terça-feira, 25 de novembro de 2008

Continuação....

Depois de um tempo longe, na verdade o tempo é algo que a cada dia eu tenho menos e acada dia eu queria ter mais. Tenho uma leve sensação de ver a vida passar diante dos meus olhos....será que as promessas de fim de ano se realizam???

Bom dando continuidade, mais uma parte da minha iniciação científica

Faz frio em São Paulo,
pra mim ta sempre bom
Eu to na rua de bombeta e moletom
Din din din rap é o som que
emana dum opala marrom
E aí? Chama Guilherme, chama Bane,
Chama o Dinho e o Kim
Marquinho, chama o Éder
Vamo ai, se os outros mano vem
Pela ordem tudo bem, melhor,
Quem é quem no bilhar, no dominó


Nesse trecho um aspecto do lado bom da favela, os companheiros, aqueles que se chamam de “mano”. Esse tratamento, nas palavras de Maria Rita Kehl, “não é gratuito”, é algo que possui a sua simbologia dentro do universo da linguagem da periferia, e, por conseguinte, na linguagem do hip hop, que procura desfazer os discursos de dominação onde existe um subjugado e um superior, como afirma a psicanalista

"O tratamento de mano não é gratuito. Indica uma intenção de igualdade, um sentimento de fratria, um campo de identificações horizontais, em contraposição ao modo de identificação/dominação “vertical”, da massa em relação ao líder ou ao ídolo. As letras são apelos dramáticos ao semelhante, ao irmão".

No trecho seguinte, o outro lado, aqueles moradores da favela que por motivos declarados na letra se desvirtuaram, entraram no caminho do consumo de drogas

Colou dois manos, um acenou pra mim [...]
Ei Brown, sai fora, nem cola,
Não vale a pena dá idéia pra esse tipo aí
Ontem a noite eu vi na beira do asfalto,
Tragando a morte, soprando a vida pro alto
[...]
Veja bem ninguém é mais que ninguém, veja bem,
veja bem, eles são nossos irmão também
Mas de cocaína e crack, uísque e conhaque,
Os manos morrem rapidinho sem lugar de destaque


Na parte da narrativa transcrita acima existe um diálogo entre Mano Brown e Ice Blue sobre um terceiro “mano” que não merecia sua confiança por ser um viciado. Brown em resposta afirma que não ocupa um papel de julgador, embora, não negue que essas atitudes destroem a integridade do indivíduo. O trecho traz mais algumas referências a elementos religiosos sob o ponto de vista estrutural do discurso, da linguagem, nas falas de complacência e igualdade (ninguém é mais que ninguém, eles são nossos irmão também), que remetem aos conceitos religiosos de aceitação, perdão, igualdade. O que se pode enxergar até esse momento é um dos elementos que cria a cumplicidade dentro do ambiente da periferia expresso no discurso

"Um discurso moral- pontuado por conhecidas imagens e símbolos religiosos que evoca valores comunitários, compartilhadas dúvidas existenciais sobre o sentido da vida e a banalização da morte".

Nesse trecho, também, é possível fazer um recorte sobre existência ainda que de forma implícita, da relação dos integrantes do grupo com o tráfico e consumo de drogas. As posições sobre o assunto são divergentes, no entanto, como já foi explicitado acima, é algo difícil de desvincular do cotidiano da periferia e do rap, que é uma espécie de crônica musicada do ambiente periférico.
Em depoimentos os rappers costumam dizer que se sente como uma fronteira, realmente, entre a polícia e o tráfico, eles são contra o crime, mas muitos que estão nele são pessoas que conhecem desde pequenos, muitos cresceram juntos. Além disso, a ação policial não é o melhor dos exemplos dentro da periferia. Comumente não existe o conflito direito com os traficantes, o respeito é o sentimento prezado, o mesmo não ocorre no relacionamento com a polícia .
Por outro lado, o comportamento apresentado nas estrofes seguintes é “o politicamente correto” afirmado acima pelo jornalista Mário Marques, através de um exemplo de degradação, os enunciadores (Mano Brown e Ice Blue) desse discurso deixam claro o posicionamento adverso em relação ao consumo de drogas.

