Eu comecei pelo South Bronx, mas tem "a floresta de concreto e aço" como tudo começou em São Paulo. Mais uma parte do meu trabalho.
São Paulo, Brasil.
No Brasil, o movimento hip hop aportou primeiro na cidade de São Paulo. Chegou com os passos do break, vistos pela primeira vez nos bailes funk. Aos poucos foram chegando novas informações acerca dessa dança que mistura os passos de outras, a maioria de origem africana, como a capoeira. E descobriu-se, assim, que o break fazia parte de uma realidade muito mais ampla, a da cultura hip hop. Na bagagem da dança vinham, também, o grafitte, o rap e o DJ. Através do intenso fluxo de informações que se criou entre os percussores do movimento e os materiais oriundos do seu local de origem, formou-se um primeiro grupo de jovens interessados nessa manifestação cultural. Jovens que fizeram da Estação São Bento de Metrô e da Praça Roosevelt o local de criação, desenvolvimento e expansão dessa arte, juntamente com seus ideais originais. Aqueles mesmos que em alguns anos seriam praticamente extintos no Estados Unidos, seu país de origem.
Essas informações apresentadas acima nada mais são que, em síntese, um pequeno registro da origem do movimento hip hop nacional, que já foram explicitados no relatório parcial. A importância desse item no relatório final justifica-se pela diferenciação dos rumos que o movimento adquiriu aqui no Brasil que deve ser citada aqui.
No país o movimento procura preservar a sua identidade com os jovens que vivem na periferia, em sua maioria negros, portanto, uma certa identidade maior com essa etnia, abordando assim com maior freqüência os problemas étnico-sociais. Uma preocupação, também, com a mobilização social, com as questões que não poderiam ser só levantadas através dos raps, mas também, discutidas conscientemente por meio da emancipação do indivíduo proporcionada pelo saber adquirido pela cultura. No caso a cultura hip hop.
Com a fundação de posses, organizações não-governamentais e/ou associações culturais o movimento oficializou seu papel social nas periferias e com a possibilidade do aprendizado, das trocas de informações, instituiu o seu quinto, e mais significativo elemento - o conhecimento. Que pode ser definido nas palavras de Marcelo Buraco, ativista do movimento nacional desde seus primórdios, um conhecimento que “significa conhecer as origens e a cultura hip hop além da história da África e dos afro-americanos” .
Assim, a periferia pôde aos poucos mostrar o seu verdadeiro rosto e ocupar um lugar de indivíduo atuante na sua própria história. E o mais vital descobriu a sua voz e pôde mandar a sua mensagem para toda uma sociedade que insistia em não ouvi-la, que ignorava a sua presença. Através dos discursos inflamados dos grupos de rap que surgiram e da atividade artística de outros integrantes do movimento a favela se viu representada. Esses “meninos do rap” assumiram a responsabilidade de porta-vozes dessa maioria urbana. As pessoas que nunca se viram representadas em nenhum meio de comunicação e nem por seu governo, puderam enfim, identifica-se com essa cultura.
Não tem como ignorar a transformação que o hip hop promoveu na periferia, para ilustrar, um exemplo apresentado nas palavras da jornalista Natália Viana
O Capão Redondo, antes conhecido pelas altas taxas de criminalidade de bairro pobre da periferia, ganha fama como berço do rap. Nas vielas estreitas da quebrada dos Racionais, cada barraco é um estúdio, cada campinho cenário para um show .
Essa transformação se expandiu pelas periferias de todo o país, em alguns locais as iniciativas sociais empreendidas pelo movimento chegaram antes mesmo dos elementos culturais, aproximando ainda a mais a cultura da mobilização social.
O movimento hip hop brasileiro está se encontrando de um jeito político mesmo. Não só como movimento cultural, mas também de transformação...Não como uma bacia pra arrumar dinheiro... Hip hop é sofrimento mesmo... É você tocar em feridas.
Uma cultura que cresce em meio ao um local que pouco se dava crédito em termos artísticos, e, ainda, que se desenvolve e se expande alheio aos aparatos da indústria cultural, ou seja, que consegue vender em um mês 200.000 cópias de um grupo de rap sem nenhuma divulgação na mídia. Um fenômeno assim não passou muito tempo ignorado pelas grandes mídias e as outras classes sociais.
Conscientes do aconteceu com o movimento no seu país de origem, o hip hop nacional vive em constante combate, luta para manter-se independente, ao mesmo tempo que o rap, um de seus elementos, é o estilo que mais vende no país. Trava uma batalha diária pela manutenção de seus ideais enquanto empresários e comerciantes do mercado fonográfico fazem de tudo para descobrir a fórmula para tamanha popularização.
Esse cenário conflitante abriu espaço para diversas discussões, acadêmicas ou não, acerca das características peculiares desse movimento, bem como suas reais intenções e seus futuros caminhos, e essa pesquisa pretende dar sua pequena contribuição, através da análise de parte da obra do grupo de maior destaque em todo esse cenário exposto. Nada é definitivo já que essa cultura é algo relativamente novo na história do Brasil, tem apenas 25 anos, mas é inegável a força dessa expressão cultural no país. Um ponto para nós em relação aos precursores norte-americanos: aqui existem muitos “guerreiros” que travam batalhas diárias contra apropriação e pasteurização desse movimento genuinamente da periferia pelos interesses do mercado
Hip hop é arte em sua plenitude. Arte feita por quem está querendo saber quem é, onde está e por que veio parar aqui neste mundo. Porém, como é que alguém que conquistou a sua própria voz vai se calar para que outra pessoa fale em seu nome? .
A resposta para esta questão esta nessa batalha travada todos os dias, mas como ela deve acontecer, quais seriam os caminhos certos para a vitória é um outro questionamento que só esses artistas da periferia, esses “cronistas da favela” podem encontrar a resposta.
