Continuando a postar a análise de Negro Drama, mais uma parte do meu trabalho de Iniciação Científica. Para entender tudo ver o primeiro post sobre isso no dia 28 de fevereiro, é foi há dois meses atrás mais ou menos que eu comecei essa história que ocupou um ano inteiro da minha vida, dos meus estudos e foi muito importante para mim na minha jornada na Unesp e hoje eu divido com as poucas, mas boas pessoas que visitam esse blog. No próximo post já vou começar a análise de JESUS CHOROU.
Obrigada mais uma vez!
Negro Drama: parte III e última
A luta que o enunciador afirma só tem sentido, ou seja, só significa diante da posição de subjugado que o negro ocupa no país, como afirma Darcy Ribeiro
"O fato de ser negro ou mulato, entretanto, custa também um preço adicional, porque a crueza do trato desigualitário que suportam todos os pobres, se acrescentam formas sutis ou desabridas de hostilidade".
Por outro lado, a luta continua, é travada diariamente. O enunciador demonstra isso através do ciclo vicioso. Volta ao passado e termina essa parte mais uma vez com o “negro drama”, de forma pessimista, onde muitas vezes a saída está no crime e não em outras formas como a educação (referência ao “caderno”)
Vi um pretinho e seu caderno era um fuzil , NEGRO DRAMA
A segunda parte da música é cantada por Mano Brown, é uma autobiografia declarada que vem dar veracidade aos argumentos acerca das condições do negro levantadas por Edy Rock na primeira parte e, da mesma forma, demonstrar mais um exemplo de vitória.
Crime, futebol, música, [...],
Eu também não consegui fugir disso aí
Eu sou mais um, Forrest Gump é mato ,
Eu prefiro contar uma história real
Vou conta a minha
Na narrativa de Mano Brown a relação entre o negro pobre da periferia de São Paulo e os receptores do discurso, classe média e alta, sofre maior tensão. Porque nessa narrativa existe a acusação da apropriação da cultura negra, pasteurizada nos costumes da classe média e alta, que veremos mais à frente.
Seguindo a linha da narrativa, Brown descreve o momento da chegada de sua mãe, uma negra, nordestina e mãe solteira, na grande cidade de São Paulo
Uma negra e uma criança nos braços,
Solitária na floresta de concreto e aço.
Veja, Olha outra vez, o rosto na multidão,
A multidão é um monstro sem rosto e coração.
Hey, São Paulo! Terra de arranha-céu
A garoa rasga a carne, é a Torre de Babel,
Família Brasileira, dois contra o mundo,
Mãe solteira de um promissor, vagabundo,
Luz, Câmera e Ação, Gravando a cena vai
O Bastardo mais um filho pardo sem Pai
O trecho descreve como se deu a inclusão desses novos moradores com “a floresta de concreto e aço”. Nesse ponto edifica-se outro aspecto histórico da marginalização, a vinda dos retirantes para São Paulo. Não há uma definição clara na música que a mãe de Brown foi uma retirante, isso é informação de sua biografia. Porém, elucidado esse fato compreende a intenção nesse trecho de demonstrar a dor e solidão daquelas duas pessoas à margem da grande cidade.
A mãe de Brown veio para São Paulo menina, muito antes de ele nascer. O primeiro momento de solidão a menina nordestina no meio da Torre de Babel paulistana, onde ninguém se entende e muito menos a entende, uma multidão sem rosto e sem coração.O segundo momento foi quando foi mãe solteira, como Brown afirma na letra e ela confirma em entrevista a Caros Amigos “meu marido me deixou quando eu estava de um mês” . Nessa parte da narrativa existe a fusão das dificuldades pessoais de Mano Brown com a totalidade de experiências assim que se repetem. A verdadeira família brasileira, aquela gerada no miolo do “povão”.Assim como Edy Rock nas primeiras estrofes, Brown costura mais aspectos do cotidiano do marginalizados. Na sua história particular ele reedifica as falas de Edy Rock.
A relação do homem negro do gueto com a classe média branca assume novos aspectos nessa parte da música
Inacreditável, mas seu filho me imita
No meio de vocês ele é o mais esperto
Ginga e fala gíria, gíria não dialeto
Esse não é mais seu
Entrei pelo seu rádio, tomei, você nem viu [..]
Seu filho quer ser preto, que ironia
Cola o pôster do Tupac ae [...]
Sente o Negro Drama, vai, e tenta ser feliz
Nesse momento aparece a tentativa apropriação da cultura. Os negros sempre sofreram dessa injustiça, foi assim com o blues, com soul e o funk, estilos musicais germinadores do rap . A cultura geminada no cerne das comunidades negras e de suas influências é apropriada pela classe média e pasteurizada a seus costumes. A questão vai além do consumo, não é o “playboy” comprando CDs, ouvindo Racionais no aparelho de som do seu carro importado, é assimilação de um discurso proveniente da periferia, de pessoas que sofrem a discriminação racial, social e cultural como “seu” (do indivíduo da classe média).
"Eles (classe média) vão entrar no rap e começar a falar de outras coisas, vão usar a linguagem deles, e a tendência é somente serem consumidos e o resto ser esquecido, como tudo o que aconteceu. Com o samba foi assim, os sambistas só pararam de apanhar com os instrumentos na costas depois que o homem do asfalto começou a dizer que o samba era bom, começou a produzir e o outro virou coadjuvante".
O garoto filho do “senhor de engenho” não se contenta em ouvir a música, ele quer ser preto. E isso é o lado negativo da explosão do hip hop é a apropriação por parte da classe média, ela compra esse discurso e o faz seu, ela compra as roupas dos meninos e meninas da periferia usam e faz disso uma grife, uma marca. O injusto é que essa apropriação é excludente e exclui justamente os seus idealizadores, tira a legitimidade dos seus percussores.
Por outro lado, na última estrofe do trecho Brown derruba essa intenção com o diferencial decisivo: “o negro drama” narrado em todo o contexto da letra. Por mais que se tente a assimilação, essa não vai passar de algo plástico, porque não tem como parte integrante a experiência cotidiana dos “manos” dos Racionais.
O que você fez por mim?
Eu recebi seu tickt, quer dizer kit,
de esgoto a céu aberto, e parede madeirite,
De vergonha eu não morri, to firmão, eis me aqui,
[...]
Eu sou o mano Homem duro do gueto, Brown,
E de onde vem os diamante?
Da lama, valeu mãe
NEGRO DRAMA, DRAMA, DRAMA.
A estrofe acima é o reforço da mensagem da música. O ressentimento, taxado de “racismo ao contrário”, fundamenta-se nesse ponto, no que sobrou para o coadjuvante na história oficial- negro morador da favela- esgoto a céu aberto e parede maderite, ou seja, a própria favela e todas sua mazelas. Mas de onde vem o diamante se não da lama? Essa é mensagem final de Brown o caminho foi e ainda é adverso, as estrofes do negro drama confirmam, a narrativa se edifica nesse mote. No entanto, a revolução começa a ser feita “a começar pelas armas: sua palavra em primeiro lugar”.Da lama saem os diamantes, do gueto saem os novos cronistas da periferia.
E a estrofe final
E ae na época dos barracos de pau lá da pedreira
o que vocês fizeram por mim
O que vocês deram por mim
Agora ta de olho no dinheiro que eu ganho
Ta de olho no carro que eu dirijo[...]
Ae o rap fez ser o que sou hoje
Ice Blue, Edy Rock, Kl Jay
E Toda família, toda a geração que faz o rap
A geração que revolucionou, e que vai revolucionar [...]
Você sai do gueto, mas o gueto nunca sai de você [...]
O mundo inteiro ta de olho em você pela sua origem
É desse jeito que você vive é Negro Drama
Eu não li, eu não assisti, eu vivo o Negro Drama
Eu sou o Negro Drama
Sou fruto do Negro Drama [...]
O fechamento da música é discurso raivoso de Mano Brown afirmando mais uma vez todas as questões levantadas no decorrer das estrofes. A marginalização/discriminação por parte das classes média e alta branca, a apropriação da arte (Agora ta de olho no dinheiro que eu ganho) e a oportunidade dada pelo Rap, a possibilidade de revolução, ao menos, na auto-afirmação do negro.