Você fuma o que vem entope o nariz
Bebe tudo que vê faça o diabo feliz
Você vai terminar tipo o outro mano lá
Que era um preto tipo A
Mó estilo de calça kalvin klein tenis puma eh
Um jeito humilde de ser no trampo e no rolê
Curtia um funk jogava uma bola
Buscava ah preta dele no portão da escola
Exemplo pra nóis mó moral mó ibope
Mas começo cola com os branquinho do shopping
Mano outra vida outro pique
Só mina de elite, balada vários drinque,
Puta de butique, toda aquela porra sexo sem limite.
sodoma e gomorra
Faz uns nove anos,
Tem uns quinze dias atrás eu vi o mano
Se tem que ver pedindo cigarro pros tiozinho no ponto
Dente tudo zuado, bolso sem nenhum conto
O cara cheira mal sente medo
Muito loco de sei lah o que logo cedo
Agora não oferece mais perigo vi
ciado, doente,
fudido, inofensivo

Nessa parte da letra estão inseridas três críticas, ao consumo de droga, ao consumismo desenfreado, e ambos propiciados pela aproximação do “Preto tipo A” com os “branquinhos do shopping”. Assim existe a posição contrária a inserção do “mano” da periferia no circuito mercadológico da classe média e alta que o subverte, o transforma em um “neguinho”.

"O apelo do consumo, do qual os branquinhos são os protagonistas, é uma tentação e sucumbir a ela pode rebaixa-lo da classe A, do seu jeito humilde de ser, para a soberba da ganância e da cobiça. A insistência cínica da publicidade que se impõe sem peias num país miserável".


Constrói-se aí uma crítica aos meios de alienação utilizados pelas classes detentoras do poder, uma tentativa de reverter tudo que os enunciadores buscam através da narrativa presente nos raps - propiciar uma emancipação do indivíduo (negro e morador da periferia) através autoconhecimento e autovalorização. O último trecho deixa claro essa intenção de manipulação que as classes mais altas possuem (agora não oferece mais perigo viciado [...] inofensivo) . A manipulação e alienação promovidas por essa parcela da sociedade têm justamente a função de evitar o “efeito colateral” que o próprio sistema cria, que nada mais são que estes indivíduos pensantes da periferia, “os cronistas do gueto”.
Quanto à presença de elementos religiosos nesse trecho, tem-se aí a figura do Diabo, simbolismo de uma situação limite, da passagem da fronteira do inferno. Nessa parte existe a continuidade da exposição do lado ruim do ambiente periférico, aqui representado pela “tentação”, mais um termo de simbolismo religioso, aos luxos oferecidos de maneira mal intencionada pelos “branquinhos”.
Na seqüência a narrativa muda o cenário sem deixar a crítica ao consumismo, o bombardeio diário das publicidades. A ostentação daquilo que os garotos da periferia foram ensinados a ver e desejar e parar por aí. A partir daí vem a escolha, escolha musicada e cantada por Afro-X em outra música dos Racionais “O sistema limita a nossa vida de tal forma que eu tive que fazer a minha escolha sonhar ou sobreviver...porém o capitalismo me obrigou a ser bem-sucedido..em busca do meu sonho de consumo procurei dá uma solução rápida e fácil para os meus problemas: o crime”.


Notas


Bombeta: boné.

KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
Grifo da autora.

NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90, p.66-83, nov.2001. p.71

Informações retiradas de depoimentos de Edy Rock (Jornal da Tarde 2/12/97); Mano Brown (Caros Amigos Especial 3) e MV Bill (Revista Democracia Viva, nov/fev 2001) transcritos em:
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.

ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004. Grifos da autora.

RACIONAIS MC´s; AFRO-X. A vida é desafio. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56min 02s), faixa 10 (7min 13s).

domingo, 24 de agosto de 2008

textos de outros...

Esse é do Fernando Bonassi, de um roteiro para Teatro chamado Centro Nervoso...ótimo sobre a dor...

