas, descobri que não. Muitos acreditam também ser absurdo uma atitude dessa. Uma mulher com uma criança no colo no sol, gritava que a família é uma instituição falida. Com certeza minha senhora, já que em vez de estar em casa cuidando do filho a senhora o coloca no desconforto de ficar em pé no sol gritando palavras que ele nem conhece ainda. O sorveteiro aproveita para fazer um trocados em frente a 9º DP, em frente à casa da família Nardoni, da Família Jatobá, do Edifício London. Por que não tirar uma foto da janela de onde a menina foi atirada? Por que não invadir o prédio, a casa de alguém ligado a família? Tudo isso traz emoções a mais ao enredo. Todos os populares são personagens de um tribunal, todos juízes capazes de condenar alguém que não conhecem, pouco sabem da vida a não ser pequenos factoídes divulgados pela mídia para construir todo uma trajetória de traumas e atitudes violentas que indicam a faceta de um assassino. Não cabe a mim também dar uma de "popular" e assinalar aqui culpados ou inocentes. Acho que isso cabe a um julgamento sério, feito por pessoas capacitadas e formadas com esse intuito de julgar réus. Culpados ou não, isso não importa agora, nem para esse texto. O que importa aqui é destacar como a mídia consegue contruir uma história de bem e mal e assim nos redimir de nossos próprios pecados, consegue nos proteger de nossos próprios monstros internos. Parafrasendo, em termos, o que uma amiga minha me disse. É nesse momento que vemos o que nós seres humanos somos capazes de fazer, todos, e vemos como única saída o linchamento, assim nos sentimos menos pecadores por tratar com violência quem praticou violência num eterno ( e terno) círculo...

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Parte II de Jesus Chorou

Mais uma parte do meu relatório...

Análise de Jesus Chorou - PARTE II

tava eu mais dois truta e uma mina
num Tempra prata show filmado ouvindo Guina
o bico se atacou ó, falou uma pá do cê...
Esse Brown aí é cheio de querer ser, deixa ele moscar e cantar
na quebrada, vamo ver se é isso tudo quando ver as quadrada,
periferia nada, só pensa nele mesmo, montado no dinheiro e vocês
aí no veneno [...]
cada um no seu corre [...]
eu mesmo se eu catar voa
numa hora dessa, vou me destacar do
outro lado de pressa, vou comprar uma house de boy
depois alugo,vão me chamar de senhor não por vulgo
mas pra ele só a zona sul que é a pa [...]
porque eu não pago pau pra ninguém [...]


A crítica não está no fato de Brown ter alcançado o status através da música, ser uma referência no cenário nacional, e sim no seu discurso pró-periferia, pró-zona sul (onde o cantor mora e sempre morou), segundo o “bico” o cantor é hipócrita nessas falas. Está montado no dinheiro e na fama enquanto os seus amigos, os chamados “trutas”, continuam no mesmo cotidiano da favela, no mesmo “veneno”. Para ele, Brown deveria assumir que é uma celebridade, comprar uma casa de “boy” e passar para o outro lado (o lado do mercado consumista) e parar de lutar pela sua “quebrada”, como ele mesmo faria, se tivesse a oportunidade (eu mesmo se eu catar voa uma hora dessas). O sentido do verbo voar nesse trecho é de escalada na vida social, é passar de uma classe subjugada para as mais altas, algo alcançável para Brown em virtude do seu status obtido através do rap.
E por que isso abala tanto Brown? Entre os motivos, o principal é que essa imagem criada pelo “bico” desfaz tudo que o hip hop prega, tudo que o enunciador lutou e ainda luta através da sua arte, da sua música. Se caso cedesse a esses “conselhos”, Brown, contribuiria com desmantelamento da “marca identitária” do hip hop

"Não pode ficar nem isolado sem levar a mensagem, nem se submeter à lógica estritamente comercial que predomina no mercado e na mídia, pois, isso colocaria em risco a própria mensagem e anularia a missão".