Em suma, o retrocesso a toda mensagem passada por essa música a fim de reforça-lo. Com destaque para as últimas fases (Eu não li, eu não assisti, eu vivo o Negro Drama Eu sou o Negro Drama,Sou fruto do Negro Drama), nesses trechos o enunciador deixa explicito que nada do que foi dito é algo que ele soube por intermédios de terceiros ou que ele presenciou como observador. Ele viveu e ainda vive todo esse estigma, assim como sua mãe, por isso ele é “fruto do negro drama”.
Notas
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentindo do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 235.
Mato: mentira, invenção, ficção.
KALILI,Sérgio. Mano Brown é um fenômeno.Caros Amigos. São Paulo, n.10, jan.1998. p. 33.
Spency Pimentel em seu livro “Livro Vermelho do Hip hop” (PIMENTEL, Spensy Kmitta. O Livro Vermelho do Hip Hop. 1997.Trabalho de Conclusão de Curso- Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 1997) discorre sobre o que seria a “árvore genealógica musical” do rap. Assim “o rap possui uma árvore genealógica no universo musical, é bisneto do spiritual e do blues, neto do soul, filho do funk, irmão do rock, primo do reggae, do samba, do maracatu e da embolada”.
Homem do asfalto: os indivíduos que não moram na favela, no morro.
CAROS AMIGOS. O hip hop é um instrumento de transformação. In: Caros Amigos. São Paulo, n.99, jun.2005.p.35
Eu...algumas palavras que me definem: jornalista, apaixonada, insegura, ansiosa, amiga...um sentimento que me move todos os dias: saudade..saudade imensa de tudo que eu vivi, que eu vivo e que eu vou viver...fiz isso para poder escrever, uma coisa que eu gosto, desde criança...deve ser por isso que escolhi ser jornalista...
quinta-feira, 17 de abril de 2008
segunda-feira, 14 de abril de 2008
mais de Negro Drama
Demorou, mas, está aui mais uma paret da análise de Negro Drama. Partindo de onde eu parei, ou seja o post que está logo abaixo.
Parte II da análise de Negro Drama
A composição dessa imagem é histórica realmente e natural, remete ao próprio estabelecimento das relações em nossa sociedade. Histórica e que se repete, como nas próprias palavras de Mano Brown
Você já nasceu preto, descendente de escravo que sofreu, filho de escravo que sofreu, continua tomando "enquadro" da polícia, continua convivendo com drogas, com tráfico, com alcoolismo, com todos os baratos que não foi a gente que trouxe pra cá. Foi o que colocaram pra gente .
É evidente nesse contexto a relação senzala ontem, favela hoje como o jornalista Bruno Zeni afirma no seu artigo O negro Drama do Rap, segundo Zeni é presente na letra
"A correspondência com a história do Brasil, lugar onde desde o início da colonização, houve o aprisionamento e abate de carne negra e indígena, justificada pela sede do capital [...] como atualmente na periferia das grandes cidades, segundo dizem os Racionais".
A discriminação silenciosa tem suas raízes no chamado mito da cordialidade, a ingênua visão do povo pacífico diante das diferenças e misturas étnicas, sendo o mito uma “narrativa que é solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não se encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade” . Assim tem-se a construção desse país, da cultura senhorial que ainda permeia as relações como afirma Flávio Moura
"Um Brasil idílico foi arraigado no inconsciente do país ao longo dos séculos para tornar um projeto nacional arcaico e mascarar a realidade que ela subjaz: a da iniqüidade e da opressão. Ou seja, por baixo da retórica existe uma sociedade em que relações se dão sempre entre um superior que manda e um inferior que obedece".
E embora a edificação dessas relações tenha a base fincadas nos primórdios do Brasil, quando o negro ainda era escravo e vivia na senzala, o mito tem a funcionalidade de se reinventar em novas situações (ontem senzala, hoje a favela), assim como afirma Marilena Chauí “sob novas roupagens o mito pode repetir-se indefinidamente” .
Nas estrofes seguintes é apresentada uma nova situação, uma possibilidade de reversão desse quadro descrito acima e fundamentado na história. Pretende-se construir um discurso que quebre esse cultural, uma narrativa “onde o lugar do negro seja diferente do que a tradição brasileira indica” .
Uma oportunidade de quebrar esse ciclo natural de desvantagem do negro que, diante da trajetória dos integrantes do grupo foi possibilitada pelo sucesso alcançado através do rap
Eu era a carne,
Agora sou a própria navalha,
Tim, Tim um brinde pra mim,
Sou exemplo de vitórias, trajetos e glórias [...]
Olho para trás e vejo a estrada que eu trilhei,
mo corre ,
Quem teve lado a lado
E quem só ficou na bota
Assim o enunciador é um rapper. Como cantor de rap, ele pôde passar por outro lado, romper a barreira da classe dominante e passar isso para seus iguais. Mas essa superação não se fez de forma fácil, foi e ainda é como uma batalha travada e sua arma é a música (como num trecho de outra música do grupo “minha palavra vale um tiro e eu tenho muita munição”) . Nesse trajeto só os fortes realmente resistem, fortes no sentido do caráter e não força física, aqueles apesar da o status alcançado não esquecem de quem são
"É como se os poetas do rap fossem as caixas de ressonância, para o mundo, de uma língua que se reinventa diariamente para enfrentar o real da morte e da miséria; por isso eles não deixam a favela, não negam a origem".
O dinheiro tira o homem da miséria
mas não pode arrancar de dentro dele a favela
São poucos que entram em campo pra vencer,
a alma guarda o que a mente tenta esquecer
[...]
Negro Drama de estilo,
pra ser se for tem que ser, se temer é milho.
Entre o gatilho e a tempestade,
sempre a provar que sou um homem não um covarde.
Nesse momento a narrativa muda de sentido, o personagem sai do primeiro estado, de negro limitado por sua própria história, por seus 300 anos de escravidão, para um segundo estado proporcionado pelo sucesso que o grupo alcançou, pela possibilidade de lutar por condições melhores e poder utilizar essa forma de comunicação da periferia que é o Rap para fazer algo de bom para sua comunidade, ser “exemplo” para vitória de outros, também, por isso não esquecer nunca quem é, de onde veio. Não se pode arrancar a favela, as raízes desse homem. É justamente ai que está a força dos grupos de rap, ela
"Vem de seu poder de inclusão, da insistência na igualdade entre artistas e público, todos negros, todos de origem pobre, todos vítimas da mesma discriminação e da mesma escassez de oportunidades".
Notas
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
Grifo da autora: remete ao trecho da música “desde o início por ouro e prata”
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004
CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 09
MOURA, Flávio. Chauí e Bianchi contra a ficção dos 500 anos.Disponível em: Fundação Perseu Abramo : Acesso em 6.jul.2005.
CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 10.
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
Mo corre: maior correria
Ficar na bota: ficar para trás, as pessoas que não persistiram no caminho, foram ficando para trás.
BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.
Parte II da análise de Negro Drama
A composição dessa imagem é histórica realmente e natural, remete ao próprio estabelecimento das relações em nossa sociedade. Histórica e que se repete, como nas próprias palavras de Mano Brown
Você já nasceu preto, descendente de escravo que sofreu, filho de escravo que sofreu, continua tomando "enquadro" da polícia, continua convivendo com drogas, com tráfico, com alcoolismo, com todos os baratos que não foi a gente que trouxe pra cá. Foi o que colocaram pra gente .
É evidente nesse contexto a relação senzala ontem, favela hoje como o jornalista Bruno Zeni afirma no seu artigo O negro Drama do Rap, segundo Zeni é presente na letra
"A correspondência com a história do Brasil, lugar onde desde o início da colonização, houve o aprisionamento e abate de carne negra e indígena, justificada pela sede do capital [...] como atualmente na periferia das grandes cidades, segundo dizem os Racionais".
A discriminação silenciosa tem suas raízes no chamado mito da cordialidade, a ingênua visão do povo pacífico diante das diferenças e misturas étnicas, sendo o mito uma “narrativa que é solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não se encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade” . Assim tem-se a construção desse país, da cultura senhorial que ainda permeia as relações como afirma Flávio Moura
"Um Brasil idílico foi arraigado no inconsciente do país ao longo dos séculos para tornar um projeto nacional arcaico e mascarar a realidade que ela subjaz: a da iniqüidade e da opressão. Ou seja, por baixo da retórica existe uma sociedade em que relações se dão sempre entre um superior que manda e um inferior que obedece".
