Eu...algumas palavras que me definem: jornalista, apaixonada, insegura, ansiosa, amiga...um sentimento que me move todos os dias: saudade..saudade imensa de tudo que eu vivi, que eu vivo e que eu vou viver...fiz isso para poder escrever, uma coisa que eu gosto, desde criança...deve ser por isso que escolhi ser jornalista...
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Aviso aos navegantes
Assim como Negro Drama eu vou postar a análise de Jesus Chorou em partes. Logo mais eu coloco a segunda parte.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Análise de Jesus Chorou
Essa é a segunda música que eu analisei dos Racionais, fiz essa escolha para abordar o tema da fama, como o grupo lidava com essa questão, uma vez que já tinha alcançado status no cenário musical brasileiro e já era considerado uns dos melhores grupos de Rap Nacional.
Não quero status, nem fama!
Análise da música Jesus Chorou
“Quanto maior a fama, maior o número de inimigos, maior o número de pessoas que querem quebrar as suas pernas, te derrubar. Mais você vai ter que provar para os outros, mais você vai ser registrado e mais, você será cobrado” Mano Brown (Março de 2004) .
Em Jesus Chorou Mano Brown, como enunciador principal na narração, faz relato de “uma fita que o abalou” . A narrativa de um fato normal do cotidiano carrega vários indicativos da relação do grupo com a fama, com as pessoas que se aproximaram devido ao status alcançado pelo sucesso no cenário musical do rap. Essa relação não parece apenas nessa música do álbum, de certa forma essa temática tornou-se recorrente a partir desse trabalho. Sobre o disco
"O disco representa uma face de lirismo, consciência da passagem do tempo e reflexão sobre a posição social do grupo se não é absolutamente inédita nas composições dos Racionais, ainda não havia aparecido de forma tão evidente e tocante".
A narrativa é um desabafo, uma descrição da dor do enunciador ao ver que em determinado momento todos os ideais que prega através da música, os ideais geradores do Hip hop, se esvaecem diante da incompreensão dos invejosos e, também, das pessoas por quem ele lutou até o momento. É desilusão com a fama nos moldes ditados pela indústria cultural.
O que e o que é??
Clara e salgada, cabe em um olho e pesa uma tonelada...tem sabor
de mar,
pode ser discreta, inquilina da dor, morada predileta....na
calada ela vem, refém da vingança, irmã do desespero, rival da
esperança... pode ser causada por vermes e mundanas...e o
espinho da flor, cruel que você ama amante do drama,
vem pra minha cama, por querer, sem me perguntar me fez sofrer..
e eu que me julguei forte...e eu que me
senti...serei um fraco, quando outras delas vir..se o barato é
louco e o processo é lento...no momento...deixa eu caminhar
contra o vento...o que adianta eu ser durão e o coração ser
vulnerável...
o vento não, ele é suave, mas é frio e implacável
borrou a letra triste do poeta
correu no rosto pardo do profeta..
.verme sai da reta...a lágrima de um
homem vai cair...esse é o seu B.O. pa eternidade...
diz que homem não chora...
ta bom, falou...não vai pra grupo irmão ai ....
JESUS CHOROU ! ! !
No início de forma lúdica, num jogo de adivinhação o enunciador descreve o seu momento de dor, nesse instante há apresentação dessa situação de drama. Todo esse discurso remete a maior expressão de exteriorização da dor - a LÁGRIMA. O título Jesus Chorou remete ao tema da música, ele -Jesus- é o exemplo da força, da resistência a tudo que o atingiu até o momento da crucificação e, ao mesmo tempo teve o seu momento de dor e a ação de colocar isso em evidência ao chorar. Não que Brown, o narrador-enunciador, tenha a pretensão de ser um líder como Jesus, mas em seu ambiente de influência, em uma escala menor, ele é exemplo para muitos.
A reportagem de Phydia de Athayde para Carta Capital oferece indicações do que seria o “poder” de Brown na sua “quebrada”
"Ele fala pouco. Quando o faz, jamais é interrompido. Metade, na roda, nada diz. Os de sempre se movem seguindo à risca a liturgia. Liturgia não escrita nem falada. Apenas apreendida. Se Brown anda 5 metros para esquerda, fazem o mesmo. Em silêncio. Não são fãs. São amigos".
E, agora o enunciador admite a sua fraqueza, embora seja considerado um forte pelos amigos, e tenha construído mesmo que inconsciente a fama de durão ele se sente fraco, como ele mesmo afirma “o que adianta ser durão e o coração ser vulnerável”.
Na seqüência o enunciador passa a narrar os acontecimento que desencadearam essa dor e o que fazer agora, quando tudo que ele acredita e lutava parecia se esvaziar no ar. Uma “fita” contada pelo outro locutor dessa música o abalou e criou essa crise interior do primeiro narrador. Embora, a sua voz interior insista no “espírito do Capão”, expressão que simboliza a luta que ele trava pelo seu local de origem por meio da sua força como artista, algo o abalou, fato que criou uma situação de desmoronamento de seus ideais.
O que fazer quando a fortaleza tremeu
E quase tudo ao seu redor melhor
Se corrompeu
Epa pera lá muita calma ladrão!
Cadê o espírito imortal do Capão? [...]
Uma fita me abalou na noite anterior
No próximo trecho aparece o fato desencadeador de todo o discurso dessa música, uma ligação de um amigo sobre o acontecimento da noite anterior, o fato em si não tem a importância central da letra, mas justifica o sentimento apresentado pelo enunciador. Segundo o outro enunciador na noite anterior ele saiu para “fumar um” e nessa “atividade” presenciou o desabafo de outro individuo sobre a posição de Brown - o primeiro enunciador- como artista.
Na história, o segundo enunciador e mais algumas pessoas estavam no local quando apareceu o indivíduo que não era de lá, mas ficou ali para participar da “atividade”, como o grupo estava ouvindo uma música dos Racionais cantada por Brown, ele fez um desabafo sobre o que achava do cantor. Como segue na narrativa
tava eu mais dois truta e uma mina
num Tempra prata show filmado ouvindo Guina
o bico se atacou ó, falou uma pá do cê...
Esse Brown aí é cheio de querer ser, deixa ele moscar e cantar
na quebrada, vamo ver se é isso tudo quando ver as quadrada,
periferia nada, só pensa nele mesmo, montado no dinheiro e vocês
aí no veneno [...]
cada um no seu corre [...]
eu mesmo se eu catar voa
numa hora dessa, vou me destacar do
outro lado de pressa, vou comprar uma house de boy
depois alugo,vão me chamar de senhor não por vulgo
mas pra ele só a zona sul que é a pa [...]
porque eu não pago pau pra ninguém [...]
NOTAS
RACIONAIS MC´s.Jesus Chorou. In:______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 2 (54 min 31s), faixa 4 (7min 51s).
Alguns trechos da letra foram suprimidos. A letra inteira segue em anexo.
ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29 set.2004. p.16
Fita: acontecimento, fato.
Grifo da autora.
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004
Quebrada: bairro ou rua que é local de moradia.
ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.13.
Fumar um: fumar maconha
Não quero status, nem fama!
Análise da música Jesus Chorou
“Quanto maior a fama, maior o número de inimigos, maior o número de pessoas que querem quebrar as suas pernas, te derrubar. Mais você vai ter que provar para os outros, mais você vai ser registrado e mais, você será cobrado” Mano Brown (Março de 2004) .
