Eu...algumas palavras que me definem: jornalista, apaixonada, insegura, ansiosa, amiga...um sentimento que me move todos os dias: saudade..saudade imensa de tudo que eu vivi, que eu vivo e que eu vou viver...fiz isso para poder escrever, uma coisa que eu gosto, desde criança...deve ser por isso que escolhi ser jornalista...
sábado, 3 de maio de 2008
Sobre mais uma novela da televisão brasileira
Não é novidade alguma, ainda mais agora que já faz mais de um mês do primeiro capítulo dessa novela que a mídia criou mais uma vez diante de um acontecimento real. A novela que tem o ibope de todos os brasileiros. Um diferencial: ela passa em todos os canais, embora cada emissora tente abocanhar para si um fato exclusivo, uma entrevista inédita. A pequena Isabella Nardoni teve apenas 5 anos e pouco de vida, mas o suficiente para ser uma das principais atrizes de uma história que envolve crime, ciúme, romance, mentiras, polícia, justiça, populares, revolta, enfim, diversos ingredientes para um grande sucesso de audiência, digno das grandes novelas de Aguinaldo Silva. Me desculpe a comparação, não se trata de desrespeito a vítima, uma linda criança que nem tem culpa de nada, e nem de romancear os culpados. Trata-se aqui de uma crítica a forma como fatos assim são explorados e re-explorados pela mídia, como ela transforma um crime hediondo em um folhetim romanesco. Mas, além disso o fato que mais me incomodou foi a forma que, ao criar esse roteiro novelístico, a mídia envolve os chamados "populares" na trama. Pessoas ditas comum que nada tinham em comum com a família Nardoni, nem ao menos já tinham visto o rosto vivo da menina Isabella e hoje se sentem parte integrante da família. Os populares que se tornam linchadores ou pelo menos assim o sentem. Achei que só eu pensava assim, só eu tinha esse sentimento de repúdio àqueles que saem de sua casa, deixam seu trabalho, escola, enfim o que estavam fazendo para se postar em frente a uma delegacia e gritar palavras de ordem como "Lincha", "Justiça", "Assassinos", "Isabella",e chegar ao cúmulo de cantar parabéns a uma menina que até então nem conheciam. Mas, descobri que não. Muitos acreditam também ser absurdo uma atitude dessa. Uma mulher com uma criança no colo no sol, gritava que a família é uma instituição falida. Com certeza minha senhora, já que em vez de estar em casa cuidando do filho a senhora o coloca no desconforto de ficar em pé no sol gritando palavras que ele nem conhece ainda. O sorveteiro aproveita para fazer um trocados em frente a 9º DP, em frente à casa da família Nardoni, da Família Jatobá, do Edifício London. Por que não tirar uma foto da janela de onde a menina foi atirada? Por que não invadir o prédio, a casa de alguém ligado a família? Tudo isso traz emoções a mais ao enredo. Todos os populares são personagens de um tribunal, todos juízes capazes de condenar alguém que não conhecem, pouco sabem da vida a não ser pequenos factoídes divulgados pela mídia para construir todo uma trajetória de traumas e atitudes violentas que indicam a faceta de um assassino. Não cabe a mim também dar uma de "popular" e assinalar aqui culpados ou inocentes. Acho que isso cabe a um julgamento sério, feito por pessoas capacitadas e formadas com esse intuito de julgar réus. Culpados ou não, isso não importa agora, nem para esse texto. O que importa aqui é destacar como a mídia consegue contruir uma história de bem e mal e assim nos redimir de nossos próprios pecados, consegue nos proteger de nossos próprios monstros internos. Parafrasendo, em termos, o que uma amiga minha me disse. É nesse momento que vemos o que nós seres humanos somos capazes de fazer, todos, e vemos como única saída o linchamento, assim nos sentimos menos pecadores por tratar com violência quem praticou violência num eterno ( e terno) círculo...
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Parte II de Jesus Chorou
Mais uma parte do meu relatório...
Análise de Jesus Chorou - PARTE II
tava eu mais dois truta e uma mina
num Tempra prata show filmado ouvindo Guina
o bico se atacou ó, falou uma pá do cê...
Esse Brown aí é cheio de querer ser, deixa ele moscar e cantar
na quebrada, vamo ver se é isso tudo quando ver as quadrada,
periferia nada, só pensa nele mesmo, montado no dinheiro e vocês
aí no veneno [...]
cada um no seu corre [...]
eu mesmo se eu catar voa
numa hora dessa, vou me destacar do
outro lado de pressa, vou comprar uma house de boy
depois alugo,vão me chamar de senhor não por vulgo
mas pra ele só a zona sul que é a pa [...]
porque eu não pago pau pra ninguém [...]
A crítica não está no fato de Brown ter alcançado o status através da música, ser uma referência no cenário nacional, e sim no seu discurso pró-periferia, pró-zona sul (onde o cantor mora e sempre morou), segundo o “bico” o cantor é hipócrita nessas falas. Está montado no dinheiro e na fama enquanto os seus amigos, os chamados “trutas”, continuam no mesmo cotidiano da favela, no mesmo “veneno”. Para ele, Brown deveria assumir que é uma celebridade, comprar uma casa de “boy” e passar para o outro lado (o lado do mercado consumista) e parar de lutar pela sua “quebrada”, como ele mesmo faria, se tivesse a oportunidade (eu mesmo se eu catar voa uma hora dessas). O sentido do verbo voar nesse trecho é de escalada na vida social, é passar de uma classe subjugada para as mais altas, algo alcançável para Brown em virtude do seu status obtido através do rap.
E por que isso abala tanto Brown? Entre os motivos, o principal é que essa imagem criada pelo “bico” desfaz tudo que o hip hop prega, tudo que o enunciador lutou e ainda luta através da sua arte, da sua música. Se caso cedesse a esses “conselhos”, Brown, contribuiria com desmantelamento da “marca identitária” do hip hop
"Não pode ficar nem isolado sem levar a mensagem, nem se submeter à lógica estritamente comercial que predomina no mercado e na mídia, pois, isso colocaria em risco a própria mensagem e anularia a missão".
A falta de compreensão é representada na figura de uma pessoa, no entanto, esse desconhecimento do verdadeiro sentido do movimento cultural no qual o rap se insere é algo que passa por diversos lugares e pela mídia, também. A figura dos Racionais se torna mais suscetível a isso pelo fato de serem avessos as grandes mídias, o que cria uma áurea de arrogância e superioridade em volta dos integrantes.
Milton Salles produtor/ideólogo/interlocutor dos Racionais, em entrevista a Caros Amigos, justifica essa escolha taxativa dos integrantes de não aceitar convites da grande mídia
"O problema, mais do que como a mídia vai tratar o rap, é você ser instrumento de manipulação, massa de manobra. É você estar dando subsídio que vende produto, é de repente você estar dentro do Faustão, dentro da Rede Globo, e com isso você manter o Ibope do dragão".
Por outro lado, esse posicionamento é a “volta para dentro”, a preocupação do grupo, que veio da favela, com a própria favela é fazer algo da periferia para periferia, esse posicionamento está na gênesis do movimento
"O compromisso não está só na mensagem da música, mas na atitude: continuar na quebrada, lutar pelos manos, não se vender à indústria milionária do disco e da televisão que lança e derruba modas".
A dor de Brown está justamente nesse ponto, quando a sua posição é distorcida e seus ideais incompreendidos e transformados em hipocrisia. A resposta do enunciador vem nas estrofes seguintes
Quem tem boca fala o que quer
Pra ter nome, pra ganhar atenção
das mulhé ou dos homens...amo
Minha raça, luto pela cor,
o que quer que eu faça é por nós, por
Amor, não entende o que eu sou,
não entende o que eu faço, não
Entende a dor e as lágrimas do palhaço...
No trecho o enunciador explicita a sua luta, tudo o que faz pelos negros da sua comunidade (raça, cor) e faz isso movido pelo sentimento do amor. Um discurso que pode até apresentar um tom piegas, mas a resposta vem na intensidade da dor, da revolta de ser incompreendido. E isso reflete a própria personalidade de Brown, um traço de preocupação maior com os outros, como se constata em um trecho de outra música de sua autoria
"Se você der um role comigo vai ver que eu sou um cara meio chapado.
Penso mil fitas ao mesmo tempo, tenho solução pra todo mundo, e pra mim mesmo muitas vezes eu não tenho nenhuma".