Referências
AMARAL, Marina. De volta para o futuro. Caros Amigos.São Paulo, n.24, jun.2005. Edição Especial.p.05
VIANA, Natália. Onde nasce a rima.Caros Amigos. São Paulo, n.24, jun.2005. Edição especial p.20
CAROS AMIGOS. O hip hop é um instrumento de transformação. In: Caros Amigos. São Paulo, n.99, jun.2005.p.32
CAROS AMIGOS. Hip Hop Hoje: o grande salto do movimento que fala pela maioria urbana. São Paulo: CASA AMARELA, n.24,jun.2005. 30 p. Edição Especial. p. 03
Eu...algumas palavras que me definem: jornalista, apaixonada, insegura, ansiosa, amiga...um sentimento que me move todos os dias: saudade..saudade imensa de tudo que eu vivi, que eu vivo e que eu vou viver...fiz isso para poder escrever, uma coisa que eu gosto, desde criança...deve ser por isso que escolhi ser jornalista...
domingo, 16 de março de 2008
segunda-feira, 10 de março de 2008
Começando pelo Hip Hop
Bom vai mais um pouco do meu relatório de IC nessa parte eu falo sobre a história do Hip Hop, primeiro no Bronx depois São Paulo, mas aqui coloquei só a primeira parte. Vamos ao South Bronx...aproveitem a viagem....
O movimento hip hop: Origem no South Bronx e Advento em São Paulo
O rap , objeto dessa pesquisa, faz parte de uma realidade mais ampla que envolve música, dança e arte visual - o movimento hip hop, que teve origem no South Bronx, Nova York, como ações culturais dos jovens negros e latinos, discriminados e localizados à margem da sociedade.
O hip hop, então, surgiu em meio a manifestações de políticas afirmativas desses jovens, minoria sob o ponto de vista de direitos civis no Estados Unidos.
Esse movimento social seria conduzido por uma ideologia (ou pelo menos por certos parâmetros ideológicos) de autovalorização da juventude de ascendência negra, por meio da recusa consciente de certos estigmas (violência, marginalidade) associados a essa juventude imersa em uma situação de exclusão econômica, educacional e racial .
No plano cultural, essas manifestações haviam iniciado com o soul e funk na década de 60. O soul, especialmente, foi fundamental para conscientização dos afro-descendentes e posterior fundamentação do movimento negro norte-americano pelos direitos civis. Dessa forma a “música foi fonte de inspiração, e virou hino de batalha pelos direitos civis” representada por movimentos como o Black Power e Black Panthers, no plano político-social .
Essa peculiar importância que a música possui no cerne dos movimentos negros justifica-se pela musicalidade sempre presente nas culturas africanas, que foram sofrendo adaptações nas Américas, das work songs cantadas pelos escravos ao rap da atualidade, passando pelas já citadas correntes - o soul e o funk.
E foi nesse caldeirão das lutas político-sociais e resistência cultural dos afro-descendentes que o rap e os demais elementos do hip hop surgiram, o rap influenciado, também, por elementos musicais dos estilos anteriores. A necessidade de uma nova corrente cultural desenvolvida pelos negros foi eminente diante da comercialização das anteriores, o soul e funk, que, embora tenham sido cruciais para os movimentos de afirmação dos afro-descendentes, haviam perdido o caráter essencial de resistência, explicitado acima, ao serem absorvidas pela indústria cultural na efervescência da onda disco
No início da década de 70, no entanto, novas práticas culturais já se desenvolviam no Bronx (Nova Iorque), utilizando-se das facilidades da tecnologia dos aparelhos de som. Herdando elementos de quase todas as manifestações afro-americanas anteriores... Surge um elemento musical contestador, contrapondo-se ao êxito comercial da disco: o rap.
As novas práticas citadas, mais tarde, aglutinaram-se na chamada cultura hip hop. O South Bronx foi o cenário do desenvolvimento dos quatro elementos da nova cultura
Com tinta e spray, alguns desenhavam os contornos de seu mundo, reproduzindo imagens que não eram alcançadas ou privilegiadas pelos mass media: o Graffite. Com os próprios corpos, outros construíam e desconstruíam, a partir da dança, a conexão e ruptura com um mundo de alta tecnologia. Os movimentos dos Breakers lembravam os robôs, ou eram a mímica automatizada de procedimentos do cotidiano, sendo a um só tempo crítica e relato: o Break.Com voz e bases sonoras, gestavam uma narrativa influenciada pela memória recente dos grandes líderes afro-americanos assassinados nos anos 60, Malcom X e Martin Luther King, suas lutas pela auto-estima e igualdade: o Rap.
O Dj (disck-jockey), embora não seja citado diretamente no trecho, é considerado o quarto elemento do movimento. Ele é o construtor do fundo musical no qual o rapper “manda” a sua mensagem. Seriam as “bases sonoras” citadas.
Como foi apresentado, o hip hop nasceu como um movimento contestatório, no seio de uma classe marginalizada, social e etnicamente, nos EUA. A cultura que surgia representou o desenvolvimento de diversas correntes anteriores que lutavam pela identidade e pelos direitos dos cidadãos negros norte-americanos.
A popularização do rap, por sua vez, foi responsável pela ascensão de muitos artistas do movimento.Como conseqüência dessa difusão e sucesso da música do hip hop (o rap) nos EUA, atualmente essa cultura originalmente de rua é mais um produto da industria fonográfica, dissolvido no pop mainstream e descartável, com mínimas exceções como o grupo Public Enemy, que inspirou os Racionais e vários grupos brasileiros e a quem é atribuída a politização do rap norte-americano.O que podemos ver na cena rap norte-americana são letras recheadas de machismo, sexismo, festas e bebidas e nos clipes é obrigatório um carro de luxo e muitos cordões de ouro no pescoço, divergindo dos ideais originais dessa cultura.
NOTAS
À titulo de conhecimento rap é a sigla das duas características que constituem o estilo musical- ritmo e poesia ( do inglês rhythm and poetry)
ROCHA, Janaína; DOMENICH, Mirella; CASSEANO, Patrícia. Hip Hop - a periferia grita. São Paulo: Fundação Perseu de Abramo, 2001. p.18
YOSHINAGA, Gilberto Kurita. Resistência, Arte e Política. Registro Histórico do Rap no Brasil. 2001. 134p. Trabalho de Conclusão de Curso - Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Bauru, 2001. p.36
YOSHINAGA, Gilberto Kurita. Resistência, Arte e Política. Registro Histórico do Rap no Brasil. 2001. 134p. Trabalho de Conclusão de Curso - Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Bauru, 2001.p.37
RUBIM, Lindalva. A construção de identidade no Hip Hop e o rap como contra-narrativa 2000. Disponível em: Intercom. Acesso em: 20 nov.2004.