Em Jesus Chorou Mano Brown, como enunciador principal na narração, faz relato de “uma fita que o abalou” . A narrativa de um fato normal do cotidiano carrega vários indicativos da relação do grupo com a fama, com as pessoas que se aproximaram devido ao status alcançado pelo sucesso no cenário musical do rap. Essa relação não parece apenas nessa música do álbum, de certa forma essa temática tornou-se recorrente a partir desse trabalho. Sobre o disco
"O disco representa uma face de lirismo, consciência da passagem do tempo e reflexão sobre a posição social do grupo se não é absolutamente inédita nas composições dos Racionais, ainda não havia aparecido de forma tão evidente e tocante".
A narrativa é um desabafo, uma descrição da dor do enunciador ao ver que em determinado momento todos os ideais que prega através da música, os ideais geradores do Hip hop, se esvaecem diante da incompreensão dos invejosos e, também, das pessoas por quem ele lutou até o momento. É desilusão com a fama nos moldes ditados pela indústria cultural.
O que e o que é??
Clara e salgada, cabe em um olho e pesa uma tonelada...tem sabor
de mar,
pode ser discreta, inquilina da dor, morada predileta....na
calada ela vem, refém da vingança, irmã do desespero, rival da
esperança... pode ser causada por vermes e mundanas...e o
espinho da flor, cruel que você ama amante do drama,
vem pra minha cama, por querer, sem me perguntar me fez sofrer..
e eu que me julguei forte...e eu que me
senti...serei um fraco, quando outras delas vir..se o barato é
louco e o processo é lento...no momento...deixa eu caminhar
contra o vento...o que adianta eu ser durão e o coração ser
vulnerável...
o vento não, ele é suave, mas é frio e implacável
borrou a letra triste do poeta
correu no rosto pardo do profeta..
.verme sai da reta...a lágrima de um
homem vai cair...esse é o seu B.O. pa eternidade...
diz que homem não chora...
ta bom, falou...não vai pra grupo irmão ai ....
JESUS CHOROU ! ! !
No início de forma lúdica, num jogo de adivinhação o enunciador descreve o seu momento de dor, nesse instante há apresentação dessa situação de drama. Todo esse discurso remete a maior expressão de exteriorização da dor - a LÁGRIMA. O título Jesus Chorou remete ao tema da música, ele -Jesus- é o exemplo da força, da resistência a tudo que o atingiu até o momento da crucificação e, ao mesmo tempo teve o seu momento de dor e a ação de colocar isso em evidência ao chorar. Não que Brown, o narrador-enunciador, tenha a pretensão de ser um líder como Jesus, mas em seu ambiente de influência, em uma escala menor, ele é exemplo para muitos.
A reportagem de Phydia de Athayde para Carta Capital oferece indicações do que seria o “poder” de Brown na sua “quebrada”
"Ele fala pouco. Quando o faz, jamais é interrompido. Metade, na roda, nada diz. Os de sempre se movem seguindo à risca a liturgia. Liturgia não escrita nem falada. Apenas apreendida. Se Brown anda 5 metros para esquerda, fazem o mesmo. Em silêncio. Não são fãs. São amigos".
E, agora o enunciador admite a sua fraqueza, embora seja considerado um forte pelos amigos, e tenha construído mesmo que inconsciente a fama de durão ele se sente fraco, como ele mesmo afirma “o que adianta ser durão e o coração ser vulnerável”.
Na seqüência o enunciador passa a narrar os acontecimento que desencadearam essa dor e o que fazer agora, quando tudo que ele acredita e lutava parecia se esvaziar no ar. Uma “fita” contada pelo outro locutor dessa música o abalou e criou essa crise interior do primeiro narrador. Embora, a sua voz interior insista no “espírito do Capão”, expressão que simboliza a luta que ele trava pelo seu local de origem por meio da sua força como artista, algo o abalou, fato que criou uma situação de desmoronamento de seus ideais.
O que fazer quando a fortaleza tremeu
E quase tudo ao seu redor melhor
Se corrompeu
Epa pera lá muita calma ladrão!
Cadê o espírito imortal do Capão? [...]
Uma fita me abalou na noite anterior
No próximo trecho aparece o fato desencadeador de todo o discurso dessa música, uma ligação de um amigo sobre o acontecimento da noite anterior, o fato em si não tem a importância central da letra, mas justifica o sentimento apresentado pelo enunciador. Segundo o outro enunciador na noite anterior ele saiu para “fumar um” e nessa “atividade” presenciou o desabafo de outro individuo sobre a posição de Brown - o primeiro enunciador- como artista.
Na história, o segundo enunciador e mais algumas pessoas estavam no local quando apareceu o indivíduo que não era de lá, mas ficou ali para participar da “atividade”, como o grupo estava ouvindo uma música dos Racionais cantada por Brown, ele fez um desabafo sobre o que achava do cantor. Como segue na narrativa
tava eu mais dois truta e uma mina
num Tempra prata show filmado ouvindo Guina
o bico se atacou ó, falou uma pá do cê...
Esse Brown aí é cheio de querer ser, deixa ele moscar e cantar
na quebrada, vamo ver se é isso tudo quando ver as quadrada,
periferia nada, só pensa nele mesmo, montado no dinheiro e vocês
aí no veneno [...]
cada um no seu corre [...]
eu mesmo se eu catar voa
numa hora dessa, vou me destacar do
outro lado de pressa, vou comprar uma house de boy
depois alugo,vão me chamar de senhor não por vulgo
mas pra ele só a zona sul que é a pa [...]
porque eu não pago pau pra ninguém [...]
NOTAS
RACIONAIS MC´s.Jesus Chorou. In:______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 2 (54 min 31s), faixa 4 (7min 51s).
Alguns trechos da letra foram suprimidos. A letra inteira segue em anexo.
ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29 set.2004. p.16
Fita: acontecimento, fato.
Grifo da autora.
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo
Quebrada: bairro ou rua que é local de moradia.
ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.13.
Fumar um: fumar maconha
quarta-feira, 23 de abril de 2008
ANIVERSÁRIO
HOJE É UM DATA ESPECIAL...
EU FAÇO 24 ANOS!!!!!
E hoje só o que eu quero é o Parabéns dos meus amigos e das demais pessoas que eu amo
Que Deus continue iluminando o meu caminho
EU FAÇO 24 ANOS!!!!!
E hoje só o que eu quero é o Parabéns dos meus amigos e das demais pessoas que eu amo
Que Deus continue iluminando o meu caminho
quinta-feira, 17 de abril de 2008
parte III
Continuando a postar a análise de Negro Drama, mais uma parte do meu trabalho de Iniciação Científica. Para entender tudo ver o primeiro post sobre isso no dia 28 de fevereiro, é foi há dois meses atrás mais ou menos que eu comecei essa história que ocupou um ano inteiro da minha vida, dos meus estudos e foi muito importante para mim na minha jornada na Unesp e hoje eu divido com as poucas, mas boas pessoas que visitam esse blog. No próximo post já vou começar a análise de JESUS CHOROU.
Obrigada mais uma vez!
Negro Drama: parte III e última
A luta que o enunciador afirma só tem sentido, ou seja, só significa diante da posição de subjugado que o negro ocupa no país, como afirma Darcy Ribeiro
"O fato de ser negro ou mulato, entretanto, custa também um preço adicional, porque a crueza do trato desigualitário que suportam todos os pobres, se acrescentam formas sutis ou desabridas de hostilidade".
Por outro lado, a luta continua, é travada diariamente. O enunciador demonstra isso através do ciclo vicioso. Volta ao passado e termina essa parte mais uma vez com o “negro drama”, de forma pessimista, onde muitas vezes a saída está no crime e não em outras formas como a educação (referência ao “caderno”)
Vi um pretinho e seu caderno era um fuzil , NEGRO DRAMA
A segunda parte da música é cantada por Mano Brown, é uma autobiografia declarada que vem dar veracidade aos argumentos acerca das condições do negro levantadas por Edy Rock na primeira parte e, da mesma forma, demonstrar mais um exemplo de vitória.
