quinta-feira, 27 de março de 2008

Mais do mesmo....

Para não perder o "fio da meada", eis aqui mais um capítulo da minha novela de linhas. Agora sim... Racionais MC´S

Capão Redondo: Berço da Rhythm and Poetry dos Racionais MC´s

“Universo, Galáxia, Via –Láctea, Sistema Solar, Planeta Terra, Continente Americano, América do Sul, Brasil, SP, São Paulo, Zona Sul, Santo Amaro, Capão Redondo...Bem-vindos ao fundo do mundo”


Esta é a localização do Capão Redondo dada pelo escritor Férrez no prefácio do seu livro Capão Pecado, uma narrativa que, embora não traga personagens reais, reflete com fidelidade o cotidiano do local, um bairro da Zona Sul paulistana onde os Racionais escreveram suas primeiras letras. Ainda como uma dupla, é verdade, mas muitas das letras feitas por Ice Blue e Mano Brown, vizinhos no Capão Redondo, se tornaram os primeiros sucessos dos Racionais MC´s.
Os quatro integrantes dos Racionais são os MC’s Mano Brown (Pedro Paulo Soares Pereira), Edi Rock (Advaldo Pereira Alves), Ice Blue (Paulo Eduardo Salvador) e o Dj KL Jay (Kléber Geraldo Lelis Simões). O nome do grupo faz alusão ao disco Tim Maia Racional (1975), uma das influências do grupo, outras referências são os cantores Cassiano, Hyldon, Wilson Simonal e Jorge Ben, que é homenageado com uma versão de Jorge da Capadócia no quarto disco do grupo, Sobrevivendo no Inferno.
No início dos anos 90, os Racionais lançam seu primeiro trabalho Holocausto Urbano. O álbum era um reflexo de todos os problemas que moradores da periferia sofriam, inclusive os próprios integrantes, uma vez que todos eram oriundos de zonas pobres da cidade de São Paulo. As músicas traziam temas polêmicos como racismo, miséria, corrupção policial, entre outros problemas da periferia paulistana. Não menos importante foi a atitude pioneira do grupo de realizar um trabalho independente, tanto na sua produção como na divulgação, distanciando-se da indústria fonográfica.
Os Racionais fazem parte da geração que encontrou na praça Roosevelt, em São Paulo, o espaço para divulgação de seu trabalho e para o encontro com outros rappers da cidade. Essa experiência na praça foi crucial para a consolidação do rap como veículo de protesto. O segundo trabalho do grupo, o single Escolha seu Caminho, traz na temática a preocupação sócio-racial desenvolvida nos encontros na praça. O single possuía duas músicas Negro Limitado e Voz Ativa. Escolha seu Caminho foi responsável pela popularização dos Racionais entre os jovens da periferia de praticamente todo o país .
Raio-X do Brasil foi o nome escolhido para o terceiro trabalho dos Racionais, o álbum mostra a evolução do grupo, tecnológica e lírica. Na parte sonora, o Dj KL Jay sampleia e mistura sons de Tim Maia, Jorge Ben Jor, Curtis Mayfild e The Meters, entre outros artistas do funk e do soul antigos. Quanto às letras o grupo desprende-se das letras formais dos trabalhos anteriores, quase didáticas e passam a usar a linguagem da periferia com suas gírias, palavrões e idiomatismos, gerando uma maior identificação com o público alvo: os moradores da periferia. As músicas de maior destaque nesse álbum foram Fim-de-semana no Parque, Mano na Porta do Bar e o hino dos negros, pobres, presidiários, e os demais excluídos da sociedade-Homem na Estrada-, que chegou a ser declamada pelo então senador Eduardo Suplicy em um discurso seu, após jovens da classe média de Brasília serem absolvidos do caso do assassinato do índio pataxó.
Em 1997, após um período de pouca repercussão do Rap nos meios de comunicação, os Racionais produzem e divulgam seu quarto trabalho e, talvez o de maior valor para o grupo e para todo o cenário do rap brasileiro. Sobrevivendo no Inferno representou a consolidação do rap nacional, e elevou o gênero à condição de fenômeno nacional, embora, a independência em relação à indústria tenha sido mantida, uma vez que esse álbum inaugura o selo próprio do grupo- Cosa Nostra.. O álbum possui referências divididas entre a religião e a violência, entre a cruz e a pistola. Mano Brown define esse disco em entrevista ao jornalista da Caros Amigos Sérgio Kalili

"Eu quis fazer uma comparação de um cotidiano violento e da religião. Tipo o que você faz para ter mais segurança? A palavra da Bíblia? Como você vai sobreviver?Às vezes eu vejo os Racionais no meio de um inferno, cercado de uma pá de coisas- é tráfico de um lado, polícia que quer ferrar a gente de outro...Então é como um desabafo de como você faz para sobreviver no meio disso tudo aí."

