quarta-feira, 5 de março de 2008

Primeira parte do relatório

Como eu já havia escrito na última postagem, eu vou dividir com as poucas pessoas que acessam meu blog o meu relatório de Iniciação Científica, um trabalho que eu desenvolvi entre os anos de 2004 e 2005. Vou postar aos poucos, começando pelo começo é claro. Eis então a Introdução.

Introdução

O objetivo desse projeto compreende o estudo de três letras do grupo paulistano Racionais MC’s a luz das teorias acerca da análise do discurso. As letras abordam três aspectos distintos que permeiam o trabalho do grupo. As temáticas surgiram de questionamentos levantados em pesquisas anteriores, porém, assumiram os parâmetros diferenciados dessa pesquisa, apresentando sua própria abordagem e resultados.
A escolha do grupo se justifica pela sua importância no cenário musical do rap e pela visibilidade e sucesso alcançados, remetendo o grupo à posição de celebridades, no entanto, estrelas isoladas na arte marginal por escolha própria. Já as temáticas englobam aspectos presentes em toda a obra do grupo, ainda que de formas diversas. Estas são:
• A postura do grupo diante da relação do branco e negro, a visão do racismo no universo recortado pelos Racionais.
• A relação usualmente tensa do grupo com a fama e o dinheiro, e de certa forma com todos os aparatos da indústria cultural.
• A linha tênue que separa o discurso dos Racionais de mensagens proféticas, apontado na presença de ícone religioso e tom messiânico.

Para isso foi proposta análise das letras, uma vez que essas representam a postura do grupo, a forma como lidam com essas questões que surgem constantemente no seu cotidiano. Procurou-se selecionar as letras que apresentassem cada uma das temáticas com centrais, pois, essas de alguma forma, direta ou não, estão presentes na obra como um todo.
No decorrer da pesquisa ficou claro que os questionamentos foram um ponto de partida para procura das temáticas mais abordadas pelos Racionais, mas, a pesquisa segue seu próprio rumo. A proposta aqui é procurar entender, através do estudo dessas letras representativas, alguns posicionamentos do grupo como, também, a construção do seu discurso acerca dessas questões, inúmeras vezes polêmicas.
E por que a escolha desses três aspectos? Isso se justifica na linha da pesquisa, no caminho a percorrer e dos pressupostos dos quais partiram. São justamente esses três elementos inerentes ao discurso dos Racionais que são usados por aqueles que criticam o estilo musical e o grupo. Os avessos ao rap utilizam desses pontos de forma distorcida para tecer sua crítica ao movimento, a questão da valorização do negro, da defesa diante da discriminação de séculos, é defendida como ódio étnico. A postura diante da mídia é estereotipada, como se eles tivessem construído uma imagem de “caras maus” que tivessem que sustentar. E por fim o tom e elementos messiânicos como se o rap fosse algo que almejasse ser uma nova religião profana com um discurso de “venham a mim”. Portanto o objetivo ser, através da análise do discurso presente nessas letras, mostrar o fundamento desse posicionamento.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Um dos meus trabalhos que mais amo

Durante a faculdade eu fiz trabalho sobre os Racionais MC´S, um grupo de rap que eu admiro muito, especialmente, a pessoa do Mano Brow, até já escrevi sobre ele aqui, quando foi um dos convidados para o programa Roda Viva. E esse trabalho foi muito importante para mim, por ter sido uma iniciação científica e por tudo que eu aprendi com ele. Bom ele é muito grande mesmo, tem 80 páginas, porém, eu vou tentar ir postando um pouco de cada vez aqui, porque quero que outras pessoas vejam esse trabalho. Gostando ou não, ele foi um das primeiras coisas que fiz sobre o Rap, sobre o movimento Hip Hop, não sei se o resultado hoje é tão bom como foi na época, mas valeu a pena. No próximo post eu coloco a introdução do trabalho. Até breve.

ÉTICA

Um assunto em voga sempre, ainda mais quando sofremos com a falta dela. O que acontece quase todos os dias, vemos em todo o canto o resultado das ações de pessoas que, simplesmente, não tem ética, ou possuem uma que não condiz com a sociedade que queremos viver e sim com a que vivemos hoje, infelizmente. Eu achei dois texto que fiz sobre o assunto e resolvi postar aqui.