Crime, futebol, música, [...],
Eu também não consegui fugir disso aí
Eu sou mais um, Forrest Gump é mato ,
Eu prefiro contar uma história real
Vou conta a minha
Na narrativa de Mano Brown a relação entre o negro pobre da periferia de São Paulo e os receptores do discurso, classe média e alta, sofre maior tensão. Porque nessa narrativa existe a acusação da apropriação da cultura negra, pasteurizada nos costumes da classe média e alta, que veremos mais à frente.
Seguindo a linha da narrativa, Brown descreve o momento da chegada de sua mãe, uma negra, nordestina e mãe solteira, na grande cidade de São Paulo
Uma negra e uma criança nos braços,
Solitária na floresta de concreto e aço.
Veja, Olha outra vez, o rosto na multidão,
A multidão é um monstro sem rosto e coração.
Hey, São Paulo! Terra de arranha-céu
A garoa rasga a carne, é a Torre de Babel,
Família Brasileira, dois contra o mundo,
Mãe solteira de um promissor, vagabundo,
Luz, Câmera e Ação, Gravando a cena vai
O Bastardo mais um filho pardo sem Pai
O trecho descreve como se deu a inclusão desses novos moradores com “a floresta de concreto e aço”. Nesse ponto edifica-se outro aspecto histórico da marginalização, a vinda dos retirantes para São Paulo. Não há uma definição clara na música que a mãe de Brown foi uma retirante, isso é informação de sua biografia. Porém, elucidado esse fato compreende a intenção nesse trecho de demonstrar a dor e solidão daquelas duas pessoas à margem da grande cidade.
A mãe de Brown veio para São Paulo menina, muito antes de ele nascer. O primeiro momento de solidão a menina nordestina no meio da Torre de Babel paulistana, onde ninguém se entende e muito menos a entende, uma multidão sem rosto e sem coração.O segundo momento foi quando foi mãe solteira, como Brown afirma na letra e ela confirma em entrevista a Caros Amigos “meu marido me deixou quando eu estava de um mês” . Nessa parte da narrativa existe a fusão das dificuldades pessoais de Mano Brown com a totalidade de experiências assim que se repetem. A verdadeira família brasileira, aquela gerada no miolo do “povão”.Assim como Edy Rock nas primeiras estrofes, Brown costura mais aspectos do cotidiano do marginalizados. Na sua história particular ele reedifica as falas de Edy Rock.
A relação do homem negro do gueto com a classe média branca assume novos aspectos nessa parte da música
Inacreditável, mas seu filho me imita
No meio de vocês ele é o mais esperto
Ginga e fala gíria, gíria não dialeto
Esse não é mais seu
Entrei pelo seu rádio, tomei, você nem viu [..]
Seu filho quer ser preto, que ironia
Cola o pôster do Tupac ae [...]
Sente o Negro Drama, vai, e tenta ser feliz
Nesse momento aparece a tentativa apropriação da cultura. Os negros sempre sofreram dessa injustiça, foi assim com o blues, com soul e o funk, estilos musicais germinadores do rap . A cultura geminada no cerne das comunidades negras e de suas influências é apropriada pela classe média e pasteurizada a seus costumes. A questão vai além do consumo, não é o “playboy” comprando CDs, ouvindo Racionais no aparelho de som do seu carro importado, é assimilação de um discurso proveniente da periferia, de pessoas que sofrem a discriminação racial, social e cultural como “seu” (do indivíduo da classe média).
"Eles (classe média) vão entrar no rap e começar a falar de outras coisas, vão usar a linguagem deles, e a tendência é somente serem consumidos e o resto ser esquecido, como tudo o que aconteceu. Com o samba foi assim, os sambistas só pararam de apanhar com os instrumentos na costas depois que o homem do asfalto começou a dizer que o samba era bom, começou a produzir e o outro virou coadjuvante".
O garoto filho do “senhor de engenho” não se contenta em ouvir a música, ele quer ser preto. E isso é o lado negativo da explosão do hip hop é a apropriação por parte da classe média, ela compra esse discurso e o faz seu, ela compra as roupas dos meninos e meninas da periferia usam e faz disso uma grife, uma marca. O injusto é que essa apropriação é excludente e exclui justamente os seus idealizadores, tira a legitimidade dos seus percussores.
Por outro lado, na última estrofe do trecho Brown derruba essa intenção com o diferencial decisivo: “o negro drama” narrado em todo o contexto da letra. Por mais que se tente a assimilação, essa não vai passar de algo plástico, porque não tem como parte integrante a experiência cotidiana dos “manos” dos Racionais.
O que você fez por mim?
Eu recebi seu tickt, quer dizer kit,
de esgoto a céu aberto, e parede madeirite,
De vergonha eu não morri, to firmão, eis me aqui,
[...]
Eu sou o mano Homem duro do gueto, Brown,
E de onde vem os diamante?
Da lama, valeu mãe
NEGRO DRAMA, DRAMA, DRAMA.
A estrofe acima é o reforço da mensagem da música. O ressentimento, taxado de “racismo ao contrário”, fundamenta-se nesse ponto, no que sobrou para o coadjuvante na história oficial- negro morador da favela- esgoto a céu aberto e parede maderite, ou seja, a própria favela e todas sua mazelas. Mas de onde vem o diamante se não da lama? Essa é mensagem final de Brown o caminho foi e ainda é adverso, as estrofes do negro drama confirmam, a narrativa se edifica nesse mote. No entanto, a revolução começa a ser feita “a começar pelas armas: sua palavra em primeiro lugar”.Da lama saem os diamantes, do gueto saem os novos cronistas da periferia.
E a estrofe final
E ae na época dos barracos de pau lá da pedreira
o que vocês fizeram por mim
O que vocês deram por mim
Agora ta de olho no dinheiro que eu ganho
Ta de olho no carro que eu dirijo[...]
Ae o rap fez ser o que sou hoje
Ice Blue, Edy Rock, Kl Jay
E Toda família, toda a geração que faz o rap
A geração que revolucionou, e que vai revolucionar [...]
Você sai do gueto, mas o gueto nunca sai de você [...]
O mundo inteiro ta de olho em você pela sua origem
É desse jeito que você vive é Negro Drama
Eu não li, eu não assisti, eu vivo o Negro Drama
Eu sou o Negro Drama
Sou fruto do Negro Drama [...]
O fechamento da música é discurso raivoso de Mano Brown afirmando mais uma vez todas as questões levantadas no decorrer das estrofes. A marginalização/discriminação por parte das classes média e alta branca, a apropriação da arte (Agora ta de olho no dinheiro que eu ganho) e a oportunidade dada pelo Rap, a possibilidade de revolução, ao menos, na auto-afirmação do negro.
Em suma, o retrocesso a toda mensagem passada por essa música a fim de reforça-lo. Com destaque para as últimas fases (Eu não li, eu não assisti, eu vivo o Negro Drama Eu sou o Negro Drama,Sou fruto do Negro Drama), nesses trechos o enunciador deixa explicito que nada do que foi dito é algo que ele soube por intermédios de terceiros ou que ele presenciou como observador. Ele viveu e ainda vive todo esse estigma, assim como sua mãe, por isso ele é “fruto do negro drama”.
Notas
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentindo do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 235.
Mato: mentira, invenção, ficção.
KALILI,Sérgio. Mano Brown é um fenômeno.Caros Amigos. São Paulo, n.10, jan.1998. p. 33.