"Onde a dor dói depende de onde a dor foi, por onde a dor vem e pra onde ela vai. Poeque a mesma dor está indefinidamente de passagem por lugares diferentes. Há dores que os doutores sabem explicar perfeiamente, mas não conseguem retirar a dor de parte do doente. É o luxo de uma falação. Uma luxação, ou paenas uma teoria do que a dor doeria, já que uma dor referida em geral não doí mais. Assim, em tese, também não doí menos, por não resistir a qualquer referência, considerando que qualquer dor é uma insistência de e imolar, rebolar, revirar, mas persistir em alguma coisa. Há casos de dores qie nos acomentem em membros ausentes e por pessoas distantes que nem se amolam de se lembrar da gente! Mas as dores incomodam sem parar quando se para pensar em seu movimento renitente. Você pode nem se lembrar que doí até que sente a dor vibrar internamente. Pode ser num dente cariado que quer mastigar o alimento, no estômago enjoado que não consegue digerir um condimento ou na mente perturbada que não consegue decifrar o pensamento que teima em latejar os seus tormentos, pode ser uma dor o corno de quem procura sarna para se coçar, o gozo manhoso do masoquista que gosta de apanhar, o caroço caloso de um tumor no osso, um quisto sebáceo no pescoço chupado, um braço fraturado ou o ombro destroncado, como um Cristo viciado que tivesse carregado uma cruz de pecados e não pudesse despejar os próprios cacos no regaço de um buraco.
é bom dar atenção que a dor é um aviso. A sinalização de um prejuízo que ainda vai acontecer. É uma dor de matar, mas que não chega a morrer, porque o objetivo dessa dor não é se curar, mas permanecer para irritar, complicar, interferir e destruir. É uma dor de cabeça qu eu vou te contar. Um boneco de arame que se amassa. Um vexame que se passa. Uma bosta já basta. Uma miragem que se atravessa. Uma tatuagem que se aplica na testa.
Há uma dor generalizada, criada perlo deprimido para se parofundar em nada. Uma dor de marmelada, mas que pode doer tanto como uma facada no peito. Todos temos um coração a zelar, zerar ou gelar, conforme queiram uns e outros, que preferem esquecer para não sofrer. A memória é fraca para suportar o peso de tanto desamor. É uma deção feia, que bate no ponto nevrálgico de um cartão de compromissos mixos, salários baixos e um profissionalismo ridículo, conformando ume stado de nervos com as contas a pagare as migalhas a receber. Há muita dor em sobreviver nessa situação. À condição de quem já lutou pelo ócio, resta apenas implorar pela droga do vício do trabalho. "Quem paga o pato não o saboreia", doz a velha sabedoria. A dor em si é antiga e sentida por todo os antepassados que herdaram problemas heriditários, mas continua moderna essa dor de preocupação constante e chata, que insiste sem parar até encontrar a localização exata da casca para cutucar e doer a sua natureza. é uma dor localizada com certeza, mas que no isntante que se toca com a mão, a irritação da esfregação das asperezas se espalha pela espinha, por condutas infinitas, terminações nodosas, amarrações confusas e combinações torturantes. Não tem começo a mecha que detona a bomba desse processo. é o susto de uma explosão súbita, como a tensão incendiária de uma dúvida, uma pergunta que não cabe na conjuntura, mas que dura uma eternidade. No entanto, nós insistimos nas apostas. A que será que se destina? Fincar. Fincar. Espremer. Roer até doer ... E assim, esperando essa dor passar, se aprende a deixar a dor doer...Aliás, a dor é uma palavra tão pequena que só mesmo esse dó maior pode ser menor que ela...
Boa noite...
E tentem descansar....apesar do senhor que os acompanha".

Continuando a saga

Mais do meu trabalho de IC parei em Jesus Chorou...e agora continua...caminhando para o fim...
A profecia se fez como previsto

Análise da música Capítulo4, Versículo 3 .