O movimento hip hop: Origem no South Bronx e Advento em São Paulo
O rap , objeto dessa pesquisa, faz parte de uma realidade mais ampla que envolve música, dança e arte visual - o movimento hip hop, que teve origem no South Bronx, Nova York, como ações culturais dos jovens negros e latinos, discriminados e localizados à margem da sociedade.
O hip hop, então, surgiu em meio a manifestações de políticas afirmativas desses jovens, minoria sob o ponto de vista de direitos civis no Estados Unidos.
Esse movimento social seria conduzido por uma ideologia (ou pelo menos por certos parâmetros ideológicos) de autovalorização da juventude de ascendência negra, por meio da recusa consciente de certos estigmas (violência, marginalidade) associados a essa juventude imersa em uma situação de exclusão econômica, educacional e racial .
No plano cultural, essas manifestações haviam iniciado com o soul e funk na década de 60. O soul, especialmente, foi fundamental para conscientização dos afro-descendentes e posterior fundamentação do movimento negro norte-americano pelos direitos civis. Dessa forma a “música foi fonte de inspiração, e virou hino de batalha pelos direitos civis” representada por movimentos como o Black Power e Black Panthers, no plano político-social .
Essa peculiar importância que a música possui no cerne dos movimentos negros justifica-se pela musicalidade sempre presente nas culturas africanas, que foram sofrendo adaptações nas Américas, das work songs cantadas pelos escravos ao rap da atualidade, passando pelas já citadas correntes - o soul e o funk.
E foi nesse caldeirão das lutas político-sociais e resistência cultural dos afro-descendentes que o rap e os demais elementos do hip hop surgiram, o rap influenciado, também, por elementos musicais dos estilos anteriores. A necessidade de uma nova corrente cultural desenvolvida pelos negros foi eminente diante da comercialização das anteriores, o soul e funk, que, embora tenham sido cruciais para os movimentos de afirmação dos afro-descendentes, haviam perdido o caráter essencial de resistência, explicitado acima, ao serem absorvidas pela indústria cultural na efervescência da onda disco
No início da década de 70, no entanto, novas práticas culturais já se desenvolviam no Bronx (Nova Iorque), utilizando-se das facilidades da tecnologia dos aparelhos de som. Herdando elementos de quase todas as manifestações afro-americanas anteriores... Surge um elemento musical contestador, contrapondo-se ao êxito comercial da disco: o rap.
As novas práticas citadas, mais tarde, aglutinaram-se na chamada cultura hip hop. O South Bronx foi o cenário do desenvolvimento dos quatro elementos da nova cultura
Com tinta e spray, alguns desenhavam os contornos de seu mundo, reproduzindo imagens que não eram alcançadas ou privilegiadas pelos mass media: o Graffite. Com os próprios corpos, outros construíam e desconstruíam, a partir da dança, a conexão e ruptura com um mundo de alta tecnologia. Os movimentos dos Breakers lembravam os robôs, ou eram a mímica automatizada de procedimentos do cotidiano, sendo a um só tempo crítica e relato: o Break.Com voz e bases sonoras, gestavam uma narrativa influenciada pela memória recente dos grandes líderes afro-americanos assassinados nos anos 60, Malcom X e Martin Luther King, suas lutas pela auto-estima e igualdade: o Rap.
O Dj (disck-jockey), embora não seja citado diretamente no trecho, é considerado o quarto elemento do movimento. Ele é o construtor do fundo musical no qual o rapper “manda” a sua mensagem. Seriam as “bases sonoras” citadas.
Como foi apresentado, o hip hop nasceu como um movimento contestatório, no seio de uma classe marginalizada, social e etnicamente, nos EUA. A cultura que surgia representou o desenvolvimento de diversas correntes anteriores que lutavam pela identidade e pelos direitos dos cidadãos negros norte-americanos.
A popularização do rap, por sua vez, foi responsável pela ascensão de muitos artistas do movimento.Como conseqüência dessa difusão e sucesso da música do hip hop (o rap) nos EUA, atualmente essa cultura originalmente de rua é mais um produto da industria fonográfica, dissolvido no pop mainstream e descartável, com mínimas exceções como o grupo Public Enemy, que inspirou os Racionais e vários grupos brasileiros e a quem é atribuída a politização do rap norte-americano.O que podemos ver na cena rap norte-americana são letras recheadas de machismo, sexismo, festas e bebidas e nos clipes é obrigatório um carro de luxo e muitos cordões de ouro no pescoço, divergindo dos ideais originais dessa cultura.
NOTAS
À titulo de conhecimento rap é a sigla das duas características que constituem o estilo musical- ritmo e poesia ( do inglês rhythm and poetry)
ROCHA, Janaína; DOMENICH, Mirella; CASSEANO, Patrícia. Hip Hop - a periferia grita. São Paulo: Fundação Perseu de Abramo, 2001. p.18
YOSHINAGA, Gilberto Kurita. Resistência, Arte e Política. Registro Histórico do Rap no Brasil. 2001. 134p. Trabalho de Conclusão de Curso - Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Bauru, 2001. p.36
YOSHINAGA, Gilberto Kurita. Resistência, Arte e Política. Registro Histórico do Rap no Brasil. 2001. 134p. Trabalho de Conclusão de Curso - Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Bauru, 2001.p.37
RUBIM, Lindalva. A construção de identidade no Hip Hop e o rap como contra-narrativa 2000. Disponível em: Intercom
quarta-feira, 5 de março de 2008
Primeira parte do relatório
Como eu já havia escrito na última postagem, eu vou dividir com as poucas pessoas que acessam meu blog o meu relatório de Iniciação Científica, um trabalho que eu desenvolvi entre os anos de 2004 e 2005. Vou postar aos poucos, começando pelo começo é claro. Eis então a Introdução.