A música de maior repercussão foi Diário de um Detento escrita por Brown e Jocenir, preso que sobreviveu ao massacre do Carandiru. A letra é ambientada na época do massacre e transmiti a visão “dos perdedores”, além de descrever o cotidiano de um presidiário no Complexo Carcerário do Carandiru. O clipe dessa música rendeu o prêmio de “Melhor Clipe do Ano” do VMB, festival de música brasileira realizado pela MTV.
O mais recente álbum dos Racionais, Nada como um dia após o outro dia, apresenta músicas que abordam a nova situação dos integrantes do grupo, agora reconhecidos em todo o país e considerados um dos grupos de maior expressão dentro do movimento hip hop. O posto de “famosos” acarreta vários problemas como a inveja, desconfiança acerca da simplicidade dos integrantes, a ingratidão de algumas pessoas próximas, sedução da indústria cultural, a aproximação de pessoas “interesseiras”, e todas essas preocupações são refletidas nesse trabalho. O CD é duplo e traz na capa uma sugestão do preço pelo qual deve ser vendido, uma atitude que, talvez, queira evitar a exploração do mercado fonográfico e explicitar mais uma vez a distância, tão prezada pelo grupo, do sistema empreendido pela indústria cultural.
A importância dos Racionais no cenário do rap nacional é algo indubitável, a sua trajetória confunde-se com a própria evolução do estilo dentro dos ideais do hip hop. Como explicita o jornalista Bruno Zeni

"Os Racionais se tornaram um fenômeno específico por alcançar enorme popularidade tanto na periferia como na classe média intelectualizada sem abrir mão de um discurso combativo que, não raro, beira o incentivo ao enfrentamento racial e de classe."

Eles representam, assim, a resistência do rap nacional na relação com a indústria cultural, ao mesmo tempo que são um dos grandes responsáveis pela ascensão do estilo em meio ao turbilhão do comércio fonográfico.
A escolha de parte da obra dos Racionais com objeto dessa pesquisa justifica-se, por fim, em todos esses pontos apresentados, desde da repercussão nacional do grupo até a postura assumida por seus integrantes desde o início, que eles procuram manter na sua essência, no entanto, sem negar a responsabilidade e a importância que possuem na cultura hip hop, tanto na vertente artística como na mobilização social. Algo que se reflete em todas as classes sociais

"A música dos Racionais está trazendo algo que o movimento negro nunca conseguiu: a comunicação de massa para massa. Suas músicas e suas roupas são cantadas e usadas por jovens negros pobres da periferia, jovens negros da classe média, jovens mestiços de todas as classes e jovens brancos do jardim."

Notas

FERRÉZ. Capão Pecado. São Paulo: Labortexto Editorial, 2000.p. 14

Embora o grupo Racionais MC’s faça parte da segunda geração, os seus integrantes participaram das primeiras manifestações do Hip Hop nacional na praça Roosevelt e na estação São Bento, de maneira individual e não como um grupo formado.

KALILI,Sérgio. Uma conversa com Mano Brown. Caros Amigos.São Paulo, n.3, set.1998. Edição Especial. p. 18.

ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004

NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90,nov.2001.p.66-83. p.69

Boas novidades

Eu descobri recentemente que esse blog tem mais leitores do que eu imaginava, e eu queria agradecer os meus amigos por isso, pela leitura dedicada às minhas palavras nem sempre boas, nem sempre bem escritas, mas, sempre com as melhores intenções. Eu sei que ultimamaente estou postando coisas que escrevi há um tempo e que é necessário sempre escrever para não "enferrujar", no entanto, eu criei esse blog para poder divulgar coisas que já fiz também, como esse relatório que coloco aqui aos poucos. E assim que essa minha missão terminar, voltarei a colocar minha mente para funcionar e criar novas linhas.

Obrigada...

terça-feira, 25 de março de 2008

Já que estamos falando de Rap

Essa é uma parte de contexto histórico no meu relatório. Mais uma parte desse trabalho - A história do Rap no Brasil.