“Devo ter muito inimigo por aí. É que Deus me guarda. Acho que ele sabe das minhas intenções que são boas. Minha intenção é boa.”
Mano Brown (Março de 2003)

Antes de realizar a análise da presente letra é preciso contextualizar o álbum do qual essa música faz parte, uma vez que esse contexto remete a temática analisada, ou seja, os elementos religiosos e o tom messiânico presentes no discurso dos Racionais.
Sobrevivendo no Inferno é o quarto disco dos Racionais, lançado em 1997. O álbum representou a transposição das barreiras da periferia, o rap passou de arte marginal dos subúrbios paulistanos para as paradas de sucesso de várias rádios da cidade, com direito a prêmio de melhor clipe de rap, com o clipe de Diário de um Detento, no Vídeo Music Brasil promovido pela MTV Brasileira.
Quanto a temática, o álbum traz a vida entre o céu e o inferno, metáfora que remete a melhora de vida alcançada, que pode ser representada pelo sucesso com o rap ou ainda as melhorias que o rap e os outros elementos da cultura hip hop propiciaram a periferia - o céu- e as mazelas, injustiças e miséria que ainda fazem parte do cotidiano periférico - o inferno. Assim as letras desse trabalho passeiam por esses dois mundos de forma lírica e recheada de elementos metafóricos que lembram as profecias religiosas.


"Em Sobrevivendo no Inferno [...] discurso torna-se messiânico. Nele, o céu e o inferno, Deus e o Diabo travam uma luta sem trégua na consciência do periférico, que vivendo no mundo das incertezas e simulações não visualiza outra saída senão a de cuidar de si e dos parceiros de batalha".

Versículo 4, capítulo 3 segue a tendência de todo o álbum, apresenta elementos alegóricos do céu e do inferno, viaja entre o mundo da bíblia e da pistola (crime). A escolha dessa música vai além dela possuir esses elementos para análise. A letra sob o pano de fundo de um tom messiânico, algo como a enunciação de uma profecia, aborda as temáticas trabalhadas nas letras anteriores. Assim essa análise faz um retrocesso das anteriores, confirmando a presença desses pontos levantados em várias obras do grupo, porém, em uma linguagem peculiar caracterizada por elementos religiosos.

Minha intenção é ruim, esvazie o lugar.
Eu to em cima, eu to afim.
Um, dois pra atira.
Eu sou bem pior do que você está vendo
A primeira faz pum, a segunda faz ta.
Eu tenho uma missão e não vou parar.
Meu estilo é pesado e faz tremer o chão
Minha palavra vale um tiro e
eu tenho muita munição
[...]
Minha atitude vai além e
Tem disposição pro mal e pro bem


Assim como nas outras músicas o primeiro locutor é representado por Mano Brown, que vai construindo suas falas em cima dessa dualidade céu e inferno, num discurso maniqueísta, sua personalidade “tem disposição pro mal e pro bem”. No entanto, a palavra é a verdadeira arma dele como explicita acima. Os termos “missão” e “minha palavra” logo no início já indicam a característica profética desse discurso. Ele tem uma mensagem para passar aqui e nada pode o deter isso, palavras muito importantes que beiram a força de um tiro. O enunciador exerce assim um papel semelhante de um profeta, que pode ter sua mensagem interpretada para atitudes benéficas como para ações ruins, dependendo para quem se destina e quem assimila essas palavras.
Na seqüência o enunciador segue com a ambientação dos elementos contraditórios, maniqueístas.

Talvez eu seja um sádico, um anjo
Juiz ou réu
Bandido do céu
Malandro ou otário
Insano ou marginal,
Antigo e moderno
Fronteira do céu ou inferno
Verso violentamente pacífico


O uso dos termos contrários (anjo, sádico; juiz, réu; etc) além de seguirem a trajetória da narrativa de representar os dois mundos céu e inferno, e o rap como a linha tênue entre esses dois espaços, indica como o próprio enunciador é visto, como ele pode ser classificado de acordo com quem o classifica. Para os críticos de sua mensagem, ou seja, os críticos do rap, ele é o sádico, o réu, o bandido.
Muitas vezes se questionou uma tendência de exaltação do crime por parte das letras de rap, não só do grupo, mas de todos os grupos em geral, na mídia. As narrativas, que retratam a crueza da vida periférica sem concessões para a violência que é parte integrante desse cotidiano, sofrem críticas justamente nesse ponto, de mostrar a verdade.Característica que é mascarada de culto a violência pelos críticos mais taxativos.