E embora a edificação dessas relações tenha a base fincadas nos primórdios do Brasil, quando o negro ainda era escravo e vivia na senzala, o mito tem a funcionalidade de se reinventar em novas situações (ontem senzala, hoje a favela), assim como afirma Marilena Chauí “sob novas roupagens o mito pode repetir-se indefinidamente” .
Nas estrofes seguintes é apresentada uma nova situação, uma possibilidade de reversão desse quadro descrito acima e fundamentado na história. Pretende-se construir um discurso que quebre esse cultural, uma narrativa “onde o lugar do negro seja diferente do que a tradição brasileira indica” .
Uma oportunidade de quebrar esse ciclo natural de desvantagem do negro que, diante da trajetória dos integrantes do grupo foi possibilitada pelo sucesso alcançado através do rap
Eu era a carne,
Agora sou a própria navalha,
Tim, Tim um brinde pra mim,
Sou exemplo de vitórias, trajetos e glórias [...]
Olho para trás e vejo a estrada que eu trilhei,
mo corre ,
Quem teve lado a lado
E quem só ficou na bota
Assim o enunciador é um rapper. Como cantor de rap, ele pôde passar por outro lado, romper a barreira da classe dominante e passar isso para seus iguais. Mas essa superação não se fez de forma fácil, foi e ainda é como uma batalha travada e sua arma é a música (como num trecho de outra música do grupo “minha palavra vale um tiro e eu tenho muita munição”) . Nesse trajeto só os fortes realmente resistem, fortes no sentido do caráter e não força física, aqueles apesar da o status alcançado não esquecem de quem são
"É como se os poetas do rap fossem as caixas de ressonância, para o mundo, de uma língua que se reinventa diariamente para enfrentar o real da morte e da miséria; por isso eles não deixam a favela, não negam a origem".
O dinheiro tira o homem da miséria
mas não pode arrancar de dentro dele a favela
São poucos que entram em campo pra vencer,
a alma guarda o que a mente tenta esquecer
[...]
Negro Drama de estilo,
pra ser se for tem que ser, se temer é milho.
Entre o gatilho e a tempestade,
sempre a provar que sou um homem não um covarde.
Nesse momento a narrativa muda de sentido, o personagem sai do primeiro estado, de negro limitado por sua própria história, por seus 300 anos de escravidão, para um segundo estado proporcionado pelo sucesso que o grupo alcançou, pela possibilidade de lutar por condições melhores e poder utilizar essa forma de comunicação da periferia que é o Rap para fazer algo de bom para sua comunidade, ser “exemplo” para vitória de outros, também, por isso não esquecer nunca quem é, de onde veio. Não se pode arrancar a favela, as raízes desse homem. É justamente ai que está a força dos grupos de rap, ela
"Vem de seu poder de inclusão, da insistência na igualdade entre artistas e público, todos negros, todos de origem pobre, todos vítimas da mesma discriminação e da mesma escassez de oportunidades".
Notas
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
Grifo da autora: remete ao trecho da música “desde o início por ouro e prata”
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo
CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 09
MOURA, Flávio. Chauí e Bianchi contra a ficção dos 500 anos.Disponível em: Fundação Perseu Abramo :
CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 10.
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
Mo corre: maior correria
Ficar na bota: ficar para trás, as pessoas que não persistiram no caminho, foram ficando para trás.
BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.
terça-feira, 8 de abril de 2008
A análise enfim....
Bom se você lembra da minha primeira postagem sobre o projeto, sabe que ele trata-se da análise do discurso em três letras dos Racionais MC´S bom eu vou começar com a primeira Negro Drama, é uma letra extensa, bem como a análise por isso vou postar em pequenas partes...
Primeira Parte - Negro Drama
Senzala versus Casa-grande: Análise da Música Negro Drama
“Quem mora na senzala não vai confiar nunca em quem morou no casarão. Nunca vai confiar. Dificilmente o Brasil vai ter a colaboração de um com o outro”
Mano Brown (Setembro de 2004)
A música Negro Drama do álbum Nada como um Dia após o outro Dia trata-se de uma narrativa acerca do cotidiano do negro no Brasil, o negro pobre e favelado que, na narrativa, vive na grande “floresta de concreto e aço” que é a cidade de São Paulo. A letra é dividida em duas partes distintas, na primeira Edy Rock discorre sobre “o drama de ser negro”, como sugere o título, já a segunda parte cantada por Mano Brown é relato autobiográfico, o drama particular do MC. O discurso de Mano Brown aparece como um exemplo dos relatos do outro MC, embora o discurso de Edy Rock assuma a primeira pessoa em diversas passagens (O trauma que eu carrego, Eu sou irmão, eu era a carne), somente no início da fala de Mano Brown fica claro a intenção de contar sua própria trajetória.
NEGRO DRAMA entre e o sucesso, e a lama,
dinheiro, problemas, Invejas, luxo, fama.
NEGRO DRAMA cabelo crespo, e a pele escura,
a ferida a chaga, a procura da cura
NEGRO DRAMA, tenta vê, e não vê nada,
a não ser uma estrela, longe meio ofuscada.
Sente o drama, o preço, a cobrança,
no amor, no ódio, a insana vingança [...]
O trauma que eu carrego, pra não ser mais um preto fudido.
O drama da cadeia, favela, túmulo, sangue,
Sirene, choros e velas, Passageiro do Brasil, São Paulo.
No trecho inicial transcrito acima, Edy Rock descreve de forma pontual o paradoxo presente no cotidiano do negro brasileiro através das palavras de cunho positivo sucesso, dinheiro, cura, luxo, fama e negativo lama, problemas, inveja, ferida todos termos inerentes a sua simbologia, seja no desejo do ter ou na realidade, respectivamente. Esse “drama” sofrido pelos negros é lugar comum no cotidiano da favela, porém, a mensagem ganha importância no destino a que ela pretende. As letras de rap costumam ter um receptor de cada mensagem definido
"A voz do cantor/narrador dirige-se diretamente ao ouvinte, ora supondo que seja outro mano - e então avisa, adverte, tenta "chamar à consciência" - ora supondo que seja um inimigo - e então, sem ambigüidades, acusa".
O receptor, implícito nessa música, é as classes alta e média, embora retrate o drama dos negros no Brasil, a letra não possui apenas essa parcela da sociedade como alvo. Algo que é comprovado nos trechos abaixo
Você deve tá pensando,
o que você tem haver com isso [...]
Então olha o castelo e
não foi você quem fez [...]
Hey, Senhor de engenho,
eu sei,bem quem é você é [...]
Admito, seus carro é bonito é,
eu não sei fazer, internet, video-cassete [...]
Hey bacana, Quem te fez tão bom assim [...]
Sobretudo na primeira frase está essa intenção do enunciador, de falar com as classes mais altas e não apenas com o seu igual
"A frase é endereçada a quem os escuta, mas certamente não aos negros, não àqueles que vivem o negro drama, a quem não ocorreria dúvida de que o rapper suspeita haver em seu interlocutor. O verso parece expor a consciência de que, afinal, ele não fala apenas para os seus iguais, mas para uma população mais ampla, talvez a sociedade como um todo".
Na mesma simbologia do negro como representante da classe social mais baixa, a figura do branco aparece como o sujeito da classe dominante. Com a definição dos personagens da narrativa e para quem ela fala começa construí-se a relação entre os dois. Um relacionamento permeado pela tensão, num primeiro momento existe a descrição do drama do negro sempre entre dicotomias presentes nas palavras sucesso e lama, dinheiro e problema, fama e inveja, cura e chaga, o objeto de desejo e aquilo que culturalmente sobra pra ele, como já foi afirmado anteriormente - o paradoxo. Depois a indagação ao outro e a resposta está na própria trajetória do negro como escravo no Brasil
Você deve tá pensando,
o que você tem haver com isso
Desde o inicio, por ouro e prata
Com essa resposta o enunciador busca na tradição a razão da situação desprivilegiada do negro, e o destinatário da mensagem é culpado ao passo que é complacente e fomentador dessa tradição como segue
Me vê ,pobre, preso ou morto,
já é cultural, histórias, registros, escritos,
Não é conto, nem fábula, lenda ou mito,
Não foi sempre dito, que preto não tem vez,
então olha o castelo e não foi você quem fez cuzão..