Contexto Histórico: a origem do rap nacional

Do seu país de origem o rap nacional herdou as características do local onde nasceu, assim como nos EUA, aqui no Brasil o hip hop se desenvolveu no seio de comunidades periféricas localizadas as margens do maior centro urbano do país, as zonas pobres da grande São Paulo. Como já foi citado o primeiro elemento a aportar aqui foi o break disseminado em meados dos anos 70 através passos do grupo de dança Funk & Cia sob o comando do veterano do hip hop Nelson Triunfo, isso quase trinta anos atrás. A música B.boy Original (1982) de sua autoria resume essa gênese do movimento no país

Dança de rua, dance em qualquer lugar,
Mostre a verdade sua,
Mas nunca se esqueça que sua cultura é original de rua!
Saiu do subúrbio pra se projetar,
No centro da cidade chamou a atenção,
Com sua dança mágica como raio
Ele entrou em comunicação para toda a nação.
Foi assim no Brasil, como lá no Bronx
da periferia para ruas.

O centro da cidade, como Triunfo canta, foi o palco do desenvolvimento dos demais elementos do movimento, inclusive o rap. Os primeiros rappers não tinham consciência do papel social que o rap adquiriu e da sua importância para os jovens das periferias norte-americanas. Exemplo disso foi o primeiro registro fonográfico de um rap no país, já em 1980, Melô do Tagarela, que foi gravado comercialmente por um apresentador de televisão, não correspondendo aos objetivos do estilo - ser genuinamente uma cultura de rua-, embora abordasse temas críticos como a situação política e social da época.
Somente alguns anos depois, com a chegada de maiores informações acerca do movimento Hip Hop e de seus ideais, é que se formou uma primeira geração de rappers compromissados com o caráter de cultura de rua que identifica o movimento. Essa geração foi denominada “Velha Escola”, ou os bate-latas. Esses rappers, que bateram lata na Estação São Bento ou participaram das rodas de rap na praça Roosevelt são considerados os pioneiros do rap nacional, a primeira geração de rappers. Anterior às gravações fonográficas do estilo, essa geração representa a máxima do termo “cultura de rua”, pois, foi ali mesmo, nas ruas que o rap angariou centenas de adeptos sem auxilio de grandes gravações. O rapper Thaíde, um dos pioneiros do movimento, fala sobre essa experiência na estação e do termo batedores de lata

Essa história aconteceu que é o seguinte agente tinha uns problemas para usar a energia elétrica lá (São Bento) e eu falei – Olha eu sou Ogun, do candomblé e eu sei fazer percussão aquela parada toda-, então agente começou a fazer um som na lata pra substituir justamente o som eletrônico já que agente não podia usar a eletricidade, mas precisávamos de um som, ai eu comecei a fazer um som nas latas de lixo e deu muito certo. Agente era um monte de adolescente se encontrando para se divertir, agente não tinha idéia do que ta acontecendo hoje. Agente ia com seriedade apesar da diversão, então agente começou a se preocupar com o que estava fazendo, com as letras, começamos a nos aprimorar, os djs também. O hip hop foi tomando conta do país inteiro. Quando agente viu, tinha pessoas fazendo o que agente fazia na São Bento no país inteiro.

Os raps dessa primeira geração buscavam resgatar a cultura negra, eram comuns as letras que falavam de Zumbi dos palmares e outros líderes negros como Malcom X e Martin Luther King. O resgate da cultura possibilitou conscientização dos jovens negros sobre a história de seus ancestrais e a busca por sua identidade. As músicas, no entanto, possuíam um tom mais festivo do que de denúncia.
As primeiras gravações de grupos dessa geração aconteceram 1988 e 89 com o lançamento de três coletâneas Hip Hop Cultura de Rua, Consciência Black vol.1 e vol.2. O período foi caracterizado pelo lançamento de coletâneas, já que se tratava de um novo estilo musical que refletia certa desconfiança por parte das gravadoras, destaque para Consciência Black, porque foi a primeira a colocar em uma das faixas uma música que revelava explicitamente o cotidiano periférico, a música Pânico na Zona Sul de autoria de Mano Brown e Ice Blue, como uma dupla anterior a formação dos Racionais MC´s.
A segunda geração corresponde aos grupos que ingressaram no movimento hip hop no fim dos anos 80 e início dos anos 90. É nessa geração que está o foco da pesquisa: o grupo Racionais MC’s. Como parte da obra deles é o objeto de pesquisa desse projeto a história e trajetória do grupo será apresentada em tópico separado.
A característica principal da nova safra de rappers que surgiram é a maior politização em relação aos veteranos, maiores informações sobre os ideais do movimento foram sendo assimiladas e, também, a partir disso foi se construindo o rap genuinamente brasileiro, afastando-se um pouco dos precursores norte-americanos e incluído influências nacionais nas bases sonoras, como nomes expressivos do soul e black music tupiniquins como Jorge Ben Jor, Tim Maia, Sandra de Sá, Toni Tornado e outros.
Os tons festivos assim cederam lugar as “crônicas” do cotidiano periférico, tendo como um dos temas centrais o resgate da auto-estima do jovem negro, maioria nesses locais. Foi o momento que o hip hop passou a ter uma função social mais forte, se organizar como um movimento, além de cultural, social. Nessa época se estabelece as características do movimento que foram bem definidas nas palavras do antropólogo Luiz Eduardo Soares, autor do livro Cabeça de porco, “o hip hop acena com a paz politizada, que se afirma com agressividade crítica, isto é com o estilo afirmativo do orgulho reconquistado”.