O primeiro foi um trabalho que fiz para uma disciplina que, coincidentemente se chamava ética. O outro foi uma matéria que eu fiz para o jornal mural da faculdade, o EXTRA! fala sobre a ética na minha profissão, o jornalismo. É bem curtinha a matéria, mas, tem algumas coisas legais.

Uma ética pessoal


Na busca pela definição de uma ética pessoal, acredito que seja importante contextualizar algumas concepções do que seria a ética, que de certa forma, contribuíram para a nossa noção atual do que é uma conduta ética. A preocupação com essa temática data do início do que ficou conhecida como “filosofia moral”. Essa vertente nasceu das indagações socráticas acerca do por que dos valores e costumes cultivados pelos atenienses, a partir de suas perguntas e das respostas que lhe eram dadas, Sócrates chegou à conclusão que a conduta dos atenienses era um produto dos costumes da sociedade em que viviam, portanto, o “ser ético” possui uma variante que é o tempo e o ambiente social no qual o sujeito vive.
Da inauguração de Sócrates, passamos para outro filosofo grego. Aristóteles acrescentou a filosofia moral os termos saber teórico e saber prático e suas diferenciações. O saber teórico é conhecimento que obtemos a partir dos fatos naturais, que ocorrem independente da ação humana, enquanto que o saber prático depende da atividade humana. E da prática ele defini suas duas divisões: práxis e a técnica. Da práxis vem a noção da ética colocada por Aristóteles, considerando a práxis como a ação que é inseparável de sua finalidade e seu agente, ela é ética quando “somos aquilo que fazemos e o que fazemos é finalidade boa ou virtuosa” .
Assim, a virtude aparece como equilíbrio entre a falta e o excesso de um sentimento, a ação do homem de controlar seus instintos naturais que, para os gregos, se dá através da educação. O aprendizado do domínio racional das paixões, direcionando a vontade para o bem, que deve ser coletivo, ou seja, o homem só pode ser ético em sociedade. Por isso nesse contexto as discussões éticas ocupavam a esfera pública, o que determina a ética inseparável da política.
Avançando alguns anos, séculos na verdade, temos a ética transcendental kantiana. Kant apresenta elementos do racionalismo grego e da ética do dever instituída pelo cristianismo. A diferença entre o dever kantiano e o cristão está na definição de liberdade. O dever cristão se relaciona com a obediência a um ser divino, Deus, portanto nos tornaríamos morais por uma força externa, o que restringe o caráter de sujeito autônomo imposto pela ética. Kant, por sua vez, apresenta o dever como algo que é “proposto pela razão a nossa vontade livre” e, não, imposto por vontades divinas. A obediência nesse caso é a si mesmo.
Quanto a essa razão, Kant a divide em pratica e teórica. No mesmo sentido grego, a teórica seria a razão do mundo natural, onde as ações são guiadas pela necessidade (causa e efeito), e a razão prática se encontra no campo da ação humana, onde a conduta é guiada pela razão tendo em vista um fim, uma finalidade. A ética de Kant se encontra nesse campo, quando as ações visam fins éticos e para alcançar esse fim os meios devem ser igualmente éticos. Para isso nossa razão prática determina regras para ação ética, isso é o que se chamou de dever. Mas não é a simples ação conforme o dever que nos torna seres éticos e, sim, o querer, a vontade, em realizar esse dever.
Ainda de acordo com Kant o dever é um “imperativo categórico”, ou seja, não se trata de uma listagem de coisas que devem ou não ser feita, mas, uma forma de agir que sirva de modelo para os outros. Não importa o que exatamente se está fazendo e sim que isso possa se tornar uma lei universal a ser seguida, para isso os sujeitos devem ser sempre o fim e nunca um meio. Enfim, de acordo com a razão está no indivíduo, portanto é uma ética sob o ponto de vista do sujeito.
Mais recente é “ética do discurso” apresentada por Habermas. Com base em Kant, Habermas utiliza, ao discutir a ética, o termo da razão prática, como a capacidade humana de raciocínio voltado para “o agir”. Essa capacidade pode se dar de três maneiras: o uso pragmático, o uso ético e o uso moral da razão prática, utilização determinada pela motivação da prática.
O uso pragmático é a ação orientada apenas por sua finalidade, sem muita preocupação com a forma de alcançar esse fim, na verdade, é o uso que sustenta o nosso sistema social atual, a ação motivada pelo seu resultado, o que Habermas classificou como a colonização do mundo da vida. O uso ético tem como finalidade o que é bom do ponto de vista individual, ao ponto que são as escolhas e atitudes coerentes com o projeto de vida de um sujeito, e coletivo, porque essas escolhas são feitas com base em valores e modelos oriundos de um determinado contexto social. A definição da vida boa, busca do indivíduo, é dada pelo grupo social ao qual pertence. Um uso ético baseado nas tradições.
E, por fim, o uso moral da razão prática, que determina o que é moralmente certo, que é não impulsionado pelo resultado de ações e nem pela busca do bom. É norteado apenas pelo conflito da justiça. Quando nos perguntamos o que é justo estamos fazendo o uso do princípio moral. Compreendendo os princípios morais como um conjunto de regras essenciais para convivência coletiva, Habermas propõe uma moral que deve ser universalista, cognitivista e formalista. Universal no ponto de vista que as regras são legitimadas através do diálogo entre os sujeitos envolvidos em sociedade, por meio do “agir comunicativo” buscar valores que sejam comuns e aceitos por todos sem coação. Cognitivista porque só se define as normas morais através da razão e do conhecimento. E formalista, à medida que a importância da ação moral não se dá por seu conteúdo e sim a motivação da atitude do sujeito, que pode se modificar ao longo da história.
Por essas características, para Habermas “as ações morais são aquelas que conseguem desprender-se do mundo ético tradicional e buscam guiar-se por princípios descobertos a partir da reflexão e do questionamento” . O processo que Habermas definiu como a descolonização do mundo da vida.
Diante dessa breve contextualização de concepções éticas, fica claro que a nossa ética pessoal resulta desses conceitos, porque, de certa forma eles refletem aspectos sociais que mesmo de épocas diferentes derivaram aspectos em nossa sociedade atual. Assim sendo, acredito que procuro agir conforme o que Habermas definiu como ações morais.
O uso moral da razão prática é o único que encontra alicerces reais no contexto em que vivemos, porque diante das diversidades de culturas, costumes e situações que vivenciamos em nossa sociedade globalizada, o que é justo só pode ser possível através do diálogo entre essas diferenças.