"Existem críticas sobre a maneira ambígua como traficantes e bandidos aparecem nas letras das músicas e nos clipes. Referindo-se aos Racionais, afirmou o jornalista Mário Marques: “Eles são politicamente corretos, são contra drogas, mas não chegam a condenar explicitamente o crime por saberem que o meio em que vivem não é exatamente favorável a uma rotina alheia à marginalidade".

Já os outros termos parecem indicar a forma como os rappers são vistos pelas pessoas da sua comunidade que os admiram, assim como os outros os ativistas do movimento hip hop, aqueles que de alguma forma a cultura hip hop trouxe benefícios. Por isso talvez ele seja um sádico ou um anjo, o adjetivo de sua personalidade é definido conforme a interpretação da sua mensagem e quem realiza essa interpretação. Assim a duplicidade é contínua na presença de dois ouvintes, assim sendo duas interpretações e duas intenções (pro bem e pro mal)

"A música cunha imagens contraditórias e agressivas [...]se volta para o ouvinte, aquele que é seu igual e seu inimigo, aquele a quem pretende aconselhar ao mesmo tempo que confundir, sabotando o raciocínio, abalando os sistemas vitais".

Na continuidade da narrativa a idéia de profecia, de força da palavra nesse discurso é explicitada nos versos seqüentes.


E a profecia se fez como previsto.
1997 depois de Cristo
A fúria negra ressuscita outra vez
Racionais, capitulo 4, versículo 3
Aleluiaaa, Racionais no ar...


Nesse momento a inserção do grupo na missão anunciada no início da letra, é o papel do grupo de rap Racionais na mensagem que está sendo “profetizada”. O previsto seria a volta do grupo que desde de 1993 não gravava um disco, após cinco anos, ou seja, “1997 depois de Cristo” a “fúria negra” (adjetivação dada pelos próprios integrantes) volta com essa mensagem, localizada no Capitulo 4 (referência ao quarto álbum), Versículo 3 (referência ao número da música no álbum). A localização da música, que também é seu título, é feita do mesmo modo que as mensagens bíblicas, mas um referente do discurso profético, de “recorte bíblico” . A finalização desse trecho com o termo Aleluia ressalta essa característica de missão, de palavra a ser proferida e que é “louvada”.
Na seqüência, desse início de estilo definidamente profético em diversos termos e trechos explicitados acima, o enunciador volta a descrição do ambiente periférico, mas uma vez apresentando dois lados da mesma face, a face do dia-a-dia na periferia.

Continua...

Notas

BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.
Alguns trechos da letra foram suprimidos. A letra inteira segue em anexo.

ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.16

NETTO, José Apóstolo. Dos Racionais aos Emocionais Emecis: um olhar marginal da relação música, favela e dinheiro, ago.2003. Disponível em: Espaço Acadêmico: Acesso em: 16 fev. 2005

NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90, p.66-83,nov.2001. p.71

ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.200

Termo utilizado pelo jornalista Bruno Zeni na definição do título da música.

Bombeta: boné.

"Tempo, tempo, tempo faço um acordo contigo"

Nossa...quanto tempo, tempo que não escrevo, na verdade escrevo e muito todos os dias, virei até ghost writter...mas é DA REDAÇÃO o nome certo.
Mas o tempo se esvai para escrever aqui. Minha mente já não funciona da mesma forma, não sobra criatividade, não sobra vontade.
E algumas coisas vão ficando no caminho...o mestrado, será? Tinha que estudar...tinha que fazer tantas coisas..."Tempo, tempo, tempo eu faço um acordo contigo" me dê um dia de 30 horas que eu mudo o mundo...

