Prometi que ia escrever, não acho chato como Chico Buarque disse na Flip, embora eu ache que sendo ele, pode ser dito o que quiser, já que está no patamar de inquestionável.No entanto, escrever é algo muito difícil quando se quer colocar em palavras algo que não seja simplesmente só algumas linhas de "nadismo", e, o tempo não tem reservado muitas horas para mim.
Mas, ontem, algo diferente aconteceu. Eu estava às 19h30 no trabalho ainda, tentando resolver um impasse e sem achar uma solução. Depois de 11 horas e meia de trabalho isso pode ser difícil mesmo. Foi quando uma pessoa iluminada me disse, por que você precisa resolver isso agora? Respondi: Porque quero fazer a matéria no final de semana. Ecoou a pergunta: No final de semana???
Não dá para descrever tudo que foi dito depois, mas, tento lembrar das palavras, sempre, como um comando, uma ordem, para não deixar de ser eu e me tornar meu trabalho. Para continuar a luta de não me resumir a releases, follows, clippings e relatórios de inutilidades.
Um das partes da conversa mais significativas - "É uma condição temporária, algo que temos que passar para chegar onde queremos". Mas, aí está uma questão importante - Onde quero chegar? Não saber onde se quer chegar tem pontos positivos e negativos.
Negativos - fica difícil definir que caminho seguir para alcançar o destino que se quer chegar; existe uma dificuldade imensa de definir prioridades; é angustiante não saber o que quer.
Positivos - você está aberto às possibilidades, assim tem mais chances de conhecer diferentes caminhos e um deles pode ser o que espera; quando não se sabe bem onde chegar, qualquer ponto que se chegue é uma vitória.
Entre pontos negativos e positivos, está de certa forma o caminho que sigo no momento. Não é ideal, não é como esperava, não é gratificante na maior parte do tempo, os dias costumam passar sem grandes paixões, no entanto, é um caminho, é uma passagem e por ela que passo agora. E sempre encontro no meio das andanças sem rumo pessoas inspiradoras, que amam profundamente aquilo que fazem e sabem como transmitir essa paixão e influenciar quem está por perto. A irradiação da energia positiva.
E entre um mês ou outro, posso escrever aqui, mesmo que ninguém leia e posso postar meus 140 caracteres a hora que quiser no twitter, embora ainda não saiba como lidar com essa rede, saber tudo que oferece e como aproveitar os canais de comunicação da melhor forma possível.
O abandono existe, e não acontece apenas uma vez, no entanto, há sempre a volta, o resgate daquilo que acreditamos ser verdadeiro dentro de nós. Como o ato de escrever.
Eu...algumas palavras que me definem: jornalista, apaixonada, insegura, ansiosa, amiga...um sentimento que me move todos os dias: saudade..saudade imensa de tudo que eu vivi, que eu vivo e que eu vou viver...fiz isso para poder escrever, uma coisa que eu gosto, desde criança...deve ser por isso que escolhi ser jornalista...
sábado, 4 de julho de 2009
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
tem mais
Outra matéria para o Caderno Ser...
Eles também estão na moda
Cada vez mais atentos às tendências, os homens tornam-se o público-alvo das grandes grifes e boutiques
Já foi o tempo em que mães e esposas eram as responsáveis pelo guarda-roupa dos filhos e maridos. Em uma realidade onde a aparência é muito valorizada, o vestir-se bem passou a ser regra entre os homens e o surgimento do chamado metrossexual quebrou alguns “tabus” da ala masculina na relação com a moda.
De acordo com Odil Zeper (o Juba), consultor e docente da área de moda do Senac Bauru, desde a década de 60 o homem vem conquistando o seu espaço, no entanto, só nos últimos anos essa preocupação passou a ser significativa na vida do homem comum, no seu dia-a-dia pessoal e profissional. “Atualmente encontramos um homem versátil, que faz da sua imagem o seu maior cartão de visitas. A máxima é parecer um pouco mais jovem e os recursos são buscados em corpos malhados, alimentação saudável e uso de cremes. E isso se reflete na escolha das roupas e na definição do estilo. Este homem se preocupa com bons ternos e grandes grifes, por exemplo, para sublinhar seu poder de sedução e de mercado”, completa.
Para Maurício Lobo, consultor de moda masculina do Senac São Paulo, a evolução da mulher e a mídia foram um dos principais impulsionadores da mudança do comportamento do homem moderno. “A mídia foi a mola propulsora para a difusão do comportamento do homem moderno. Porém, a mudança foi impulsionada pela evolução da sociedade, a postura da mulher moderna que ganha espaço no mundo corporativo, disputando os mesmos cargos com o homem. Isso exigiu do homem repensar o seu próprio estilo. A mulher trouxe para esse universo a elegância e a valorização da imagem, e o homem percebeu que se não acompanhasse as mudanças estaria fora do mercado”.
O novo comportamento do homem em relação à moda tem reflexos no mercado do segmento. Encontramos hoje grifes especializadas, bem como marcas já renomadas e grandes boutiques que se renderam ao universo masculino e passaram a investir no setor.
“Hoje o segmento masculino é o que mais cresce. Não só em questão do vestuário, mas a indústria de cosméticos, acessórios para o homem também tem se desenvolvido. O homem está descobrindo que ele pode utilizar esses produtos, pode se vestir bem sem perder a sua masculinidade”, afirma Lobo. Tudo isso respaldado e fomentado por lançamentos editoriais também voltados para eles.
Espaço para eles
Proprietária há 25 anos de uma boutique em Bauru, Tânia Capelini sempre trabalhou com a moda masculina, mas a mudança no perfil do homem moderno fez com que a empresária investisse na ampliação do espaço reservado a eles na loja. “O perfil do público masculino mudou nos últimos anos. A vaidade deixou de ser um assunto polêmico entre os homens, inevitavelmente essa mudança influenciou na maneira com que ele se veste, e a atenção que dedica à moda. Nesse sentido reparamos um movimento crescente de homens em nossa loja, cada vez mais exigentes com as peças que vão usar, buscando novidades para o dia-a-dia ou ocasião especial”, ressalta Tadeu Dias Capelini, responsável pelo setor de moda masculina da boutique.
A mudança no perfil do consumidor masculino refletiu inclusive nos lucros do empreendimento. De 2007 para 2008, a boutique apresentou um aumento de 20% nas vendas de roupas masculinas e atualmente o setor representa de 20% a 30% do total da loja. “Estamos investindo bastante nesse setor, oferecendo marcas exclusivas e de qualidade. Nossa expectativa é manter esse aumento no ano que vem”, completa Capelini.
Clientes exigentes
Os homens se revelam, inclusive, um consumidor mais exigente que as mulheres, por isso a tendência das boutiques, redutos de marcas de luxo e grifes renomadas, disponibilizar uma atenção especial a essa clientela. “O público masculino tem exigências próprias e muitas vezes é mais criterioso que o feminino, a qualidade do fio, o tecido, o corte, o caimento são exigências. Estamos sempre atentos às particularidades e necessidades do homem contemporâneo, buscando trazer novidades aliadas à qualidade”, afirma Capelini.
Aspectos valorizados pelo advogado Leandro Megale Pizzo na hora de comprar suas roupas. Cliente da loja há quatro anos, Pizzo atribui o seu interesse pelas grifes e peças de qualidade à irmã, Adélia Pizzo, que cursou faculdade de moda. No entanto, ressalta ser essa uma característica cada vez mais exigida dos homens.
“Tenho uma irmã que estudou moda, então de certa forma sempre convivi com a preocupação de me vestir bem, sempre comprei minhas roupas e procurei me informar sobre as tendências. E, hoje em dia, é importante esse cuidado com a aparência, inclusive profissionalmente. É o nosso cartão de visitas”, afirma.
O empresário José Hermínio Canella compartilha o seu gosto pela moda com os filhos Daniel e Thomaz. De acompanhantes da esposa e mãe nas compras na boutique, os três tornaram-se clientes e mostraram que o interesse e o conhecimento das tendências não têm idade e passa de pai para filho.