Spency Pimentel em seu livro “Livro Vermelho do Hip hop” (PIMENTEL, Spensy Kmitta. O Livro Vermelho do Hip Hop. 1997.Trabalho de Conclusão de Curso- Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 1997) discorre sobre o que seria a “árvore genealógica musical” do rap. Assim “o rap possui uma árvore genealógica no universo musical, é bisneto do spiritual e do blues, neto do soul, filho do funk, irmão do rock, primo do reggae, do samba, do maracatu e da embolada”.
Homem do asfalto: os indivíduos que não moram na favela, no morro.
CAROS AMIGOS. O hip hop é um instrumento de transformação. In: Caros Amigos. São Paulo, n.99, jun.2005.p.35
Obrigada mais uma vez!
Negro Drama: parte III e última
A luta que o enunciador afirma só tem sentido, ou seja, só significa diante da posição de subjugado que o negro ocupa no país, como afirma Darcy Ribeiro
"O fato de ser negro ou mulato, entretanto, custa também um preço adicional, porque a crueza do trato desigualitário que suportam todos os pobres, se acrescentam formas sutis ou desabridas de hostilidade".
Por outro lado, a luta continua, é travada diariamente. O enunciador demonstra isso através do ciclo vicioso. Volta ao passado e termina essa parte mais uma vez com o “negro drama”, de forma pessimista, onde muitas vezes a saída está no crime e não em outras formas como a educação (referência ao “caderno”)
Vi um pretinho e seu caderno era um fuzil , NEGRO DRAMA
A segunda parte da música é cantada por Mano Brown, é uma autobiografia declarada que vem dar veracidade aos argumentos acerca das condições do negro levantadas por Edy Rock na primeira parte e, da mesma forma, demonstrar mais um exemplo de vitória.
Crime, futebol, música, [...],
Eu também não consegui fugir disso aí
Eu sou mais um, Forrest Gump é mato ,
Eu prefiro contar uma história real
Vou conta a minha
Na narrativa de Mano Brown a relação entre o negro pobre da periferia de São Paulo e os receptores do discurso, classe média e alta, sofre maior tensão. Porque nessa narrativa existe a acusação da apropriação da cultura negra, pasteurizada nos costumes da classe média e alta, que veremos mais à frente.
Seguindo a linha da narrativa, Brown descreve o momento da chegada de sua mãe, uma negra, nordestina e mãe solteira, na grande cidade de São Paulo
Uma negra e uma criança nos braços,
Solitária na floresta de concreto e aço.
Veja, Olha outra vez, o rosto na multidão,
A multidão é um monstro sem rosto e coração.
Hey, São Paulo! Terra de arranha-céu
A garoa rasga a carne, é a Torre de Babel,
Família Brasileira, dois contra o mundo,
Mãe solteira de um promissor, vagabundo,
Luz, Câmera e Ação, Gravando a cena vai
O Bastardo mais um filho pardo sem Pai
O trecho descreve como se deu a inclusão desses novos moradores com “a floresta de concreto e aço”. Nesse ponto edifica-se outro aspecto histórico da marginalização, a vinda dos retirantes para São Paulo. Não há uma definição clara na música que a mãe de Brown foi uma retirante, isso é informação de sua biografia. Porém, elucidado esse fato compreende a intenção nesse trecho de demonstrar a dor e solidão daquelas duas pessoas à margem da grande cidade.
A mãe de Brown veio para São Paulo menina, muito antes de ele nascer. O primeiro momento de solidão a menina nordestina no meio da Torre de Babel paulistana, onde ninguém se entende e muito menos a entende, uma multidão sem rosto e sem coração.O segundo momento foi quando foi mãe solteira, como Brown afirma na letra e ela confirma em entrevista a Caros Amigos “meu marido me deixou quando eu estava de um mês” . Nessa parte da narrativa existe a fusão das dificuldades pessoais de Mano Brown com a totalidade de experiências assim que se repetem. A verdadeira família brasileira, aquela gerada no miolo do “povão”.Assim como Edy Rock nas primeiras estrofes, Brown costura mais aspectos do cotidiano do marginalizados. Na sua história particular ele reedifica as falas de Edy Rock.
A relação do homem negro do gueto com a classe média branca assume novos aspectos nessa parte da música
Inacreditável, mas seu filho me imita
No meio de vocês ele é o mais esperto
Ginga e fala gíria, gíria não dialeto
Esse não é mais seu
Entrei pelo seu rádio, tomei, você nem viu [..]
Seu filho quer ser preto, que ironia
Cola o pôster do Tupac ae [...]
Sente o Negro Drama, vai, e tenta ser feliz
Nesse momento aparece a tentativa apropriação da cultura. Os negros sempre sofreram dessa injustiça, foi assim com o blues, com soul e o funk, estilos musicais germinadores do rap . A cultura geminada no cerne das comunidades negras e de suas influências é apropriada pela classe média e pasteurizada a seus costumes. A questão vai além do consumo, não é o “playboy” comprando CDs, ouvindo Racionais no aparelho de som do seu carro importado, é assimilação de um discurso proveniente da periferia, de pessoas que sofrem a discriminação racial, social e cultural como “seu” (do indivíduo da classe média).
"Eles (classe média) vão entrar no rap e começar a falar de outras coisas, vão usar a linguagem deles, e a tendência é somente serem consumidos e o resto ser esquecido, como tudo o que aconteceu. Com o samba foi assim, os sambistas só pararam de apanhar com os instrumentos na costas depois que o homem do asfalto começou a dizer que o samba era bom, começou a produzir e o outro virou coadjuvante".
O garoto filho do “senhor de engenho” não se contenta em ouvir a música, ele quer ser preto. E isso é o lado negativo da explosão do hip hop é a apropriação por parte da classe média, ela compra esse discurso e o faz seu, ela compra as roupas dos meninos e meninas da periferia usam e faz disso uma grife, uma marca. O injusto é que essa apropriação é excludente e exclui justamente os seus idealizadores, tira a legitimidade dos seus percussores.
Por outro lado, na última estrofe do trecho Brown derruba essa intenção com o diferencial decisivo: “o negro drama” narrado em todo o contexto da letra. Por mais que se tente a assimilação, essa não vai passar de algo plástico, porque não tem como parte integrante a experiência cotidiana dos “manos” dos Racionais.
O que você fez por mim?
Eu recebi seu tickt, quer dizer kit,
de esgoto a céu aberto, e parede madeirite,
De vergonha eu não morri, to firmão, eis me aqui,
[...]
Eu sou o mano Homem duro do gueto, Brown,
E de onde vem os diamante?
Da lama, valeu mãe
NEGRO DRAMA, DRAMA, DRAMA.
A estrofe acima é o reforço da mensagem da música. O ressentimento, taxado de “racismo ao contrário”, fundamenta-se nesse ponto, no que sobrou para o coadjuvante na história oficial- negro morador da favela- esgoto a céu aberto e parede maderite, ou seja, a própria favela e todas sua mazelas. Mas de onde vem o diamante se não da lama? Essa é mensagem final de Brown o caminho foi e ainda é adverso, as estrofes do negro drama confirmam, a narrativa se edifica nesse mote. No entanto, a revolução começa a ser feita “a começar pelas armas: sua palavra em primeiro lugar”.Da lama saem os diamantes, do gueto saem os novos cronistas da periferia.
E a estrofe final
E ae na época dos barracos de pau lá da pedreira
o que vocês fizeram por mim
O que vocês deram por mim
Agora ta de olho no dinheiro que eu ganho
Ta de olho no carro que eu dirijo[...]