Notas


Entrevista concedida no lançamento do livro biográfico “Pergunte a quem conhece”, realizado no SESC/Bauru no dia 17 de fevereiro de 2005.

ATHAYDE, Celso; MV BILL; SOARES, Luiz Eduardo.Cabeça de Porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 84

quarta-feira, 19 de março de 2008

Sobre o elemento mais visado do Hip Hop - O RAP

Como prometido, vai aqui mais uma parte do meu relatório, uma espécie de justificativa por eu ter escolhido falar sobre o Rap especificamente, dentre todos os elementos do movimento Hip Hop.

Rap: o elemento mais visado do hip hop

O Rap é o elemento de maior difusão do hip hop. Desde de sua origem foi o elemento aglutinador dos demais, foi com a presença do “canto falado” que os demais elementos fundiram-se no movimento hip hop, assim como afirma a pedagoga Eliane Andrade

Na realidade, era comum entre os jovens dos guetos daquela época dançar o break e grafitar (pintar muros e paredes), mas foi a introdução da música Rap que se fundiam os três elementos, fundando o hip hop. A partir dessa junção, tanto o break como o graffite passaram a ter também um sentido, um objetivo, um significado.”

Sendo assim, o rap aparece como uma espécie de hino do hip hop, portanto, como já foi afirmado, o elemento mais visado e o maior responsável pela difusão dos ideais do movimento.
Outras características que facilitam o acesso maior ao rap que os outros elementos é a própria essência da música, ela atinge muito mais pessoas do que a arte visual e a dança. O rap possui a mensagem mais compreensível do hip hop, está ali de forma clara através de palavras e do diálogo entre os MC´s , os ideais do hip hop. Por outro lado os desenhos dos graffites e os passos do break necessitam de um maior conhecimento do contexto do movimento. Não que a consciência dos ideais do hip hop não seja importante na assimilação da mensagem do rap, mas a mensagem através da palavra facilita o entendimento já que o diálogo, a linguagem falada, é o nosso tradicional meio de comunicação. Assim a principal arma do movimento é a disseminação da palavra, no caso exteriorizada por meio da música rap.


Por meio da denúncia dos problemas étnicos e sociais e da apropriação seletiva do passado da população negra, ele (o rap) proporciona uma gama de referências para juventude negra. Tais referências questionam o imaginário social de nossa sociedade.

O rap, assim definido, ganha importância no Brasil por representar a atual música de protesto. Diferente das músicas da década de 60 e 70 que tinham como inimigo definido a Ditadura Militar, o rap procura estancar a realidade da periferia, que era ignorada pela maioria dos governos, da classe média e alta até o momento de transposição dos muros da periferia- quando ocorreu a popularização do rap, do ponto de vista do consumo. Os trechos abaixo abordam esse caráter de protesto do estilo

Os tanques militares não estão mais nas ruas, no lugar deles as viaturas. A censura já não existe mais, mesmo assim a classe oprimida não consegue dizer o que quer. O canto que chegava às ruas pelas brechas dos censores exaltava o dia de amanhã, um "outro dia". Protestava e entrava na história brasileira, o poder da música como expressão popular. Hoje, trinta e cinco anos depois, a imagem da música brasileira de protesto mudou. Vivemos a ditadura da violência, mais mascarada do que podemos imaginar. Discutida e ignorada, um dualismo que marca os grandes centros do país. É nesse cenário que emergem as atuais músicas de protesto e o rap ganha força, conquistando gravadoras e vendendo milhões de discos.
A batida e as letras pesadas que falam do tráfico de drogas, de culturas e de informação, de preconceito racial e social, de pobreza ganham um sentido mais sócio-político,numa espécie de trilha sonora dos tempos mais conflituosos, nos quais a idéia de conciliação social é substituída por um discurso de confronto, afastando-se de certa vertente “cordial” do samba e da MPB .