Introdução
O objetivo desse projeto compreende o estudo de três letras do grupo paulistano Racionais MC’s a luz das teorias acerca da análise do discurso. As letras abordam três aspectos distintos que permeiam o trabalho do grupo. As temáticas surgiram de questionamentos levantados em pesquisas anteriores, porém, assumiram os parâmetros diferenciados dessa pesquisa, apresentando sua própria abordagem e resultados.
A escolha do grupo se justifica pela sua importância no cenário musical do rap e pela visibilidade e sucesso alcançados, remetendo o grupo à posição de celebridades, no entanto, estrelas isoladas na arte marginal por escolha própria. Já as temáticas englobam aspectos presentes em toda a obra do grupo, ainda que de formas diversas. Estas são:
• A postura do grupo diante da relação do branco e negro, a visão do racismo no universo recortado pelos Racionais.
• A relação usualmente tensa do grupo com a fama e o dinheiro, e de certa forma com todos os aparatos da indústria cultural.
• A linha tênue que separa o discurso dos Racionais de mensagens proféticas, apontado na presença de ícone religioso e tom messiânico.
Para isso foi proposta análise das letras, uma vez que essas representam a postura do grupo, a forma como lidam com essas questões que surgem constantemente no seu cotidiano. Procurou-se selecionar as letras que apresentassem cada uma das temáticas com centrais, pois, essas de alguma forma, direta ou não, estão presentes na obra como um todo.
No decorrer da pesquisa ficou claro que os questionamentos foram um ponto de partida para procura das temáticas mais abordadas pelos Racionais, mas, a pesquisa segue seu próprio rumo. A proposta aqui é procurar entender, através do estudo dessas letras representativas, alguns posicionamentos do grupo como, também, a construção do seu discurso acerca dessas questões, inúmeras vezes polêmicas.
E por que a escolha desses três aspectos? Isso se justifica na linha da pesquisa, no caminho a percorrer e dos pressupostos dos quais partiram. São justamente esses três elementos inerentes ao discurso dos Racionais que são usados por aqueles que criticam o estilo musical e o grupo. Os avessos ao rap utilizam desses pontos de forma distorcida para tecer sua crítica ao movimento, a questão da valorização do negro, da defesa diante da discriminação de séculos, é defendida como ódio étnico. A postura diante da mídia é estereotipada, como se eles tivessem construído uma imagem de “caras maus” que tivessem que sustentar. E por fim o tom e elementos messiânicos como se o rap fosse algo que almejasse ser uma nova religião profana com um discurso de “venham a mim”. Portanto o objetivo ser, através da análise do discurso presente nessas letras, mostrar o fundamento desse posicionamento.
Introdução
O objetivo desse projeto compreende o estudo de três letras do grupo paulistano Racionais MC’s a luz das teorias acerca da análise do discurso. As letras abordam três aspectos distintos que permeiam o trabalho do grupo. As temáticas surgiram de questionamentos levantados em pesquisas anteriores, porém, assumiram os parâmetros diferenciados dessa pesquisa, apresentando sua própria abordagem e resultados.
A escolha do grupo se justifica pela sua importância no cenário musical do rap e pela visibilidade e sucesso alcançados, remetendo o grupo à posição de celebridades, no entanto, estrelas isoladas na arte marginal por escolha própria. Já as temáticas englobam aspectos presentes em toda a obra do grupo, ainda que de formas diversas. Estas são:
• A postura do grupo diante da relação do branco e negro, a visão do racismo no universo recortado pelos Racionais.
• A relação usualmente tensa do grupo com a fama e o dinheiro, e de certa forma com todos os aparatos da indústria cultural.
• A linha tênue que separa o discurso dos Racionais de mensagens proféticas, apontado na presença de ícone religioso e tom messiânico.
Para isso foi proposta análise das letras, uma vez que essas representam a postura do grupo, a forma como lidam com essas questões que surgem constantemente no seu cotidiano. Procurou-se selecionar as letras que apresentassem cada uma das temáticas com centrais, pois, essas de alguma forma, direta ou não, estão presentes na obra como um todo.
No decorrer da pesquisa ficou claro que os questionamentos foram um ponto de partida para procura das temáticas mais abordadas pelos Racionais, mas, a pesquisa segue seu próprio rumo. A proposta aqui é procurar entender, através do estudo dessas letras representativas, alguns posicionamentos do grupo como, também, a construção do seu discurso acerca dessas questões, inúmeras vezes polêmicas.
E por que a escolha desses três aspectos? Isso se justifica na linha da pesquisa, no caminho a percorrer e dos pressupostos dos quais partiram. São justamente esses três elementos inerentes ao discurso dos Racionais que são usados por aqueles que criticam o estilo musical e o grupo. Os avessos ao rap utilizam desses pontos de forma distorcida para tecer sua crítica ao movimento, a questão da valorização do negro, da defesa diante da discriminação de séculos, é defendida como ódio étnico. A postura diante da mídia é estereotipada, como se eles tivessem construído uma imagem de “caras maus” que tivessem que sustentar. E por fim o tom e elementos messiânicos como se o rap fosse algo que almejasse ser uma nova religião profana com um discurso de “venham a mim”. Portanto o objetivo ser, através da análise do discurso presente nessas letras, mostrar o fundamento desse posicionamento.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Um dos meus trabalhos que mais amo
Durante a faculdade eu fiz trabalho sobre os Racionais MC´S, um grupo de rap que eu admiro muito, especialmente, a pessoa do Mano Brow, até já escrevi sobre ele aqui, quando foi um dos convidados para o programa Roda Viva. E esse trabalho foi muito importante para mim, por ter sido uma iniciação científica e por tudo que eu aprendi com ele. Bom ele é muito grande mesmo, tem 80 páginas, porém, eu vou tentar ir postando um pouco de cada vez aqui, porque quero que outras pessoas vejam esse trabalho. Gostando ou não, ele foi um das primeiras coisas que fiz sobre o Rap, sobre o movimento Hip Hop, não sei se o resultado hoje é tão bom como foi na época, mas valeu a pena. No próximo post eu coloco a introdução do trabalho. Até breve.