Ae o rap fez ser o que sou hoje
Ice Blue, Edy Rock, Kl Jay
E Toda família, toda a geração que faz o rap
A geração que revolucionou, e que vai revolucionar [...]
Você sai do gueto, mas o gueto nunca sai de você [...]
O mundo inteiro ta de olho em você pela sua origem
É desse jeito que você vive é Negro Drama
Eu não li, eu não assisti, eu vivo o Negro Drama
Eu sou o Negro Drama
Sou fruto do Negro Drama [...]
O fechamento da música é discurso raivoso de Mano Brown afirmando mais uma vez todas as questões levantadas no decorrer das estrofes. A marginalização/discriminação por parte das classes média e alta branca, a apropriação da arte (Agora ta de olho no dinheiro que eu ganho) e a oportunidade dada pelo Rap, a possibilidade de revolução, ao menos, na auto-afirmação do negro.
Em suma, o retrocesso a toda mensagem passada por essa música a fim de reforça-lo. Com destaque para as últimas fases (Eu não li, eu não assisti, eu vivo o Negro Drama Eu sou o Negro Drama,Sou fruto do Negro Drama), nesses trechos o enunciador deixa explicito que nada do que foi dito é algo que ele soube por intermédios de terceiros ou que ele presenciou como observador. Ele viveu e ainda vive todo esse estigma, assim como sua mãe, por isso ele é “fruto do negro drama”.
Notas
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentindo do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 235.
Mato: mentira, invenção, ficção.
KALILI,Sérgio. Mano Brown é um fenômeno.Caros Amigos. São Paulo, n.10, jan.1998. p. 33.
Spency Pimentel em seu livro “Livro Vermelho do Hip hop” (PIMENTEL, Spensy Kmitta. O Livro Vermelho do Hip Hop. 1997.Trabalho de Conclusão de Curso- Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 1997) discorre sobre o que seria a “árvore genealógica musical” do rap. Assim “o rap possui uma árvore genealógica no universo musical, é bisneto do spiritual e do blues, neto do soul, filho do funk, irmão do rock, primo do reggae, do samba, do maracatu e da embolada”.
Homem do asfalto: os indivíduos que não moram na favela, no morro.
CAROS AMIGOS. O hip hop é um instrumento de transformação. In: Caros Amigos. São Paulo, n.99, jun.2005.p.35
segunda-feira, 14 de abril de 2008
mais de Negro Drama
Demorou, mas, está aui mais uma paret da análise de Negro Drama. Partindo de onde eu parei, ou seja o post que está logo abaixo.
Parte II da análise de Negro Drama
A composição dessa imagem é histórica realmente e natural, remete ao próprio estabelecimento das relações em nossa sociedade. Histórica e que se repete, como nas próprias palavras de Mano Brown
Você já nasceu preto, descendente de escravo que sofreu, filho de escravo que sofreu, continua tomando "enquadro" da polícia, continua convivendo com drogas, com tráfico, com alcoolismo, com todos os baratos que não foi a gente que trouxe pra cá. Foi o que colocaram pra gente .
É evidente nesse contexto a relação senzala ontem, favela hoje como o jornalista Bruno Zeni afirma no seu artigo O negro Drama do Rap, segundo Zeni é presente na letra
"A correspondência com a história do Brasil, lugar onde desde o início da colonização, houve o aprisionamento e abate de carne negra e indígena, justificada pela sede do capital [...] como atualmente na periferia das grandes cidades, segundo dizem os Racionais".
A discriminação silenciosa tem suas raízes no chamado mito da cordialidade, a ingênua visão do povo pacífico diante das diferenças e misturas étnicas, sendo o mito uma “narrativa que é solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não se encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade” . Assim tem-se a construção desse país, da cultura senhorial que ainda permeia as relações como afirma Flávio Moura
"Um Brasil idílico foi arraigado no inconsciente do país ao longo dos séculos para tornar um projeto nacional arcaico e mascarar a realidade que ela subjaz: a da iniqüidade e da opressão. Ou seja, por baixo da retórica existe uma sociedade em que relações se dão sempre entre um superior que manda e um inferior que obedece".
E embora a edificação dessas relações tenha a base fincadas nos primórdios do Brasil, quando o negro ainda era escravo e vivia na senzala, o mito tem a funcionalidade de se reinventar em novas situações (ontem senzala, hoje a favela), assim como afirma Marilena Chauí “sob novas roupagens o mito pode repetir-se indefinidamente” .
Nas estrofes seguintes é apresentada uma nova situação, uma possibilidade de reversão desse quadro descrito acima e fundamentado na história. Pretende-se construir um discurso que quebre esse cultural, uma narrativa “onde o lugar do negro seja diferente do que a tradição brasileira indica” .
Uma oportunidade de quebrar esse ciclo natural de desvantagem do negro que, diante da trajetória dos integrantes do grupo foi possibilitada pelo sucesso alcançado através do rap
Eu era a carne,
Agora sou a própria navalha,
Tim, Tim um brinde pra mim,
Sou exemplo de vitórias, trajetos e glórias [...]
Olho para trás e vejo a estrada que eu trilhei,
mo corre ,
Quem teve lado a lado
E quem só ficou na bota
Assim o enunciador é um rapper. Como cantor de rap, ele pôde passar por outro lado, romper a barreira da classe dominante e passar isso para seus iguais. Mas essa superação não se fez de forma fácil, foi e ainda é como uma batalha travada e sua arma é a música (como num trecho de outra música do grupo “minha palavra vale um tiro e eu tenho muita munição”) . Nesse trajeto só os fortes realmente resistem, fortes no sentido do caráter e não força física, aqueles apesar da o status alcançado não esquecem de quem são
"É como se os poetas do rap fossem as caixas de ressonância, para o mundo, de uma língua que se reinventa diariamente para enfrentar o real da morte e da miséria; por isso eles não deixam a favela, não negam a origem".
O dinheiro tira o homem da miséria
mas não pode arrancar de dentro dele a favela
São poucos que entram em campo pra vencer,
a alma guarda o que a mente tenta esquecer
[...]
Negro Drama de estilo,
pra ser se for tem que ser, se temer é milho.
Entre o gatilho e a tempestade,
sempre a provar que sou um homem não um covarde.
Nesse momento a narrativa muda de sentido, o personagem sai do primeiro estado, de negro limitado por sua própria história, por seus 300 anos de escravidão, para um segundo estado proporcionado pelo sucesso que o grupo alcançou, pela possibilidade de lutar por condições melhores e poder utilizar essa forma de comunicação da periferia que é o Rap para fazer algo de bom para sua comunidade, ser “exemplo” para vitória de outros, também, por isso não esquecer nunca quem é, de onde veio. Não se pode arrancar a favela, as raízes desse homem. É justamente ai que está a força dos grupos de rap, ela
"Vem de seu poder de inclusão, da insistência na igualdade entre artistas e público, todos negros, todos de origem pobre, todos vítimas da mesma discriminação e da mesma escassez de oportunidades".
Notas
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
Grifo da autora: remete ao trecho da música “desde o início por ouro e prata”
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004
CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 09
MOURA, Flávio. Chauí e Bianchi contra a ficção dos 500 anos.Disponível em: Fundação Perseu Abramo : Acesso em 6.jul.2005.
CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 10.
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
Mo corre: maior correria
Ficar na bota: ficar para trás, as pessoas que não persistiram no caminho, foram ficando para trás.
BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.