Outro ponto é o culto ao artista, algo que acontece muito entre os jovens, eles se espelham nos artistas, no seu ídolo. Esse condicionamento é mais propício no rap, pois, os MC´s são parte integrante da sua arte, ela só existe com a sua interpretação. Tanto que não existem regravações ou covers dentro do cenário do rap. Cada rapper tem uma mensagem para passar, mesmo diante das repetições de tema, as abordagens são diferenciadas, as tecnologias depositadas nas mãos dos DJs possibilitam inúmeras bases musicais.
Nos outros elementos, por sua vez, a arte é mais visada que o próprio artista, o desenho do graffite só remete ao seu artista na assinatura, e no break o conjunto de passos se sobressai diante da identificação de quem está dançando. Por isso os rappers serem, comumente, os porta-vozes da cultura hip hop, de certa forma o rap é o espelho dessa cultura.
Justifica-se assim a escolha desse elemento como objeto de estudo. Mais que simples manifestação musical o rap representa uma busca pela identidade dos jovens da periferia, principalmente os negros, a maioria nesses locais

O rap, no contexto específico da periferia, poderia estar contribuindo para o processo de emancipação humana, no sentido marxista, que vai se conformando pela capacidade de adquirir cidadania plena, ou seja, participar socialmente, desenvolvendo as potencialidades de realização humana abertas por essa forma de expressão e apropriando-se dos bens materiais e culturais construídos socialmente pelos homens


Essa foi a forma como os raps ficaram conhecidos em alguns Bailes funk onde eram cantados, isso ocorreu antes da chegada de maiores informações sobre o estilo

Notas

RUBIM, Lindalva. A construção de identidade no Hip Hop e o rap como contra-narrativa, 2000. Disponível em: Intercom . Acesso em: 20 nov.2004.
MC’s: Mestre de Cerimônia é o termo utilizado para denominar os cantores de rap, a sigla que os diferencia do DJ.
ROCHA, Janaína; DOMENICH, Mirella; CASSEANO, Patrícia. Hip Hop- a periferia grita. São Paulo: Fundação Perseu de Abramo, 2001. p.31
GABLIMA, Paula. Direto do Laboratório: os novos rumos da atual música de protesto brasileira, ago.2003. Disponível em: Consciência Net .Acesso em: 14 jul.2005.
BENTES, Ivana; Herschmann, Micael. Espetáculo do Contradiscurso. Folha de São Paulo. São Paulo, 18 ago. 2002. Folha Mais! n. 549, p.11-12.
SILVA, Vinícius Gonçalves Bento da; SOARES, Cássia Baldini.As mensagens sobre droga no rap: como sobreviver na periferia, jul.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em: 5 nov.2004.

domingo, 16 de março de 2008

mais de Hip Hop

Eu comecei pelo South Bronx, mas tem "a floresta de concreto e aço" como tudo começou em São Paulo. Mais uma parte do meu trabalho.

São Paulo, Brasil.