ÉTICA
Um assunto em voga sempre, ainda mais quando sofremos com a falta dela. O que acontece quase todos os dias, vemos em todo o canto o resultado das ações de pessoas que, simplesmente, não tem ética, ou possuem uma que não condiz com a sociedade que queremos viver e sim com a que vivemos hoje, infelizmente. Eu achei dois texto que fiz sobre o assunto e resolvi postar aqui.
O primeiro foi um trabalho que fiz para uma disciplina que, coincidentemente se chamava ética. O outro foi uma matéria que eu fiz para o jornal mural da faculdade, o EXTRA! fala sobre a ética na minha profissão, o jornalismo. É bem curtinha a matéria, mas, tem algumas coisas legais.
Uma ética pessoal
Na busca pela definição de uma ética pessoal, acredito que seja importante contextualizar algumas concepções do que seria a ética, que de certa forma, contribuíram para a nossa noção atual do que é uma conduta ética. A preocupação com essa temática data do início do que ficou conhecida como “filosofia moral”. Essa vertente nasceu das indagações socráticas acerca do por que dos valores e costumes cultivados pelos atenienses, a partir de suas perguntas e das respostas que lhe eram dadas, Sócrates chegou à conclusão que a conduta dos atenienses era um produto dos costumes da sociedade em que viviam, portanto, o “ser ético” possui uma variante que é o tempo e o ambiente social no qual o sujeito vive.
Da inauguração de Sócrates, passamos para outro filosofo grego. Aristóteles acrescentou a filosofia moral os termos saber teórico e saber prático e suas diferenciações. O saber teórico é conhecimento que obtemos a partir dos fatos naturais, que ocorrem independente da ação humana, enquanto que o saber prático depende da atividade humana. E da prática ele defini suas duas divisões: práxis e a técnica. Da práxis vem a noção da ética colocada por Aristóteles, considerando a práxis como a ação que é inseparável de sua finalidade e seu agente, ela é ética quando “somos aquilo que fazemos e o que fazemos é finalidade boa ou virtuosa” .
Assim, a virtude aparece como equilíbrio entre a falta e o excesso de um sentimento, a ação do homem de controlar seus instintos naturais que, para os gregos, se dá através da educação. O aprendizado do domínio racional das paixões, direcionando a vontade para o bem, que deve ser coletivo, ou seja, o homem só pode ser ético em sociedade. Por isso nesse contexto as discussões éticas ocupavam a esfera pública, o que determina a ética inseparável da política.
Avançando alguns anos, séculos na verdade, temos a ética transcendental kantiana. Kant apresenta elementos do racionalismo grego e da ética do dever instituída pelo cristianismo. A diferença entre o dever kantiano e o cristão está na definição de liberdade. O dever cristão se relaciona com a obediência a um ser divino, Deus, portanto nos tornaríamos morais por uma força externa, o que restringe o caráter de sujeito autônomo imposto pela ética. Kant, por sua vez, apresenta o dever como algo que é “proposto pela razão a nossa vontade livre” e, não, imposto por vontades divinas. A obediência nesse caso é a si mesmo.
Quanto a essa razão, Kant a divide em pratica e teórica. No mesmo sentido grego, a teórica seria a razão do mundo natural, onde as ações são guiadas pela necessidade (causa e efeito), e a razão prática se encontra no campo da ação humana, onde a conduta é guiada pela razão tendo em vista um fim, uma finalidade. A ética de Kant se encontra nesse campo, quando as ações visam fins éticos e para alcançar esse fim os meios devem ser igualmente éticos. Para isso nossa razão prática determina regras para ação ética, isso é o que se chamou de dever. Mas não é a simples ação conforme o dever que nos torna seres éticos e, sim, o querer, a vontade, em realizar esse dever.
Ainda de acordo com Kant o dever é um “imperativo categórico”, ou seja, não se trata de uma listagem de coisas que devem ou não ser feita, mas, uma forma de agir que sirva de modelo para os outros. Não importa o que exatamente se está fazendo e sim que isso possa se tornar uma lei universal a ser seguida, para isso os sujeitos devem ser sempre o fim e nunca um meio. Enfim, de acordo com a razão está no indivíduo, portanto é uma ética sob o ponto de vista do sujeito.
Mais recente é “ética do discurso” apresentada por Habermas. Com base em Kant, Habermas utiliza, ao discutir a ética, o termo da razão prática, como a capacidade humana de raciocínio voltado para “o agir”. Essa capacidade pode se dar de três maneiras: o uso pragmático, o uso ético e o uso moral da razão prática, utilização determinada pela motivação da prática.
O uso pragmático é a ação orientada apenas por sua finalidade, sem muita preocupação com a forma de alcançar esse fim, na verdade, é o uso que sustenta o nosso sistema social atual, a ação motivada pelo seu resultado, o que Habermas classificou como a colonização do mundo da vida. O uso ético tem como finalidade o que é bom do ponto de vista individual, ao ponto que são as escolhas e atitudes coerentes com o projeto de vida de um sujeito, e coletivo, porque essas escolhas são feitas com base em valores e modelos oriundos de um determinado contexto social. A definição da vida boa, busca do indivíduo, é dada pelo grupo social ao qual pertence. Um uso ético baseado nas tradições.
E, por fim, o uso moral da razão prática, que determina o que é moralmente certo, que é não impulsionado pelo resultado de ações e nem pela busca do bom. É norteado apenas pelo conflito da justiça. Quando nos perguntamos o que é justo estamos fazendo o uso do princípio moral. Compreendendo os princípios morais como um conjunto de regras essenciais para convivência coletiva, Habermas propõe uma moral que deve ser universalista, cognitivista e formalista. Universal no ponto de vista que as regras são legitimadas através do diálogo entre os sujeitos envolvidos em sociedade, por meio do “agir comunicativo” buscar valores que sejam comuns e aceitos por todos sem coação. Cognitivista porque só se define as normas morais através da razão e do conhecimento. E formalista, à medida que a importância da ação moral não se dá por seu conteúdo e sim a motivação da atitude do sujeito, que pode se modificar ao longo da história.