As pessoas não entenderem o processo de todo o discurso dos Racionais e todas coisas que os integrantes fazem no sentido de revolução na favela, pelo simples fato de serem exemplos de caminhos alternativos ao crime que podem ser seguidos, abala o enunciador, e essa indiferença é originada no seio do ambiente que ele quer transformar. Incompreensão até da própria mãe como segue no trecho seguinte
[...] e a minha mãe diz: Brown acorda, pensa
no futuro que isso é ilusão, os próprio preto não tá nem ai com
isso não, ó o tanto que eu sofri, que eu sou, o que eu fui, a
inveja mata um, tem muita gente ruim
Pô mãe não fala assim que
eu nem durmo, meu amor pela
senhora já não cabe em Saturno
Assim o fato desencadeador se costura com outros acontecimentos, com outros momentos de não assimilação da mensagem real que o rap dos Racionais quer passar. A música foi feita em 2001, mas esses problemas na interpretação tanto da própria mensagem que está sendo passada como, também, das atitudes dos rappers tem gerado discussões recentes. Mano Brown em um encontro em fevereiro desse ano demonstrou-se preocupado com a forma que mensagem estão sendo interpretadas, na época desabafou que parecia que os “manos” não estavam assimilando as letras direito. Algo que ele já anunciava nessa letra (“não entende o que eu sou, não entende o que eu faço, não entende a dor e as lágrimas do palhaço”).
A conexão dos fatos cotidiano narrados e a relação do grupo com a fama se constrói nas estrofes seguintes, no decorrer dessa parte até o final da letra Brown apresenta um discurso fomentado na sua batalha pessoal contra a “venda” dos ideais do rap ,algo cada vez mais perto de ocorrer diante da visibilidade que o estilo tem angariando nos últimos anos.
Dinheiro é bom, quero sim se essa é a pergunta,
Mas dona Ana fez de mim um homem e não uma puta [...]
Sozinho eu sou agora o meu inimigo intimo
Lembranças más vem, pensamentos bons vai.
Me ajude, sozinho penso merda pra caráio
Gente que acredito, gosto e admiro,
Brigava por justiça e em paz levou tiro: Malcon X,
Ghandi, Lennon, Marvin Gaye, Che Guevara, Tupac, Bob Marley e
O Evangélico Martin Luther King...
Lembrei de um truta falar assim: não joga pérola
Aos porco irmão, jogue lavagem
Eles prefere assim, se tem de usar piolhagem .
O enunciador, assim, não é contrário as possibilidades do ponto de vista material que o rap pode proporcionar, no entanto, defende uma visão do conjunto, de nada adianta a fama de um ou outro cantor de rap se não tiver o retorno para a comunidade como prega a ideologia do hip hop, o que importa para eles é a inserção da mensagem na periferia. E, também, é avesso a “venda” da sua arte, ou seja, apropriação e reformulação do rap pelos interesses comerciais. A ascensão social é algo positivo, no entanto, sem a necessidade de desvirtuar os objetivos da cultura hip hop.
"Para eles (Racionais) a questão do reconhecimento e da inclusão não se resolve através da ascensão oferecida pela lógica do mercado, segundo o qual dois ou três indivíduos excepcionais são tolerados por seu talento podem mesmo se destacar de sua origem miserável, ser investidos narcisicamente pelo star system e se oferecer como objetos de adoração, identificação e consolo para grande massa de fãs".
O reconhecimento da grande mídia, do mercado, portanto, não é o objetivo dos integrantes do grupo, mas parece como um agravante da dor de Brown, já que a fama de algum modo gerou um mal estar na própria comunidade, nos seus “manos”. A partir daí se desfaz a ilusão de que aquilo que ele faz por amor, a “luta pela cor”, produz algum sentido. Para sustentar essa derrota, ele se espelha nos seus ídolos, nos seus exemplos de guerreiros (Malcon X, Ghandi, Lennon, Marvin Gaye, Che Guevara, Tupac, Bob Marley e Martin Luther King). Assim como ele foi desacreditado, esses “levaram tiro”.
A última frase (“lembrei de um truta falar assim: não joga pérola aos porco irmão jogue lavagem eles prefere assim, se tem de usar piolhagem”) sintetiza mas uma vez a desilusão do enunciador, um amigo que assim como sua mãe alerta que aquilo não tem futuro. É desnecessário dar “pérolas aos porcos” já que eles foram acostumados à “lavagem”. Uma metáfora que indica que é inútil Brown tentar trazer algo de bom para periferia, travar essa luta através da música de protesto que é o rap, uma vez que “os próprios pretos não estão nem ai pra isso não”, segundo o amigo Brown tem que usar da sacanagem mesmo, assim como o primeiro que criticou o posicionamento do enunciador, passar para o lado de lá, ser “patrão”.
A mensagem destaque até o momento é uma definição de traição para enunciador em relação aos ideais que a cultura hip hop trouxe para periferia , que mesmo que não tenho mudado a estrutura social do país, causaram uma revolução nessa parcela da sociedade. Expressão maior disso é a frase “O hip hop salvou a minha vida”, a qual o jornalista Spensy Pimentel afirmou ter ouvido inúmeras vezes quando realizava o seu trabalho de conclusão de curso e que em poucos anos se espalhou pelas favelas a fora. O próprio Brown faz referencia, em outro música, à importância que o rap tem na sua vida
"Rap é minha vida. Tudo que eu me envolvo eu sou fanático. Eu amo ou eu odeio. Tudo que eu sei falar hoje, se eu sei trocar uma idéia mais ou menos, é por causa do rap. Se você não sair num mundão você não consegue comparar as coisas, saber o que é certo ou errado. O rap me ajudou a ver tudo isso".
NOTAS
Truta:amigos verdadeiros.
Guina: personagem da música “To ouvindo alguém me chamar”.( BROWN, Mano. To ouvindo alguém me chamar. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 4.)
Bico: o cara intrometido, que entra na conversa quando não é chamado e comumente não é bem-vindo.
Uma pá: um monte de alguma coisa.
NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90,nov.2001.p.66-83. p. 68.
VIANA, Natália. Enquanto isso na sala de justiça.Caros Amigos. São Paulo, n.24, jun.2005. Edição especial. p. 07
AMARAL, Marina. De volta para o futuro.Caros Amigos.São Paulo, n.24, jun.2005. Edição Especial. p.05.
BROWN, Mano. Privilégio 2: o tempo é rei. In: JAY, KL. Equilibrio : a busca. São Paulo: 4P Discos Ltda 2001. 2 CDs (1h46min.). Faixa 21 (18min.32s.)
* A reunião, que pretendia discutir os rumos do rap, durou quatro horas não chegou a uma conclusão, mas todos concordam que esses problemas surgiram com a popularização do rap, no momento que esse ultrapassou as fronteiras da periferia. Perdeu-se um pouco o centro, o objetivo de todo movimento, por isso foi a hora de parar e remanejar os caminhos do rap. Mas já em 2002, Brown demonstrava esse descontentamento com os rumos do sucesso que o grupo alcançava, Jesus Chorou é registro disso.
Piolhagem: sacanagem, vacilo.
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
* Todas as características e objetivos que já foram apresentados no relatório parcial e sumamente nesse relatório.
Análise de Jesus Chorou - PARTE II
tava eu mais dois truta e uma mina
num Tempra prata show filmado ouvindo Guina
o bico se atacou ó, falou uma pá do cê...
Esse Brown aí é cheio de querer ser, deixa ele moscar e cantar
na quebrada, vamo ver se é isso tudo quando ver as quadrada,
periferia nada, só pensa nele mesmo, montado no dinheiro e vocês
aí no veneno [...]
cada um no seu corre [...]
eu mesmo se eu catar voa
numa hora dessa, vou me destacar do
outro lado de pressa, vou comprar uma house de boy
depois alugo,vão me chamar de senhor não por vulgo
mas pra ele só a zona sul que é a pa [...]
porque eu não pago pau pra ninguém [...]
A crítica não está no fato de Brown ter alcançado o status através da música, ser uma referência no cenário nacional, e sim no seu discurso pró-periferia, pró-zona sul (onde o cantor mora e sempre morou), segundo o “bico” o cantor é hipócrita nessas falas. Está montado no dinheiro e na fama enquanto os seus amigos, os chamados “trutas”, continuam no mesmo cotidiano da favela, no mesmo “veneno”. Para ele, Brown deveria assumir que é uma celebridade, comprar uma casa de “boy” e passar para o outro lado (o lado do mercado consumista) e parar de lutar pela sua “quebrada”, como ele mesmo faria, se tivesse a oportunidade (eu mesmo se eu catar voa uma hora dessas). O sentido do verbo voar nesse trecho é de escalada na vida social, é passar de uma classe subjugada para as mais altas, algo alcançável para Brown em virtude do seu status obtido através do rap.