Notas:
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.p.312
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.p. 317
GUZZELLI, Iara. A especificidade do ato moral em Habermas. O uso moral da razão prática. Disponível em: < http://www.sedes.org.br/Centros/habermas.htm> acesso em: 3.out.2006

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É a universidade que nega a lei mercado? Ou seria o contrário?

No momento da discussão da ética jornalística existe um embate entre o ideal apresentado na teoria, aquele que os estudantes de jornalismo constroem na universidade, e o que se apresenta na prática, no cotidiano das redações. Nesse sentido a universidade que nega a realidade do mercado ou esse que, mergulhado na corrida pelo furo jornalístico, ignora a base teórica e a reflexão? Segundo o professor de ética da Universidade do Sagrado Coração Luís Henrique, o jornalista imerso no mercado de trabalho não realiza o ato de reflexão sobre a ética e sua prática. Nesse sentido Luis Henrique acredita que o mercado tem que se voltar mais para o caráter de conflito de idéias presente na universidade “jornalistas não gostam de discutir o próprio trabalho, falta no seu cotidiano a prática de refletir”.
Já o jornalista Nelson Gonçalves acredita que a universidade erra ao não discutir a realidade do mercado de trabalho. “A universidade pública enquanto formadora de conteúdo cultural e filosófico é importante, mas na área de comunicação ela nega o mercado e não dá para ser laboratório a vida inteira” afirmou o jornalista. Dessa forma a universidade pecaria por teorizar e idealizar demais e o mercado por priorizar prática sem reflexão.
Porém, mais importante que o balanço entre teoria e prática é a reflexão até que ponto os interesses pessoais, políticos e econômicos influem no direito à informação. Assim a questão ética passa pelas escolhas de enfoque, as linhas editorias. Essa discussão é feita na universidade, mas assim como levanta Nelson Gonçalves “ela parte do pressuposto de que o mercado está errado”, por outro lado o mercado diante da velocidade das informações insiste que “na prática a teoria é outra, tem que ser feito do jeito que dá” como ressaltou o professor Luis Henrique. Diante do eterno embate a conduta ética acaba por ser um encargo de cada jornalista ao elaborar o seu texto, na escolha do melhor caminho entre a lei do mercado, da qual depende economicamente, e sua responsabilidade social como um formador de opinião.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Qual democracia?