Por essas características, para Habermas “as ações morais são aquelas que conseguem desprender-se do mundo ético tradicional e buscam guiar-se por princípios descobertos a partir da reflexão e do questionamento” . O processo que Habermas definiu como a descolonização do mundo da vida.
Diante dessa breve contextualização de concepções éticas, fica claro que a nossa ética pessoal resulta desses conceitos, porque, de certa forma eles refletem aspectos sociais que mesmo de épocas diferentes derivaram aspectos em nossa sociedade atual. Assim sendo, acredito que procuro agir conforme o que Habermas definiu como ações morais.
O uso moral da razão prática é o único que encontra alicerces reais no contexto em que vivemos, porque diante das diversidades de culturas, costumes e situações que vivenciamos em nossa sociedade globalizada, o que é justo só pode ser possível através do diálogo entre essas diferenças.
Notas:
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.p.312
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.p. 317
GUZZELLI, Iara. A especificidade do ato moral em Habermas. O uso moral da razão prática. Disponível em: < http://www.sedes.org.br/Centros/habermas.htm> acesso em: 3.out.2006
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É a universidade que nega a lei mercado? Ou seria o contrário?
No momento da discussão da ética jornalística existe um embate entre o ideal apresentado na teoria, aquele que os estudantes de jornalismo constroem na universidade, e o que se apresenta na prática, no cotidiano das redações. Nesse sentido a universidade que nega a realidade do mercado ou esse que, mergulhado na corrida pelo furo jornalístico, ignora a base teórica e a reflexão? Segundo o professor de ética da Universidade do Sagrado Coração Luís Henrique, o jornalista imerso no mercado de trabalho não realiza o ato de reflexão sobre a ética e sua prática. Nesse sentido Luis Henrique acredita que o mercado tem que se voltar mais para o caráter de conflito de idéias presente na universidade “jornalistas não gostam de discutir o próprio trabalho, falta no seu cotidiano a prática de refletir”.
Já o jornalista Nelson Gonçalves acredita que a universidade erra ao não discutir a realidade do mercado de trabalho. “A universidade pública enquanto formadora de conteúdo cultural e filosófico é importante, mas na área de comunicação ela nega o mercado e não dá para ser laboratório a vida inteira” afirmou o jornalista. Dessa forma a universidade pecaria por teorizar e idealizar demais e o mercado por priorizar prática sem reflexão.
Porém, mais importante que o balanço entre teoria e prática é a reflexão até que ponto os interesses pessoais, políticos e econômicos influem no direito à informação. Assim a questão ética passa pelas escolhas de enfoque, as linhas editorias. Essa discussão é feita na universidade, mas assim como levanta Nelson Gonçalves “ela parte do pressuposto de que o mercado está errado”, por outro lado o mercado diante da velocidade das informações insiste que “na prática a teoria é outra, tem que ser feito do jeito que dá” como ressaltou o professor Luis Henrique. Diante do eterno embate a conduta ética acaba por ser um encargo de cada jornalista ao elaborar o seu texto, na escolha do melhor caminho entre a lei do mercado, da qual depende economicamente, e sua responsabilidade social como um formador de opinião.
O primeiro foi um trabalho que fiz para uma disciplina que, coincidentemente se chamava ética. O outro foi uma matéria que eu fiz para o jornal mural da faculdade, o EXTRA! fala sobre a ética na minha profissão, o jornalismo. É bem curtinha a matéria, mas, tem algumas coisas legais.
Uma ética pessoal
Na busca pela definição de uma ética pessoal, acredito que seja importante contextualizar algumas concepções do que seria a ética, que de certa forma, contribuíram para a nossa noção atual do que é uma conduta ética. A preocupação com essa temática data do início do que ficou conhecida como “filosofia moral”. Essa vertente nasceu das indagações socráticas acerca do por que dos valores e costumes cultivados pelos atenienses, a partir de suas perguntas e das respostas que lhe eram dadas, Sócrates chegou à conclusão que a conduta dos atenienses era um produto dos costumes da sociedade em que viviam, portanto, o “ser ético” possui uma variante que é o tempo e o ambiente social no qual o sujeito vive.
Da inauguração de Sócrates, passamos para outro filosofo grego. Aristóteles acrescentou a filosofia moral os termos saber teórico e saber prático e suas diferenciações. O saber teórico é conhecimento que obtemos a partir dos fatos naturais, que ocorrem independente da ação humana, enquanto que o saber prático depende da atividade humana. E da prática ele defini suas duas divisões: práxis e a técnica. Da práxis vem a noção da ética colocada por Aristóteles, considerando a práxis como a ação que é inseparável de sua finalidade e seu agente, ela é ética quando “somos aquilo que fazemos e o que fazemos é finalidade boa ou virtuosa” .
Assim, a virtude aparece como equilíbrio entre a falta e o excesso de um sentimento, a ação do homem de controlar seus instintos naturais que, para os gregos, se dá através da educação. O aprendizado do domínio racional das paixões, direcionando a vontade para o bem, que deve ser coletivo, ou seja, o homem só pode ser ético em sociedade. Por isso nesse contexto as discussões éticas ocupavam a esfera pública, o que determina a ética inseparável da política.
Avançando alguns anos, séculos na verdade, temos a ética transcendental kantiana. Kant apresenta elementos do racionalismo grego e da ética do dever instituída pelo cristianismo. A diferença entre o dever kantiano e o cristão está na definição de liberdade. O dever cristão se relaciona com a obediência a um ser divino, Deus, portanto nos tornaríamos morais por uma força externa, o que restringe o caráter de sujeito autônomo imposto pela ética. Kant, por sua vez, apresenta o dever como algo que é “proposto pela razão a nossa vontade livre” e, não, imposto por vontades divinas. A obediência nesse caso é a si mesmo.