E por que isso abala tanto Brown? Entre os motivos, o principal é que essa imagem criada pelo “bico” desfaz tudo que o hip hop prega, tudo que o enunciador lutou e ainda luta através da sua arte, da sua música. Se caso cedesse a esses “conselhos”, Brown, contribuiria com desmantelamento da “marca identitária” do hip hop
"Não pode ficar nem isolado sem levar a mensagem, nem se submeter à lógica estritamente comercial que predomina no mercado e na mídia, pois, isso colocaria em risco a própria mensagem e anularia a missão".
A falta de compreensão é representada na figura de uma pessoa, no entanto, esse desconhecimento do verdadeiro sentido do movimento cultural no qual o rap se insere é algo que passa por diversos lugares e pela mídia, também. A figura dos Racionais se torna mais suscetível a isso pelo fato de serem avessos as grandes mídias, o que cria uma áurea de arrogância e superioridade em volta dos integrantes.
Milton Salles produtor/ideólogo/interlocutor dos Racionais, em entrevista a Caros Amigos, justifica essa escolha taxativa dos integrantes de não aceitar convites da grande mídia
"O problema, mais do que como a mídia vai tratar o rap, é você ser instrumento de manipulação, massa de manobra. É você estar dando subsídio que vende produto, é de repente você estar dentro do Faustão, dentro da Rede Globo, e com isso você manter o Ibope do dragão".
Por outro lado, esse posicionamento é a “volta para dentro”, a preocupação do grupo, que veio da favela, com a própria favela é fazer algo da periferia para periferia, esse posicionamento está na gênesis do movimento
"O compromisso não está só na mensagem da música, mas na atitude: continuar na quebrada, lutar pelos manos, não se vender à indústria milionária do disco e da televisão que lança e derruba modas".
A dor de Brown está justamente nesse ponto, quando a sua posição é distorcida e seus ideais incompreendidos e transformados em hipocrisia. A resposta do enunciador vem nas estrofes seguintes
Quem tem boca fala o que quer
Pra ter nome, pra ganhar atenção
das mulhé ou dos homens...amo
Minha raça, luto pela cor,
o que quer que eu faça é por nós, por
Amor, não entende o que eu sou,
não entende o que eu faço, não
Entende a dor e as lágrimas do palhaço...
No trecho o enunciador explicita a sua luta, tudo o que faz pelos negros da sua comunidade (raça, cor) e faz isso movido pelo sentimento do amor. Um discurso que pode até apresentar um tom piegas, mas a resposta vem na intensidade da dor, da revolta de ser incompreendido. E isso reflete a própria personalidade de Brown, um traço de preocupação maior com os outros, como se constata em um trecho de outra música de sua autoria
"Se você der um role comigo vai ver que eu sou um cara meio chapado.
Penso mil fitas ao mesmo tempo, tenho solução pra todo mundo, e pra mim mesmo muitas vezes eu não tenho nenhuma".
As pessoas não entenderem o processo de todo o discurso dos Racionais e todas coisas que os integrantes fazem no sentido de revolução na favela, pelo simples fato de serem exemplos de caminhos alternativos ao crime que podem ser seguidos, abala o enunciador, e essa indiferença é originada no seio do ambiente que ele quer transformar. Incompreensão até da própria mãe como segue no trecho seguinte
[...] e a minha mãe diz: Brown acorda, pensa
no futuro que isso é ilusão, os próprio preto não tá nem ai com
isso não, ó o tanto que eu sofri, que eu sou, o que eu fui, a
inveja mata um, tem muita gente ruim
Pô mãe não fala assim que
eu nem durmo, meu amor pela
senhora já não cabe em Saturno
Assim o fato desencadeador se costura com outros acontecimentos, com outros momentos de não assimilação da mensagem real que o rap dos Racionais quer passar. A música foi feita em 2001, mas esses problemas na interpretação tanto da própria mensagem que está sendo passada como, também, das atitudes dos rappers tem gerado discussões recentes. Mano Brown em um encontro em fevereiro desse ano demonstrou-se preocupado com a forma que mensagem estão sendo interpretadas, na época desabafou que parecia que os “manos” não estavam assimilando as letras direito. Algo que ele já anunciava nessa letra (“não entende o que eu sou, não entende o que eu faço, não entende a dor e as lágrimas do palhaço”).
A conexão dos fatos cotidiano narrados e a relação do grupo com a fama se constrói nas estrofes seguintes, no decorrer dessa parte até o final da letra Brown apresenta um discurso fomentado na sua batalha pessoal contra a “venda” dos ideais do rap ,algo cada vez mais perto de ocorrer diante da visibilidade que o estilo tem angariando nos últimos anos.
Dinheiro é bom, quero sim se essa é a pergunta,
Mas dona Ana fez de mim um homem e não uma puta [...]
Sozinho eu sou agora o meu inimigo intimo
Lembranças más vem, pensamentos bons vai.
Me ajude, sozinho penso merda pra caráio
Gente que acredito, gosto e admiro,
Brigava por justiça e em paz levou tiro: Malcon X,
Ghandi, Lennon, Marvin Gaye, Che Guevara, Tupac, Bob Marley e
O Evangélico Martin Luther King...
Lembrei de um truta falar assim: não joga pérola
Aos porco irmão, jogue lavagem
Eles prefere assim, se tem de usar piolhagem .
O enunciador, assim, não é contrário as possibilidades do ponto de vista material que o rap pode proporcionar, no entanto, defende uma visão do conjunto, de nada adianta a fama de um ou outro cantor de rap se não tiver o retorno para a comunidade como prega a ideologia do hip hop, o que importa para eles é a inserção da mensagem na periferia. E, também, é avesso a “venda” da sua arte, ou seja, apropriação e reformulação do rap pelos interesses comerciais. A ascensão social é algo positivo, no entanto, sem a necessidade de desvirtuar os objetivos da cultura hip hop.
"Para eles (Racionais) a questão do reconhecimento e da inclusão não se resolve através da ascensão oferecida pela lógica do mercado, segundo o qual dois ou três indivíduos excepcionais são tolerados por seu talento podem mesmo se destacar de sua origem miserável, ser investidos narcisicamente pelo star system e se oferecer como objetos de adoração, identificação e consolo para grande massa de fãs".
O reconhecimento da grande mídia, do mercado, portanto, não é o objetivo dos integrantes do grupo, mas parece como um agravante da dor de Brown, já que a fama de algum modo gerou um mal estar na própria comunidade, nos seus “manos”. A partir daí se desfaz a ilusão de que aquilo que ele faz por amor, a “luta pela cor”, produz algum sentido. Para sustentar essa derrota, ele se espelha nos seus ídolos, nos seus exemplos de guerreiros (Malcon X, Ghandi, Lennon, Marvin Gaye, Che Guevara, Tupac, Bob Marley e Martin Luther King). Assim como ele foi desacreditado, esses “levaram tiro”.
A última frase (“lembrei de um truta falar assim: não joga pérola aos porco irmão jogue lavagem eles prefere assim, se tem de usar piolhagem”) sintetiza mas uma vez a desilusão do enunciador, um amigo que assim como sua mãe alerta que aquilo não tem futuro. É desnecessário dar “pérolas aos porcos” já que eles foram acostumados à “lavagem”. Uma metáfora que indica que é inútil Brown tentar trazer algo de bom para periferia, travar essa luta através da música de protesto que é o rap, uma vez que “os próprios pretos não estão nem ai pra isso não”, segundo o amigo Brown tem que usar da sacanagem mesmo, assim como o primeiro que criticou o posicionamento do enunciador, passar para o lado de lá, ser “patrão”.
A mensagem destaque até o momento é uma definição de traição para enunciador em relação aos ideais que a cultura hip hop trouxe para periferia , que mesmo que não tenho mudado a estrutura social do país, causaram uma revolução nessa parcela da sociedade. Expressão maior disso é a frase “O hip hop salvou a minha vida”, a qual o jornalista Spensy Pimentel afirmou ter ouvido inúmeras vezes quando realizava o seu trabalho de conclusão de curso e que em poucos anos se espalhou pelas favelas a fora. O próprio Brown faz referencia, em outro música, à importância que o rap tem na sua vida
"Rap é minha vida. Tudo que eu me envolvo eu sou fanático. Eu amo ou eu odeio. Tudo que eu sei falar hoje, se eu sei trocar uma idéia mais ou menos, é por causa do rap. Se você não sair num mundão você não consegue comparar as coisas, saber o que é certo ou errado. O rap me ajudou a ver tudo isso".
NOTAS
Truta:amigos verdadeiros.
Guina: personagem da música “To ouvindo alguém me chamar”.( BROWN, Mano. To ouvindo alguém me chamar. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 4.)
Bico: o cara intrometido, que entra na conversa quando não é chamado e comumente não é bem-vindo.
Uma pá: um monte de alguma coisa.
NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90,nov.2001.p.66-83. p. 68.
VIANA, Natália. Enquanto isso na sala de justiça.Caros Amigos. São Paulo, n.24, jun.2005. Edição especial. p. 07
AMARAL, Marina. De volta para o futuro.Caros Amigos.São Paulo, n.24, jun.2005. Edição Especial. p.05.
BROWN, Mano. Privilégio 2: o tempo é rei. In: JAY, KL. Equilibrio : a busca. São Paulo: 4P Discos Ltda 2001. 2 CDs (1h46min.). Faixa 21 (18min.32s.)
* A reunião, que pretendia discutir os rumos do rap, durou quatro horas não chegou a uma conclusão, mas todos concordam que esses problemas surgiram com a popularização do rap, no momento que esse ultrapassou as fronteiras da periferia. Perdeu-se um pouco o centro, o objetivo de todo movimento, por isso foi a hora de parar e remanejar os caminhos do rap. Mas já em 2002, Brown demonstrava esse descontentamento com os rumos do sucesso que o grupo alcançava, Jesus Chorou é registro disso.
Piolhagem: sacanagem, vacilo.
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
* Todas as características e objetivos que já foram apresentados no relatório parcial e sumamente nesse relatório.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Aviso aos navegantes
Assim como Negro Drama eu vou postar a análise de Jesus Chorou em partes. Logo mais eu coloco a segunda parte.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Análise de Jesus Chorou
Essa é a segunda música que eu analisei dos Racionais, fiz essa escolha para abordar o tema da fama, como o grupo lidava com essa questão, uma vez que já tinha alcançado status no cenário musical brasileiro e já era considerado uns dos melhores grupos de Rap Nacional.
Não quero status, nem fama!
Análise da música Jesus Chorou
“Quanto maior a fama, maior o número de inimigos, maior o número de pessoas que querem quebrar as suas pernas, te derrubar. Mais você vai ter que provar para os outros, mais você vai ser registrado e mais, você será cobrado” Mano Brown (Março de 2004) .
Em Jesus Chorou Mano Brown, como enunciador principal na narração, faz relato de “uma fita que o abalou” . A narrativa de um fato normal do cotidiano carrega vários indicativos da relação do grupo com a fama, com as pessoas que se aproximaram devido ao status alcançado pelo sucesso no cenário musical do rap. Essa relação não parece apenas nessa música do álbum, de certa forma essa temática tornou-se recorrente a partir desse trabalho. Sobre o disco
"O disco representa uma face de lirismo, consciência da passagem do tempo e reflexão sobre a posição social do grupo se não é absolutamente inédita nas composições dos Racionais, ainda não havia aparecido de forma tão evidente e tocante".
A narrativa é um desabafo, uma descrição da dor do enunciador ao ver que em determinado momento todos os ideais que prega através da música, os ideais geradores do Hip hop, se esvaecem diante da incompreensão dos invejosos e, também, das pessoas por quem ele lutou até o momento. É desilusão com a fama nos moldes ditados pela indústria cultural.
O que e o que é??
Clara e salgada, cabe em um olho e pesa uma tonelada...tem sabor
de mar,
pode ser discreta, inquilina da dor, morada predileta....na
calada ela vem, refém da vingança, irmã do desespero, rival da
esperança... pode ser causada por vermes e mundanas...e o
espinho da flor, cruel que você ama amante do drama,
vem pra minha cama, por querer, sem me perguntar me fez sofrer..
e eu que me julguei forte...e eu que me
senti...serei um fraco, quando outras delas vir..se o barato é
louco e o processo é lento...no momento...deixa eu caminhar
contra o vento...o que adianta eu ser durão e o coração ser
vulnerável...
o vento não, ele é suave, mas é frio e implacável
borrou a letra triste do poeta
correu no rosto pardo do profeta..
.verme sai da reta...a lágrima de um
homem vai cair...esse é o seu B.O. pa eternidade...
diz que homem não chora...
ta bom, falou...não vai pra grupo irmão ai ....
JESUS CHOROU ! ! !
No início de forma lúdica, num jogo de adivinhação o enunciador descreve o seu momento de dor, nesse instante há apresentação dessa situação de drama. Todo esse discurso remete a maior expressão de exteriorização da dor - a LÁGRIMA. O título Jesus Chorou remete ao tema da música, ele -Jesus- é o exemplo da força, da resistência a tudo que o atingiu até o momento da crucificação e, ao mesmo tempo teve o seu momento de dor e a ação de colocar isso em evidência ao chorar. Não que Brown, o narrador-enunciador, tenha a pretensão de ser um líder como Jesus, mas em seu ambiente de influência, em uma escala menor, ele é exemplo para muitos.
A reportagem de Phydia de Athayde para Carta Capital oferece indicações do que seria o “poder” de Brown na sua “quebrada”
"Ele fala pouco. Quando o faz, jamais é interrompido. Metade, na roda, nada diz. Os de sempre se movem seguindo à risca a liturgia. Liturgia não escrita nem falada. Apenas apreendida. Se Brown anda 5 metros para esquerda, fazem o mesmo. Em silêncio. Não são fãs. São amigos".
E, agora o enunciador admite a sua fraqueza, embora seja considerado um forte pelos amigos, e tenha construído mesmo que inconsciente a fama de durão ele se sente fraco, como ele mesmo afirma “o que adianta ser durão e o coração ser vulnerável”.
Na seqüência o enunciador passa a narrar os acontecimento que desencadearam essa dor e o que fazer agora, quando tudo que ele acredita e lutava parecia se esvaziar no ar. Uma “fita” contada pelo outro locutor dessa música o abalou e criou essa crise interior do primeiro narrador. Embora, a sua voz interior insista no “espírito do Capão”, expressão que simboliza a luta que ele trava pelo seu local de origem por meio da sua força como artista, algo o abalou, fato que criou uma situação de desmoronamento de seus ideais.
O que fazer quando a fortaleza tremeu
E quase tudo ao seu redor melhor
Se corrompeu
Epa pera lá muita calma ladrão!
Cadê o espírito imortal do Capão? [...]
Uma fita me abalou na noite anterior
No próximo trecho aparece o fato desencadeador de todo o discurso dessa música, uma ligação de um amigo sobre o acontecimento da noite anterior, o fato em si não tem a importância central da letra, mas justifica o sentimento apresentado pelo enunciador. Segundo o outro enunciador na noite anterior ele saiu para “fumar um” e nessa “atividade” presenciou o desabafo de outro individuo sobre a posição de Brown - o primeiro enunciador- como artista.
Na história, o segundo enunciador e mais algumas pessoas estavam no local quando apareceu o indivíduo que não era de lá, mas ficou ali para participar da “atividade”, como o grupo estava ouvindo uma música dos Racionais cantada por Brown, ele fez um desabafo sobre o que achava do cantor. Como segue na narrativa
tava eu mais dois truta e uma mina
num Tempra prata show filmado ouvindo Guina
o bico se atacou ó, falou uma pá do cê...
Esse Brown aí é cheio de querer ser, deixa ele moscar e cantar
na quebrada, vamo ver se é isso tudo quando ver as quadrada,
periferia nada, só pensa nele mesmo, montado no dinheiro e vocês
aí no veneno [...]
cada um no seu corre [...]
eu mesmo se eu catar voa
numa hora dessa, vou me destacar do
outro lado de pressa, vou comprar uma house de boy
depois alugo,vão me chamar de senhor não por vulgo
mas pra ele só a zona sul que é a pa [...]
porque eu não pago pau pra ninguém [...]
NOTAS
RACIONAIS MC´s.Jesus Chorou. In:______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 2 (54 min 31s), faixa 4 (7min 51s).
Alguns trechos da letra foram suprimidos. A letra inteira segue em anexo.
ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29 set.2004. p.16
Fita: acontecimento, fato.
Grifo da autora.
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004
Quebrada: bairro ou rua que é local de moradia.
ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.13.
Fumar um: fumar maconha
Não quero status, nem fama!
Análise da música Jesus Chorou
“Quanto maior a fama, maior o número de inimigos, maior o número de pessoas que querem quebrar as suas pernas, te derrubar. Mais você vai ter que provar para os outros, mais você vai ser registrado e mais, você será cobrado” Mano Brown (Março de 2004) .
Em Jesus Chorou Mano Brown, como enunciador principal na narração, faz relato de “uma fita que o abalou” . A narrativa de um fato normal do cotidiano carrega vários indicativos da relação do grupo com a fama, com as pessoas que se aproximaram devido ao status alcançado pelo sucesso no cenário musical do rap. Essa relação não parece apenas nessa música do álbum, de certa forma essa temática tornou-se recorrente a partir desse trabalho. Sobre o disco
"O disco representa uma face de lirismo, consciência da passagem do tempo e reflexão sobre a posição social do grupo se não é absolutamente inédita nas composições dos Racionais, ainda não havia aparecido de forma tão evidente e tocante".