Parte II da análise de Negro Drama
A composição dessa imagem é histórica realmente e natural, remete ao próprio estabelecimento das relações em nossa sociedade. Histórica e que se repete, como nas próprias palavras de Mano Brown
Você já nasceu preto, descendente de escravo que sofreu, filho de escravo que sofreu, continua tomando "enquadro" da polícia, continua convivendo com drogas, com tráfico, com alcoolismo, com todos os baratos que não foi a gente que trouxe pra cá. Foi o que colocaram pra gente .
É evidente nesse contexto a relação senzala ontem, favela hoje como o jornalista Bruno Zeni afirma no seu artigo O negro Drama do Rap, segundo Zeni é presente na letra
"A correspondência com a história do Brasil, lugar onde desde o início da colonização, houve o aprisionamento e abate de carne negra e indígena, justificada pela sede do capital [...] como atualmente na periferia das grandes cidades, segundo dizem os Racionais".
A discriminação silenciosa tem suas raízes no chamado mito da cordialidade, a ingênua visão do povo pacífico diante das diferenças e misturas étnicas, sendo o mito uma “narrativa que é solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não se encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade” . Assim tem-se a construção desse país, da cultura senhorial que ainda permeia as relações como afirma Flávio Moura
"Um Brasil idílico foi arraigado no inconsciente do país ao longo dos séculos para tornar um projeto nacional arcaico e mascarar a realidade que ela subjaz: a da iniqüidade e da opressão. Ou seja, por baixo da retórica existe uma sociedade em que relações se dão sempre entre um superior que manda e um inferior que obedece".
E embora a edificação dessas relações tenha a base fincadas nos primórdios do Brasil, quando o negro ainda era escravo e vivia na senzala, o mito tem a funcionalidade de se reinventar em novas situações (ontem senzala, hoje a favela), assim como afirma Marilena Chauí “sob novas roupagens o mito pode repetir-se indefinidamente” .
Nas estrofes seguintes é apresentada uma nova situação, uma possibilidade de reversão desse quadro descrito acima e fundamentado na história. Pretende-se construir um discurso que quebre esse cultural, uma narrativa “onde o lugar do negro seja diferente do que a tradição brasileira indica” .
Uma oportunidade de quebrar esse ciclo natural de desvantagem do negro que, diante da trajetória dos integrantes do grupo foi possibilitada pelo sucesso alcançado através do rap
Eu era a carne,
Agora sou a própria navalha,
Tim, Tim um brinde pra mim,
Sou exemplo de vitórias, trajetos e glórias [...]
Olho para trás e vejo a estrada que eu trilhei,
mo corre ,
Quem teve lado a lado
E quem só ficou na bota
Assim o enunciador é um rapper. Como cantor de rap, ele pôde passar por outro lado, romper a barreira da classe dominante e passar isso para seus iguais. Mas essa superação não se fez de forma fácil, foi e ainda é como uma batalha travada e sua arma é a música (como num trecho de outra música do grupo “minha palavra vale um tiro e eu tenho muita munição”) . Nesse trajeto só os fortes realmente resistem, fortes no sentido do caráter e não força física, aqueles apesar da o status alcançado não esquecem de quem são
"É como se os poetas do rap fossem as caixas de ressonância, para o mundo, de uma língua que se reinventa diariamente para enfrentar o real da morte e da miséria; por isso eles não deixam a favela, não negam a origem".
O dinheiro tira o homem da miséria
mas não pode arrancar de dentro dele a favela
São poucos que entram em campo pra vencer,
a alma guarda o que a mente tenta esquecer
[...]
Negro Drama de estilo,
pra ser se for tem que ser, se temer é milho.
Entre o gatilho e a tempestade,
sempre a provar que sou um homem não um covarde.
Nesse momento a narrativa muda de sentido, o personagem sai do primeiro estado, de negro limitado por sua própria história, por seus 300 anos de escravidão, para um segundo estado proporcionado pelo sucesso que o grupo alcançou, pela possibilidade de lutar por condições melhores e poder utilizar essa forma de comunicação da periferia que é o Rap para fazer algo de bom para sua comunidade, ser “exemplo” para vitória de outros, também, por isso não esquecer nunca quem é, de onde veio. Não se pode arrancar a favela, as raízes desse homem. É justamente ai que está a força dos grupos de rap, ela
"Vem de seu poder de inclusão, da insistência na igualdade entre artistas e público, todos negros, todos de origem pobre, todos vítimas da mesma discriminação e da mesma escassez de oportunidades".
Notas
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
Grifo da autora: remete ao trecho da música “desde o início por ouro e prata”
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo
CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 09
MOURA, Flávio. Chauí e Bianchi contra a ficção dos 500 anos.Disponível em: Fundação Perseu Abramo :
CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 10.
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
Mo corre: maior correria
Ficar na bota: ficar para trás, as pessoas que não persistiram no caminho, foram ficando para trás.
BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.
terça-feira, 8 de abril de 2008
A análise enfim....
Bom se você lembra da minha primeira postagem sobre o projeto, sabe que ele trata-se da análise do discurso em três letras dos Racionais MC´S bom eu vou começar com a primeira Negro Drama, é uma letra extensa, bem como a análise por isso vou postar em pequenas partes...
Primeira Parte - Negro Drama
Senzala versus Casa-grande: Análise da Música Negro Drama
“Quem mora na senzala não vai confiar nunca em quem morou no casarão. Nunca vai confiar. Dificilmente o Brasil vai ter a colaboração de um com o outro”
Mano Brown (Setembro de 2004)
A música Negro Drama do álbum Nada como um Dia após o outro Dia trata-se de uma narrativa acerca do cotidiano do negro no Brasil, o negro pobre e favelado que, na narrativa, vive na grande “floresta de concreto e aço” que é a cidade de São Paulo. A letra é dividida em duas partes distintas, na primeira Edy Rock discorre sobre “o drama de ser negro”, como sugere o título, já a segunda parte cantada por Mano Brown é relato autobiográfico, o drama particular do MC. O discurso de Mano Brown aparece como um exemplo dos relatos do outro MC, embora o discurso de Edy Rock assuma a primeira pessoa em diversas passagens (O trauma que eu carrego, Eu sou irmão, eu era a carne), somente no início da fala de Mano Brown fica claro a intenção de contar sua própria trajetória.
NEGRO DRAMA entre e o sucesso, e a lama,
dinheiro, problemas, Invejas, luxo, fama.
NEGRO DRAMA cabelo crespo, e a pele escura,
a ferida a chaga, a procura da cura
NEGRO DRAMA, tenta vê, e não vê nada,
a não ser uma estrela, longe meio ofuscada.
Sente o drama, o preço, a cobrança,
no amor, no ódio, a insana vingança [...]
O trauma que eu carrego, pra não ser mais um preto fudido.
O drama da cadeia, favela, túmulo, sangue,
Sirene, choros e velas, Passageiro do Brasil, São Paulo.
No trecho inicial transcrito acima, Edy Rock descreve de forma pontual o paradoxo presente no cotidiano do negro brasileiro através das palavras de cunho positivo sucesso, dinheiro, cura, luxo, fama e negativo lama, problemas, inveja, ferida todos termos inerentes a sua simbologia, seja no desejo do ter ou na realidade, respectivamente. Esse “drama” sofrido pelos negros é lugar comum no cotidiano da favela, porém, a mensagem ganha importância no destino a que ela pretende. As letras de rap costumam ter um receptor de cada mensagem definido
"A voz do cantor/narrador dirige-se diretamente ao ouvinte, ora supondo que seja outro mano - e então avisa, adverte, tenta "chamar à consciência" - ora supondo que seja um inimigo - e então, sem ambigüidades, acusa".