“Hoje em dia existe uma difusão crescente de informação do segmento de moda masculina e os homens estão mais atentos às novidades e tendências não só das roupas como dos demais produtos específicos para esse público. Essa preocupação com a aparência e valorização da vaidade masculina têm se refletido, inclusive, nas gerações mais novas”, conclui Canella.
Eles também estão na moda
Cada vez mais atentos às tendências, os homens tornam-se o público-alvo das grandes grifes e boutiques
Já foi o tempo em que mães e esposas eram as responsáveis pelo guarda-roupa dos filhos e maridos. Em uma realidade onde a aparência é muito valorizada, o vestir-se bem passou a ser regra entre os homens e o surgimento do chamado metrossexual quebrou alguns “tabus” da ala masculina na relação com a moda.
De acordo com Odil Zeper (o Juba), consultor e docente da área de moda do Senac Bauru, desde a década de 60 o homem vem conquistando o seu espaço, no entanto, só nos últimos anos essa preocupação passou a ser significativa na vida do homem comum, no seu dia-a-dia pessoal e profissional. “Atualmente encontramos um homem versátil, que faz da sua imagem o seu maior cartão de visitas. A máxima é parecer um pouco mais jovem e os recursos são buscados em corpos malhados, alimentação saudável e uso de cremes. E isso se reflete na escolha das roupas e na definição do estilo. Este homem se preocupa com bons ternos e grandes grifes, por exemplo, para sublinhar seu poder de sedução e de mercado”, completa.
Para Maurício Lobo, consultor de moda masculina do Senac São Paulo, a evolução da mulher e a mídia foram um dos principais impulsionadores da mudança do comportamento do homem moderno. “A mídia foi a mola propulsora para a difusão do comportamento do homem moderno. Porém, a mudança foi impulsionada pela evolução da sociedade, a postura da mulher moderna que ganha espaço no mundo corporativo, disputando os mesmos cargos com o homem. Isso exigiu do homem repensar o seu próprio estilo. A mulher trouxe para esse universo a elegância e a valorização da imagem, e o homem percebeu que se não acompanhasse as mudanças estaria fora do mercado”.
O novo comportamento do homem em relação à moda tem reflexos no mercado do segmento. Encontramos hoje grifes especializadas, bem como marcas já renomadas e grandes boutiques que se renderam ao universo masculino e passaram a investir no setor.
“Hoje o segmento masculino é o que mais cresce. Não só em questão do vestuário, mas a indústria de cosméticos, acessórios para o homem também tem se desenvolvido. O homem está descobrindo que ele pode utilizar esses produtos, pode se vestir bem sem perder a sua masculinidade”, afirma Lobo. Tudo isso respaldado e fomentado por lançamentos editoriais também voltados para eles.
Espaço para eles
Proprietária há 25 anos de uma boutique em Bauru, Tânia Capelini sempre trabalhou com a moda masculina, mas a mudança no perfil do homem moderno fez com que a empresária investisse na ampliação do espaço reservado a eles na loja. “O perfil do público masculino mudou nos últimos anos. A vaidade deixou de ser um assunto polêmico entre os homens, inevitavelmente essa mudança influenciou na maneira com que ele se veste, e a atenção que dedica à moda. Nesse sentido reparamos um movimento crescente de homens em nossa loja, cada vez mais exigentes com as peças que vão usar, buscando novidades para o dia-a-dia ou ocasião especial”, ressalta Tadeu Dias Capelini, responsável pelo setor de moda masculina da boutique.
A mudança no perfil do consumidor masculino refletiu inclusive nos lucros do empreendimento. De 2007 para 2008, a boutique apresentou um aumento de 20% nas vendas de roupas masculinas e atualmente o setor representa de 20% a 30% do total da loja. “Estamos investindo bastante nesse setor, oferecendo marcas exclusivas e de qualidade. Nossa expectativa é manter esse aumento no ano que vem”, completa Capelini.
Clientes exigentes
Os homens se revelam, inclusive, um consumidor mais exigente que as mulheres, por isso a tendência das boutiques, redutos de marcas de luxo e grifes renomadas, disponibilizar uma atenção especial a essa clientela. “O público masculino tem exigências próprias e muitas vezes é mais criterioso que o feminino, a qualidade do fio, o tecido, o corte, o caimento são exigências. Estamos sempre atentos às particularidades e necessidades do homem contemporâneo, buscando trazer novidades aliadas à qualidade”, afirma Capelini.
Aspectos valorizados pelo advogado Leandro Megale Pizzo na hora de comprar suas roupas. Cliente da loja há quatro anos, Pizzo atribui o seu interesse pelas grifes e peças de qualidade à irmã, Adélia Pizzo, que cursou faculdade de moda. No entanto, ressalta ser essa uma característica cada vez mais exigida dos homens.
“Tenho uma irmã que estudou moda, então de certa forma sempre convivi com a preocupação de me vestir bem, sempre comprei minhas roupas e procurei me informar sobre as tendências. E, hoje em dia, é importante esse cuidado com a aparência, inclusive profissionalmente. É o nosso cartão de visitas”, afirma.
O empresário José Hermínio Canella compartilha o seu gosto pela moda com os filhos Daniel e Thomaz. De acompanhantes da esposa e mãe nas compras na boutique, os três tornaram-se clientes e mostraram que o interesse e o conhecimento das tendências não têm idade e passa de pai para filho.
“Hoje em dia existe uma difusão crescente de informação do segmento de moda masculina e os homens estão mais atentos às novidades e tendências não só das roupas como dos demais produtos específicos para esse público. Essa preocupação com a aparência e valorização da vaidade masculina têm se refletido, inclusive, nas gerações mais novas”, conclui Canella.
Freelancer para o Jornal da Cidade -hehhee
Nessa vida de assessora eu ajudo muito o pessoal dos jornais, olha a matéria de meia página que eu fiz pro Caderno Ser....
Responsabilidade social está na moda
Contribuições positivas das empresas para a sociedade começam a ser percebidas e avaliadas pelo consumidor
Questões como a responsabilidade social e consciência ambiental permeiam o mundo empresarial e hoje não são mais consideradas apenas como diferencial competitivo dos empreendimentos. Agregar aos produtos o valor das ações que visam o desenvolvimento sustentável – bem-estar social e preservação ambiental - passou a ser pré-requisito para uma imagem positiva das empresas, não importando o segmento ou porte delas.
“A compreensão da relevância da sustentabilidade será o aspecto mais importante de avaliação empresarial deste novo século. O consumo será e terá que ser mais responsável”, avalia Carlos Ferreirinha, diretor presidente da MCF Consultoria, primeira empresa especializada no negócio do luxo da América Latina e com sede em São Paulo. Durante sete anos, Ferreirinha foi diretor de marketing da marca Louis Vuitton no Brasil e foi um dos idealizadores do primeiro MBA em Gestão do Luxo da Américas.
Aparentemente inconciliáveis, o mercado de luxo e os conceitos de consumo consciente, responsabilidade social e ambiental têm se aproximado. O segmento da moda, principalmente, tem se preocupado em aliar a produção de peças exclusivas com a conscientização socioambiental. É o caso de marcas como M.Officer e Carlos Miele, que realizam ações em parceria com a Cooperativa de Trabalho Artesanal e de Costura da Rocinha, grupo formado por moradoras da comunidade da Rocinha, e a Osklen, que desenvolveu o projeto “E-fabrics”, um selo que identifica os materiais utilizados pela indústria têxtil que respeitam critérios de comércio justo e de desenvolvimento sustentável.
“Algumas marcas da moda estão totalmente envolvidas com o tema da sustentabilidade. A indústria têxtil tem ótimos exercícios sendo feitos nessa direção, do tecido ao corante. Chegará o tempo em que as marcas de luxo também serão julgadas e percebidas pelas contribuições positivas que geram nas pessoas e no mundo, pela visão do comprometimento social”, ressalta o consultor.