A narrativa é um desabafo, uma descrição da dor do enunciador ao ver que em determinado momento todos os ideais que prega através da música, os ideais geradores do Hip hop, se esvaecem diante da incompreensão dos invejosos e, também, das pessoas por quem ele lutou até o momento. É desilusão com a fama nos moldes ditados pela indústria cultural.
O que e o que é??
Clara e salgada, cabe em um olho e pesa uma tonelada...tem sabor
de mar,
pode ser discreta, inquilina da dor, morada predileta....na
calada ela vem, refém da vingança, irmã do desespero, rival da
esperança... pode ser causada por vermes e mundanas...e o
espinho da flor, cruel que você ama amante do drama,
vem pra minha cama, por querer, sem me perguntar me fez sofrer..
e eu que me julguei forte...e eu que me
senti...serei um fraco, quando outras delas vir..se o barato é
louco e o processo é lento...no momento...deixa eu caminhar
contra o vento...o que adianta eu ser durão e o coração ser
vulnerável...
o vento não, ele é suave, mas é frio e implacável
borrou a letra triste do poeta
correu no rosto pardo do profeta..
.verme sai da reta...a lágrima de um
homem vai cair...esse é o seu B.O. pa eternidade...
diz que homem não chora...
ta bom, falou...não vai pra grupo irmão ai ....
JESUS CHOROU ! ! !
No início de forma lúdica, num jogo de adivinhação o enunciador descreve o seu momento de dor, nesse instante há apresentação dessa situação de drama. Todo esse discurso remete a maior expressão de exteriorização da dor - a LÁGRIMA. O título Jesus Chorou remete ao tema da música, ele -Jesus- é o exemplo da força, da resistência a tudo que o atingiu até o momento da crucificação e, ao mesmo tempo teve o seu momento de dor e a ação de colocar isso em evidência ao chorar. Não que Brown, o narrador-enunciador, tenha a pretensão de ser um líder como Jesus, mas em seu ambiente de influência, em uma escala menor, ele é exemplo para muitos.
A reportagem de Phydia de Athayde para Carta Capital oferece indicações do que seria o “poder” de Brown na sua “quebrada”
"Ele fala pouco. Quando o faz, jamais é interrompido. Metade, na roda, nada diz. Os de sempre se movem seguindo à risca a liturgia. Liturgia não escrita nem falada. Apenas apreendida. Se Brown anda 5 metros para esquerda, fazem o mesmo. Em silêncio. Não são fãs. São amigos".
E, agora o enunciador admite a sua fraqueza, embora seja considerado um forte pelos amigos, e tenha construído mesmo que inconsciente a fama de durão ele se sente fraco, como ele mesmo afirma “o que adianta ser durão e o coração ser vulnerável”.
Na seqüência o enunciador passa a narrar os acontecimento que desencadearam essa dor e o que fazer agora, quando tudo que ele acredita e lutava parecia se esvaziar no ar. Uma “fita” contada pelo outro locutor dessa música o abalou e criou essa crise interior do primeiro narrador. Embora, a sua voz interior insista no “espírito do Capão”, expressão que simboliza a luta que ele trava pelo seu local de origem por meio da sua força como artista, algo o abalou, fato que criou uma situação de desmoronamento de seus ideais.
O que fazer quando a fortaleza tremeu
E quase tudo ao seu redor melhor
Se corrompeu
Epa pera lá muita calma ladrão!
Cadê o espírito imortal do Capão? [...]
Uma fita me abalou na noite anterior
No próximo trecho aparece o fato desencadeador de todo o discurso dessa música, uma ligação de um amigo sobre o acontecimento da noite anterior, o fato em si não tem a importância central da letra, mas justifica o sentimento apresentado pelo enunciador. Segundo o outro enunciador na noite anterior ele saiu para “fumar um” e nessa “atividade” presenciou o desabafo de outro individuo sobre a posição de Brown - o primeiro enunciador- como artista.
Na história, o segundo enunciador e mais algumas pessoas estavam no local quando apareceu o indivíduo que não era de lá, mas ficou ali para participar da “atividade”, como o grupo estava ouvindo uma música dos Racionais cantada por Brown, ele fez um desabafo sobre o que achava do cantor. Como segue na narrativa
tava eu mais dois truta e uma mina
num Tempra prata show filmado ouvindo Guina
o bico se atacou ó, falou uma pá do cê...
Esse Brown aí é cheio de querer ser, deixa ele moscar e cantar
na quebrada, vamo ver se é isso tudo quando ver as quadrada,
periferia nada, só pensa nele mesmo, montado no dinheiro e vocês
aí no veneno [...]
cada um no seu corre [...]
eu mesmo se eu catar voa
numa hora dessa, vou me destacar do
outro lado de pressa, vou comprar uma house de boy
depois alugo,vão me chamar de senhor não por vulgo
mas pra ele só a zona sul que é a pa [...]
porque eu não pago pau pra ninguém [...]
NOTAS
RACIONAIS MC´s.Jesus Chorou. In:______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 2 (54 min 31s), faixa 4 (7min 51s).
Alguns trechos da letra foram suprimidos. A letra inteira segue em anexo.
ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29 set.2004. p.16
Fita: acontecimento, fato.
Grifo da autora.
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo
Quebrada: bairro ou rua que é local de moradia.
ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.13.
Fumar um: fumar maconha
quarta-feira, 23 de abril de 2008
ANIVERSÁRIO
HOJE É UM DATA ESPECIAL...
EU FAÇO 24 ANOS!!!!!
E hoje só o que eu quero é o Parabéns dos meus amigos e das demais pessoas que eu amo
Que Deus continue iluminando o meu caminho
EU FAÇO 24 ANOS!!!!!
E hoje só o que eu quero é o Parabéns dos meus amigos e das demais pessoas que eu amo
Que Deus continue iluminando o meu caminho
quinta-feira, 17 de abril de 2008
parte III
Continuando a postar a análise de Negro Drama, mais uma parte do meu trabalho de Iniciação Científica. Para entender tudo ver o primeiro post sobre isso no dia 28 de fevereiro, é foi há dois meses atrás mais ou menos que eu comecei essa história que ocupou um ano inteiro da minha vida, dos meus estudos e foi muito importante para mim na minha jornada na Unesp e hoje eu divido com as poucas, mas boas pessoas que visitam esse blog. No próximo post já vou começar a análise de JESUS CHOROU.
Obrigada mais uma vez!
Negro Drama: parte III e última
A luta que o enunciador afirma só tem sentido, ou seja, só significa diante da posição de subjugado que o negro ocupa no país, como afirma Darcy Ribeiro
"O fato de ser negro ou mulato, entretanto, custa também um preço adicional, porque a crueza do trato desigualitário que suportam todos os pobres, se acrescentam formas sutis ou desabridas de hostilidade".
Por outro lado, a luta continua, é travada diariamente. O enunciador demonstra isso através do ciclo vicioso. Volta ao passado e termina essa parte mais uma vez com o “negro drama”, de forma pessimista, onde muitas vezes a saída está no crime e não em outras formas como a educação (referência ao “caderno”)
Vi um pretinho e seu caderno era um fuzil , NEGRO DRAMA
A segunda parte da música é cantada por Mano Brown, é uma autobiografia declarada que vem dar veracidade aos argumentos acerca das condições do negro levantadas por Edy Rock na primeira parte e, da mesma forma, demonstrar mais um exemplo de vitória.
Crime, futebol, música, [...],
Eu também não consegui fugir disso aí
Eu sou mais um, Forrest Gump é mato ,
Eu prefiro contar uma história real
Vou conta a minha
Na narrativa de Mano Brown a relação entre o negro pobre da periferia de São Paulo e os receptores do discurso, classe média e alta, sofre maior tensão. Porque nessa narrativa existe a acusação da apropriação da cultura negra, pasteurizada nos costumes da classe média e alta, que veremos mais à frente.
Seguindo a linha da narrativa, Brown descreve o momento da chegada de sua mãe, uma negra, nordestina e mãe solteira, na grande cidade de São Paulo
Uma negra e uma criança nos braços,
Solitária na floresta de concreto e aço.
Veja, Olha outra vez, o rosto na multidão,
A multidão é um monstro sem rosto e coração.