Quanto a essa razão, Kant a divide em pratica e teórica. No mesmo sentido grego, a teórica seria a razão do mundo natural, onde as ações são guiadas pela necessidade (causa e efeito), e a razão prática se encontra no campo da ação humana, onde a conduta é guiada pela razão tendo em vista um fim, uma finalidade. A ética de Kant se encontra nesse campo, quando as ações visam fins éticos e para alcançar esse fim os meios devem ser igualmente éticos. Para isso nossa razão prática determina regras para ação ética, isso é o que se chamou de dever. Mas não é a simples ação conforme o dever que nos torna seres éticos e, sim, o querer, a vontade, em realizar esse dever.
Ainda de acordo com Kant o dever é um “imperativo categórico”, ou seja, não se trata de uma listagem de coisas que devem ou não ser feita, mas, uma forma de agir que sirva de modelo para os outros. Não importa o que exatamente se está fazendo e sim que isso possa se tornar uma lei universal a ser seguida, para isso os sujeitos devem ser sempre o fim e nunca um meio. Enfim, de acordo com a razão está no indivíduo, portanto é uma ética sob o ponto de vista do sujeito.
Mais recente é “ética do discurso” apresentada por Habermas. Com base em Kant, Habermas utiliza, ao discutir a ética, o termo da razão prática, como a capacidade humana de raciocínio voltado para “o agir”. Essa capacidade pode se dar de três maneiras: o uso pragmático, o uso ético e o uso moral da razão prática, utilização determinada pela motivação da prática.
O uso pragmático é a ação orientada apenas por sua finalidade, sem muita preocupação com a forma de alcançar esse fim, na verdade, é o uso que sustenta o nosso sistema social atual, a ação motivada pelo seu resultado, o que Habermas classificou como a colonização do mundo da vida. O uso ético tem como finalidade o que é bom do ponto de vista individual, ao ponto que são as escolhas e atitudes coerentes com o projeto de vida de um sujeito, e coletivo, porque essas escolhas são feitas com base em valores e modelos oriundos de um determinado contexto social. A definição da vida boa, busca do indivíduo, é dada pelo grupo social ao qual pertence. Um uso ético baseado nas tradições.
E, por fim, o uso moral da razão prática, que determina o que é moralmente certo, que é não impulsionado pelo resultado de ações e nem pela busca do bom. É norteado apenas pelo conflito da justiça. Quando nos perguntamos o que é justo estamos fazendo o uso do princípio moral. Compreendendo os princípios morais como um conjunto de regras essenciais para convivência coletiva, Habermas propõe uma moral que deve ser universalista, cognitivista e formalista. Universal no ponto de vista que as regras são legitimadas através do diálogo entre os sujeitos envolvidos em sociedade, por meio do “agir comunicativo” buscar valores que sejam comuns e aceitos por todos sem coação. Cognitivista porque só se define as normas morais através da razão e do conhecimento. E formalista, à medida que a importância da ação moral não se dá por seu conteúdo e sim a motivação da atitude do sujeito, que pode se modificar ao longo da história.
Por essas características, para Habermas “as ações morais são aquelas que conseguem desprender-se do mundo ético tradicional e buscam guiar-se por princípios descobertos a partir da reflexão e do questionamento” . O processo que Habermas definiu como a descolonização do mundo da vida.
Diante dessa breve contextualização de concepções éticas, fica claro que a nossa ética pessoal resulta desses conceitos, porque, de certa forma eles refletem aspectos sociais que mesmo de épocas diferentes derivaram aspectos em nossa sociedade atual. Assim sendo, acredito que procuro agir conforme o que Habermas definiu como ações morais.
O uso moral da razão prática é o único que encontra alicerces reais no contexto em que vivemos, porque diante das diversidades de culturas, costumes e situações que vivenciamos em nossa sociedade globalizada, o que é justo só pode ser possível através do diálogo entre essas diferenças.
Notas:
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.p.312
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.p. 317
GUZZELLI, Iara. A especificidade do ato moral em Habermas. O uso moral da razão prática. Disponível em: < http://www.sedes.org.br/Centros/habermas.htm> acesso em: 3.out.2006
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É a universidade que nega a lei mercado? Ou seria o contrário?
No momento da discussão da ética jornalística existe um embate entre o ideal apresentado na teoria, aquele que os estudantes de jornalismo constroem na universidade, e o que se apresenta na prática, no cotidiano das redações. Nesse sentido a universidade que nega a realidade do mercado ou esse que, mergulhado na corrida pelo furo jornalístico, ignora a base teórica e a reflexão? Segundo o professor de ética da Universidade do Sagrado Coração Luís Henrique, o jornalista imerso no mercado de trabalho não realiza o ato de reflexão sobre a ética e sua prática. Nesse sentido Luis Henrique acredita que o mercado tem que se voltar mais para o caráter de conflito de idéias presente na universidade “jornalistas não gostam de discutir o próprio trabalho, falta no seu cotidiano a prática de refletir”.
Já o jornalista Nelson Gonçalves acredita que a universidade erra ao não discutir a realidade do mercado de trabalho. “A universidade pública enquanto formadora de conteúdo cultural e filosófico é importante, mas na área de comunicação ela nega o mercado e não dá para ser laboratório a vida inteira” afirmou o jornalista. Dessa forma a universidade pecaria por teorizar e idealizar demais e o mercado por priorizar prática sem reflexão.
Porém, mais importante que o balanço entre teoria e prática é a reflexão até que ponto os interesses pessoais, políticos e econômicos influem no direito à informação. Assim a questão ética passa pelas escolhas de enfoque, as linhas editorias. Essa discussão é feita na universidade, mas assim como levanta Nelson Gonçalves “ela parte do pressuposto de que o mercado está errado”, por outro lado o mercado diante da velocidade das informações insiste que “na prática a teoria é outra, tem que ser feito do jeito que dá” como ressaltou o professor Luis Henrique. Diante do eterno embate a conduta ética acaba por ser um encargo de cada jornalista ao elaborar o seu texto, na escolha do melhor caminho entre a lei do mercado, da qual depende economicamente, e sua responsabilidade social como um formador de opinião.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Qual democracia?