O receptor, implícito nessa música, é as classes alta e média, embora retrate o drama dos negros no Brasil, a letra não possui apenas essa parcela da sociedade como alvo. Algo que é comprovado nos trechos abaixo
Você deve tá pensando,
o que você tem haver com isso [...]
Então olha o castelo e
não foi você quem fez [...]
Hey, Senhor de engenho,
eu sei,bem quem é você é [...]
Admito, seus carro é bonito é,
eu não sei fazer, internet, video-cassete [...]
Hey bacana, Quem te fez tão bom assim [...]
Sobretudo na primeira frase está essa intenção do enunciador, de falar com as classes mais altas e não apenas com o seu igual
"A frase é endereçada a quem os escuta, mas certamente não aos negros, não àqueles que vivem o negro drama, a quem não ocorreria dúvida de que o rapper suspeita haver em seu interlocutor. O verso parece expor a consciência de que, afinal, ele não fala apenas para os seus iguais, mas para uma população mais ampla, talvez a sociedade como um todo".
Na mesma simbologia do negro como representante da classe social mais baixa, a figura do branco aparece como o sujeito da classe dominante. Com a definição dos personagens da narrativa e para quem ela fala começa construí-se a relação entre os dois. Um relacionamento permeado pela tensão, num primeiro momento existe a descrição do drama do negro sempre entre dicotomias presentes nas palavras sucesso e lama, dinheiro e problema, fama e inveja, cura e chaga, o objeto de desejo e aquilo que culturalmente sobra pra ele, como já foi afirmado anteriormente - o paradoxo. Depois a indagação ao outro e a resposta está na própria trajetória do negro como escravo no Brasil
Você deve tá pensando,
o que você tem haver com isso
Desde o inicio, por ouro e prata
Com essa resposta o enunciador busca na tradição a razão da situação desprivilegiada do negro, e o destinatário da mensagem é culpado ao passo que é complacente e fomentador dessa tradição como segue
Me vê ,pobre, preso ou morto,
já é cultural, histórias, registros, escritos,
Não é conto, nem fábula, lenda ou mito,
Não foi sempre dito, que preto não tem vez,
então olha o castelo e não foi você quem fez cuzão..
O tom de agressividade embutido pelo enunciador procura ratificar a figura do negro no imaginário social em que ele está sempre em segundo lugar, embora tenha sido essencial para edificação do país. Algo que já é cultural, embora velado. No trecho comprova-se a forma como a sociedade o vê, comum em certos locais (prisão, periferia) e estados (morto, pobre). Segue-se no trecho o enfoque de que é algo real, inegável e registrado ("histórias, registros, escritos/ Não é conto, nem fábula, lenda ou mito").
Notas
RACIONAIS MC´s. Negro Drama. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56 min 02s), faixa 5 ( 6min 51s)
ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.16
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004.
Primeira Parte - Negro Drama
Senzala versus Casa-grande: Análise da Música Negro Drama
“Quem mora na senzala não vai confiar nunca em quem morou no casarão. Nunca vai confiar. Dificilmente o Brasil vai ter a colaboração de um com o outro”
Mano Brown (Setembro de 2004)
A música Negro Drama do álbum Nada como um Dia após o outro Dia trata-se de uma narrativa acerca do cotidiano do negro no Brasil, o negro pobre e favelado que, na narrativa, vive na grande “floresta de concreto e aço” que é a cidade de São Paulo. A letra é dividida em duas partes distintas, na primeira Edy Rock discorre sobre “o drama de ser negro”, como sugere o título, já a segunda parte cantada por Mano Brown é relato autobiográfico, o drama particular do MC. O discurso de Mano Brown aparece como um exemplo dos relatos do outro MC, embora o discurso de Edy Rock assuma a primeira pessoa em diversas passagens (O trauma que eu carrego, Eu sou irmão, eu era a carne), somente no início da fala de Mano Brown fica claro a intenção de contar sua própria trajetória.
NEGRO DRAMA entre e o sucesso, e a lama,
dinheiro, problemas, Invejas, luxo, fama.
NEGRO DRAMA cabelo crespo, e a pele escura,
a ferida a chaga, a procura da cura
NEGRO DRAMA, tenta vê, e não vê nada,
a não ser uma estrela, longe meio ofuscada.
Sente o drama, o preço, a cobrança,
no amor, no ódio, a insana vingança [...]
O trauma que eu carrego, pra não ser mais um preto fudido.
O drama da cadeia, favela, túmulo, sangue,
Sirene, choros e velas, Passageiro do Brasil, São Paulo.
No trecho inicial transcrito acima, Edy Rock descreve de forma pontual o paradoxo presente no cotidiano do negro brasileiro através das palavras de cunho positivo sucesso, dinheiro, cura, luxo, fama e negativo lama, problemas, inveja, ferida todos termos inerentes a sua simbologia, seja no desejo do ter ou na realidade, respectivamente. Esse “drama” sofrido pelos negros é lugar comum no cotidiano da favela, porém, a mensagem ganha importância no destino a que ela pretende. As letras de rap costumam ter um receptor de cada mensagem definido
"A voz do cantor/narrador dirige-se diretamente ao ouvinte, ora supondo que seja outro mano - e então avisa, adverte, tenta "chamar à consciência" - ora supondo que seja um inimigo - e então, sem ambigüidades, acusa".
O receptor, implícito nessa música, é as classes alta e média, embora retrate o drama dos negros no Brasil, a letra não possui apenas essa parcela da sociedade como alvo. Algo que é comprovado nos trechos abaixo
Você deve tá pensando,
o que você tem haver com isso [...]
Então olha o castelo e
não foi você quem fez [...]
Hey, Senhor de engenho,
eu sei,bem quem é você é [...]
Admito, seus carro é bonito é,
eu não sei fazer, internet, video-cassete [...]
Hey bacana, Quem te fez tão bom assim [...]
Sobretudo na primeira frase está essa intenção do enunciador, de falar com as classes mais altas e não apenas com o seu igual
"A frase é endereçada a quem os escuta, mas certamente não aos negros, não àqueles que vivem o negro drama, a quem não ocorreria dúvida de que o rapper suspeita haver em seu interlocutor. O verso parece expor a consciência de que, afinal, ele não fala apenas para os seus iguais, mas para uma população mais ampla, talvez a sociedade como um todo".
Na mesma simbologia do negro como representante da classe social mais baixa, a figura do branco aparece como o sujeito da classe dominante. Com a definição dos personagens da narrativa e para quem ela fala começa construí-se a relação entre os dois. Um relacionamento permeado pela tensão, num primeiro momento existe a descrição do drama do negro sempre entre dicotomias presentes nas palavras sucesso e lama, dinheiro e problema, fama e inveja, cura e chaga, o objeto de desejo e aquilo que culturalmente sobra pra ele, como já foi afirmado anteriormente - o paradoxo. Depois a indagação ao outro e a resposta está na própria trajetória do negro como escravo no Brasil
Você deve tá pensando,
o que você tem haver com isso
Desde o inicio, por ouro e prata
Com essa resposta o enunciador busca na tradição a razão da situação desprivilegiada do negro, e o destinatário da mensagem é culpado ao passo que é complacente e fomentador dessa tradição como segue
Me vê ,pobre, preso ou morto,
já é cultural, histórias, registros, escritos,
Não é conto, nem fábula, lenda ou mito,
Não foi sempre dito, que preto não tem vez,
então olha o castelo e não foi você quem fez cuzão..