Se este conceito já entrou para a agenda da moda dos grandes centros urbanos, também migrou para cidades do Interior. Afinal, a mesma roupa que desfila nas passarelas de lá está nas vitrines de cá. Consciente dessa realidade, a empresária bauruense Tânia Capelini resolveu entrar para o time dos socialmente responsáveis.
Proprietária de uma boutique do segmento do luxo, Tânia lançou na comemoração dos 25 anos de sua loja o projeto “Chance”, nome dado à grife de objetos produzidos por instituições filantrópicas que serão comercializados na loja. Os primeiros produtos da linha são caixas de madeira que funcionam como porta-jóias ou peça decorativa, biquínis e almofadas personalizadas com técnicas de pedraria e bordado.
“O nosso objetivo é valorizar o trabalho de quem faz parte de iniciativas e organizações de inclusão social. As caixas e peças de roupas representam o início do trabalho, mas, já estamos com projeto de ampliação da linha ‘Chance’, que inclua a responsabilidade ambiental também, por meio de produtos feitos com material reciclável”, explica Tânia.
Os primeiros objetos da grife foram produzidos pelo grupo de artesanato da Casa da Fraternidade Santa Rita, de Bauru, instituição filantrópica fundada em 1999 com intuito de promover a inclusão social através de grupos de geração de renda e aprendizado profissional.
Para Cristiane Guereschi Kohlmann, membro do Conselho Fiscal da Casa, a iniciativa da empresária traz benefícios para os dois lados. “O projeto dá visibilidade ao trabalho do grupo de artesanato e agrega o valor da responsabilidade social aos produtos da loja. Além de atrair o consumidor cada vez mais exigente e atento a essas questões, é um exemplo que pode ser seguido por outras lojas do segmento”, ressalta.
____________________
Ferramenta importante
Atuante em projetos de educação e comunicação ambiental, a secretária-executiva do Vidágua, Ivy Wiens, acredita que a moda é uma importante ferramenta para conscientização das pessoas. “A moda está presente na vida de todo mundo. Seguindo tendências ou não, todo mundo se veste, é um produto consumido por todos, por isso nós encontramos nela um caminho para chegar às pessoas e sensibilizá-las em relação à questão ambiental, ao consumo consciente”, ressalta.
O instituto já desenvolveu ações com lojistas do Bauru Shopping e atualmente realiza oficinas que ensinam técnicas de confecção e customização de roupas utilizando materiais como algodão orgânico e garrafas PET, matéria-prima que pode ser utilizada no lugar do poliéster.
“Repensar o consumo já é uma ação socioambiental. E esse conceito está cada vez mais presente na moda. Você vê isso nas revistas, nos grandes desfiles como São Paulo Fashion Week. Considerar, na hora da compra, como as peças foram produzidas, as condições de trabalho da mão-de-obra, a matéria-prima, o impacto ambiental da produção é uma forma de conciliar um segmento sempre atrelado ao consumo com as questões de responsabilidade socioambiental”, completa Ivy.
Para Carlos Ferreirinha, diretor presidente da MCF Consultoria, a atitude do consumidor vai ser o diferencial para mudar a postura das empresas. “Cada vez mais, a pergunta ‘de que é feito este produto?’ será utilizada. A resposta tradição, trajetória de sucesso, poder de marca, matéria-prima nobre, qualidade que impressiona, excelência, detalhes, não será mais suficiente. A resposta terá que contemplar aspectos de sustentabilidade”, ressalta.
Da Redação/*Com informações da Lettera Comunicação Estratégica
Responsabilidade social está na moda
Contribuições positivas das empresas para a sociedade começam a ser percebidas e avaliadas pelo consumidor
Questões como a responsabilidade social e consciência ambiental permeiam o mundo empresarial e hoje não são mais consideradas apenas como diferencial competitivo dos empreendimentos. Agregar aos produtos o valor das ações que visam o desenvolvimento sustentável – bem-estar social e preservação ambiental - passou a ser pré-requisito para uma imagem positiva das empresas, não importando o segmento ou porte delas.
“A compreensão da relevância da sustentabilidade será o aspecto mais importante de avaliação empresarial deste novo século. O consumo será e terá que ser mais responsável”, avalia Carlos Ferreirinha, diretor presidente da MCF Consultoria, primeira empresa especializada no negócio do luxo da América Latina e com sede em São Paulo. Durante sete anos, Ferreirinha foi diretor de marketing da marca Louis Vuitton no Brasil e foi um dos idealizadores do primeiro MBA em Gestão do Luxo da Américas.
Aparentemente inconciliáveis, o mercado de luxo e os conceitos de consumo consciente, responsabilidade social e ambiental têm se aproximado. O segmento da moda, principalmente, tem se preocupado em aliar a produção de peças exclusivas com a conscientização socioambiental. É o caso de marcas como M.Officer e Carlos Miele, que realizam ações em parceria com a Cooperativa de Trabalho Artesanal e de Costura da Rocinha, grupo formado por moradoras da comunidade da Rocinha, e a Osklen, que desenvolveu o projeto “E-fabrics”, um selo que identifica os materiais utilizados pela indústria têxtil que respeitam critérios de comércio justo e de desenvolvimento sustentável.
“Algumas marcas da moda estão totalmente envolvidas com o tema da sustentabilidade. A indústria têxtil tem ótimos exercícios sendo feitos nessa direção, do tecido ao corante. Chegará o tempo em que as marcas de luxo também serão julgadas e percebidas pelas contribuições positivas que geram nas pessoas e no mundo, pela visão do comprometimento social”, ressalta o consultor.
Se este conceito já entrou para a agenda da moda dos grandes centros urbanos, também migrou para cidades do Interior. Afinal, a mesma roupa que desfila nas passarelas de lá está nas vitrines de cá. Consciente dessa realidade, a empresária bauruense Tânia Capelini resolveu entrar para o time dos socialmente responsáveis.
Proprietária de uma boutique do segmento do luxo, Tânia lançou na comemoração dos 25 anos de sua loja o projeto “Chance”, nome dado à grife de objetos produzidos por instituições filantrópicas que serão comercializados na loja. Os primeiros produtos da linha são caixas de madeira que funcionam como porta-jóias ou peça decorativa, biquínis e almofadas personalizadas com técnicas de pedraria e bordado.
“O nosso objetivo é valorizar o trabalho de quem faz parte de iniciativas e organizações de inclusão social. As caixas e peças de roupas representam o início do trabalho, mas, já estamos com projeto de ampliação da linha ‘Chance’, que inclua a responsabilidade ambiental também, por meio de produtos feitos com material reciclável”, explica Tânia.
Os primeiros objetos da grife foram produzidos pelo grupo de artesanato da Casa da Fraternidade Santa Rita, de Bauru, instituição filantrópica fundada em 1999 com intuito de promover a inclusão social através de grupos de geração de renda e aprendizado profissional.
Para Cristiane Guereschi Kohlmann, membro do Conselho Fiscal da Casa, a iniciativa da empresária traz benefícios para os dois lados. “O projeto dá visibilidade ao trabalho do grupo de artesanato e agrega o valor da responsabilidade social aos produtos da loja. Além de atrair o consumidor cada vez mais exigente e atento a essas questões, é um exemplo que pode ser seguido por outras lojas do segmento”, ressalta.
____________________
Ferramenta importante
Atuante em projetos de educação e comunicação ambiental, a secretária-executiva do Vidágua, Ivy Wiens, acredita que a moda é uma importante ferramenta para conscientização das pessoas. “A moda está presente na vida de todo mundo. Seguindo tendências ou não, todo mundo se veste, é um produto consumido por todos, por isso nós encontramos nela um caminho para chegar às pessoas e sensibilizá-las em relação à questão ambiental, ao consumo consciente”, ressalta.
O instituto já desenvolveu ações com lojistas do Bauru Shopping e atualmente realiza oficinas que ensinam técnicas de confecção e customização de roupas utilizando materiais como algodão orgânico e garrafas PET, matéria-prima que pode ser utilizada no lugar do poliéster.