O tom de agressividade embutido pelo enunciador procura ratificar a figura do negro no imaginário social em que ele está sempre em segundo lugar, embora tenha sido essencial para edificação do país. Algo que já é cultural, embora velado. No trecho comprova-se a forma como a sociedade o vê, comum em certos locais (prisão, periferia) e estados (morto, pobre). Segue-se no trecho o enfoque de que é algo real, inegável e registrado ("histórias, registros, escritos/ Não é conto, nem fábula, lenda ou mito").
Notas
RACIONAIS MC´s. Negro Drama. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56 min 02s), faixa 5 ( 6min 51s)
ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.16
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004.
Primeira Parte - Negro Drama
Senzala versus Casa-grande: Análise da Música Negro Drama
“Quem mora na senzala não vai confiar nunca em quem morou no casarão. Nunca vai confiar. Dificilmente o Brasil vai ter a colaboração de um com o outro”
Mano Brown (Setembro de 2004)
A música Negro Drama do álbum Nada como um Dia após o outro Dia trata-se de uma narrativa acerca do cotidiano do negro no Brasil, o negro pobre e favelado que, na narrativa, vive na grande “floresta de concreto e aço” que é a cidade de São Paulo. A letra é dividida em duas partes distintas, na primeira Edy Rock discorre sobre “o drama de ser negro”, como sugere o título, já a segunda parte cantada por Mano Brown é relato autobiográfico, o drama particular do MC. O discurso de Mano Brown aparece como um exemplo dos relatos do outro MC, embora o discurso de Edy Rock assuma a primeira pessoa em diversas passagens (O trauma que eu carrego, Eu sou irmão, eu era a carne), somente no início da fala de Mano Brown fica claro a intenção de contar sua própria trajetória.
NEGRO DRAMA entre e o sucesso, e a lama,
dinheiro, problemas, Invejas, luxo, fama.
NEGRO DRAMA cabelo crespo, e a pele escura,
a ferida a chaga, a procura da cura
NEGRO DRAMA, tenta vê, e não vê nada,
a não ser uma estrela, longe meio ofuscada.
Sente o drama, o preço, a cobrança,
no amor, no ódio, a insana vingança [...]
O trauma que eu carrego, pra não ser mais um preto fudido.
O drama da cadeia, favela, túmulo, sangue,
Sirene, choros e velas, Passageiro do Brasil, São Paulo.
No trecho inicial transcrito acima, Edy Rock descreve de forma pontual o paradoxo presente no cotidiano do negro brasileiro através das palavras de cunho positivo sucesso, dinheiro, cura, luxo, fama e negativo lama, problemas, inveja, ferida todos termos inerentes a sua simbologia, seja no desejo do ter ou na realidade, respectivamente. Esse “drama” sofrido pelos negros é lugar comum no cotidiano da favela, porém, a mensagem ganha importância no destino a que ela pretende. As letras de rap costumam ter um receptor de cada mensagem definido
"A voz do cantor/narrador dirige-se diretamente ao ouvinte, ora supondo que seja outro mano - e então avisa, adverte, tenta "chamar à consciência" - ora supondo que seja um inimigo - e então, sem ambigüidades, acusa".
O receptor, implícito nessa música, é as classes alta e média, embora retrate o drama dos negros no Brasil, a letra não possui apenas essa parcela da sociedade como alvo. Algo que é comprovado nos trechos abaixo
Você deve tá pensando,
o que você tem haver com isso [...]
Então olha o castelo e
não foi você quem fez [...]
Hey, Senhor de engenho,
eu sei,bem quem é você é [...]
Admito, seus carro é bonito é,
eu não sei fazer, internet, video-cassete [...]
Hey bacana, Quem te fez tão bom assim [...]
Sobretudo na primeira frase está essa intenção do enunciador, de falar com as classes mais altas e não apenas com o seu igual
"A frase é endereçada a quem os escuta, mas certamente não aos negros, não àqueles que vivem o negro drama, a quem não ocorreria dúvida de que o rapper suspeita haver em seu interlocutor. O verso parece expor a consciência de que, afinal, ele não fala apenas para os seus iguais, mas para uma população mais ampla, talvez a sociedade como um todo".
Na mesma simbologia do negro como representante da classe social mais baixa, a figura do branco aparece como o sujeito da classe dominante. Com a definição dos personagens da narrativa e para quem ela fala começa construí-se a relação entre os dois. Um relacionamento permeado pela tensão, num primeiro momento existe a descrição do drama do negro sempre entre dicotomias presentes nas palavras sucesso e lama, dinheiro e problema, fama e inveja, cura e chaga, o objeto de desejo e aquilo que culturalmente sobra pra ele, como já foi afirmado anteriormente - o paradoxo. Depois a indagação ao outro e a resposta está na própria trajetória do negro como escravo no Brasil
Você deve tá pensando,
o que você tem haver com isso
Desde o inicio, por ouro e prata
Com essa resposta o enunciador busca na tradição a razão da situação desprivilegiada do negro, e o destinatário da mensagem é culpado ao passo que é complacente e fomentador dessa tradição como segue
Me vê ,pobre, preso ou morto,
já é cultural, histórias, registros, escritos,
Não é conto, nem fábula, lenda ou mito,
Não foi sempre dito, que preto não tem vez,
então olha o castelo e não foi você quem fez cuzão..
O tom de agressividade embutido pelo enunciador procura ratificar a figura do negro no imaginário social em que ele está sempre em segundo lugar, embora tenha sido essencial para edificação do país. Algo que já é cultural, embora velado. No trecho comprova-se a forma como a sociedade o vê, comum em certos locais (prisão, periferia) e estados (morto, pobre). Segue-se no trecho o enfoque de que é algo real, inegável e registrado ("histórias, registros, escritos/ Não é conto, nem fábula, lenda ou mito").
Notas
RACIONAIS MC´s. Negro Drama. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56 min 02s), faixa 5 ( 6min 51s)
ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.16
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo
segunda-feira, 31 de março de 2008
Depois do Capão, a teoria
Bom essa é a parte do meu trabalho que pode parecer a mais chata. Trata-se de um texto sobre a teoria que eu utilizei para realizar a pesquisa, ou seja, a análise das letras dos Racionias que selecionei. Na próxima já vou postar uma parte da análise de Negro Drama.
Análise do Discurso: base teórica da proposta do projeto.
Esta parte do relatório consiste na apresentação das características gerais da teoria utilizada para análise das letras juntamente com a relação com as temáticas levantadas e as músicas escolhidas, enfim, um capítulo introdutório para a proposta do projeto em si. Assim segue a explicitação, em suma, dos aspectos da análise do discurso.
A análise do discurso compreende o estudo do texto como local de produção de conhecimento, seria a forma como aquele texto significa, como constrói significados, o que ele quer dizer, levando em consideração todo o contexto histórico, social e ideológico do discurso e do sujeito discursivo. Segundo Eni Orlandi “a análise do discurso concebe a linguagem como mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social” . Nesse sentido o discurso presente nas letras dos Racionais busca essa interatividade do homem, negro e pobre, com o ambiente da favela, no cerne da emancipação da própria população da periferia, assim como elucidação daqueles que estão além do mundo periférico.
A produção desse discurso compreende os diversos contextos apontados por Eni Orlandi: o contexto imediato, que consiste na letra da música como o texto puro, o que está escrito ali; o contexto sócio-histórico, que abrange a construção dos sentidos no imaginário social, a relação das mensagens dos textos/letras com o ambiente social e histórico nas quais foram elaborados; e o contexto ideológico compreendendo a ideologia do movimento hip hop, como uma cultura marginal significada nos sujeitos da periferia. Além de discursos paralelos, o não dito diretamente, que também fundamentam a mensagem embutida nas letras
"Todo discurso se estabelece na relação com um discurso anterior e aponta pra outro. Não há um discurso fechado em si mesmo, mas um processo discursivo do qual se podem recortar e analisar estados diferentes".
A análise, por fim, constitui-se no estudo da natureza dos materiais analisados (letras), os elementos desencadeadores ou questões levantadas (as três temáticas) e as teorias e campos semânticos relacionados às temáticas.