No dia 19 de fevereiro, Fidel Castro anunciou que deixaria o seu posto de presidente de Cuba, do qual estava afastado fazia dois anos por problemas de Saúde. Depois de quase 50 anos de Fidel no comando do país, pôde-se falar, escrever, etc, sobre uma possível abertura. No horizonte poderia se ver a saída que tanto pregam: a tão sonhada "liberdade". Mas, uma coisa me intriga... que liberdade é essa?
Liberdade para comer lanches do MC Donald´s?
Liberdade para ser bombardiado por filmes e músicas da terrinha hollywoodiana, que nos enfiam goela a baixo a superioridade norte-americana?
Liberdade para escolher entre um pratileira de 500 mil produtos fúteis, qual é o mais imprescindível para a sua vida só porque uma propaganda de televisão lhe disse isso?
Liberdade para viver refém dos altos e baixos do dólar americano?
Espero que essa aplaudida liberdade não influencie na liberdade que os cubanos já conseguiram, liberdade do acesso a educação e aos cuidados de uma das melhores medicinas do mundo.
Todo mundo sabe que não ideal viver sobre uma ditadura, não estou exaltando isso de maneira alguma, porém, seria ideal essa nossa "democracia", que permite que crianças fiquem na rua ao invés da escola, que filas e filas se formem nos postos de saúde precários e que grandes homens de terno gravata fiquem com o dinheiro que era destinado a terminar com essas filas e melhorar o ensino?

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

um texto que escrevi há um tempo

Eu escrevi este texto na época que aconteceram os ataques do PCC em São Paulo. Eu sei que ele é um pouco polêmico, teve gente que teve problemas ao revelar que pensa assim como eu, porém, eu o escrevi em um momento que estava realmente revoltada com o que estava acontecendo. E no fundo todo mundo sabe que é assim que acontece mesmo, só o mais hipócritas não assumem. E isso eu não quero ser. Aprendir a escrever assim lendo os textos de uma jornalista que é um exemplo para mim, de coragem, de inteligência, de sensibilidade, para mim ela é a melhor jornalista que se tem hoje no Brasil...Marilene Felinto.