“Repensar o consumo já é uma ação socioambiental. E esse conceito está cada vez mais presente na moda. Você vê isso nas revistas, nos grandes desfiles como São Paulo Fashion Week. Considerar, na hora da compra, como as peças foram produzidas, as condições de trabalho da mão-de-obra, a matéria-prima, o impacto ambiental da produção é uma forma de conciliar um segmento sempre atrelado ao consumo com as questões de responsabilidade socioambiental”, completa Ivy.
Para Carlos Ferreirinha, diretor presidente da MCF Consultoria, a atitude do consumidor vai ser o diferencial para mudar a postura das empresas. “Cada vez mais, a pergunta ‘de que é feito este produto?’ será utilizada. A resposta tradição, trajetória de sucesso, poder de marca, matéria-prima nobre, qualidade que impressiona, excelência, detalhes, não será mais suficiente. A resposta terá que contemplar aspectos de sustentabilidade”, ressalta.
Da Redação/*Com informações da Lettera Comunicação Estratégica
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Continuação....
Depois de um tempo longe, na verdade o tempo é algo que a cada dia eu tenho menos e acada dia eu queria ter mais. Tenho uma leve sensação de ver a vida passar diante dos meus olhos....será que as promessas de fim de ano se realizam???
Bom dando continuidade, mais uma parte da minha iniciação científica
Faz frio em São Paulo,
pra mim ta sempre bom
Eu to na rua de bombeta e moletom
Din din din rap é o som que
emana dum opala marrom
E aí? Chama Guilherme, chama Bane,
Chama o Dinho e o Kim
Marquinho, chama o Éder
Vamo ai, se os outros mano vem
Pela ordem tudo bem, melhor,
Quem é quem no bilhar, no dominó
Nesse trecho um aspecto do lado bom da favela, os companheiros, aqueles que se chamam de “mano”. Esse tratamento, nas palavras de Maria Rita Kehl, “não é gratuito”, é algo que possui a sua simbologia dentro do universo da linguagem da periferia, e, por conseguinte, na linguagem do hip hop, que procura desfazer os discursos de dominação onde existe um subjugado e um superior, como afirma a psicanalista
"O tratamento de mano não é gratuito. Indica uma intenção de igualdade, um sentimento de fratria, um campo de identificações horizontais, em contraposição ao modo de identificação/dominação “vertical”, da massa em relação ao líder ou ao ídolo. As letras são apelos dramáticos ao semelhante, ao irmão".
No trecho seguinte, o outro lado, aqueles moradores da favela que por motivos declarados na letra se desvirtuaram, entraram no caminho do consumo de drogas
Colou dois manos, um acenou pra mim [...]
Ei Brown, sai fora, nem cola,
Não vale a pena dá idéia pra esse tipo aí
Ontem a noite eu vi na beira do asfalto,
Tragando a morte, soprando a vida pro alto
[...]
Veja bem ninguém é mais que ninguém, veja bem,
veja bem, eles são nossos irmão também
Mas de cocaína e crack, uísque e conhaque,
Os manos morrem rapidinho sem lugar de destaque
Na parte da narrativa transcrita acima existe um diálogo entre Mano Brown e Ice Blue sobre um terceiro “mano” que não merecia sua confiança por ser um viciado. Brown em resposta afirma que não ocupa um papel de julgador, embora, não negue que essas atitudes destroem a integridade do indivíduo. O trecho traz mais algumas referências a elementos religiosos sob o ponto de vista estrutural do discurso, da linguagem, nas falas de complacência e igualdade (ninguém é mais que ninguém, eles são nossos irmão também), que remetem aos conceitos religiosos de aceitação, perdão, igualdade. O que se pode enxergar até esse momento é um dos elementos que cria a cumplicidade dentro do ambiente da periferia expresso no discurso
"Um discurso moral- pontuado por conhecidas imagens e símbolos religiosos que evoca valores comunitários, compartilhadas dúvidas existenciais sobre o sentido da vida e a banalização da morte".
Nesse trecho, também, é possível fazer um recorte sobre existência ainda que de forma implícita, da relação dos integrantes do grupo com o tráfico e consumo de drogas. As posições sobre o assunto são divergentes, no entanto, como já foi explicitado acima, é algo difícil de desvincular do cotidiano da periferia e do rap, que é uma espécie de crônica musicada do ambiente periférico.
Em depoimentos os rappers costumam dizer que se sente como uma fronteira, realmente, entre a polícia e o tráfico, eles são contra o crime, mas muitos que estão nele são pessoas que conhecem desde pequenos, muitos cresceram juntos. Além disso, a ação policial não é o melhor dos exemplos dentro da periferia. Comumente não existe o conflito direito com os traficantes, o respeito é o sentimento prezado, o mesmo não ocorre no relacionamento com a polícia .
Por outro lado, o comportamento apresentado nas estrofes seguintes é “o politicamente correto” afirmado acima pelo jornalista Mário Marques, através de um exemplo de degradação, os enunciadores (Mano Brown e Ice Blue) desse discurso deixam claro o posicionamento adverso em relação ao consumo de drogas.
Você fuma o que vem entope o nariz
Bebe tudo que vê faça o diabo feliz
Você vai terminar tipo o outro mano lá
Que era um preto tipo A
Mó estilo de calça kalvin klein tenis puma eh
Um jeito humilde de ser no trampo e no rolê
Curtia um funk jogava uma bola
Buscava ah preta dele no portão da escola
Exemplo pra nóis mó moral mó ibope
Mas começo cola com os branquinho do shopping
Mano outra vida outro pique
Só mina de elite, balada vários drinque,
Puta de butique, toda aquela porra sexo sem limite.
sodoma e gomorra
Faz uns nove anos,
Tem uns quinze dias atrás eu vi o mano
Se tem que ver pedindo cigarro pros tiozinho no ponto
Dente tudo zuado, bolso sem nenhum conto
O cara cheira mal sente medo
Muito loco de sei lah o que logo cedo
Agora não oferece mais perigo viciado, doente,
fudido, inofensivo
Nessa parte da letra estão inseridas três críticas, ao consumo de droga, ao consumismo desenfreado, e ambos propiciados pela aproximação do “Preto tipo A” com os “branquinhos do shopping”. Assim existe a posição contrária a inserção do “mano” da periferia no circuito mercadológico da classe média e alta que o subverte, o transforma em um “neguinho”.
"O apelo do consumo, do qual os branquinhos são os protagonistas, é uma tentação e sucumbir a ela pode rebaixa-lo da classe A, do seu jeito humilde de ser, para a soberba da ganância e da cobiça. A insistência cínica da publicidade que se impõe sem peias num país miserável".
Constrói-se aí uma crítica aos meios de alienação utilizados pelas classes detentoras do poder, uma tentativa de reverter tudo que os enunciadores buscam através da narrativa presente nos raps - propiciar uma emancipação do indivíduo (negro e morador da periferia) através autoconhecimento e autovalorização. O último trecho deixa claro essa intenção de manipulação que as classes mais altas possuem (agora não oferece mais perigo viciado [...] inofensivo) . A manipulação e alienação promovidas por essa parcela da sociedade têm justamente a função de evitar o “efeito colateral” que o próprio sistema cria, que nada mais são que estes indivíduos pensantes da periferia, “os cronistas do gueto”.
Quanto à presença de elementos religiosos nesse trecho, tem-se aí a figura do Diabo, simbolismo de uma situação limite, da passagem da fronteira do inferno. Nessa parte existe a continuidade da exposição do lado ruim do ambiente periférico, aqui representado pela “tentação”, mais um termo de simbolismo religioso, aos luxos oferecidos de maneira mal intencionada pelos “branquinhos”.