Balizada pela teoria da análise do discurso, sumamente demonstrada, essa pesquisa procura fazer uma leitura do discurso dos Racionais por meio das letras selecionadas.
Letras Selecionadas
Para a primeira análise acerca da construção da visão do racismo na obra do grupo, a escolha foi a música Negro Drama do último disco lançado do grupo, Nada como um dia após o outro dia. O tema é constante desde o início dos trabalhos do grupo, como foi citado existe, inclusive, um single do grupo sobre as questões étnicas. Porém, nessa música o posicionamento do grupo está bem desenvolvido e fundamentado, apresentando aspectos históricos e registros atuais.
A relação com a fama e suas conseqüências podem ser constatadas na narrativa de Jesus Chorou, a música escolhida para essa temática e que, também, pertence ao último trabalho lançado. Por trás da narração de um fato cotidiano, o enunciador da música, que no caso é o Mano Brown, apresenta vários indícios dessa relação.
Por fim, a análise dos elementos religiosos e tom messiânico foi realizada sob as perspectivas apresentadas na letra de Capítulo 4, Versículo 3. Essa música diferente das anteriores pertence ao álbum Sobrevivendo no Inferno. De uma forma geral esse trabalho apresenta esses elementos em todas as letras, a escolha da terceira faixa, acima citada, compreende vários aspectos, desde o título, de recorte bíblico, a presença simbólica de Deus e outros elementos religiosos.
Notas
ORLANDI, Eni P. Análise do Discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 2001. p.15
ORLANDI, Eni P.op.cit. p.62
Análise do Discurso: base teórica da proposta do projeto.
Esta parte do relatório consiste na apresentação das características gerais da teoria utilizada para análise das letras juntamente com a relação com as temáticas levantadas e as músicas escolhidas, enfim, um capítulo introdutório para a proposta do projeto em si. Assim segue a explicitação, em suma, dos aspectos da análise do discurso.
A análise do discurso compreende o estudo do texto como local de produção de conhecimento, seria a forma como aquele texto significa, como constrói significados, o que ele quer dizer, levando em consideração todo o contexto histórico, social e ideológico do discurso e do sujeito discursivo. Segundo Eni Orlandi “a análise do discurso concebe a linguagem como mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social” . Nesse sentido o discurso presente nas letras dos Racionais busca essa interatividade do homem, negro e pobre, com o ambiente da favela, no cerne da emancipação da própria população da periferia, assim como elucidação daqueles que estão além do mundo periférico.
A produção desse discurso compreende os diversos contextos apontados por Eni Orlandi: o contexto imediato, que consiste na letra da música como o texto puro, o que está escrito ali; o contexto sócio-histórico, que abrange a construção dos sentidos no imaginário social, a relação das mensagens dos textos/letras com o ambiente social e histórico nas quais foram elaborados; e o contexto ideológico compreendendo a ideologia do movimento hip hop, como uma cultura marginal significada nos sujeitos da periferia. Além de discursos paralelos, o não dito diretamente, que também fundamentam a mensagem embutida nas letras
"Todo discurso se estabelece na relação com um discurso anterior e aponta pra outro. Não há um discurso fechado em si mesmo, mas um processo discursivo do qual se podem recortar e analisar estados diferentes".
A análise, por fim, constitui-se no estudo da natureza dos materiais analisados (letras), os elementos desencadeadores ou questões levantadas (as três temáticas) e as teorias e campos semânticos relacionados às temáticas.
Balizada pela teoria da análise do discurso, sumamente demonstrada, essa pesquisa procura fazer uma leitura do discurso dos Racionais por meio das letras selecionadas.
Letras Selecionadas
Para a primeira análise acerca da construção da visão do racismo na obra do grupo, a escolha foi a música Negro Drama do último disco lançado do grupo, Nada como um dia após o outro dia. O tema é constante desde o início dos trabalhos do grupo, como foi citado existe, inclusive, um single do grupo sobre as questões étnicas. Porém, nessa música o posicionamento do grupo está bem desenvolvido e fundamentado, apresentando aspectos históricos e registros atuais.
A relação com a fama e suas conseqüências podem ser constatadas na narrativa de Jesus Chorou, a música escolhida para essa temática e que, também, pertence ao último trabalho lançado. Por trás da narração de um fato cotidiano, o enunciador da música, que no caso é o Mano Brown, apresenta vários indícios dessa relação.
Por fim, a análise dos elementos religiosos e tom messiânico foi realizada sob as perspectivas apresentadas na letra de Capítulo 4, Versículo 3. Essa música diferente das anteriores pertence ao álbum Sobrevivendo no Inferno. De uma forma geral esse trabalho apresenta esses elementos em todas as letras, a escolha da terceira faixa, acima citada, compreende vários aspectos, desde o título, de recorte bíblico, a presença simbólica de Deus e outros elementos religiosos.
Notas
ORLANDI, Eni P. Análise do Discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 2001. p.15
ORLANDI, Eni P.op.cit. p.62
quinta-feira, 27 de março de 2008
Mais do mesmo....
Para não perder o "fio da meada", eis aqui mais um capítulo da minha novela de linhas. Agora sim... Racionais MC´S
Capão Redondo: Berço da Rhythm and Poetry dos Racionais MC´s
“Universo, Galáxia, Via –Láctea, Sistema Solar, Planeta Terra, Continente Americano, América do Sul, Brasil, SP, São Paulo, Zona Sul, Santo Amaro, Capão Redondo...Bem-vindos ao fundo do mundo”
Esta é a localização do Capão Redondo dada pelo escritor Férrez no prefácio do seu livro Capão Pecado, uma narrativa que, embora não traga personagens reais, reflete com fidelidade o cotidiano do local, um bairro da Zona Sul paulistana onde os Racionais escreveram suas primeiras letras. Ainda como uma dupla, é verdade, mas muitas das letras feitas por Ice Blue e Mano Brown, vizinhos no Capão Redondo, se tornaram os primeiros sucessos dos Racionais MC´s.
Os quatro integrantes dos Racionais são os MC’s Mano Brown (Pedro Paulo Soares Pereira), Edi Rock (Advaldo Pereira Alves), Ice Blue (Paulo Eduardo Salvador) e o Dj KL Jay (Kléber Geraldo Lelis Simões). O nome do grupo faz alusão ao disco Tim Maia Racional (1975), uma das influências do grupo, outras referências são os cantores Cassiano, Hyldon, Wilson Simonal e Jorge Ben, que é homenageado com uma versão de Jorge da Capadócia no quarto disco do grupo, Sobrevivendo no Inferno.
No início dos anos 90, os Racionais lançam seu primeiro trabalho Holocausto Urbano. O álbum era um reflexo de todos os problemas que moradores da periferia sofriam, inclusive os próprios integrantes, uma vez que todos eram oriundos de zonas pobres da cidade de São Paulo. As músicas traziam temas polêmicos como racismo, miséria, corrupção policial, entre outros problemas da periferia paulistana. Não menos importante foi a atitude pioneira do grupo de realizar um trabalho independente, tanto na sua produção como na divulgação, distanciando-se da indústria fonográfica.
Os Racionais fazem parte da geração que encontrou na praça Roosevelt, em São Paulo, o espaço para divulgação de seu trabalho e para o encontro com outros rappers da cidade. Essa experiência na praça foi crucial para a consolidação do rap como veículo de protesto. O segundo trabalho do grupo, o single Escolha seu Caminho, traz na temática a preocupação sócio-racial desenvolvida nos encontros na praça. O single possuía duas músicas Negro Limitado e Voz Ativa. Escolha seu Caminho foi responsável pela popularização dos Racionais entre os jovens da periferia de praticamente todo o país .
Raio-X do Brasil foi o nome escolhido para o terceiro trabalho dos Racionais, o álbum mostra a evolução do grupo, tecnológica e lírica. Na parte sonora, o Dj KL Jay sampleia e mistura sons de Tim Maia, Jorge Ben Jor, Curtis Mayfild e The Meters, entre outros artistas do funk e do soul antigos. Quanto às letras o grupo desprende-se das letras formais dos trabalhos anteriores, quase didáticas e passam a usar a linguagem da periferia com suas gírias, palavrões e idiomatismos, gerando uma maior identificação com o público alvo: os moradores da periferia. As músicas de maior destaque nesse álbum foram Fim-de-semana no Parque, Mano na Porta do Bar e o hino dos negros, pobres, presidiários, e os demais excluídos da sociedade-Homem na Estrada-, que chegou a ser declamada pelo então senador Eduardo Suplicy em um discurso seu, após jovens da classe média de Brasília serem absolvidos do caso do assassinato do índio pataxó.