A falta de compreensão é representada na figura de uma pessoa, no entanto, esse desconhecimento do verdadeiro sentido do movimento cultural no qual o rap se insere é algo que passa por diversos lugares e pela mídia, também. A figura dos Racionais se torna mais suscetível a isso pelo fato de serem avessos as grandes mídias, o que cria uma áurea de arrogância e superioridade em volta dos integrantes.
Milton Salles produtor/ideólogo/interlocutor dos Racionais, em entrevista a Caros Amigos, justifica essa escolha taxativa dos integrantes de não aceitar convites da grande mídia

"O problema, mais do que como a mídia vai tratar o rap, é você ser instrumento de manipulação, massa de manobra. É você estar dando subsídio que vende produto, é de repente você estar dentro do Faustão, dentro da Rede Globo, e com isso você manter o Ibope do dragão".

Por outro lado, esse posicionamento é a “volta para dentro”, a preocupação do grupo, que veio da favela, com a própria favela é fazer algo da periferia para periferia, esse posicionamento está na gênesis do movimento

"O compromisso não está só na mensagem da música, mas na atitude: continuar na quebrada, lutar pelos manos, não se vender à indústria milionária do disco e da televisão que lança e derruba modas".


A dor de Brown está justamente nesse ponto, quando a sua posição é distorcida e seus ideais incompreendidos e transformados em hipocrisia. A resposta do enunciador vem nas estrofes seguintes

Quem tem boca fala o que quer
Pra ter nome, pra ganhar atenção
das mulhé ou dos homens...amo
Minha raça, luto pela cor,
o que quer que eu faça é por nós, por
Amor, não entende o que eu sou,
não entende o que eu faço, não
Entende a dor e as lágrimas do palhaço...


No trecho o enunciador explicita a sua luta, tudo o que faz pelos negros da sua comunidade (raça, cor) e faz isso movido pelo sentimento do amor. Um discurso que pode até apresentar um tom piegas, mas a resposta vem na intensidade da dor, da revolta de ser incompreendido. E isso reflete a própria personalidade de Brown, um traço de preocupação maior com os outros, como se constata em um trecho de outra música de sua autoria

"Se você der um role comigo vai ver que eu sou um cara meio chapado.
Penso mil fitas ao mesmo tempo, tenho solução pra todo mundo, e pra mim mesmo muitas vezes eu não tenho nenhuma".

As pessoas não entenderem o processo de todo o discurso dos Racionais e todas coisas que os integrantes fazem no sentido de revolução na favela, pelo simples fato de serem exemplos de caminhos alternativos ao crime que podem ser seguidos, abala o enunciador, e essa indiferença é originada no seio do ambiente que ele quer transformar. Incompreensão até da própria mãe como segue no trecho seguinte


[...] e a minha mãe diz: Brown acorda, pensa
no futuro que isso é ilusão, os próprio preto não tá nem ai com
isso não, ó o tanto que eu sofri, que eu sou, o que eu fui, a
inveja mata um, tem muita gente ruim
Pô mãe não fala assim que
eu nem durmo, meu amor pela
senhora já não cabe em Saturno


Assim o fato desencadeador se costura com outros acontecimentos, com outros momentos de não assimilação da mensagem real que o rap dos Racionais quer passar. A música foi feita em 2001, mas esses problemas na interpretação tanto da própria mensagem que está sendo passada como, também, das atitudes dos rappers tem gerado discussões recentes. Mano Brown em um encontro em fevereiro desse ano demonstrou-se preocupado com a forma que mensagem estão sendo interpretadas, na época desabafou que parecia que os “manos” não estavam assimilando as letras direito. Algo que ele já anunciava nessa letra (“não entende o que eu sou, não entende o que eu faço, não entende a dor e as lágrimas do palhaço”).
A conexão dos fatos cotidiano narrados e a relação do grupo com a fama se constrói nas estrofes seguintes, no decorrer dessa parte até o final da letra Brown apresenta um discurso fomentado na sua batalha pessoal contra a “venda” dos ideais do rap ,algo cada vez mais perto de ocorrer diante da visibilidade que o estilo tem angariando nos últimos anos.