Na seqüência a narrativa muda o cenário sem deixar a crítica ao consumismo, o bombardeio diário das publicidades. A ostentação daquilo que os garotos da periferia foram ensinados a ver e desejar e parar por aí. A partir daí vem a escolha, escolha musicada e cantada por Afro-X em outra música dos Racionais “O sistema limita a nossa vida de tal forma que eu tive que fazer a minha escolha sonhar ou sobreviver...porém o capitalismo me obrigou a ser bem-sucedido..em busca do meu sonho de consumo procurei dá uma solução rápida e fácil para os meus problemas: o crime”.
Notas
Bombeta: boné.
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
Grifo da autora.
NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90, p.66-83, nov.2001. p.71
Informações retiradas de depoimentos de Edy Rock (Jornal da Tarde 2/12/97); Mano Brown (Caros Amigos Especial 3) e MV Bill (Revista Democracia Viva, nov/fev 2001) transcritos em:
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004. Grifos da autora.
RACIONAIS MC´s; AFRO-X. A vida é desafio. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56min 02s), faixa 10 (7min 13s).
Bom dando continuidade, mais uma parte da minha iniciação científica
Faz frio em São Paulo,
pra mim ta sempre bom
Eu to na rua de bombeta e moletom
Din din din rap é o som que
emana dum opala marrom
E aí? Chama Guilherme, chama Bane,
Chama o Dinho e o Kim
Marquinho, chama o Éder
Vamo ai, se os outros mano vem
Pela ordem tudo bem, melhor,
Quem é quem no bilhar, no dominó
Nesse trecho um aspecto do lado bom da favela, os companheiros, aqueles que se chamam de “mano”. Esse tratamento, nas palavras de Maria Rita Kehl, “não é gratuito”, é algo que possui a sua simbologia dentro do universo da linguagem da periferia, e, por conseguinte, na linguagem do hip hop, que procura desfazer os discursos de dominação onde existe um subjugado e um superior, como afirma a psicanalista
"O tratamento de mano não é gratuito. Indica uma intenção de igualdade, um sentimento de fratria, um campo de identificações horizontais, em contraposição ao modo de identificação/dominação “vertical”, da massa em relação ao líder ou ao ídolo. As letras são apelos dramáticos ao semelhante, ao irmão".
No trecho seguinte, o outro lado, aqueles moradores da favela que por motivos declarados na letra se desvirtuaram, entraram no caminho do consumo de drogas
Colou dois manos, um acenou pra mim [...]
Ei Brown, sai fora, nem cola,
Não vale a pena dá idéia pra esse tipo aí
Ontem a noite eu vi na beira do asfalto,
Tragando a morte, soprando a vida pro alto
[...]
Veja bem ninguém é mais que ninguém, veja bem,
veja bem, eles são nossos irmão também
Mas de cocaína e crack, uísque e conhaque,
Os manos morrem rapidinho sem lugar de destaque
Na parte da narrativa transcrita acima existe um diálogo entre Mano Brown e Ice Blue sobre um terceiro “mano” que não merecia sua confiança por ser um viciado. Brown em resposta afirma que não ocupa um papel de julgador, embora, não negue que essas atitudes destroem a integridade do indivíduo. O trecho traz mais algumas referências a elementos religiosos sob o ponto de vista estrutural do discurso, da linguagem, nas falas de complacência e igualdade (ninguém é mais que ninguém, eles são nossos irmão também), que remetem aos conceitos religiosos de aceitação, perdão, igualdade. O que se pode enxergar até esse momento é um dos elementos que cria a cumplicidade dentro do ambiente da periferia expresso no discurso
"Um discurso moral- pontuado por conhecidas imagens e símbolos religiosos que evoca valores comunitários, compartilhadas dúvidas existenciais sobre o sentido da vida e a banalização da morte".
Nesse trecho, também, é possível fazer um recorte sobre existência ainda que de forma implícita, da relação dos integrantes do grupo com o tráfico e consumo de drogas. As posições sobre o assunto são divergentes, no entanto, como já foi explicitado acima, é algo difícil de desvincular do cotidiano da periferia e do rap, que é uma espécie de crônica musicada do ambiente periférico.
Em depoimentos os rappers costumam dizer que se sente como uma fronteira, realmente, entre a polícia e o tráfico, eles são contra o crime, mas muitos que estão nele são pessoas que conhecem desde pequenos, muitos cresceram juntos. Além disso, a ação policial não é o melhor dos exemplos dentro da periferia. Comumente não existe o conflito direito com os traficantes, o respeito é o sentimento prezado, o mesmo não ocorre no relacionamento com a polícia .
Por outro lado, o comportamento apresentado nas estrofes seguintes é “o politicamente correto” afirmado acima pelo jornalista Mário Marques, através de um exemplo de degradação, os enunciadores (Mano Brown e Ice Blue) desse discurso deixam claro o posicionamento adverso em relação ao consumo de drogas.
Você fuma o que vem entope o nariz
Bebe tudo que vê faça o diabo feliz
Você vai terminar tipo o outro mano lá
Que era um preto tipo A
Mó estilo de calça kalvin klein tenis puma eh
Um jeito humilde de ser no trampo e no rolê
Curtia um funk jogava uma bola
Buscava ah preta dele no portão da escola
Exemplo pra nóis mó moral mó ibope
Mas começo cola com os branquinho do shopping
Mano outra vida outro pique
Só mina de elite, balada vários drinque,
Puta de butique, toda aquela porra sexo sem limite.
sodoma e gomorra
Faz uns nove anos,
Tem uns quinze dias atrás eu vi o mano
Se tem que ver pedindo cigarro pros tiozinho no ponto
Dente tudo zuado, bolso sem nenhum conto
O cara cheira mal sente medo
Muito loco de sei lah o que logo cedo
Agora não oferece mais perigo viciado, doente,
fudido, inofensivo
Nessa parte da letra estão inseridas três críticas, ao consumo de droga, ao consumismo desenfreado, e ambos propiciados pela aproximação do “Preto tipo A” com os “branquinhos do shopping”. Assim existe a posição contrária a inserção do “mano” da periferia no circuito mercadológico da classe média e alta que o subverte, o transforma em um “neguinho”.
"O apelo do consumo, do qual os branquinhos são os protagonistas, é uma tentação e sucumbir a ela pode rebaixa-lo da classe A, do seu jeito humilde de ser, para a soberba da ganância e da cobiça. A insistência cínica da publicidade que se impõe sem peias num país miserável".
Constrói-se aí uma crítica aos meios de alienação utilizados pelas classes detentoras do poder, uma tentativa de reverter tudo que os enunciadores buscam através da narrativa presente nos raps - propiciar uma emancipação do indivíduo (negro e morador da periferia) através autoconhecimento e autovalorização. O último trecho deixa claro essa intenção de manipulação que as classes mais altas possuem (agora não oferece mais perigo viciado [...] inofensivo) . A manipulação e alienação promovidas por essa parcela da sociedade têm justamente a função de evitar o “efeito colateral” que o próprio sistema cria, que nada mais são que estes indivíduos pensantes da periferia, “os cronistas do gueto”.
Quanto à presença de elementos religiosos nesse trecho, tem-se aí a figura do Diabo, simbolismo de uma situação limite, da passagem da fronteira do inferno. Nessa parte existe a continuidade da exposição do lado ruim do ambiente periférico, aqui representado pela “tentação”, mais um termo de simbolismo religioso, aos luxos oferecidos de maneira mal intencionada pelos “branquinhos”.
Na seqüência a narrativa muda o cenário sem deixar a crítica ao consumismo, o bombardeio diário das publicidades. A ostentação daquilo que os garotos da periferia foram ensinados a ver e desejar e parar por aí. A partir daí vem a escolha, escolha musicada e cantada por Afro-X em outra música dos Racionais “O sistema limita a nossa vida de tal forma que eu tive que fazer a minha escolha sonhar ou sobreviver...porém o capitalismo me obrigou a ser bem-sucedido..em busca do meu sonho de consumo procurei dá uma solução rápida e fácil para os meus problemas: o crime”.
Notas
Bombeta: boné.
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
Grifo da autora.
NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90, p.66-83, nov.2001. p.71
Informações retiradas de depoimentos de Edy Rock (Jornal da Tarde 2/12/97); Mano Brown (Caros Amigos Especial 3) e MV Bill (Revista Democracia Viva, nov/fev 2001) transcritos em:
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo
RACIONAIS MC´s; AFRO-X. A vida é desafio. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56min 02s), faixa 10 (7min 13s).
domingo, 24 de agosto de 2008
textos de outros...
Esse é do Fernando Bonassi, de um roteiro para Teatro chamado Centro Nervoso...ótimo sobre a dor...
"Onde a dor dói depende de onde a dor foi, por onde a dor vem e pra onde ela vai. Poeque a mesma dor está indefinidamente de passagem por lugares diferentes. Há dores que os doutores sabem explicar perfeiamente, mas não conseguem retirar a dor de parte do doente. É o luxo de uma falação. Uma luxação, ou paenas uma teoria do que a dor doeria, já que uma dor referida em geral não doí mais. Assim, em tese, também não doí menos, por não resistir a qualquer referência, considerando que qualquer dor é uma insistência de e imolar, rebolar, revirar, mas persistir em alguma coisa. Há casos de dores qie nos acomentem em membros ausentes e por pessoas distantes que nem se amolam de se lembrar da gente! Mas as dores incomodam sem parar quando se para pensar em seu movimento renitente. Você pode nem se lembrar que doí até que sente a dor vibrar internamente. Pode ser num dente cariado que quer mastigar o alimento, no estômago enjoado que não consegue digerir um condimento ou na mente perturbada que não consegue decifrar o pensamento que teima em latejar os seus tormentos, pode ser uma dor o corno de quem procura sarna para se coçar, o gozo manhoso do masoquista que gosta de apanhar, o caroço caloso de um tumor no osso, um quisto sebáceo no pescoço chupado, um braço fraturado ou o ombro destroncado, como um Cristo viciado que tivesse carregado uma cruz de pecados e não pudesse despejar os próprios cacos no regaço de um buraco.
é bom dar atenção que a dor é um aviso. A sinalização de um prejuízo que ainda vai acontecer. É uma dor de matar, mas que não chega a morrer, porque o objetivo dessa dor não é se curar, mas permanecer para irritar, complicar, interferir e destruir. É uma dor de cabeça qu eu vou te contar. Um boneco de arame que se amassa. Um vexame que se passa. Uma bosta já basta. Uma miragem que se atravessa. Uma tatuagem que se aplica na testa.
Há uma dor generalizada, criada perlo deprimido para se parofundar em nada. Uma dor de marmelada, mas que pode doer tanto como uma facada no peito. Todos temos um coração a zelar, zerar ou gelar, conforme queiram uns e outros, que preferem esquecer para não sofrer. A memória é fraca para suportar o peso de tanto desamor. É uma deção feia, que bate no ponto nevrálgico de um cartão de compromissos mixos, salários baixos e um profissionalismo ridículo, conformando ume stado de nervos com as contas a pagare as migalhas a receber. Há muita dor em sobreviver nessa situação. À condição de quem já lutou pelo ócio, resta apenas implorar pela droga do vício do trabalho. "Quem paga o pato não o saboreia", doz a velha sabedoria. A dor em si é antiga e sentida por todo os antepassados que herdaram problemas heriditários, mas continua moderna essa dor de preocupação constante e chata, que insiste sem parar até encontrar a localização exata da casca para cutucar e doer a sua natureza. é uma dor localizada com certeza, mas que no isntante que se toca com a mão, a irritação da esfregação das asperezas se espalha pela espinha, por condutas infinitas, terminações nodosas, amarrações confusas e combinações torturantes. Não tem começo a mecha que detona a bomba desse processo. é o susto de uma explosão súbita, como a tensão incendiária de uma dúvida, uma pergunta que não cabe na conjuntura, mas que dura uma eternidade. No entanto, nós insistimos nas apostas. A que será que se destina? Fincar. Fincar. Espremer. Roer até doer ... E assim, esperando essa dor passar, se aprende a deixar a dor doer...Aliás, a dor é uma palavra tão pequena que só mesmo esse dó maior pode ser menor que ela...
Boa noite...
E tentem descansar....apesar do senhor que os acompanha".
"Onde a dor dói depende de onde a dor foi, por onde a dor vem e pra onde ela vai. Poeque a mesma dor está indefinidamente de passagem por lugares diferentes. Há dores que os doutores sabem explicar perfeiamente, mas não conseguem retirar a dor de parte do doente. É o luxo de uma falação. Uma luxação, ou paenas uma teoria do que a dor doeria, já que uma dor referida em geral não doí mais. Assim, em tese, também não doí menos, por não resistir a qualquer referência, considerando que qualquer dor é uma insistência de e imolar, rebolar, revirar, mas persistir em alguma coisa. Há casos de dores qie nos acomentem em membros ausentes e por pessoas distantes que nem se amolam de se lembrar da gente! Mas as dores incomodam sem parar quando se para pensar em seu movimento renitente. Você pode nem se lembrar que doí até que sente a dor vibrar internamente. Pode ser num dente cariado que quer mastigar o alimento, no estômago enjoado que não consegue digerir um condimento ou na mente perturbada que não consegue decifrar o pensamento que teima em latejar os seus tormentos, pode ser uma dor o corno de quem procura sarna para se coçar, o gozo manhoso do masoquista que gosta de apanhar, o caroço caloso de um tumor no osso, um quisto sebáceo no pescoço chupado, um braço fraturado ou o ombro destroncado, como um Cristo viciado que tivesse carregado uma cruz de pecados e não pudesse despejar os próprios cacos no regaço de um buraco.
é bom dar atenção que a dor é um aviso. A sinalização de um prejuízo que ainda vai acontecer. É uma dor de matar, mas que não chega a morrer, porque o objetivo dessa dor não é se curar, mas permanecer para irritar, complicar, interferir e destruir. É uma dor de cabeça qu eu vou te contar. Um boneco de arame que se amassa. Um vexame que se passa. Uma bosta já basta. Uma miragem que se atravessa. Uma tatuagem que se aplica na testa.
Há uma dor generalizada, criada perlo deprimido para se parofundar em nada. Uma dor de marmelada, mas que pode doer tanto como uma facada no peito. Todos temos um coração a zelar, zerar ou gelar, conforme queiram uns e outros, que preferem esquecer para não sofrer. A memória é fraca para suportar o peso de tanto desamor. É uma deção feia, que bate no ponto nevrálgico de um cartão de compromissos mixos, salários baixos e um profissionalismo ridículo, conformando ume stado de nervos com as contas a pagare as migalhas a receber. Há muita dor em sobreviver nessa situação. À condição de quem já lutou pelo ócio, resta apenas implorar pela droga do vício do trabalho. "Quem paga o pato não o saboreia", doz a velha sabedoria. A dor em si é antiga e sentida por todo os antepassados que herdaram problemas heriditários, mas continua moderna essa dor de preocupação constante e chata, que insiste sem parar até encontrar a localização exata da casca para cutucar e doer a sua natureza. é uma dor localizada com certeza, mas que no isntante que se toca com a mão, a irritação da esfregação das asperezas se espalha pela espinha, por condutas infinitas, terminações nodosas, amarrações confusas e combinações torturantes. Não tem começo a mecha que detona a bomba desse processo. é o susto de uma explosão súbita, como a tensão incendiária de uma dúvida, uma pergunta que não cabe na conjuntura, mas que dura uma eternidade. No entanto, nós insistimos nas apostas. A que será que se destina? Fincar. Fincar. Espremer. Roer até doer ... E assim, esperando essa dor passar, se aprende a deixar a dor doer...Aliás, a dor é uma palavra tão pequena que só mesmo esse dó maior pode ser menor que ela...
Boa noite...
E tentem descansar....apesar do senhor que os acompanha".
Continuando a saga
Mais do meu trabalho de IC parei em Jesus Chorou...e agora continua...caminhando para o fim...