Em 1997, após um período de pouca repercussão do Rap nos meios de comunicação, os Racionais produzem e divulgam seu quarto trabalho e, talvez o de maior valor para o grupo e para todo o cenário do rap brasileiro. Sobrevivendo no Inferno representou a consolidação do rap nacional, e elevou o gênero à condição de fenômeno nacional, embora, a independência em relação à indústria tenha sido mantida, uma vez que esse álbum inaugura o selo próprio do grupo- Cosa Nostra.. O álbum possui referências divididas entre a religião e a violência, entre a cruz e a pistola. Mano Brown define esse disco em entrevista ao jornalista da Caros Amigos Sérgio Kalili
"Eu quis fazer uma comparação de um cotidiano violento e da religião. Tipo o que você faz para ter mais segurança? A palavra da Bíblia? Como você vai sobreviver?Às vezes eu vejo os Racionais no meio de um inferno, cercado de uma pá de coisas- é tráfico de um lado, polícia que quer ferrar a gente de outro...Então é como um desabafo de como você faz para sobreviver no meio disso tudo aí."
A música de maior repercussão foi Diário de um Detento escrita por Brown e Jocenir, preso que sobreviveu ao massacre do Carandiru. A letra é ambientada na época do massacre e transmiti a visão “dos perdedores”, além de descrever o cotidiano de um presidiário no Complexo Carcerário do Carandiru. O clipe dessa música rendeu o prêmio de “Melhor Clipe do Ano” do VMB, festival de música brasileira realizado pela MTV.
O mais recente álbum dos Racionais, Nada como um dia após o outro dia, apresenta músicas que abordam a nova situação dos integrantes do grupo, agora reconhecidos em todo o país e considerados um dos grupos de maior expressão dentro do movimento hip hop. O posto de “famosos” acarreta vários problemas como a inveja, desconfiança acerca da simplicidade dos integrantes, a ingratidão de algumas pessoas próximas, sedução da indústria cultural, a aproximação de pessoas “interesseiras”, e todas essas preocupações são refletidas nesse trabalho. O CD é duplo e traz na capa uma sugestão do preço pelo qual deve ser vendido, uma atitude que, talvez, queira evitar a exploração do mercado fonográfico e explicitar mais uma vez a distância, tão prezada pelo grupo, do sistema empreendido pela indústria cultural.
A importância dos Racionais no cenário do rap nacional é algo indubitável, a sua trajetória confunde-se com a própria evolução do estilo dentro dos ideais do hip hop. Como explicita o jornalista Bruno Zeni
"Os Racionais se tornaram um fenômeno específico por alcançar enorme popularidade tanto na periferia como na classe média intelectualizada sem abrir mão de um discurso combativo que, não raro, beira o incentivo ao enfrentamento racial e de classe."
Eles representam, assim, a resistência do rap nacional na relação com a indústria cultural, ao mesmo tempo que são um dos grandes responsáveis pela ascensão do estilo em meio ao turbilhão do comércio fonográfico.
A escolha de parte da obra dos Racionais com objeto dessa pesquisa justifica-se, por fim, em todos esses pontos apresentados, desde da repercussão nacional do grupo até a postura assumida por seus integrantes desde o início, que eles procuram manter na sua essência, no entanto, sem negar a responsabilidade e a importância que possuem na cultura hip hop, tanto na vertente artística como na mobilização social. Algo que se reflete em todas as classes sociais
"A música dos Racionais está trazendo algo que o movimento negro nunca conseguiu: a comunicação de massa para massa. Suas músicas e suas roupas são cantadas e usadas por jovens negros pobres da periferia, jovens negros da classe média, jovens mestiços de todas as classes e jovens brancos do jardim."
Notas
FERRÉZ. Capão Pecado. São Paulo: Labortexto Editorial, 2000.p. 14
Embora o grupo Racionais MC’s faça parte da segunda geração, os seus integrantes participaram das primeiras manifestações do Hip Hop nacional na praça Roosevelt e na estação São Bento, de maneira individual e não como um grupo formado.
KALILI,Sérgio. Uma conversa com Mano Brown. Caros Amigos.São Paulo, n.3, set.1998. Edição Especial. p. 18.
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004
NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90,nov.2001.p.66-83. p.69
Capão Redondo: Berço da Rhythm and Poetry dos Racionais MC´s
“Universo, Galáxia, Via –Láctea, Sistema Solar, Planeta Terra, Continente Americano, América do Sul, Brasil, SP, São Paulo, Zona Sul, Santo Amaro, Capão Redondo...Bem-vindos ao fundo do mundo”
Esta é a localização do Capão Redondo dada pelo escritor Férrez no prefácio do seu livro Capão Pecado, uma narrativa que, embora não traga personagens reais, reflete com fidelidade o cotidiano do local, um bairro da Zona Sul paulistana onde os Racionais escreveram suas primeiras letras. Ainda como uma dupla, é verdade, mas muitas das letras feitas por Ice Blue e Mano Brown, vizinhos no Capão Redondo, se tornaram os primeiros sucessos dos Racionais MC´s.
Os quatro integrantes dos Racionais são os MC’s Mano Brown (Pedro Paulo Soares Pereira), Edi Rock (Advaldo Pereira Alves), Ice Blue (Paulo Eduardo Salvador) e o Dj KL Jay (Kléber Geraldo Lelis Simões). O nome do grupo faz alusão ao disco Tim Maia Racional (1975), uma das influências do grupo, outras referências são os cantores Cassiano, Hyldon, Wilson Simonal e Jorge Ben, que é homenageado com uma versão de Jorge da Capadócia no quarto disco do grupo, Sobrevivendo no Inferno.
No início dos anos 90, os Racionais lançam seu primeiro trabalho Holocausto Urbano. O álbum era um reflexo de todos os problemas que moradores da periferia sofriam, inclusive os próprios integrantes, uma vez que todos eram oriundos de zonas pobres da cidade de São Paulo. As músicas traziam temas polêmicos como racismo, miséria, corrupção policial, entre outros problemas da periferia paulistana. Não menos importante foi a atitude pioneira do grupo de realizar um trabalho independente, tanto na sua produção como na divulgação, distanciando-se da indústria fonográfica.
Os Racionais fazem parte da geração que encontrou na praça Roosevelt, em São Paulo, o espaço para divulgação de seu trabalho e para o encontro com outros rappers da cidade. Essa experiência na praça foi crucial para a consolidação do rap como veículo de protesto. O segundo trabalho do grupo, o single Escolha seu Caminho, traz na temática a preocupação sócio-racial desenvolvida nos encontros na praça. O single possuía duas músicas Negro Limitado e Voz Ativa. Escolha seu Caminho foi responsável pela popularização dos Racionais entre os jovens da periferia de praticamente todo o país .
Raio-X do Brasil foi o nome escolhido para o terceiro trabalho dos Racionais, o álbum mostra a evolução do grupo, tecnológica e lírica. Na parte sonora, o Dj KL Jay sampleia e mistura sons de Tim Maia, Jorge Ben Jor, Curtis Mayfild e The Meters, entre outros artistas do funk e do soul antigos. Quanto às letras o grupo desprende-se das letras formais dos trabalhos anteriores, quase didáticas e passam a usar a linguagem da periferia com suas gírias, palavrões e idiomatismos, gerando uma maior identificação com o público alvo: os moradores da periferia. As músicas de maior destaque nesse álbum foram Fim-de-semana no Parque, Mano na Porta do Bar e o hino dos negros, pobres, presidiários, e os demais excluídos da sociedade-Homem na Estrada-, que chegou a ser declamada pelo então senador Eduardo Suplicy em um discurso seu, após jovens da classe média de Brasília serem absolvidos do caso do assassinato do índio pataxó.