No Brasil, o movimento hip hop aportou primeiro na cidade de São Paulo. Chegou com os passos do break, vistos pela primeira vez nos bailes funk. Aos poucos foram chegando novas informações acerca dessa dança que mistura os passos de outras, a maioria de origem africana, como a capoeira. E descobriu-se, assim, que o break fazia parte de uma realidade muito mais ampla, a da cultura hip hop. Na bagagem da dança vinham, também, o grafitte, o rap e o DJ. Através do intenso fluxo de informações que se criou entre os percussores do movimento e os materiais oriundos do seu local de origem, formou-se um primeiro grupo de jovens interessados nessa manifestação cultural. Jovens que fizeram da Estação São Bento de Metrô e da Praça Roosevelt o local de criação, desenvolvimento e expansão dessa arte, juntamente com seus ideais originais. Aqueles mesmos que em alguns anos seriam praticamente extintos no Estados Unidos, seu país de origem.
Essas informações apresentadas acima nada mais são que, em síntese, um pequeno registro da origem do movimento hip hop nacional, que já foram explicitados no relatório parcial. A importância desse item no relatório final justifica-se pela diferenciação dos rumos que o movimento adquiriu aqui no Brasil que deve ser citada aqui.
No país o movimento procura preservar a sua identidade com os jovens que vivem na periferia, em sua maioria negros, portanto, uma certa identidade maior com essa etnia, abordando assim com maior freqüência os problemas étnico-sociais. Uma preocupação, também, com a mobilização social, com as questões que não poderiam ser só levantadas através dos raps, mas também, discutidas conscientemente por meio da emancipação do indivíduo proporcionada pelo saber adquirido pela cultura. No caso a cultura hip hop.
Com a fundação de posses, organizações não-governamentais e/ou associações culturais o movimento oficializou seu papel social nas periferias e com a possibilidade do aprendizado, das trocas de informações, instituiu o seu quinto, e mais significativo elemento - o conhecimento. Que pode ser definido nas palavras de Marcelo Buraco, ativista do movimento nacional desde seus primórdios, um conhecimento que “significa conhecer as origens e a cultura hip hop além da história da África e dos afro-americanos” .
Assim, a periferia pôde aos poucos mostrar o seu verdadeiro rosto e ocupar um lugar de indivíduo atuante na sua própria história. E o mais vital descobriu a sua voz e pôde mandar a sua mensagem para toda uma sociedade que insistia em não ouvi-la, que ignorava a sua presença. Através dos discursos inflamados dos grupos de rap que surgiram e da atividade artística de outros integrantes do movimento a favela se viu representada. Esses “meninos do rap” assumiram a responsabilidade de porta-vozes dessa maioria urbana. As pessoas que nunca se viram representadas em nenhum meio de comunicação e nem por seu governo, puderam enfim, identifica-se com essa cultura.
Não tem como ignorar a transformação que o hip hop promoveu na periferia, para ilustrar, um exemplo apresentado nas palavras da jornalista Natália Viana

O Capão Redondo, antes conhecido pelas altas taxas de criminalidade de bairro pobre da periferia, ganha fama como berço do rap. Nas vielas estreitas da quebrada dos Racionais, cada barraco é um estúdio, cada campinho cenário para um show .

Essa transformação se expandiu pelas periferias de todo o país, em alguns locais as iniciativas sociais empreendidas pelo movimento chegaram antes mesmo dos elementos culturais, aproximando ainda a mais a cultura da mobilização social.

O movimento hip hop brasileiro está se encontrando de um jeito político mesmo. Não só como movimento cultural, mas também de transformação...Não como uma bacia pra arrumar dinheiro... Hip hop é sofrimento mesmo... É você tocar em feridas.

Uma cultura que cresce em meio ao um local que pouco se dava crédito em termos artísticos, e, ainda, que se desenvolve e se expande alheio aos aparatos da indústria cultural, ou seja, que consegue vender em um mês 200.000 cópias de um grupo de rap sem nenhuma divulgação na mídia. Um fenômeno assim não passou muito tempo ignorado pelas grandes mídias e as outras classes sociais.
Conscientes do aconteceu com o movimento no seu país de origem, o hip hop nacional vive em constante combate, luta para manter-se independente, ao mesmo tempo que o rap, um de seus elementos, é o estilo que mais vende no país. Trava uma batalha diária pela manutenção de seus ideais enquanto empresários e comerciantes do mercado fonográfico fazem de tudo para descobrir a fórmula para tamanha popularização.
Esse cenário conflitante abriu espaço para diversas discussões, acadêmicas ou não, acerca das características peculiares desse movimento, bem como suas reais intenções e seus futuros caminhos, e essa pesquisa pretende dar sua pequena contribuição, através da análise de parte da obra do grupo de maior destaque em todo esse cenário exposto. Nada é definitivo já que essa cultura é algo relativamente novo na história do Brasil, tem apenas 25 anos, mas é inegável a força dessa expressão cultural no país. Um ponto para nós em relação aos precursores norte-americanos: aqui existem muitos “guerreiros” que travam batalhas diárias contra apropriação e pasteurização desse movimento genuinamente da periferia pelos interesses do mercado

Hip hop é arte em sua plenitude. Arte feita por quem está querendo saber quem é, onde está e por que veio parar aqui neste mundo. Porém, como é que alguém que conquistou a sua própria voz vai se calar para que outra pessoa fale em seu nome? .

A resposta para esta questão esta nessa batalha travada todos os dias, mas como ela deve acontecer, quais seriam os caminhos certos para a vitória é um outro questionamento que só esses artistas da periferia, esses “cronistas da favela” podem encontrar a resposta.