A profecia se fez como previsto
Análise da música Capítulo4, Versículo 3 .
“Devo ter muito inimigo por aí. É que Deus me guarda. Acho que ele sabe das minhas intenções que são boas. Minha intenção é boa.”
Mano Brown (Março de 2003)
Antes de realizar a análise da presente letra é preciso contextualizar o álbum do qual essa música faz parte, uma vez que esse contexto remete a temática analisada, ou seja, os elementos religiosos e o tom messiânico presentes no discurso dos Racionais.
Sobrevivendo no Inferno é o quarto disco dos Racionais, lançado em 1997. O álbum representou a transposição das barreiras da periferia, o rap passou de arte marginal dos subúrbios paulistanos para as paradas de sucesso de várias rádios da cidade, com direito a prêmio de melhor clipe de rap, com o clipe de Diário de um Detento, no Vídeo Music Brasil promovido pela MTV Brasileira.
Quanto a temática, o álbum traz a vida entre o céu e o inferno, metáfora que remete a melhora de vida alcançada, que pode ser representada pelo sucesso com o rap ou ainda as melhorias que o rap e os outros elementos da cultura hip hop propiciaram a periferia - o céu- e as mazelas, injustiças e miséria que ainda fazem parte do cotidiano periférico - o inferno. Assim as letras desse trabalho passeiam por esses dois mundos de forma lírica e recheada de elementos metafóricos que lembram as profecias religiosas.
"Em Sobrevivendo no Inferno [...] discurso torna-se messiânico. Nele, o céu e o inferno, Deus e o Diabo travam uma luta sem trégua na consciência do periférico, que vivendo no mundo das incertezas e simulações não visualiza outra saída senão a de cuidar de si e dos parceiros de batalha".
Versículo 4, capítulo 3 segue a tendência de todo o álbum, apresenta elementos alegóricos do céu e do inferno, viaja entre o mundo da bíblia e da pistola (crime). A escolha dessa música vai além dela possuir esses elementos para análise. A letra sob o pano de fundo de um tom messiânico, algo como a enunciação de uma profecia, aborda as temáticas trabalhadas nas letras anteriores. Assim essa análise faz um retrocesso das anteriores, confirmando a presença desses pontos levantados em várias obras do grupo, porém, em uma linguagem peculiar caracterizada por elementos religiosos.
Minha intenção é ruim, esvazie o lugar.
Eu to em cima, eu to afim.
Um, dois pra atira.
Eu sou bem pior do que você está vendo
A primeira faz pum, a segunda faz ta.
Eu tenho uma missão e não vou parar.
Meu estilo é pesado e faz tremer o chão
Minha palavra vale um tiro e
eu tenho muita munição
[...]
Minha atitude vai além e
Tem disposição pro mal e pro bem
Assim como nas outras músicas o primeiro locutor é representado por Mano Brown, que vai construindo suas falas em cima dessa dualidade céu e inferno, num discurso maniqueísta, sua personalidade “tem disposição pro mal e pro bem”. No entanto, a palavra é a verdadeira arma dele como explicita acima. Os termos “missão” e “minha palavra” logo no início já indicam a característica profética desse discurso. Ele tem uma mensagem para passar aqui e nada pode o deter isso, palavras muito importantes que beiram a força de um tiro. O enunciador exerce assim um papel semelhante de um profeta, que pode ter sua mensagem interpretada para atitudes benéficas como para ações ruins, dependendo para quem se destina e quem assimila essas palavras.
Na seqüência o enunciador segue com a ambientação dos elementos contraditórios, maniqueístas.
Talvez eu seja um sádico, um anjo
Juiz ou réu
Bandido do céu
Malandro ou otário
Insano ou marginal,
Antigo e moderno
Fronteira do céu ou inferno
Verso violentamente pacífico
O uso dos termos contrários (anjo, sádico; juiz, réu; etc) além de seguirem a trajetória da narrativa de representar os dois mundos céu e inferno, e o rap como a linha tênue entre esses dois espaços, indica como o próprio enunciador é visto, como ele pode ser classificado de acordo com quem o classifica. Para os críticos de sua mensagem, ou seja, os críticos do rap, ele é o sádico, o réu, o bandido.
Muitas vezes se questionou uma tendência de exaltação do crime por parte das letras de rap, não só do grupo, mas de todos os grupos em geral, na mídia. As narrativas, que retratam a crueza da vida periférica sem concessões para a violência que é parte integrante desse cotidiano, sofrem críticas justamente nesse ponto, de mostrar a verdade.Característica que é mascarada de culto a violência pelos críticos mais taxativos.
"Existem críticas sobre a maneira ambígua como traficantes e bandidos aparecem nas letras das músicas e nos clipes. Referindo-se aos Racionais, afirmou o jornalista Mário Marques: “Eles são politicamente corretos, são contra drogas, mas não chegam a condenar explicitamente o crime por saberem que o meio em que vivem não é exatamente favorável a uma rotina alheia à marginalidade".
Já os outros termos parecem indicar a forma como os rappers são vistos pelas pessoas da sua comunidade que os admiram, assim como os outros os ativistas do movimento hip hop, aqueles que de alguma forma a cultura hip hop trouxe benefícios. Por isso talvez ele seja um sádico ou um anjo, o adjetivo de sua personalidade é definido conforme a interpretação da sua mensagem e quem realiza essa interpretação. Assim a duplicidade é contínua na presença de dois ouvintes, assim sendo duas interpretações e duas intenções (pro bem e pro mal)
"A música cunha imagens contraditórias e agressivas [...]se volta para o ouvinte, aquele que é seu igual e seu inimigo, aquele a quem pretende aconselhar ao mesmo tempo que confundir, sabotando o raciocínio, abalando os sistemas vitais".
Na continuidade da narrativa a idéia de profecia, de força da palavra nesse discurso é explicitada nos versos seqüentes.
E a profecia se fez como previsto.
1997 depois de Cristo
A fúria negra ressuscita outra vez
Racionais, capitulo 4, versículo 3
Aleluiaaa, Racionais no ar...
Nesse momento a inserção do grupo na missão anunciada no início da letra, é o papel do grupo de rap Racionais na mensagem que está sendo “profetizada”. O previsto seria a volta do grupo que desde de 1993 não gravava um disco, após cinco anos, ou seja, “1997 depois de Cristo” a “fúria negra” (adjetivação dada pelos próprios integrantes) volta com essa mensagem, localizada no Capitulo 4 (referência ao quarto álbum), Versículo 3 (referência ao número da música no álbum). A localização da música, que também é seu título, é feita do mesmo modo que as mensagens bíblicas, mas um referente do discurso profético, de “recorte bíblico” . A finalização desse trecho com o termo Aleluia ressalta essa característica de missão, de palavra a ser proferida e que é “louvada”.
Na seqüência, desse início de estilo definidamente profético em diversos termos e trechos explicitados acima, o enunciador volta a descrição do ambiente periférico, mas uma vez apresentando dois lados da mesma face, a face do dia-a-dia na periferia.
Continua...
Notas
BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.
Alguns trechos da letra foram suprimidos. A letra inteira segue em anexo.
ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.16
NETTO, José Apóstolo. Dos Racionais aos Emocionais Emecis: um olhar marginal da relação música, favela e dinheiro, ago.2003. Disponível em: Espaço Acadêmico: Acesso em: 16 fev. 2005
NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90, p.66-83,nov.2001. p.71
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.200
Termo utilizado pelo jornalista Bruno Zeni na definição do título da música.
Bombeta: boné.
A profecia se fez como previsto
Análise da música Capítulo4, Versículo 3 .
“Devo ter muito inimigo por aí. É que Deus me guarda. Acho que ele sabe das minhas intenções que são boas. Minha intenção é boa.”
Mano Brown (Março de 2003)
Antes de realizar a análise da presente letra é preciso contextualizar o álbum do qual essa música faz parte, uma vez que esse contexto remete a temática analisada, ou seja, os elementos religiosos e o tom messiânico presentes no discurso dos Racionais.