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Aprendendo

Uma coisa que eu aprendi nesses dias
- Não se vive sem Internet, não se trabalha, não se comunica, não se manda o material necessário sem essa bendita web.
Eu nem mesmo poderia estar dizendo isso aqui se não fosse a Internet. Você pensa em escrver algo, uma crônica quem sabe, como as meninas que trabalham comigo sugeriram, uma crônica de como nossa vida mudou com rede de informações, interatividade, e de transmissão e disseminação de besteiras, não podemos ser utópicos, enfim, eu posso até escrever essas linhas, no word mesmo,no entanto, de nada adianta porque não posso mandá-la para ninguém sem Internet. E hoje com essas possibilidades, o importante é publicar. Só se publica se tiver Internet. Tudo bem você pode publicar no jornal, mas, você não mandou o seu texto por email para o editor? É não tem jeito a nossa vida está enroscada nas "redes" da web.
Sem a rede vivemos um isolamento provocado pela nossa própria ânsia de comunicar tudo e a todos.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

próximo capítulo

No próximo post eu começo a análise da última música...Capítulo4, Versículo3

explicações a parte e mais do projeto

Olá...faz um tempinho que não escrevo, estou um pouco aterefada esses dias e estou prestes a sair do desemprego, toma que eu traga notícias boas aqui na próxima semana. Bom continuando a dose Racionais MC´S eu posto agora mais uma parte do meu relatório.

Continuando a análise de Jesus Chorou

Mesmo a figura de Jesus, em partes da letra, como a transcrita acima, e no próprio título remete a idéia de traição. Segundo os evangelhos - a figura de um líder, que lutou por um ideal e foi traído por aqueles pelo quais lutava e entregue por um discípulo seu, história que é conhecida através do Novo Testamento da Bíblia. Algo semelhante, em escala menor e em outro contexto, é claro, ao que ocorre com o enunciador do discurso.

Nas estrofes seguintes segue essa visão que vai se sedimentando com mais exemplos, enquanto Brown pensa “mil fitas”, mais e mais pessoas da sua comunidade vão gerando o sentimento de frustração e dor no enunciador, por suas atitudes vazias, por seus conselhos que vão à margem contrária de tudo que ele acreditou até o momento como ético.

Periferia- corpos vazios e sem ética
lotam os pagodes rumo a cadeira elétrica.
Eu sei você sabe o que é frustação
máquina de fazer vilão...
eu penso mil fita, vou
enlouquecer...
e o piolho diz assim quando me vê: - Famoso pra
caráio, durão, ih truta
faz seu mundo não Jão,
a vida é curta..
só modelo por ai dando boi...
Rasgar as madrugadas só de mil e cem..
se sou eu truta hã, tem pra ninguém...


No trecho acima o enunciador aponta a falta de perspectivas das pessoas da periferia nos primeiros versos, a cadeira elétrica como símbolo da cadeia, do lugar onde o crime os leva, os pagodes como atividades vazias que vivem lotadas. Tem-se ai um desabafo sobre essas atitudes, não como um tom de censura, mas de frustração, como ele cita na frase posterior. A frustração é outro sentimento frisado nessa letra. A decepção de não atingir as pessoas com a sua mensagem como ele pretendia, através da criação de uma cultura emancipadora diferente de simplesmente freqüentar “o pagode”.

E para finalizar essa parte, mas um exemplo de um indivíduo da sua comunidade que se posiciona de forma crítica ao discurso empregado por Brown. Mas uma vez o enunciador é “aconselhado” a vestir a sua imagem de celebridade e aproveitar o seu status alcançado, sem esse idealismo de fazer para e pela periferia, de retorno sempre às raízes.
O retorno, a importância de ser um indivíduo da favela e de certo modo ter orgulho da sua comunidade é algo intrínseco ao discurso dos Racionais, alguns trechos de músicas do grupo dão veracidade a essa afirmação

O dinheiro tira o homem da miséria, mas não pode arrancar de dentro dele a favela.

A minha área é tudo o que eu tenho. A minha vida é aqui e eu não consigo sair. É muito fácil fugir, mas eu não vou. Não vou trair quem eu fui, quem eu sou. Eu gosto de onde eu vou e de onde eu vim, ensinamento da favela foi muito bom pra mim .