Referências

AMARAL, Marina. De volta para o futuro. Caros Amigos.São Paulo, n.24, jun.2005. Edição Especial.p.05
VIANA, Natália. Onde nasce a rima.Caros Amigos. São Paulo, n.24, jun.2005. Edição especial p.20
CAROS AMIGOS. O hip hop é um instrumento de transformação. In: Caros Amigos. São Paulo, n.99, jun.2005.p.32
CAROS AMIGOS. Hip Hop Hoje: o grande salto do movimento que fala pela maioria urbana. São Paulo: CASA AMARELA, n.24,jun.2005. 30 p. Edição Especial. p. 03

segunda-feira, 10 de março de 2008

Começando pelo Hip Hop

Bom vai mais um pouco do meu relatório de IC nessa parte eu falo sobre a história do Hip Hop, primeiro no Bronx depois São Paulo, mas aqui coloquei só a primeira parte. Vamos ao South Bronx...aproveitem a viagem....

O movimento hip hop: Origem no South Bronx e Advento em São Paulo

O rap , objeto dessa pesquisa, faz parte de uma realidade mais ampla que envolve música, dança e arte visual - o movimento hip hop, que teve origem no South Bronx, Nova York, como ações culturais dos jovens negros e latinos, discriminados e localizados à margem da sociedade.
O hip hop, então, surgiu em meio a manifestações de políticas afirmativas desses jovens, minoria sob o ponto de vista de direitos civis no Estados Unidos.

Esse movimento social seria conduzido por uma ideologia (ou pelo menos por certos parâmetros ideológicos) de autovalorização da juventude de ascendência negra, por meio da recusa consciente de certos estigmas (violência, marginalidade) associados a essa juventude imersa em uma situação de exclusão econômica, educacional e racial .

No plano cultural, essas manifestações haviam iniciado com o soul e funk na década de 60. O soul, especialmente, foi fundamental para conscientização dos afro-descendentes e posterior fundamentação do movimento negro norte-americano pelos direitos civis. Dessa forma a “música foi fonte de inspiração, e virou hino de batalha pelos direitos civis” representada por movimentos como o Black Power e Black Panthers, no plano político-social .
Essa peculiar importância que a música possui no cerne dos movimentos negros justifica-se pela musicalidade sempre presente nas culturas africanas, que foram sofrendo adaptações nas Américas, das work songs cantadas pelos escravos ao rap da atualidade, passando pelas já citadas correntes - o soul e o funk.
E foi nesse caldeirão das lutas político-sociais e resistência cultural dos afro-descendentes que o rap e os demais elementos do hip hop surgiram, o rap influenciado, também, por elementos musicais dos estilos anteriores. A necessidade de uma nova corrente cultural desenvolvida pelos negros foi eminente diante da comercialização das anteriores, o soul e funk, que, embora tenham sido cruciais para os movimentos de afirmação dos afro-descendentes, haviam perdido o caráter essencial de resistência, explicitado acima, ao serem absorvidas pela indústria cultural na efervescência da onda disco

No início da década de 70, no entanto, novas práticas culturais já se desenvolviam no Bronx (Nova Iorque), utilizando-se das facilidades da tecnologia dos aparelhos de som. Herdando elementos de quase todas as manifestações afro-americanas anteriores... Surge um elemento musical contestador, contrapondo-se ao êxito comercial da disco: o rap.


As novas práticas citadas, mais tarde, aglutinaram-se na chamada cultura hip hop. O South Bronx foi o cenário do desenvolvimento dos quatro elementos da nova cultura

Com tinta e spray, alguns desenhavam os contornos de seu mundo, reproduzindo imagens que não eram alcançadas ou privilegiadas pelos mass media: o Graffite. Com os próprios corpos, outros construíam e desconstruíam, a partir da dança, a conexão e ruptura com um mundo de alta tecnologia. Os movimentos dos Breakers lembravam os robôs, ou eram a mímica automatizada de procedimentos do cotidiano, sendo a um só tempo crítica e relato: o Break.Com voz e bases sonoras, gestavam uma narrativa influenciada pela memória recente dos grandes líderes afro-americanos assassinados nos anos 60, Malcom X e Martin Luther King, suas lutas pela auto-estima e igualdade: o Rap.

O Dj (disck-jockey), embora não seja citado diretamente no trecho, é considerado o quarto elemento do movimento. Ele é o construtor do fundo musical no qual o rapper “manda” a sua mensagem. Seriam as “bases sonoras” citadas.
Como foi apresentado, o hip hop nasceu como um movimento contestatório, no seio de uma classe marginalizada, social e etnicamente, nos EUA. A cultura que surgia representou o desenvolvimento de diversas correntes anteriores que lutavam pela identidade e pelos direitos dos cidadãos negros norte-americanos.
A popularização do rap, por sua vez, foi responsável pela ascensão de muitos artistas do movimento.Como conseqüência dessa difusão e sucesso da música do hip hop (o rap) nos EUA, atualmente essa cultura originalmente de rua é mais um produto da industria fonográfica, dissolvido no pop mainstream e descartável, com mínimas exceções como o grupo Public Enemy, que inspirou os Racionais e vários grupos brasileiros e a quem é atribuída a politização do rap norte-americano.O que podemos ver na cena rap norte-americana são letras recheadas de machismo, sexismo, festas e bebidas e nos clipes é obrigatório um carro de luxo e muitos cordões de ouro no pescoço, divergindo dos ideais originais dessa cultura.