Dinheiro é bom, quero sim se essa é a pergunta,
Mas dona Ana fez de mim um homem e não uma puta [...]
Sozinho eu sou agora o meu inimigo intimo
Lembranças más vem, pensamentos bons vai.
Me ajude, sozinho penso merda pra caráio
Gente que acredito, gosto e admiro,
Brigava por justiça e em paz levou tiro: Malcon X,
Ghandi, Lennon, Marvin Gaye, Che Guevara, Tupac, Bob Marley e
O Evangélico Martin Luther King...
Lembrei de um truta falar assim: não joga pérola
Aos porco irmão, jogue lavagem
Eles prefere assim, se tem de usar piolhagem .


O enunciador, assim, não é contrário as possibilidades do ponto de vista material que o rap pode proporcionar, no entanto, defende uma visão do conjunto, de nada adianta a fama de um ou outro cantor de rap se não tiver o retorno para a comunidade como prega a ideologia do hip hop, o que importa para eles é a inserção da mensagem na periferia. E, também, é avesso a “venda” da sua arte, ou seja, apropriação e reformulação do rap pelos interesses comerciais. A ascensão social é algo positivo, no entanto, sem a necessidade de desvirtuar os objetivos da cultura hip hop.

"Para eles (Racionais) a questão do reconhecimento e da inclusão não se resolve através da ascensão oferecida pela lógica do mercado, segundo o qual dois ou três indivíduos excepcionais são tolerados por seu talento podem mesmo se destacar de sua origem miserável, ser investidos narcisicamente pelo star system e se oferecer como objetos de adoração, identificação e consolo para grande massa de fãs".

O reconhecimento da grande mídia, do mercado, portanto, não é o objetivo dos integrantes do grupo, mas parece como um agravante da dor de Brown, já que a fama de algum modo gerou um mal estar na própria comunidade, nos seus “manos”. A partir daí se desfaz a ilusão de que aquilo que ele faz por amor, a “luta pela cor”, produz algum sentido. Para sustentar essa derrota, ele se espelha nos seus ídolos, nos seus exemplos de guerreiros (Malcon X, Ghandi, Lennon, Marvin Gaye, Che Guevara, Tupac, Bob Marley e Martin Luther King). Assim como ele foi desacreditado, esses “levaram tiro”.
A última frase (“lembrei de um truta falar assim: não joga pérola aos porco irmão jogue lavagem eles prefere assim, se tem de usar piolhagem”) sintetiza mas uma vez a desilusão do enunciador, um amigo que assim como sua mãe alerta que aquilo não tem futuro. É desnecessário dar “pérolas aos porcos” já que eles foram acostumados à “lavagem”. Uma metáfora que indica que é inútil Brown tentar trazer algo de bom para periferia, travar essa luta através da música de protesto que é o rap, uma vez que “os próprios pretos não estão nem ai pra isso não”, segundo o amigo Brown tem que usar da sacanagem mesmo, assim como o primeiro que criticou o posicionamento do enunciador, passar para o lado de lá, ser “patrão”.
A mensagem destaque até o momento é uma definição de traição para enunciador em relação aos ideais que a cultura hip hop trouxe para periferia , que mesmo que não tenho mudado a estrutura social do país, causaram uma revolução nessa parcela da sociedade. Expressão maior disso é a frase “O hip hop salvou a minha vida”, a qual o jornalista Spensy Pimentel afirmou ter ouvido inúmeras vezes quando realizava o seu trabalho de conclusão de curso e que em poucos anos se espalhou pelas favelas a fora. O próprio Brown faz referencia, em outro música, à importância que o rap tem na sua vida

"Rap é minha vida. Tudo que eu me envolvo eu sou fanático. Eu amo ou eu odeio. Tudo que eu sei falar hoje, se eu sei trocar uma idéia mais ou menos, é por causa do rap. Se você não sair num mundão você não consegue comparar as coisas, saber o que é certo ou errado. O rap me ajudou a ver tudo isso".



NOTAS

Truta:amigos verdadeiros.

Guina: personagem da música “To ouvindo alguém me chamar”.( BROWN, Mano. To ouvindo alguém me chamar. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 4.)