Os filhos da Classe Média

Eu já pensava isso quando ouvi os primeiros números de mortos na represália aos ataques do PCC em São Paulo. Os pobres meninos filhos das favelas e periferias da “grande floresta de concreto e aço” sempre pagam pelos abusos policiais diante das ondas de terror e pânico que vira e mexe assolam São Paulo.
Hoje eu estava lendo o artigo do Ferréz na Caros Amigos desse mês e, mais uma vez, comprovei o que pensava. Os meninos da periferia pagaram com suas vidas, mais uma vez, o pânico das senhoras da classe média afoitas por um índice satisfatório da ação policial. Em tempo, índice esse medido pelo número de “suspeitos” das facções criminosas que são mortos. Mortos em pseudo-confrontos em que, incrivelmente, nossos bons policiais acertam cinco tiros em cada um, a maioria na cabeça, na parte de trás ou no meio da testa. Fico pensando que pontaria nossos policiais têm, poderiam ser o idealizadores da guerra cirúrgica tamanha precisão que atiram em meio ao um “fogo cruzado”.
O mais espetacular é que, além da pontaria excepcional, eles são inatingíveis, pois, num confronto a baixa de policiais é quase sempre (para não dizer sempre) zero.
Volto a pensar nas senhoras eufóricas da classe média, se passa pela cabeça delas que esses meninos poderiam ser seus filhos. Acredito que não, são a classe média do Brasil. Se julgam inatingíveis, assim como o esquadrão da morte da polícia, inclusive, da parcela de culpa que tem em todos esses acontecimentos.
Ferréz fala de dois jovens, entregadores de pizza, que foram assassinados. É, realmente, os filhos da classe média não são entregadores de pizza. Eles são donos, ou filhos dos donos, dessas pizzarias. Ou, no mínimo, tem a possibilidade de saboreá-la.
Não estou aqui para justificar os acontecimentos desencadeados pelo PCC com meus pensamentos, longe disso. Mas, mais longe ainda é acreditar que a guerra foi controlada, que os inocentes (da periferia ou não) não vão mais morrer, que a polícia está preparada para enfrentar esses acontecimentos, que o Estado vá fazer algo a respeito de disso. Ainda mais longe está a possibilidade da classe média não tapar os olhos novamente, se esconder nos seus muros blindados, não sair às ruas pedindo aumento das penas e redução da maioridade penal. Quando na verdade deviam enxergar que nossas cadeias não passam de um deposito de gente. Mano Brown já falou, “frustração, máquina de fazer vilão”.
Se nada justifica a violência, a cegueira da nossa sociedade está aí para, ao menos, explicar porque ela existe. Vamos continuar colocando a sujeira debaixo do tapete, passando concreto em baixo das pontes, expulsando os mendigos, deixando a cidade “mais bonita”, empurrando as pessoas para as periferias, o outro lado da ponte, a construir grades...É Marilene uma guerra seria muito pouco mesmo...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

passeio pelo mundo das prostitutas

Essa matéria foi feita por mim e pelo Pedro, nós fomos até o local de trabalho dessas mulheres que aparecem na reportagem. Foi um trabalho muito interessante e acima de tudo importante para se despir dos preconceitos.


O ideal de ser apenas uma condição temporária


“Só pretendo ser do jeito que estou lá na certidão de nascimento. Senhorita Maria de Jesus, a que brilhar na noite do Bar e Boate Primor. Dama. Pra se sentar na minha mesa tem de ser doutor e outros brilhos [...] A senhorita poderia me dar o prazer? E a senhorita Maria de Jesus estende a mão, classe, enquanto o abonado vidra”.

Maria Jesus de Souza (Perfume de gardênia), João Antônio, 1986.


Como Maria de Jesus de Souza, personagem de João Antônio, as meninas daquela casa, também, querem um dia deixar aquela vida, voltar para o que eram na certidão de nascimento. Aproximam-se aos poucos, meio sem graça, carregando no rosto o sono dos trabalhadores noturnos. “Assim que me chamarem eu vou sair dessa vida, porque essa vida ninguém merece”. Aline espera uma vaga na frente de trabalho, e, enquanto essa oportunidade não vem, ela trabalha como garota de programa em uma casa noturna em Bauru. Está lá há pouco tempo. Mas o dinheiro que ganha já essencial para pagar todas as sua despesas.