Em 1997, após um período de pouca repercussão do Rap nos meios de comunicação, os Racionais produzem e divulgam seu quarto trabalho e, talvez o de maior valor para o grupo e para todo o cenário do rap brasileiro. Sobrevivendo no Inferno representou a consolidação do rap nacional, e elevou o gênero à condição de fenômeno nacional, embora, a independência em relação à indústria tenha sido mantida, uma vez que esse álbum inaugura o selo próprio do grupo- Cosa Nostra.. O álbum possui referências divididas entre a religião e a violência, entre a cruz e a pistola. Mano Brown define esse disco em entrevista ao jornalista da Caros Amigos Sérgio Kalili
"Eu quis fazer uma comparação de um cotidiano violento e da religião. Tipo o que você faz para ter mais segurança? A palavra da Bíblia? Como você vai sobreviver?Às vezes eu vejo os Racionais no meio de um inferno, cercado de uma pá de coisas- é tráfico de um lado, polícia que quer ferrar a gente de outro...Então é como um desabafo de como você faz para sobreviver no meio disso tudo aí."
A música de maior repercussão foi Diário de um Detento escrita por Brown e Jocenir, preso que sobreviveu ao massacre do Carandiru. A letra é ambientada na época do massacre e transmiti a visão “dos perdedores”, além de descrever o cotidiano de um presidiário no Complexo Carcerário do Carandiru. O clipe dessa música rendeu o prêmio de “Melhor Clipe do Ano” do VMB, festival de música brasileira realizado pela MTV.
O mais recente álbum dos Racionais, Nada como um dia após o outro dia, apresenta músicas que abordam a nova situação dos integrantes do grupo, agora reconhecidos em todo o país e considerados um dos grupos de maior expressão dentro do movimento hip hop. O posto de “famosos” acarreta vários problemas como a inveja, desconfiança acerca da simplicidade dos integrantes, a ingratidão de algumas pessoas próximas, sedução da indústria cultural, a aproximação de pessoas “interesseiras”, e todas essas preocupações são refletidas nesse trabalho. O CD é duplo e traz na capa uma sugestão do preço pelo qual deve ser vendido, uma atitude que, talvez, queira evitar a exploração do mercado fonográfico e explicitar mais uma vez a distância, tão prezada pelo grupo, do sistema empreendido pela indústria cultural.
A importância dos Racionais no cenário do rap nacional é algo indubitável, a sua trajetória confunde-se com a própria evolução do estilo dentro dos ideais do hip hop. Como explicita o jornalista Bruno Zeni
"Os Racionais se tornaram um fenômeno específico por alcançar enorme popularidade tanto na periferia como na classe média intelectualizada sem abrir mão de um discurso combativo que, não raro, beira o incentivo ao enfrentamento racial e de classe."
Eles representam, assim, a resistência do rap nacional na relação com a indústria cultural, ao mesmo tempo que são um dos grandes responsáveis pela ascensão do estilo em meio ao turbilhão do comércio fonográfico.
A escolha de parte da obra dos Racionais com objeto dessa pesquisa justifica-se, por fim, em todos esses pontos apresentados, desde da repercussão nacional do grupo até a postura assumida por seus integrantes desde o início, que eles procuram manter na sua essência, no entanto, sem negar a responsabilidade e a importância que possuem na cultura hip hop, tanto na vertente artística como na mobilização social. Algo que se reflete em todas as classes sociais
"A música dos Racionais está trazendo algo que o movimento negro nunca conseguiu: a comunicação de massa para massa. Suas músicas e suas roupas são cantadas e usadas por jovens negros pobres da periferia, jovens negros da classe média, jovens mestiços de todas as classes e jovens brancos do jardim."
Notas
FERRÉZ. Capão Pecado. São Paulo: Labortexto Editorial, 2000.p. 14
Embora o grupo Racionais MC’s faça parte da segunda geração, os seus integrantes participaram das primeiras manifestações do Hip Hop nacional na praça Roosevelt e na estação São Bento, de maneira individual e não como um grupo formado.
KALILI,Sérgio. Uma conversa com Mano Brown. Caros Amigos.São Paulo, n.3, set.1998. Edição Especial. p. 18.
ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo
NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90,nov.2001.p.66-83. p.69
Boas novidades
Eu descobri recentemente que esse blog tem mais leitores do que eu imaginava, e eu queria agradecer os meus amigos por isso, pela leitura dedicada às minhas palavras nem sempre boas, nem sempre bem escritas, mas, sempre com as melhores intenções. Eu sei que ultimamaente estou postando coisas que escrevi há um tempo e que é necessário sempre escrever para não "enferrujar", no entanto, eu criei esse blog para poder divulgar coisas que já fiz também, como esse relatório que coloco aqui aos poucos. E assim que essa minha missão terminar, voltarei a colocar minha mente para funcionar e criar novas linhas.
Obrigada...
Obrigada...
terça-feira, 25 de março de 2008
Já que estamos falando de Rap
Essa é uma parte de contexto histórico no meu relatório. Mais uma parte desse trabalho - A história do Rap no Brasil.
Contexto Histórico: a origem do rap nacional
Do seu país de origem o rap nacional herdou as características do local onde nasceu, assim como nos EUA, aqui no Brasil o hip hop se desenvolveu no seio de comunidades periféricas localizadas as margens do maior centro urbano do país, as zonas pobres da grande São Paulo. Como já foi citado o primeiro elemento a aportar aqui foi o break disseminado em meados dos anos 70 através passos do grupo de dança Funk & Cia sob o comando do veterano do hip hop Nelson Triunfo, isso quase trinta anos atrás. A música B.boy Original (1982) de sua autoria resume essa gênese do movimento no país
Dança de rua, dance em qualquer lugar,
Mostre a verdade sua,
Mas nunca se esqueça que sua cultura é original de rua!
Saiu do subúrbio pra se projetar,
No centro da cidade chamou a atenção,
Com sua dança mágica como raio
Ele entrou em comunicação para toda a nação.
Foi assim no Brasil, como lá no Bronx
da periferia para ruas.
O centro da cidade, como Triunfo canta, foi o palco do desenvolvimento dos demais elementos do movimento, inclusive o rap. Os primeiros rappers não tinham consciência do papel social que o rap adquiriu e da sua importância para os jovens das periferias norte-americanas. Exemplo disso foi o primeiro registro fonográfico de um rap no país, já em 1980, Melô do Tagarela, que foi gravado comercialmente por um apresentador de televisão, não correspondendo aos objetivos do estilo - ser genuinamente uma cultura de rua-, embora abordasse temas críticos como a situação política e social da época.
Somente alguns anos depois, com a chegada de maiores informações acerca do movimento Hip Hop e de seus ideais, é que se formou uma primeira geração de rappers compromissados com o caráter de cultura de rua que identifica o movimento. Essa geração foi denominada “Velha Escola”, ou os bate-latas. Esses rappers, que bateram lata na Estação São Bento ou participaram das rodas de rap na praça Roosevelt são considerados os pioneiros do rap nacional, a primeira geração de rappers. Anterior às gravações fonográficas do estilo, essa geração representa a máxima do termo “cultura de rua”, pois, foi ali mesmo, nas ruas que o rap angariou centenas de adeptos sem auxilio de grandes gravações. O rapper Thaíde, um dos pioneiros do movimento, fala sobre essa experiência na estação e do termo batedores de lata
Essa história aconteceu que é o seguinte agente tinha uns problemas para usar a energia elétrica lá (São Bento) e eu falei – Olha eu sou Ogun, do candomblé e eu sei fazer percussão aquela parada toda-, então agente começou a fazer um som na lata pra substituir justamente o som eletrônico já que agente não podia usar a eletricidade, mas precisávamos de um som, ai eu comecei a fazer um som nas latas de lixo e deu muito certo. Agente era um monte de adolescente se encontrando para se divertir, agente não tinha idéia do que ta acontecendo hoje. Agente ia com seriedade apesar da diversão, então agente começou a se preocupar com o que estava fazendo, com as letras, começamos a nos aprimorar, os djs também. O hip hop foi tomando conta do país inteiro. Quando agente viu, tinha pessoas fazendo o que agente fazia na São Bento no país inteiro.