NOTAS
À titulo de conhecimento rap é a sigla das duas características que constituem o estilo musical- ritmo e poesia ( do inglês rhythm and poetry)
ROCHA, Janaína; DOMENICH, Mirella; CASSEANO, Patrícia. Hip Hop - a periferia grita. São Paulo: Fundação Perseu de Abramo, 2001. p.18
YOSHINAGA, Gilberto Kurita. Resistência, Arte e Política. Registro Histórico do Rap no Brasil. 2001. 134p. Trabalho de Conclusão de Curso - Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Bauru, 2001. p.36
YOSHINAGA, Gilberto Kurita. Resistência, Arte e Política. Registro Histórico do Rap no Brasil. 2001. 134p. Trabalho de Conclusão de Curso - Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Bauru, 2001.p.37
RUBIM, Lindalva. A construção de identidade no Hip Hop e o rap como contra-narrativa 2000. Disponível em: Intercom . Acesso em: 20 nov.2004.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Primeira parte do relatório

Como eu já havia escrito na última postagem, eu vou dividir com as poucas pessoas que acessam meu blog o meu relatório de Iniciação Científica, um trabalho que eu desenvolvi entre os anos de 2004 e 2005. Vou postar aos poucos, começando pelo começo é claro. Eis então a Introdução.

Introdução

O objetivo desse projeto compreende o estudo de três letras do grupo paulistano Racionais MC’s a luz das teorias acerca da análise do discurso. As letras abordam três aspectos distintos que permeiam o trabalho do grupo. As temáticas surgiram de questionamentos levantados em pesquisas anteriores, porém, assumiram os parâmetros diferenciados dessa pesquisa, apresentando sua própria abordagem e resultados.
A escolha do grupo se justifica pela sua importância no cenário musical do rap e pela visibilidade e sucesso alcançados, remetendo o grupo à posição de celebridades, no entanto, estrelas isoladas na arte marginal por escolha própria. Já as temáticas englobam aspectos presentes em toda a obra do grupo, ainda que de formas diversas. Estas são:
• A postura do grupo diante da relação do branco e negro, a visão do racismo no universo recortado pelos Racionais.
• A relação usualmente tensa do grupo com a fama e o dinheiro, e de certa forma com todos os aparatos da indústria cultural.
• A linha tênue que separa o discurso dos Racionais de mensagens proféticas, apontado na presença de ícone religioso e tom messiânico.

Para isso foi proposta análise das letras, uma vez que essas representam a postura do grupo, a forma como lidam com essas questões que surgem constantemente no seu cotidiano. Procurou-se selecionar as letras que apresentassem cada uma das temáticas com centrais, pois, essas de alguma forma, direta ou não, estão presentes na obra como um todo.
No decorrer da pesquisa ficou claro que os questionamentos foram um ponto de partida para procura das temáticas mais abordadas pelos Racionais, mas, a pesquisa segue seu próprio rumo. A proposta aqui é procurar entender, através do estudo dessas letras representativas, alguns posicionamentos do grupo como, também, a construção do seu discurso acerca dessas questões, inúmeras vezes polêmicas.
E por que a escolha desses três aspectos? Isso se justifica na linha da pesquisa, no caminho a percorrer e dos pressupostos dos quais partiram. São justamente esses três elementos inerentes ao discurso dos Racionais que são usados por aqueles que criticam o estilo musical e o grupo. Os avessos ao rap utilizam desses pontos de forma distorcida para tecer sua crítica ao movimento, a questão da valorização do negro, da defesa diante da discriminação de séculos, é defendida como ódio étnico. A postura diante da mídia é estereotipada, como se eles tivessem construído uma imagem de “caras maus” que tivessem que sustentar. E por fim o tom e elementos messiânicos como se o rap fosse algo que almejasse ser uma nova religião profana com um discurso de “venham a mim”. Portanto o objetivo ser, através da análise do discurso presente nessas letras, mostrar o fundamento desse posicionamento.