Na rua eu conheço as leis e os mandamentos .

A toda comunidade da zona sul. Mês de janeiro São Paulo Zona Sul
Todo mundo à vontade calor céu azul. Eu quero aproveitar o sol Encontrar os camaradas pra um basquetebol .



Justifica-se novamente nesse momento a dor de Brown expressa em toda a letra de Jesus Chorou, diante da importância que aquelas pessoas representam pra ele, com exceção do primeiro indivíduo que o criticou, que não era daquela área. A constatação, através dos fatos e palavras de que tudo o que acredita parecia não ser o caminho certo para elas, criou, como já foi dito, uma crise de consciência no enunciador.

Nas falas de todos os interlocutores percebe-se que a presença da fama, do dinheiro e do status alcançado pelo enunciador é o desencadeador dessas opiniões, por isso esse discurso personificado na letra de autoria de Brown refletir a relação dele e dos demais integrantes do grupo com o sucesso alcançado. Um misto de frustração, desilusão e revolta.

A trajetória do grupo deixa evidente que eles sempre procuraram a independência em relação à indústria fonográfica, possuem seu próprio selo, sua gravadora, seus meios de distribuição, evitam a exposição em grandes mídias. Ações de visionários, de pessoas que previam a apropriação dos elementos da cultura hip hop pelo mercado. Por outro lado, o que se tem registrado nesse relato de Brown é a fragilidade dele ao lidar com isso quando sai desse meio de controle. No momento em que a roupagem de celebridade é colocada pelas pessoas da sua comunidade e, como já foi dito, as suas verdades são taxadas de hipocrisia (Famoso pra caráio, durão, ih truta faz seu mundo não Jão, a vida é curta/ periferia nada, só pensa nele mesmo, montado no dinheiro e vocês aí no veneno).

O enunciador encerra a música voltando-se para o único apoio que parece existir naquele momento, a sua fé.

Se só de pensar em matar já matou
Prefiro ouvir o pastor: Filho meu,
Não inveje o homem violento
E nem siga nenhum dos seus caminhos...
Lágrimas...
Molha a medalha de um vencedor
Chora agora ri depois,
Ae, Jesus Chorou!


O aparecimento da fé nesse momento vem como algo que dá o suporte, o apoio como em outra música do grupo “aquele que não deixa o mano aqui desandar” . Diante dos percalços apresentados no decorrer da narrativa, a desilusão com seus companheiros e, também, com sua mãe que desacreditaram em algum momento do seu discurso e de seu projeto a favor da comunidade, o que resta ao enunciador é “ouvir o pastor”. Nessas frases pode-se ver um pouco da relação de integrantes do grupo com a fé, com a religião. Recorte analisado mais profundamente na próxima letra, no entanto, tem-se um indício dessa relação de proteção, de apoio diante de situações adversas.

Os versos finais vêm com tom de otimismo, o velho ditado chora agora ri depois deixa claro essa intenção, uma espécie de presságio. Toda a dor expressada nessa letra terá sua recompensa, seu valor será mostrado.

Nesse momento o enunciador ressalta a sua esperança no movimento, na sua caminhada no cenário musical do rap. A qualquer momento isso será reconhecido da forma que se deve: uma cultura marginal que tem as diretrizes para causar uma melhora nas condições da vida na periferia, em virtude de todas as características do movimento que já foram apresentadas até aqui.

Assim a narrativa se encerra, com as lágrimas sendo uma exteriorização, também, da felicidade (“as lágrimas molham a medalha do vencedor”), seguindo o tom mais otimista das estrofes finais.


NOTAS

RACIONAIS MC´s. Negro Drama. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56 min 02s), faixa 5 ( 6min 51s)

BROWN, Mano. Fórmula Mágica da Paz. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 11.

RACIONAIS MC´s. Na fé irmão. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56 min 02s), faixa 7 (6min 05s)

ROCK, Edy; BROWN, Mano. Fim de semana no parque. In: RACIONAIS MC´s. Raio-X Brasil. São Paulo: RDS Fonográfica, p.1993. 1 CD. Faixa 1.

BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.