O tom de agressividade embutido pelo enunciador procura ratificar a figura do negro no imaginário social em que ele está sempre em segundo lugar, embora tenha sido essencial para edificação do país. Algo que já é cultural, embora velado. No trecho comprova-se a forma como a sociedade o vê, comum em certos locais (prisão, periferia) e estados (morto, pobre). Segue-se no trecho o enfoque de que é algo real, inegável e registrado ("histórias, registros, escritos/ Não é conto, nem fábula, lenda ou mito").
Notas
RACIONAIS MC´s. Negro Drama. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56 min 02s), faixa 5 ( 6min 51s)
ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.16
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo
segunda-feira, 31 de março de 2008
Depois do Capão, a teoria
Bom essa é a parte do meu trabalho que pode parecer a mais chata. Trata-se de um texto sobre a teoria que eu utilizei para realizar a pesquisa, ou seja, a análise das letras dos Racionias que selecionei. Na próxima já vou postar uma parte da análise de Negro Drama.
Análise do Discurso: base teórica da proposta do projeto.
Esta parte do relatório consiste na apresentação das características gerais da teoria utilizada para análise das letras juntamente com a relação com as temáticas levantadas e as músicas escolhidas, enfim, um capítulo introdutório para a proposta do projeto em si. Assim segue a explicitação, em suma, dos aspectos da análise do discurso.
A análise do discurso compreende o estudo do texto como local de produção de conhecimento, seria a forma como aquele texto significa, como constrói significados, o que ele quer dizer, levando em consideração todo o contexto histórico, social e ideológico do discurso e do sujeito discursivo. Segundo Eni Orlandi “a análise do discurso concebe a linguagem como mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social” . Nesse sentido o discurso presente nas letras dos Racionais busca essa interatividade do homem, negro e pobre, com o ambiente da favela, no cerne da emancipação da própria população da periferia, assim como elucidação daqueles que estão além do mundo periférico.
A produção desse discurso compreende os diversos contextos apontados por Eni Orlandi: o contexto imediato, que consiste na letra da música como o texto puro, o que está escrito ali; o contexto sócio-histórico, que abrange a construção dos sentidos no imaginário social, a relação das mensagens dos textos/letras com o ambiente social e histórico nas quais foram elaborados; e o contexto ideológico compreendendo a ideologia do movimento hip hop, como uma cultura marginal significada nos sujeitos da periferia. Além de discursos paralelos, o não dito diretamente, que também fundamentam a mensagem embutida nas letras
"Todo discurso se estabelece na relação com um discurso anterior e aponta pra outro. Não há um discurso fechado em si mesmo, mas um processo discursivo do qual se podem recortar e analisar estados diferentes".
A análise, por fim, constitui-se no estudo da natureza dos materiais analisados (letras), os elementos desencadeadores ou questões levantadas (as três temáticas) e as teorias e campos semânticos relacionados às temáticas.
Balizada pela teoria da análise do discurso, sumamente demonstrada, essa pesquisa procura fazer uma leitura do discurso dos Racionais por meio das letras selecionadas.
Letras Selecionadas
Para a primeira análise acerca da construção da visão do racismo na obra do grupo, a escolha foi a música Negro Drama do último disco lançado do grupo, Nada como um dia após o outro dia. O tema é constante desde o início dos trabalhos do grupo, como foi citado existe, inclusive, um single do grupo sobre as questões étnicas. Porém, nessa música o posicionamento do grupo está bem desenvolvido e fundamentado, apresentando aspectos históricos e registros atuais.
A relação com a fama e suas conseqüências podem ser constatadas na narrativa de Jesus Chorou, a música escolhida para essa temática e que, também, pertence ao último trabalho lançado. Por trás da narração de um fato cotidiano, o enunciador da música, que no caso é o Mano Brown, apresenta vários indícios dessa relação.
Por fim, a análise dos elementos religiosos e tom messiânico foi realizada sob as perspectivas apresentadas na letra de Capítulo 4, Versículo 3. Essa música diferente das anteriores pertence ao álbum Sobrevivendo no Inferno. De uma forma geral esse trabalho apresenta esses elementos em todas as letras, a escolha da terceira faixa, acima citada, compreende vários aspectos, desde o título, de recorte bíblico, a presença simbólica de Deus e outros elementos religiosos.
Notas
ORLANDI, Eni P. Análise do Discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 2001. p.15
ORLANDI, Eni P.op.cit. p.62
Análise do Discurso: base teórica da proposta do projeto.
Esta parte do relatório consiste na apresentação das características gerais da teoria utilizada para análise das letras juntamente com a relação com as temáticas levantadas e as músicas escolhidas, enfim, um capítulo introdutório para a proposta do projeto em si. Assim segue a explicitação, em suma, dos aspectos da análise do discurso.
A análise do discurso compreende o estudo do texto como local de produção de conhecimento, seria a forma como aquele texto significa, como constrói significados, o que ele quer dizer, levando em consideração todo o contexto histórico, social e ideológico do discurso e do sujeito discursivo. Segundo Eni Orlandi “a análise do discurso concebe a linguagem como mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social” . Nesse sentido o discurso presente nas letras dos Racionais busca essa interatividade do homem, negro e pobre, com o ambiente da favela, no cerne da emancipação da própria população da periferia, assim como elucidação daqueles que estão além do mundo periférico.
A produção desse discurso compreende os diversos contextos apontados por Eni Orlandi: o contexto imediato, que consiste na letra da música como o texto puro, o que está escrito ali; o contexto sócio-histórico, que abrange a construção dos sentidos no imaginário social, a relação das mensagens dos textos/letras com o ambiente social e histórico nas quais foram elaborados; e o contexto ideológico compreendendo a ideologia do movimento hip hop, como uma cultura marginal significada nos sujeitos da periferia. Além de discursos paralelos, o não dito diretamente, que também fundamentam a mensagem embutida nas letras
"Todo discurso se estabelece na relação com um discurso anterior e aponta pra outro. Não há um discurso fechado em si mesmo, mas um processo discursivo do qual se podem recortar e analisar estados diferentes".
A análise, por fim, constitui-se no estudo da natureza dos materiais analisados (letras), os elementos desencadeadores ou questões levantadas (as três temáticas) e as teorias e campos semânticos relacionados às temáticas.
Balizada pela teoria da análise do discurso, sumamente demonstrada, essa pesquisa procura fazer uma leitura do discurso dos Racionais por meio das letras selecionadas.
Letras Selecionadas
Para a primeira análise acerca da construção da visão do racismo na obra do grupo, a escolha foi a música Negro Drama do último disco lançado do grupo, Nada como um dia após o outro dia. O tema é constante desde o início dos trabalhos do grupo, como foi citado existe, inclusive, um single do grupo sobre as questões étnicas. Porém, nessa música o posicionamento do grupo está bem desenvolvido e fundamentado, apresentando aspectos históricos e registros atuais.
A relação com a fama e suas conseqüências podem ser constatadas na narrativa de Jesus Chorou, a música escolhida para essa temática e que, também, pertence ao último trabalho lançado. Por trás da narração de um fato cotidiano, o enunciador da música, que no caso é o Mano Brown, apresenta vários indícios dessa relação.
Por fim, a análise dos elementos religiosos e tom messiânico foi realizada sob as perspectivas apresentadas na letra de Capítulo 4, Versículo 3. Essa música diferente das anteriores pertence ao álbum Sobrevivendo no Inferno. De uma forma geral esse trabalho apresenta esses elementos em todas as letras, a escolha da terceira faixa, acima citada, compreende vários aspectos, desde o título, de recorte bíblico, a presença simbólica de Deus e outros elementos religiosos.
Notas
ORLANDI, Eni P. Análise do Discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 2001. p.15
ORLANDI, Eni P.op.cit. p.62
Assinar:
Postagens (Atom)