Hey, São Paulo! Terra de arranha-céu
A garoa rasga a carne, é a Torre de Babel,
Família Brasileira, dois contra o mundo,
Mãe solteira de um promissor, vagabundo,
Luz, Câmera e Ação, Gravando a cena vai
O Bastardo mais um filho pardo sem Pai
O trecho descreve como se deu a inclusão desses novos moradores com “a floresta de concreto e aço”. Nesse ponto edifica-se outro aspecto histórico da marginalização, a vinda dos retirantes para São Paulo. Não há uma definição clara na música que a mãe de Brown foi uma retirante, isso é informação de sua biografia. Porém, elucidado esse fato compreende a intenção nesse trecho de demonstrar a dor e solidão daquelas duas pessoas à margem da grande cidade.
A mãe de Brown veio para São Paulo menina, muito antes de ele nascer. O primeiro momento de solidão a menina nordestina no meio da Torre de Babel paulistana, onde ninguém se entende e muito menos a entende, uma multidão sem rosto e sem coração.O segundo momento foi quando foi mãe solteira, como Brown afirma na letra e ela confirma em entrevista a Caros Amigos “meu marido me deixou quando eu estava de um mês” . Nessa parte da narrativa existe a fusão das dificuldades pessoais de Mano Brown com a totalidade de experiências assim que se repetem. A verdadeira família brasileira, aquela gerada no miolo do “povão”.Assim como Edy Rock nas primeiras estrofes, Brown costura mais aspectos do cotidiano do marginalizados. Na sua história particular ele reedifica as falas de Edy Rock.
A relação do homem negro do gueto com a classe média branca assume novos aspectos nessa parte da música
Inacreditável, mas seu filho me imita
No meio de vocês ele é o mais esperto
Ginga e fala gíria, gíria não dialeto
Esse não é mais seu
Entrei pelo seu rádio, tomei, você nem viu [..]
Seu filho quer ser preto, que ironia
Cola o pôster do Tupac ae [...]
Sente o Negro Drama, vai, e tenta ser feliz
Nesse momento aparece a tentativa apropriação da cultura. Os negros sempre sofreram dessa injustiça, foi assim com o blues, com soul e o funk, estilos musicais germinadores do rap . A cultura geminada no cerne das comunidades negras e de suas influências é apropriada pela classe média e pasteurizada a seus costumes. A questão vai além do consumo, não é o “playboy” comprando CDs, ouvindo Racionais no aparelho de som do seu carro importado, é assimilação de um discurso proveniente da periferia, de pessoas que sofrem a discriminação racial, social e cultural como “seu” (do indivíduo da classe média).
"Eles (classe média) vão entrar no rap e começar a falar de outras coisas, vão usar a linguagem deles, e a tendência é somente serem consumidos e o resto ser esquecido, como tudo o que aconteceu. Com o samba foi assim, os sambistas só pararam de apanhar com os instrumentos na costas depois que o homem do asfalto começou a dizer que o samba era bom, começou a produzir e o outro virou coadjuvante".
O garoto filho do “senhor de engenho” não se contenta em ouvir a música, ele quer ser preto. E isso é o lado negativo da explosão do hip hop é a apropriação por parte da classe média, ela compra esse discurso e o faz seu, ela compra as roupas dos meninos e meninas da periferia usam e faz disso uma grife, uma marca. O injusto é que essa apropriação é excludente e exclui justamente os seus idealizadores, tira a legitimidade dos seus percussores.
Por outro lado, na última estrofe do trecho Brown derruba essa intenção com o diferencial decisivo: “o negro drama” narrado em todo o contexto da letra. Por mais que se tente a assimilação, essa não vai passar de algo plástico, porque não tem como parte integrante a experiência cotidiana dos “manos” dos Racionais.
O que você fez por mim?
Eu recebi seu tickt, quer dizer kit,
de esgoto a céu aberto, e parede madeirite,
De vergonha eu não morri, to firmão, eis me aqui,
[...]
Eu sou o mano Homem duro do gueto, Brown,
E de onde vem os diamante?
Da lama, valeu mãe
NEGRO DRAMA, DRAMA, DRAMA.
A estrofe acima é o reforço da mensagem da música. O ressentimento, taxado de “racismo ao contrário”, fundamenta-se nesse ponto, no que sobrou para o coadjuvante na história oficial- negro morador da favela- esgoto a céu aberto e parede maderite, ou seja, a própria favela e todas sua mazelas. Mas de onde vem o diamante se não da lama? Essa é mensagem final de Brown o caminho foi e ainda é adverso, as estrofes do negro drama confirmam, a narrativa se edifica nesse mote. No entanto, a revolução começa a ser feita “a começar pelas armas: sua palavra em primeiro lugar”.Da lama saem os diamantes, do gueto saem os novos cronistas da periferia.
E a estrofe final
E ae na época dos barracos de pau lá da pedreira
o que vocês fizeram por mim
O que vocês deram por mim
Agora ta de olho no dinheiro que eu ganho
Ta de olho no carro que eu dirijo[...]
Ae o rap fez ser o que sou hoje
Ice Blue, Edy Rock, Kl Jay
E Toda família, toda a geração que faz o rap
A geração que revolucionou, e que vai revolucionar [...]
Você sai do gueto, mas o gueto nunca sai de você [...]
O mundo inteiro ta de olho em você pela sua origem
É desse jeito que você vive é Negro Drama
Eu não li, eu não assisti, eu vivo o Negro Drama
Eu sou o Negro Drama
Sou fruto do Negro Drama [...]
O fechamento da música é discurso raivoso de Mano Brown afirmando mais uma vez todas as questões levantadas no decorrer das estrofes. A marginalização/discriminação por parte das classes média e alta branca, a apropriação da arte (Agora ta de olho no dinheiro que eu ganho) e a oportunidade dada pelo Rap, a possibilidade de revolução, ao menos, na auto-afirmação do negro.
Em suma, o retrocesso a toda mensagem passada por essa música a fim de reforça-lo. Com destaque para as últimas fases (Eu não li, eu não assisti, eu vivo o Negro Drama Eu sou o Negro Drama,Sou fruto do Negro Drama), nesses trechos o enunciador deixa explicito que nada do que foi dito é algo que ele soube por intermédios de terceiros ou que ele presenciou como observador. Ele viveu e ainda vive todo esse estigma, assim como sua mãe, por isso ele é “fruto do negro drama”.
Notas
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentindo do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 235.
Mato: mentira, invenção, ficção.
KALILI,Sérgio. Mano Brown é um fenômeno.Caros Amigos. São Paulo, n.10, jan.1998. p. 33.
Spency Pimentel em seu livro “Livro Vermelho do Hip hop” (PIMENTEL, Spensy Kmitta. O Livro Vermelho do Hip Hop. 1997.Trabalho de Conclusão de Curso- Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 1997) discorre sobre o que seria a “árvore genealógica musical” do rap. Assim “o rap possui uma árvore genealógica no universo musical, é bisneto do spiritual e do blues, neto do soul, filho do funk, irmão do rock, primo do reggae, do samba, do maracatu e da embolada”.
Homem do asfalto: os indivíduos que não moram na favela, no morro.
CAROS AMIGOS. O hip hop é um instrumento de transformação. In: Caros Amigos. São Paulo, n.99, jun.2005.p.35
Obrigada mais uma vez!
Negro Drama: parte III e última
A luta que o enunciador afirma só tem sentido, ou seja, só significa diante da posição de subjugado que o negro ocupa no país, como afirma Darcy Ribeiro
"O fato de ser negro ou mulato, entretanto, custa também um preço adicional, porque a crueza do trato desigualitário que suportam todos os pobres, se acrescentam formas sutis ou desabridas de hostilidade".
Por outro lado, a luta continua, é travada diariamente. O enunciador demonstra isso através do ciclo vicioso. Volta ao passado e termina essa parte mais uma vez com o “negro drama”, de forma pessimista, onde muitas vezes a saída está no crime e não em outras formas como a educação (referência ao “caderno”)
Vi um pretinho e seu caderno era um fuzil , NEGRO DRAMA
A segunda parte da música é cantada por Mano Brown, é uma autobiografia declarada que vem dar veracidade aos argumentos acerca das condições do negro levantadas por Edy Rock na primeira parte e, da mesma forma, demonstrar mais um exemplo de vitória.
Crime, futebol, música, [...],
Eu também não consegui fugir disso aí
Eu sou mais um, Forrest Gump é mato ,
Eu prefiro contar uma história real
Vou conta a minha
Na narrativa de Mano Brown a relação entre o negro pobre da periferia de São Paulo e os receptores do discurso, classe média e alta, sofre maior tensão. Porque nessa narrativa existe a acusação da apropriação da cultura negra, pasteurizada nos costumes da classe média e alta, que veremos mais à frente.
Seguindo a linha da narrativa, Brown descreve o momento da chegada de sua mãe, uma negra, nordestina e mãe solteira, na grande cidade de São Paulo
Uma negra e uma criança nos braços,
Solitária na floresta de concreto e aço.