Elas não sabem, mas têm uma profissão

Cem reais é o preço do programa, um valor que, segundo as meninas, foram elas que estabeleceram, e que pode variar “dependendo da necessidade do bolso”, mas sem depreciar o produto. “O mínimo é cinqüenta reais”. Embora, Aline e suas companheiras de trabalho tenham a noção de preços e valores, não enxergam o que fazem como uma prestação de serviço, um trabalho.
O Ministério do Trabalho reconhece a prostituição como uma atividade profissional dentro das determinações da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). No entanto, ainda não existe uma regulamentação da profissão dentro da legislação trabalhista. O Projeto de Lei do deputado federal Fernando Gabeira (PV), elaborado em 2003 com apoio da Rede Brasileira de Prostitutas, ainda está em tramitação na Câmara dos Deputados. O projeto esbarra no falso moralismo e na hipocrisia da sociedade, que enxerga a prostituição como, unicamente, um reflexo da desigualdade social. A mesma sociedade que recrimina o mercado do sexo é a que o mantém. Reflexo, sim, de umas das leis mais antigas do capitalismo: a da oferta e procura, no caso da prestação do serviço sexual.
Alheia a todas (as discussões sobre regulamentação do trabalho das prostitutas) essas discussões, Aline não vê vantagens na regulamentação ou não da profissão, já que para ela trata-se de uma condição temporária. “Você tem que ganhar o seu dinheiro logo. Se você demora, na sua velhice não vai estar aqui. Eu não me imagino com trinta anos aqui”. Não imagina, até porque, segundo suas estatísticas, não vai demorar muito para sair da casa em que trabalha, até porque sente vergonha do trabalho que realiza.
A Daspu, uma grife confeccionada pelas prostitutas ligadas a ONG Davida (Prostituição, Direitos Civis e Saúde) do Rio de Janeiro, é citada como uma iniciativa de mulheres que vêem a prostituição como um trabalho igual a qualquer outro, com seus deveres e direitos. Aline ouve pensativa a explicação sobre a grife, mas se diz disposta a empregar sua força de trabalho em uma iniciativa que mude o rumo de sua vida. Fez inscrição na frente de trabalho antes de se tornar garota de programa. Sente medo de que conhecidos descubram o que realmente faz.
Não seria menor a culpa das meninas se elas, no mínimo, enxergassem o serviço que prestam exigível de pagamento? A influência da marginalização a qual a profissão está submetida influi diretamente no comportamento das meninas. Aline não observa méritos em seu trabalho, tampouco se vê como uma profissional do sexo. “Eu tenho vergonha de mostrar para os outros”. Suas palavras soam a culpa de uma “criminosa”. Mas ganhar dinheiro dessa forma seria crime? Não judicialmente, mas moralmente na cabeça das meninas. Moral esta que, ao menos, deixa de perturbá-las quando o assunto são os benefícios trazidos pelo dinheiro.

O dinheiro entra em cena

“Pó-pó-pó-pó-pó-ró-pó-pó não marca, o que fala é a grana”.
João Antônio, 1986.

O que você já fez de melhor com o seu dinheiro? Aline pensa um pouco antes de responder. “Ajudei minha mãe, minha filha”. Ao fundo uma das meninas fala em tom de brincadeira: “comprei muita droga”, mas, logo desfaz a afirmação contando que ajudou a mãe a erguer sua casa. A ação de ajudar alguém com o dinheiro que ganha parece diminuir um pouco a sensação de estar cometendo um “crime”, mesmo que moral.
Ação que apresenta traços do que Karl Marx determinou como “alienação”. “O indivíduo, à medida que vai vendo aquilo como algo estranho, vai sentindo como sacrifício e mortificação o processo de trabalho. Ele tem uma atividade, mas como ele não se identifica na atividade que exerce e nas coisas que produz, para ele aquilo é um sacrifício”, explica Luis Fernando da Silva, professor do Departamento de Ciências Humanas da Unesp de Bauru. Uma sensação de repulsa da atividade exercida acompanha as meninas no seu dia-a-dia na casa noturna. "A gente ouve muitas coisas ruins", relembra Aline.
Histórias de vida e justificativas pessoais à parte, a relação de mercado na prostituição é igual a qualquer outra no capitalismo. “Na verdade temos que tratá-lo como mercado de troca sexual, embora ele tenha uma questão simbólica na identificação entre clientes e essas pessoas”, ressalta o professor Luis Fernando.
As meninas ali não têm a noção de que estão inseridas nesse “mercado” e que vendem suas “qualificações”. Segundo Luis Fernando, existem “qualificações de tipos de pessoas. Que vão desde corpóreas, visuais, até habilidades sexuais, acúmulo de conhecimento nessa área”. Porém, as relações capitalistas estão muito presentes no cotidiano das meninas, tanto que se refletem nas falas e explicações.
Aline comenta a multa que precisa ser paga quando a menina sai da casa para fazer o programa fora. “A casa que coloca a multa, deve ser uns 80 reais”, e funciona semelhante a uma rescisão de contrato - um reembolso da relação da garota de programa com a casa, que, também, é de troca. As meninas têm um local para dormir e comer e, em contrapartida, funcionam como uma espécie de atrativo a mais para o estabelecimento.
Como no comércio, que tem seus períodos de intensas vendas, no mercado do sexo, também, existe a época de maior atividade e produtividade. Dessa vez quem falou foi Amanda. “Do mês cinco em diante é melhor, porque aí já passou natal, páscoa, dia das mães, as festas, aí o pessoal vai juntando mais dinheiro pra gastar com nós... fofas”.
Quando o assunto é o que mais vende dentro deste mercado, afinal, qual é o diferencial de uma menina para outra? O que faz com quem uma tenha sempre clientes, às vezes até fixos, e outras não? Aline não sabe dizer o porquê. Arrisca a questão da idade, que funciona matematicamente numa equivalência das grandezas proporcionais. Quanto mais novas, mais requisitadas. “Quando os caras vêem uma mulher de trinta anos já falam: ‘e aquela coroa ali’”.
Não acredita na aparência como ponto forte. “Tem uns clientes chatos que ligam para aparência, mas não são todos”. A garota acha que o diferencial está na personalidade, “na forma de tratar o cliente”. No entanto, não descarta a importância de estar produzida, afinal, a casa é como uma grande vitrine e quem estão expostas ali são as próprias meninas.
Não se trata de observar as meninas como “pessoas-objeto”, mas, de notar que se está oferecendo a sua força de trabalho, enquanto profissionais do sexo – e pelo preço que elas mesmas estipularam. “Você não está indo porque gosta, você está indo pelo dinheiro, por causa do dinheiro”.