Sobrevivendo no Inferno é o quarto disco dos Racionais, lançado em 1997. O álbum representou a transposição das barreiras da periferia, o rap passou de arte marginal dos subúrbios paulistanos para as paradas de sucesso de várias rádios da cidade, com direito a prêmio de melhor clipe de rap, com o clipe de Diário de um Detento, no Vídeo Music Brasil promovido pela MTV Brasileira.
Quanto a temática, o álbum traz a vida entre o céu e o inferno, metáfora que remete a melhora de vida alcançada, que pode ser representada pelo sucesso com o rap ou ainda as melhorias que o rap e os outros elementos da cultura hip hop propiciaram a periferia - o céu- e as mazelas, injustiças e miséria que ainda fazem parte do cotidiano periférico - o inferno. Assim as letras desse trabalho passeiam por esses dois mundos de forma lírica e recheada de elementos metafóricos que lembram as profecias religiosas.
"Em Sobrevivendo no Inferno [...] discurso torna-se messiânico. Nele, o céu e o inferno, Deus e o Diabo travam uma luta sem trégua na consciência do periférico, que vivendo no mundo das incertezas e simulações não visualiza outra saída senão a de cuidar de si e dos parceiros de batalha".
Versículo 4, capítulo 3 segue a tendência de todo o álbum, apresenta elementos alegóricos do céu e do inferno, viaja entre o mundo da bíblia e da pistola (crime). A escolha dessa música vai além dela possuir esses elementos para análise. A letra sob o pano de fundo de um tom messiânico, algo como a enunciação de uma profecia, aborda as temáticas trabalhadas nas letras anteriores. Assim essa análise faz um retrocesso das anteriores, confirmando a presença desses pontos levantados em várias obras do grupo, porém, em uma linguagem peculiar caracterizada por elementos religiosos.
Minha intenção é ruim, esvazie o lugar.
Eu to em cima, eu to afim.
Um, dois pra atira.
Eu sou bem pior do que você está vendo
A primeira faz pum, a segunda faz ta.
Eu tenho uma missão e não vou parar.
Meu estilo é pesado e faz tremer o chão
Minha palavra vale um tiro e
eu tenho muita munição
[...]
Minha atitude vai além e
Tem disposição pro mal e pro bem
Assim como nas outras músicas o primeiro locutor é representado por Mano Brown, que vai construindo suas falas em cima dessa dualidade céu e inferno, num discurso maniqueísta, sua personalidade “tem disposição pro mal e pro bem”. No entanto, a palavra é a verdadeira arma dele como explicita acima. Os termos “missão” e “minha palavra” logo no início já indicam a característica profética desse discurso. Ele tem uma mensagem para passar aqui e nada pode o deter isso, palavras muito importantes que beiram a força de um tiro. O enunciador exerce assim um papel semelhante de um profeta, que pode ter sua mensagem interpretada para atitudes benéficas como para ações ruins, dependendo para quem se destina e quem assimila essas palavras.
Na seqüência o enunciador segue com a ambientação dos elementos contraditórios, maniqueístas.
Talvez eu seja um sádico, um anjo
Juiz ou réu
Bandido do céu
Malandro ou otário
Insano ou marginal,
Antigo e moderno
Fronteira do céu ou inferno
Verso violentamente pacífico
O uso dos termos contrários (anjo, sádico; juiz, réu; etc) além de seguirem a trajetória da narrativa de representar os dois mundos céu e inferno, e o rap como a linha tênue entre esses dois espaços, indica como o próprio enunciador é visto, como ele pode ser classificado de acordo com quem o classifica. Para os críticos de sua mensagem, ou seja, os críticos do rap, ele é o sádico, o réu, o bandido.
Muitas vezes se questionou uma tendência de exaltação do crime por parte das letras de rap, não só do grupo, mas de todos os grupos em geral, na mídia. As narrativas, que retratam a crueza da vida periférica sem concessões para a violência que é parte integrante desse cotidiano, sofrem críticas justamente nesse ponto, de mostrar a verdade.Característica que é mascarada de culto a violência pelos críticos mais taxativos.
"Existem críticas sobre a maneira ambígua como traficantes e bandidos aparecem nas letras das músicas e nos clipes. Referindo-se aos Racionais, afirmou o jornalista Mário Marques: “Eles são politicamente corretos, são contra drogas, mas não chegam a condenar explicitamente o crime por saberem que o meio em que vivem não é exatamente favorável a uma rotina alheia à marginalidade".
Já os outros termos parecem indicar a forma como os rappers são vistos pelas pessoas da sua comunidade que os admiram, assim como os outros os ativistas do movimento hip hop, aqueles que de alguma forma a cultura hip hop trouxe benefícios. Por isso talvez ele seja um sádico ou um anjo, o adjetivo de sua personalidade é definido conforme a interpretação da sua mensagem e quem realiza essa interpretação. Assim a duplicidade é contínua na presença de dois ouvintes, assim sendo duas interpretações e duas intenções (pro bem e pro mal)
"A música cunha imagens contraditórias e agressivas [...]se volta para o ouvinte, aquele que é seu igual e seu inimigo, aquele a quem pretende aconselhar ao mesmo tempo que confundir, sabotando o raciocínio, abalando os sistemas vitais".
Na continuidade da narrativa a idéia de profecia, de força da palavra nesse discurso é explicitada nos versos seqüentes.
E a profecia se fez como previsto.
1997 depois de Cristo
A fúria negra ressuscita outra vez
Racionais, capitulo 4, versículo 3
Aleluiaaa, Racionais no ar...
Nesse momento a inserção do grupo na missão anunciada no início da letra, é o papel do grupo de rap Racionais na mensagem que está sendo “profetizada”. O previsto seria a volta do grupo que desde de 1993 não gravava um disco, após cinco anos, ou seja, “1997 depois de Cristo” a “fúria negra” (adjetivação dada pelos próprios integrantes) volta com essa mensagem, localizada no Capitulo 4 (referência ao quarto álbum), Versículo 3 (referência ao número da música no álbum). A localização da música, que também é seu título, é feita do mesmo modo que as mensagens bíblicas, mas um referente do discurso profético, de “recorte bíblico” . A finalização desse trecho com o termo Aleluia ressalta essa característica de missão, de palavra a ser proferida e que é “louvada”.
Na seqüência, desse início de estilo definidamente profético em diversos termos e trechos explicitados acima, o enunciador volta a descrição do ambiente periférico, mas uma vez apresentando dois lados da mesma face, a face do dia-a-dia na periferia.
Continua...
Notas
BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.
Alguns trechos da letra foram suprimidos. A letra inteira segue em anexo.
ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.16
NETTO, José Apóstolo. Dos Racionais aos Emocionais Emecis: um olhar marginal da relação música, favela e dinheiro, ago.2003. Disponível em: Espaço Acadêmico:
NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90, p.66-83,nov.2001. p.71
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo
Termo utilizado pelo jornalista Bruno Zeni na definição do título da música.
Bombeta: boné.
"Tempo, tempo, tempo faço um acordo contigo"
Nossa...quanto tempo, tempo que não escrevo, na verdade escrevo e muito todos os dias, virei até ghost writter...mas é DA REDAÇÃO o nome certo.
Mas o tempo se esvai para escrever aqui. Minha mente já não funciona da mesma forma, não sobra criatividade, não sobra vontade.
E algumas coisas vão ficando no caminho...o mestrado, será? Tinha que estudar...tinha que fazer tantas coisas..."Tempo, tempo, tempo eu faço um acordo contigo" me dê um dia de 30 horas que eu mudo o mundo...
Mas o tempo se esvai para escrever aqui. Minha mente já não funciona da mesma forma, não sobra criatividade, não sobra vontade.
E algumas coisas vão ficando no caminho...o mestrado, será? Tinha que estudar...tinha que fazer tantas coisas..."Tempo, tempo, tempo eu faço um acordo contigo" me dê um dia de 30 horas que eu mudo o mundo...
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