Bico: o cara intrometido, que entra na conversa quando não é chamado e comumente não é bem-vindo.

Uma pá: um monte de alguma coisa.

NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90,nov.2001.p.66-83. p. 68.

VIANA, Natália. Enquanto isso na sala de justiça.Caros Amigos. São Paulo, n.24, jun.2005. Edição especial. p. 07

AMARAL, Marina. De volta para o futuro.Caros Amigos.São Paulo, n.24, jun.2005. Edição Especial. p.05.

BROWN, Mano. Privilégio 2: o tempo é rei. In: JAY, KL. Equilibrio : a busca. São Paulo: 4P Discos Ltda 2001. 2 CDs (1h46min.). Faixa 21 (18min.32s.)

* A reunião, que pretendia discutir os rumos do rap, durou quatro horas não chegou a uma conclusão, mas todos concordam que esses problemas surgiram com a popularização do rap, no momento que esse ultrapassou as fronteiras da periferia. Perdeu-se um pouco o centro, o objetivo de todo movimento, por isso foi a hora de parar e remanejar os caminhos do rap. Mas já em 2002, Brown demonstrava esse descontentamento com os rumos do sucesso que o grupo alcançava, Jesus Chorou é registro disso.

Piolhagem: sacanagem, vacilo.

KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.

* Todas as características e objetivos que já foram apresentados no relatório parcial e sumamente nesse relatório.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Aviso aos navegantes

Assim como Negro Drama eu vou postar a análise de Jesus Chorou em partes. Logo mais eu coloco a segunda parte.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Análise de Jesus Chorou

Essa é a segunda música que eu analisei dos Racionais, fiz essa escolha para abordar o tema da fama, como o grupo lidava com essa questão, uma vez que já tinha alcançado status no cenário musical brasileiro e já era considerado uns dos melhores grupos de Rap Nacional.

Não quero status, nem fama!

Análise da música Jesus Chorou

“Quanto maior a fama, maior o número de inimigos, maior o número de pessoas que querem quebrar as suas pernas, te derrubar. Mais você vai ter que provar para os outros, mais você vai ser registrado e mais, você será cobrado” Mano Brown (Março de 2004) .

Em Jesus Chorou Mano Brown, como enunciador principal na narração, faz relato de “uma fita que o abalou” . A narrativa de um fato normal do cotidiano carrega vários indicativos da relação do grupo com a fama, com as pessoas que se aproximaram devido ao status alcançado pelo sucesso no cenário musical do rap. Essa relação não parece apenas nessa música do álbum, de certa forma essa temática tornou-se recorrente a partir desse trabalho. Sobre o disco

"O disco representa uma face de lirismo, consciência da passagem do tempo e reflexão sobre a posição social do grupo se não é absolutamente inédita nas composições dos Racionais, ainda não havia aparecido de forma tão evidente e tocante".


A narrativa é um desabafo, uma descrição da dor do enunciador ao ver que em determinado momento todos os ideais que prega através da música, os ideais geradores do Hip hop, se esvaecem diante da incompreensão dos invejosos e, também, das pessoas por quem ele lutou até o momento. É desilusão com a fama nos moldes ditados pela indústria cultural.

O que e o que é??
Clara e salgada, cabe em um olho e pesa uma tonelada...tem sabor
de mar,
pode ser discreta, inquilina da dor, morada predileta....na
calada ela vem, refém da vingança, irmã do desespero, rival da
esperança... pode ser causada por vermes e mundanas...e o
espinho da flor, cruel que você ama amante do drama,
vem pra minha cama, por querer, sem me perguntar me fez sofrer..
e eu que me julguei forte...e eu que me
senti...serei um fraco, quando outras delas vir..se o barato é
louco e o processo é lento...no momento...deixa eu caminhar
contra o vento...o que adianta eu ser durão e o coração ser
vulnerável...
o vento não, ele é suave, mas é frio e implacável
borrou a letra triste do poeta
correu no rosto pardo do profeta..
.verme sai da reta...a lágrima de um
homem vai cair...esse é o seu B.O. pa eternidade...
diz que homem não chora...
ta bom, falou...não vai pra grupo irmão ai ....
JESUS CHOROU ! ! !