O dinheiro levanta a casa, mas não diminui a vergonha

“Se isto for boa vida, berimbau é gaita-de-fole e paralelepípedo, pão-de-ló”
João Antônio, 1986.

Campanhas como “Sem vergonha, garota. Você tem profissão”, lançada pela Coordenação Nacional de DSTs e Aids; Jornal “Beijo da Rua”, publicação da ONG Davida; a já citada Daspu, entre outras iniciativas, não surtem efeito no interior, apontando para uma característica: o amadorismo que predomina entre as profissionais do sexo. Essa falta de consciência da profissão, aliada às próprias condições de trabalho – e os motivos, quase sempre desfavoráveis, que levaram as meninas até a casa noturna e à vida de garota de programa – acabam relegando essas mulheres ao submundo do trabalho. Submissão justificada pelo dinheiro. Dignidade adquirida pela possibilidade de reconstruir a vida.
Aline não se diz contente com o que faz. Volta a já citada vergonha. “Se não fosse assim, eu trabalhava na minha cidade mesmo”. Mas, a vida carregada de culpa, que clama por outros caminhos, logo entra em contradição quando o assunto é a casa ou o dinheiro que ganha. “Trabalhar ali é muito bom, dá para ganhar dinheiro”. Recorda que foi a própria irmã que a fez conhecer a vida na casa noturna. “Minha irmã já levantou a casa e já tem os móveis”, justifica. Nesse sentido o dinheiro parece compensar as atitudes por parte dos clientes, que elas têm que aceitar. “Quando você entra no quarto, não sabe o que vai acontecer, o cara pode puxar seu cabelo, te xingar, alguma coisa vai acontecer”.
A palavra “sexo” parece não fazer parte do vocabulário delas. Tampouco se pronunciam sobre as coisas que fazem dentro do quarto. Preferem dizer “programa”, termo genérico que se aproxima mais da relação de mercado entre elas e da oferta de suas “habilidades”. Termo que absolve parte da vergonha da prática sexual mediante pagamento. Mas que não tira o brilho do sacrifício das coisas que conquistaram com o dinheiro. Um jogo de culpa e justificativa. Amanda fala mais uma vez. “Entrei numa condição: trabalhar, cuidar do meu filho e construir a minha casa”.
A acumulação do capital faz gerar os primeiros frutos, que devem ser cuidados com apuro. “Se você não souber usar, você acaba gastando”, lembra Aline. O dinheiro as faz carregarem o desejo de construir. A construção de uma casa. De uma vida. “A vida é cheia de sonhos”.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

minhas matérias...em breve

Durante a faculdade e em alguns locais que eu escrevi, fiz matérias que eu gostei muito e resolvi usar esse meu espaço para colocar esses escritos aqui, minhas matérias...um pouquinho do que eu sou como jornalista, mas, primeiro eu preciso levantar todo o material e escolher o que vou colocar aqui. Em breve...