Veja, Olha outra vez, o rosto na multidão,
A multidão é um monstro sem rosto e coração.
Hey, São Paulo! Terra de arranha-céu
A garoa rasga a carne, é a Torre de Babel,
Família Brasileira, dois contra o mundo,
Mãe solteira de um promissor, vagabundo,
Luz, Câmera e Ação, Gravando a cena vai
O Bastardo mais um filho pardo sem Pai
O trecho descreve como se deu a inclusão desses novos moradores com “a floresta de concreto e aço”. Nesse ponto edifica-se outro aspecto histórico da marginalização, a vinda dos retirantes para São Paulo. Não há uma definição clara na música que a mãe de Brown foi uma retirante, isso é informação de sua biografia. Porém, elucidado esse fato compreende a intenção nesse trecho de demonstrar a dor e solidão daquelas duas pessoas à margem da grande cidade.
A mãe de Brown veio para São Paulo menina, muito antes de ele nascer. O primeiro momento de solidão a menina nordestina no meio da Torre de Babel paulistana, onde ninguém se entende e muito menos a entende, uma multidão sem rosto e sem coração.O segundo momento foi quando foi mãe solteira, como Brown afirma na letra e ela confirma em entrevista a Caros Amigos “meu marido me deixou quando eu estava de um mês” . Nessa parte da narrativa existe a fusão das dificuldades pessoais de Mano Brown com a totalidade de experiências assim que se repetem. A verdadeira família brasileira, aquela gerada no miolo do “povão”.Assim como Edy Rock nas primeiras estrofes, Brown costura mais aspectos do cotidiano do marginalizados. Na sua história particular ele reedifica as falas de Edy Rock.
A relação do homem negro do gueto com a classe média branca assume novos aspectos nessa parte da música
Inacreditável, mas seu filho me imita
No meio de vocês ele é o mais esperto
Ginga e fala gíria, gíria não dialeto
Esse não é mais seu
Entrei pelo seu rádio, tomei, você nem viu [..]
Seu filho quer ser preto, que ironia
Cola o pôster do Tupac ae [...]
Sente o Negro Drama, vai, e tenta ser feliz
Nesse momento aparece a tentativa apropriação da cultura. Os negros sempre sofreram dessa injustiça, foi assim com o blues, com soul e o funk, estilos musicais germinadores do rap . A cultura geminada no cerne das comunidades negras e de suas influências é apropriada pela classe média e pasteurizada a seus costumes. A questão vai além do consumo, não é o “playboy” comprando CDs, ouvindo Racionais no aparelho de som do seu carro importado, é assimilação de um discurso proveniente da periferia, de pessoas que sofrem a discriminação racial, social e cultural como “seu” (do indivíduo da classe média).
"Eles (classe média) vão entrar no rap e começar a falar de outras coisas, vão usar a linguagem deles, e a tendência é somente serem consumidos e o resto ser esquecido, como tudo o que aconteceu. Com o samba foi assim, os sambistas só pararam de apanhar com os instrumentos na costas depois que o homem do asfalto começou a dizer que o samba era bom, começou a produzir e o outro virou coadjuvante".
O garoto filho do “senhor de engenho” não se contenta em ouvir a música, ele quer ser preto. E isso é o lado negativo da explosão do hip hop é a apropriação por parte da classe média, ela compra esse discurso e o faz seu, ela compra as roupas dos meninos e meninas da periferia usam e faz disso uma grife, uma marca. O injusto é que essa apropriação é excludente e exclui justamente os seus idealizadores, tira a legitimidade dos seus percussores.
Por outro lado, na última estrofe do trecho Brown derruba essa intenção com o diferencial decisivo: “o negro drama” narrado em todo o contexto da letra. Por mais que se tente a assimilação, essa não vai passar de algo plástico, porque não tem como parte integrante a experiência cotidiana dos “manos” dos Racionais.
O que você fez por mim?
Eu recebi seu tickt, quer dizer kit,
de esgoto a céu aberto, e parede madeirite,
De vergonha eu não morri, to firmão, eis me aqui,
[...]
Eu sou o mano Homem duro do gueto, Brown,
E de onde vem os diamante?
Da lama, valeu mãe
NEGRO DRAMA, DRAMA, DRAMA.
A estrofe acima é o reforço da mensagem da música. O ressentimento, taxado de “racismo ao contrário”, fundamenta-se nesse ponto, no que sobrou para o coadjuvante na história oficial- negro morador da favela- esgoto a céu aberto e parede maderite, ou seja, a própria favela e todas sua mazelas. Mas de onde vem o diamante se não da lama? Essa é mensagem final de Brown o caminho foi e ainda é adverso, as estrofes do negro drama confirmam, a narrativa se edifica nesse mote. No entanto, a revolução começa a ser feita “a começar pelas armas: sua palavra em primeiro lugar”.Da lama saem os diamantes, do gueto saem os novos cronistas da periferia.
E a estrofe final
E ae na época dos barracos de pau lá da pedreira
o que vocês fizeram por mim
O que vocês deram por mim
Agora ta de olho no dinheiro que eu ganho
Ta de olho no carro que eu dirijo[...]
Ae o rap fez ser o que sou hoje
Ice Blue, Edy Rock, Kl Jay
E Toda família, toda a geração que faz o rap
A geração que revolucionou, e que vai revolucionar [...]
Você sai do gueto, mas o gueto nunca sai de você [...]
O mundo inteiro ta de olho em você pela sua origem
É desse jeito que você vive é Negro Drama
Eu não li, eu não assisti, eu vivo o Negro Drama
Eu sou o Negro Drama
Sou fruto do Negro Drama [...]
O fechamento da música é discurso raivoso de Mano Brown afirmando mais uma vez todas as questões levantadas no decorrer das estrofes. A marginalização/discriminação por parte das classes média e alta branca, a apropriação da arte (Agora ta de olho no dinheiro que eu ganho) e a oportunidade dada pelo Rap, a possibilidade de revolução, ao menos, na auto-afirmação do negro.
Em suma, o retrocesso a toda mensagem passada por essa música a fim de reforça-lo. Com destaque para as últimas fases (Eu não li, eu não assisti, eu vivo o Negro Drama Eu sou o Negro Drama,Sou fruto do Negro Drama), nesses trechos o enunciador deixa explicito que nada do que foi dito é algo que ele soube por intermédios de terceiros ou que ele presenciou como observador. Ele viveu e ainda vive todo esse estigma, assim como sua mãe, por isso ele é “fruto do negro drama”.
Notas
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentindo do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 235.
Mato: mentira, invenção, ficção.
KALILI,Sérgio. Mano Brown é um fenômeno.Caros Amigos. São Paulo, n.10, jan.1998. p. 33.
Spency Pimentel em seu livro “Livro Vermelho do Hip hop” (PIMENTEL, Spensy Kmitta. O Livro Vermelho do Hip Hop. 1997.Trabalho de Conclusão de Curso- Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 1997) discorre sobre o que seria a “árvore genealógica musical” do rap. Assim “o rap possui uma árvore genealógica no universo musical, é bisneto do spiritual e do blues, neto do soul, filho do funk, irmão do rock, primo do reggae, do samba, do maracatu e da embolada”.
Homem do asfalto: os indivíduos que não moram na favela, no morro.
CAROS AMIGOS. O hip hop é um instrumento de transformação. In: Caros Amigos. São Paulo, n.99, jun.2005.p.35
segunda-feira, 14 de abril de 2008
mais de Negro Drama
Demorou, mas, está aui mais uma paret da análise de Negro Drama. Partindo de onde eu parei, ou seja o post que está logo abaixo.
Parte II da análise de Negro Drama
A composição dessa imagem é histórica realmente e natural, remete ao próprio estabelecimento das relações em nossa sociedade. Histórica e que se repete, como nas próprias palavras de Mano Brown
Você já nasceu preto, descendente de escravo que sofreu, filho de escravo que sofreu, continua tomando "enquadro" da polícia, continua convivendo com drogas, com tráfico, com alcoolismo, com todos os baratos que não foi a gente que trouxe pra cá. Foi o que colocaram pra gente .
É evidente nesse contexto a relação senzala ontem, favela hoje como o jornalista Bruno Zeni afirma no seu artigo O negro Drama do Rap, segundo Zeni é presente na letra
"A correspondência com a história do Brasil, lugar onde desde o início da colonização, houve o aprisionamento e abate de carne negra e indígena, justificada pela sede do capital [...] como atualmente na periferia das grandes cidades, segundo dizem os Racionais".