Os raps dessa primeira geração buscavam resgatar a cultura negra, eram comuns as letras que falavam de Zumbi dos palmares e outros líderes negros como Malcom X e Martin Luther King. O resgate da cultura possibilitou conscientização dos jovens negros sobre a história de seus ancestrais e a busca por sua identidade. As músicas, no entanto, possuíam um tom mais festivo do que de denúncia.
As primeiras gravações de grupos dessa geração aconteceram 1988 e 89 com o lançamento de três coletâneas Hip Hop Cultura de Rua, Consciência Black vol.1 e vol.2. O período foi caracterizado pelo lançamento de coletâneas, já que se tratava de um novo estilo musical que refletia certa desconfiança por parte das gravadoras, destaque para Consciência Black, porque foi a primeira a colocar em uma das faixas uma música que revelava explicitamente o cotidiano periférico, a música Pânico na Zona Sul de autoria de Mano Brown e Ice Blue, como uma dupla anterior a formação dos Racionais MC´s.
A segunda geração corresponde aos grupos que ingressaram no movimento hip hop no fim dos anos 80 e início dos anos 90. É nessa geração que está o foco da pesquisa: o grupo Racionais MC’s. Como parte da obra deles é o objeto de pesquisa desse projeto a história e trajetória do grupo será apresentada em tópico separado.
A característica principal da nova safra de rappers que surgiram é a maior politização em relação aos veteranos, maiores informações sobre os ideais do movimento foram sendo assimiladas e, também, a partir disso foi se construindo o rap genuinamente brasileiro, afastando-se um pouco dos precursores norte-americanos e incluído influências nacionais nas bases sonoras, como nomes expressivos do soul e black music tupiniquins como Jorge Ben Jor, Tim Maia, Sandra de Sá, Toni Tornado e outros.
Os tons festivos assim cederam lugar as “crônicas” do cotidiano periférico, tendo como um dos temas centrais o resgate da auto-estima do jovem negro, maioria nesses locais. Foi o momento que o hip hop passou a ter uma função social mais forte, se organizar como um movimento, além de cultural, social. Nessa época se estabelece as características do movimento que foram bem definidas nas palavras do antropólogo Luiz Eduardo Soares, autor do livro Cabeça de porco, “o hip hop acena com a paz politizada, que se afirma com agressividade crítica, isto é com o estilo afirmativo do orgulho reconquistado”.
Notas
Entrevista concedida no lançamento do livro biográfico “Pergunte a quem conhece”, realizado no SESC/Bauru no dia 17 de fevereiro de 2005.
ATHAYDE, Celso; MV BILL; SOARES, Luiz Eduardo.Cabeça de Porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 84
Contexto Histórico: a origem do rap nacional
Do seu país de origem o rap nacional herdou as características do local onde nasceu, assim como nos EUA, aqui no Brasil o hip hop se desenvolveu no seio de comunidades periféricas localizadas as margens do maior centro urbano do país, as zonas pobres da grande São Paulo. Como já foi citado o primeiro elemento a aportar aqui foi o break disseminado em meados dos anos 70 através passos do grupo de dança Funk & Cia sob o comando do veterano do hip hop Nelson Triunfo, isso quase trinta anos atrás. A música B.boy Original (1982) de sua autoria resume essa gênese do movimento no país
Dança de rua, dance em qualquer lugar,
Mostre a verdade sua,
Mas nunca se esqueça que sua cultura é original de rua!
Saiu do subúrbio pra se projetar,
No centro da cidade chamou a atenção,
Com sua dança mágica como raio
Ele entrou em comunicação para toda a nação.
Foi assim no Brasil, como lá no Bronx
da periferia para ruas.
O centro da cidade, como Triunfo canta, foi o palco do desenvolvimento dos demais elementos do movimento, inclusive o rap. Os primeiros rappers não tinham consciência do papel social que o rap adquiriu e da sua importância para os jovens das periferias norte-americanas. Exemplo disso foi o primeiro registro fonográfico de um rap no país, já em 1980, Melô do Tagarela, que foi gravado comercialmente por um apresentador de televisão, não correspondendo aos objetivos do estilo - ser genuinamente uma cultura de rua-, embora abordasse temas críticos como a situação política e social da época.
Somente alguns anos depois, com a chegada de maiores informações acerca do movimento Hip Hop e de seus ideais, é que se formou uma primeira geração de rappers compromissados com o caráter de cultura de rua que identifica o movimento. Essa geração foi denominada “Velha Escola”, ou os bate-latas. Esses rappers, que bateram lata na Estação São Bento ou participaram das rodas de rap na praça Roosevelt são considerados os pioneiros do rap nacional, a primeira geração de rappers. Anterior às gravações fonográficas do estilo, essa geração representa a máxima do termo “cultura de rua”, pois, foi ali mesmo, nas ruas que o rap angariou centenas de adeptos sem auxilio de grandes gravações. O rapper Thaíde, um dos pioneiros do movimento, fala sobre essa experiência na estação e do termo batedores de lata
Essa história aconteceu que é o seguinte agente tinha uns problemas para usar a energia elétrica lá (São Bento) e eu falei – Olha eu sou Ogun, do candomblé e eu sei fazer percussão aquela parada toda-, então agente começou a fazer um som na lata pra substituir justamente o som eletrônico já que agente não podia usar a eletricidade, mas precisávamos de um som, ai eu comecei a fazer um som nas latas de lixo e deu muito certo. Agente era um monte de adolescente se encontrando para se divertir, agente não tinha idéia do que ta acontecendo hoje. Agente ia com seriedade apesar da diversão, então agente começou a se preocupar com o que estava fazendo, com as letras, começamos a nos aprimorar, os djs também. O hip hop foi tomando conta do país inteiro. Quando agente viu, tinha pessoas fazendo o que agente fazia na São Bento no país inteiro.
Os raps dessa primeira geração buscavam resgatar a cultura negra, eram comuns as letras que falavam de Zumbi dos palmares e outros líderes negros como Malcom X e Martin Luther King. O resgate da cultura possibilitou conscientização dos jovens negros sobre a história de seus ancestrais e a busca por sua identidade. As músicas, no entanto, possuíam um tom mais festivo do que de denúncia.
As primeiras gravações de grupos dessa geração aconteceram 1988 e 89 com o lançamento de três coletâneas Hip Hop Cultura de Rua, Consciência Black vol.1 e vol.2. O período foi caracterizado pelo lançamento de coletâneas, já que se tratava de um novo estilo musical que refletia certa desconfiança por parte das gravadoras, destaque para Consciência Black, porque foi a primeira a colocar em uma das faixas uma música que revelava explicitamente o cotidiano periférico, a música Pânico na Zona Sul de autoria de Mano Brown e Ice Blue, como uma dupla anterior a formação dos Racionais MC´s.
A segunda geração corresponde aos grupos que ingressaram no movimento hip hop no fim dos anos 80 e início dos anos 90. É nessa geração que está o foco da pesquisa: o grupo Racionais MC’s. Como parte da obra deles é o objeto de pesquisa desse projeto a história e trajetória do grupo será apresentada em tópico separado.
A característica principal da nova safra de rappers que surgiram é a maior politização em relação aos veteranos, maiores informações sobre os ideais do movimento foram sendo assimiladas e, também, a partir disso foi se construindo o rap genuinamente brasileiro, afastando-se um pouco dos precursores norte-americanos e incluído influências nacionais nas bases sonoras, como nomes expressivos do soul e black music tupiniquins como Jorge Ben Jor, Tim Maia, Sandra de Sá, Toni Tornado e outros.
Os tons festivos assim cederam lugar as “crônicas” do cotidiano periférico, tendo como um dos temas centrais o resgate da auto-estima do jovem negro, maioria nesses locais. Foi o momento que o hip hop passou a ter uma função social mais forte, se organizar como um movimento, além de cultural, social. Nessa época se estabelece as características do movimento que foram bem definidas nas palavras do antropólogo Luiz Eduardo Soares, autor do livro Cabeça de porco, “o hip hop acena com a paz politizada, que se afirma com agressividade crítica, isto é com o estilo afirmativo do orgulho reconquistado”.
Notas
Entrevista concedida no lançamento do livro biográfico “Pergunte a quem conhece”, realizado no SESC/Bauru no dia 17 de fevereiro de 2005.
ATHAYDE, Celso; MV BILL; SOARES, Luiz Eduardo.Cabeça de Porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 84
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