No início de forma lúdica, num jogo de adivinhação o enunciador descreve o seu momento de dor, nesse instante há apresentação dessa situação de drama. Todo esse discurso remete a maior expressão de exteriorização da dor - a LÁGRIMA. O título Jesus Chorou remete ao tema da música, ele -Jesus- é o exemplo da força, da resistência a tudo que o atingiu até o momento da crucificação e, ao mesmo tempo teve o seu momento de dor e a ação de colocar isso em evidência ao chorar. Não que Brown, o narrador-enunciador, tenha a pretensão de ser um líder como Jesus, mas em seu ambiente de influência, em uma escala menor, ele é exemplo para muitos.


A reportagem de Phydia de Athayde para Carta Capital oferece indicações do que seria o “poder” de Brown na sua “quebrada”

"Ele fala pouco. Quando o faz, jamais é interrompido. Metade, na roda, nada diz. Os de sempre se movem seguindo à risca a liturgia. Liturgia não escrita nem falada. Apenas apreendida. Se Brown anda 5 metros para esquerda, fazem o mesmo. Em silêncio. Não são fãs. São amigos".


E, agora o enunciador admite a sua fraqueza, embora seja considerado um forte pelos amigos, e tenha construído mesmo que inconsciente a fama de durão ele se sente fraco, como ele mesmo afirma “o que adianta ser durão e o coração ser vulnerável”.
Na seqüência o enunciador passa a narrar os acontecimento que desencadearam essa dor e o que fazer agora, quando tudo que ele acredita e lutava parecia se esvaziar no ar. Uma “fita” contada pelo outro locutor dessa música o abalou e criou essa crise interior do primeiro narrador. Embora, a sua voz interior insista no “espírito do Capão”, expressão que simboliza a luta que ele trava pelo seu local de origem por meio da sua força como artista, algo o abalou, fato que criou uma situação de desmoronamento de seus ideais.

O que fazer quando a fortaleza tremeu
E quase tudo ao seu redor melhor
Se corrompeu
Epa pera lá muita calma ladrão!
Cadê o espírito imortal do Capão? [...]
Uma fita me abalou na noite anterior


No próximo trecho aparece o fato desencadeador de todo o discurso dessa música, uma ligação de um amigo sobre o acontecimento da noite anterior, o fato em si não tem a importância central da letra, mas justifica o sentimento apresentado pelo enunciador. Segundo o outro enunciador na noite anterior ele saiu para “fumar um” e nessa “atividade” presenciou o desabafo de outro individuo sobre a posição de Brown - o primeiro enunciador- como artista.
Na história, o segundo enunciador e mais algumas pessoas estavam no local quando apareceu o indivíduo que não era de lá, mas ficou ali para participar da “atividade”, como o grupo estava ouvindo uma música dos Racionais cantada por Brown, ele fez um desabafo sobre o que achava do cantor. Como segue na narrativa

tava eu mais dois truta e uma mina
num Tempra prata show filmado ouvindo Guina
o bico se atacou ó, falou uma pá do cê...
Esse Brown aí é cheio de querer ser, deixa ele moscar e cantar
na quebrada, vamo ver se é isso tudo quando ver as quadrada,
periferia nada, só pensa nele mesmo, montado no dinheiro e vocês
aí no veneno [...]
cada um no seu corre [...]
eu mesmo se eu catar voa
numa hora dessa, vou me destacar do
outro lado de pressa, vou comprar uma house de boy
depois alugo,vão me chamar de senhor não por vulgo
mas pra ele só a zona sul que é a pa [...]
porque eu não pago pau pra ninguém [...]


NOTAS

RACIONAIS MC´s.Jesus Chorou. In:______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 2 (54 min 31s), faixa 4 (7min 51s).
Alguns trechos da letra foram suprimidos. A letra inteira segue em anexo.

ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29 set.2004. p.16

Fita: acontecimento, fato.
Grifo da autora.

ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004
Quebrada: bairro ou rua que é local de moradia.

ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.13.

Fumar um: fumar maconha