A discriminação silenciosa tem suas raízes no chamado mito da cordialidade, a ingênua visão do povo pacífico diante das diferenças e misturas étnicas, sendo o mito uma “narrativa que é solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não se encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade” . Assim tem-se a construção desse país, da cultura senhorial que ainda permeia as relações como afirma Flávio Moura
"Um Brasil idílico foi arraigado no inconsciente do país ao longo dos séculos para tornar um projeto nacional arcaico e mascarar a realidade que ela subjaz: a da iniqüidade e da opressão. Ou seja, por baixo da retórica existe uma sociedade em que relações se dão sempre entre um superior que manda e um inferior que obedece".
E embora a edificação dessas relações tenha a base fincadas nos primórdios do Brasil, quando o negro ainda era escravo e vivia na senzala, o mito tem a funcionalidade de se reinventar em novas situações (ontem senzala, hoje a favela), assim como afirma Marilena Chauí “sob novas roupagens o mito pode repetir-se indefinidamente” .
Nas estrofes seguintes é apresentada uma nova situação, uma possibilidade de reversão desse quadro descrito acima e fundamentado na história. Pretende-se construir um discurso que quebre esse cultural, uma narrativa “onde o lugar do negro seja diferente do que a tradição brasileira indica” .
Uma oportunidade de quebrar esse ciclo natural de desvantagem do negro que, diante da trajetória dos integrantes do grupo foi possibilitada pelo sucesso alcançado através do rap
Eu era a carne,
Agora sou a própria navalha,
Tim, Tim um brinde pra mim,
Sou exemplo de vitórias, trajetos e glórias [...]
Olho para trás e vejo a estrada que eu trilhei,
mo corre ,
Quem teve lado a lado
E quem só ficou na bota
Assim o enunciador é um rapper. Como cantor de rap, ele pôde passar por outro lado, romper a barreira da classe dominante e passar isso para seus iguais. Mas essa superação não se fez de forma fácil, foi e ainda é como uma batalha travada e sua arma é a música (como num trecho de outra música do grupo “minha palavra vale um tiro e eu tenho muita munição”) . Nesse trajeto só os fortes realmente resistem, fortes no sentido do caráter e não força física, aqueles apesar da o status alcançado não esquecem de quem são
"É como se os poetas do rap fossem as caixas de ressonância, para o mundo, de uma língua que se reinventa diariamente para enfrentar o real da morte e da miséria; por isso eles não deixam a favela, não negam a origem".
O dinheiro tira o homem da miséria
mas não pode arrancar de dentro dele a favela
São poucos que entram em campo pra vencer,
a alma guarda o que a mente tenta esquecer
[...]
Negro Drama de estilo,
pra ser se for tem que ser, se temer é milho.
Entre o gatilho e a tempestade,
sempre a provar que sou um homem não um covarde.
Nesse momento a narrativa muda de sentido, o personagem sai do primeiro estado, de negro limitado por sua própria história, por seus 300 anos de escravidão, para um segundo estado proporcionado pelo sucesso que o grupo alcançou, pela possibilidade de lutar por condições melhores e poder utilizar essa forma de comunicação da periferia que é o Rap para fazer algo de bom para sua comunidade, ser “exemplo” para vitória de outros, também, por isso não esquecer nunca quem é, de onde veio. Não se pode arrancar a favela, as raízes desse homem. É justamente ai que está a força dos grupos de rap, ela
"Vem de seu poder de inclusão, da insistência na igualdade entre artistas e público, todos negros, todos de origem pobre, todos vítimas da mesma discriminação e da mesma escassez de oportunidades".
Notas
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
Grifo da autora: remete ao trecho da música “desde o início por ouro e prata”
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004
CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 09
MOURA, Flávio. Chauí e Bianchi contra a ficção dos 500 anos.Disponível em: Fundação Perseu Abramo : Acesso em 6.jul.2005.
CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 10.
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
Mo corre: maior correria
Ficar na bota: ficar para trás, as pessoas que não persistiram no caminho, foram ficando para trás.
BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.
Parte II da análise de Negro Drama
A composição dessa imagem é histórica realmente e natural, remete ao próprio estabelecimento das relações em nossa sociedade. Histórica e que se repete, como nas próprias palavras de Mano Brown
Você já nasceu preto, descendente de escravo que sofreu, filho de escravo que sofreu, continua tomando "enquadro" da polícia, continua convivendo com drogas, com tráfico, com alcoolismo, com todos os baratos que não foi a gente que trouxe pra cá. Foi o que colocaram pra gente .
É evidente nesse contexto a relação senzala ontem, favela hoje como o jornalista Bruno Zeni afirma no seu artigo O negro Drama do Rap, segundo Zeni é presente na letra
"A correspondência com a história do Brasil, lugar onde desde o início da colonização, houve o aprisionamento e abate de carne negra e indígena, justificada pela sede do capital [...] como atualmente na periferia das grandes cidades, segundo dizem os Racionais".
A discriminação silenciosa tem suas raízes no chamado mito da cordialidade, a ingênua visão do povo pacífico diante das diferenças e misturas étnicas, sendo o mito uma “narrativa que é solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não se encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade” . Assim tem-se a construção desse país, da cultura senhorial que ainda permeia as relações como afirma Flávio Moura
"Um Brasil idílico foi arraigado no inconsciente do país ao longo dos séculos para tornar um projeto nacional arcaico e mascarar a realidade que ela subjaz: a da iniqüidade e da opressão. Ou seja, por baixo da retórica existe uma sociedade em que relações se dão sempre entre um superior que manda e um inferior que obedece".
E embora a edificação dessas relações tenha a base fincadas nos primórdios do Brasil, quando o negro ainda era escravo e vivia na senzala, o mito tem a funcionalidade de se reinventar em novas situações (ontem senzala, hoje a favela), assim como afirma Marilena Chauí “sob novas roupagens o mito pode repetir-se indefinidamente” .
Nas estrofes seguintes é apresentada uma nova situação, uma possibilidade de reversão desse quadro descrito acima e fundamentado na história. Pretende-se construir um discurso que quebre esse cultural, uma narrativa “onde o lugar do negro seja diferente do que a tradição brasileira indica” .
Uma oportunidade de quebrar esse ciclo natural de desvantagem do negro que, diante da trajetória dos integrantes do grupo foi possibilitada pelo sucesso alcançado através do rap
Eu era a carne,
Agora sou a própria navalha,
Tim, Tim um brinde pra mim,
Sou exemplo de vitórias, trajetos e glórias [...]
Olho para trás e vejo a estrada que eu trilhei,
mo corre ,
Quem teve lado a lado
E quem só ficou na bota
Assim o enunciador é um rapper. Como cantor de rap, ele pôde passar por outro lado, romper a barreira da classe dominante e passar isso para seus iguais. Mas essa superação não se fez de forma fácil, foi e ainda é como uma batalha travada e sua arma é a música (como num trecho de outra música do grupo “minha palavra vale um tiro e eu tenho muita munição”) . Nesse trajeto só os fortes realmente resistem, fortes no sentido do caráter e não força física, aqueles apesar da o status alcançado não esquecem de quem são
"É como se os poetas do rap fossem as caixas de ressonância, para o mundo, de uma língua que se reinventa diariamente para enfrentar o real da morte e da miséria; por isso eles não deixam a favela, não negam a origem".
O dinheiro tira o homem da miséria
mas não pode arrancar de dentro dele a favela
São poucos que entram em campo pra vencer,
a alma guarda o que a mente tenta esquecer
[...]
Negro Drama de estilo,
pra ser se for tem que ser, se temer é milho.
Entre o gatilho e a tempestade,
sempre a provar que sou um homem não um covarde.
Nesse momento a narrativa muda de sentido, o personagem sai do primeiro estado, de negro limitado por sua própria história, por seus 300 anos de escravidão, para um segundo estado proporcionado pelo sucesso que o grupo alcançou, pela possibilidade de lutar por condições melhores e poder utilizar essa forma de comunicação da periferia que é o Rap para fazer algo de bom para sua comunidade, ser “exemplo” para vitória de outros, também, por isso não esquecer nunca quem é, de onde veio. Não se pode arrancar a favela, as raízes desse homem. É justamente ai que está a força dos grupos de rap, ela
"Vem de seu poder de inclusão, da insistência na igualdade entre artistas e público, todos negros, todos de origem pobre, todos vítimas da mesma discriminação e da mesma escassez de oportunidades".
Notas
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
Grifo da autora: remete ao trecho da música “desde o início por ouro e prata”
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo
CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 09
MOURA, Flávio. Chauí e Bianchi contra a ficção dos 500 anos.Disponível em: Fundação Perseu Abramo :
CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 10.
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
Mo corre: maior correria
Ficar na bota: ficar para trás, as pessoas que não persistiram no caminho, foram ficando para trás.
BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.
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