No dia 19 de fevereiro, Fidel Castro anunciou que deixaria o seu posto de presidente de Cuba, do qual estava afastado fazia dois anos por problemas de Saúde. Depois de quase 50 anos de Fidel no comando do país, pôde-se falar, escrever, etc, sobre uma possível abertura. No horizonte poderia se ver a saída que tanto pregam: a tão sonhada "liberdade". Mas, uma coisa me intriga... que liberdade é essa?
Liberdade para comer lanches do MC Donald´s?
Liberdade para ser bombardiado por filmes e músicas da terrinha hollywoodiana, que nos enfiam goela a baixo a superioridade norte-americana?
Liberdade para escolher entre um pratileira de 500 mil produtos fúteis, qual é o mais imprescindível para a sua vida só porque uma propaganda de televisão lhe disse isso?
Liberdade para viver refém dos altos e baixos do dólar americano?
Espero que essa aplaudida liberdade não influencie na liberdade que os cubanos já conseguiram, liberdade do acesso a educação e aos cuidados de uma das melhores medicinas do mundo.
Todo mundo sabe que não ideal viver sobre uma ditadura, não estou exaltando isso de maneira alguma, porém, seria ideal essa nossa "democracia", que permite que crianças fiquem na rua ao invés da escola, que filas e filas se formem nos postos de saúde precários e que grandes homens de terno gravata fiquem com o dinheiro que era destinado a terminar com essas filas e melhorar o ensino?
Liberdade para comer lanches do MC Donald´s?
Liberdade para ser bombardiado por filmes e músicas da terrinha hollywoodiana, que nos enfiam goela a baixo a superioridade norte-americana?
Liberdade para escolher entre um pratileira de 500 mil produtos fúteis, qual é o mais imprescindível para a sua vida só porque uma propaganda de televisão lhe disse isso?
Liberdade para viver refém dos altos e baixos do dólar americano?
Espero que essa aplaudida liberdade não influencie na liberdade que os cubanos já conseguiram, liberdade do acesso a educação e aos cuidados de uma das melhores medicinas do mundo.
Todo mundo sabe que não ideal viver sobre uma ditadura, não estou exaltando isso de maneira alguma, porém, seria ideal essa nossa "democracia", que permite que crianças fiquem na rua ao invés da escola, que filas e filas se formem nos postos de saúde precários e que grandes homens de terno gravata fiquem com o dinheiro que era destinado a terminar com essas filas e melhorar o ensino?
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
um texto que escrevi há um tempo
Eu escrevi este texto na época que aconteceram os ataques do PCC em São Paulo. Eu sei que ele é um pouco polêmico, teve gente que teve problemas ao revelar que pensa assim como eu, porém, eu o escrevi em um momento que estava realmente revoltada com o que estava acontecendo. E no fundo todo mundo sabe que é assim que acontece mesmo, só o mais hipócritas não assumem. E isso eu não quero ser. Aprendir a escrever assim lendo os textos de uma jornalista que é um exemplo para mim, de coragem, de inteligência, de sensibilidade, para mim ela é a melhor jornalista que se tem hoje no Brasil...Marilene Felinto.
Os filhos da Classe Média
Eu já pensava isso quando ouvi os primeiros números de mortos na represália aos ataques do PCC em São Paulo. Os pobres meninos filhos das favelas e periferias da “grande floresta de concreto e aço” sempre pagam pelos abusos policiais diante das ondas de terror e pânico que vira e mexe assolam São Paulo.
Hoje eu estava lendo o artigo do Ferréz na Caros Amigos desse mês e, mais uma vez, comprovei o que pensava. Os meninos da periferia pagaram com suas vidas, mais uma vez, o pânico das senhoras da classe média afoitas por um índice satisfatório da ação policial. Em tempo, índice esse medido pelo número de “suspeitos” das facções criminosas que são mortos. Mortos em pseudo-confrontos em que, incrivelmente, nossos bons policiais acertam cinco tiros em cada um, a maioria na cabeça, na parte de trás ou no meio da testa. Fico pensando que pontaria nossos policiais têm, poderiam ser o idealizadores da guerra cirúrgica tamanha precisão que atiram em meio ao um “fogo cruzado”.
O mais espetacular é que, além da pontaria excepcional, eles são inatingíveis, pois, num confronto a baixa de policiais é quase sempre (para não dizer sempre) zero.
Volto a pensar nas senhoras eufóricas da classe média, se passa pela cabeça delas que esses meninos poderiam ser seus filhos. Acredito que não, são a classe média do Brasil. Se julgam inatingíveis, assim como o esquadrão da morte da polícia, inclusive, da parcela de culpa que tem em todos esses acontecimentos.
Ferréz fala de dois jovens, entregadores de pizza, que foram assassinados. É, realmente, os filhos da classe média não são entregadores de pizza. Eles são donos, ou filhos dos donos, dessas pizzarias. Ou, no mínimo, tem a possibilidade de saboreá-la.
Não estou aqui para justificar os acontecimentos desencadeados pelo PCC com meus pensamentos, longe disso. Mas, mais longe ainda é acreditar que a guerra foi controlada, que os inocentes (da periferia ou não) não vão mais morrer, que a polícia está preparada para enfrentar esses acontecimentos, que o Estado vá fazer algo a respeito de disso. Ainda mais longe está a possibilidade da classe média não tapar os olhos novamente, se esconder nos seus muros blindados, não sair às ruas pedindo aumento das penas e redução da maioridade penal. Quando na verdade deviam enxergar que nossas cadeias não passam de um deposito de gente. Mano Brown já falou, “frustração, máquina de fazer vilão”.
Se nada justifica a violência, a cegueira da nossa sociedade está aí para, ao menos, explicar porque ela existe. Vamos continuar colocando a sujeira debaixo do tapete, passando concreto em baixo das pontes, expulsando os mendigos, deixando a cidade “mais bonita”, empurrando as pessoas para as periferias, o outro lado da ponte, a construir grades...É Marilene uma guerra seria muito pouco mesmo...
Os filhos da Classe Média
Eu já pensava isso quando ouvi os primeiros números de mortos na represália aos ataques do PCC em São Paulo. Os pobres meninos filhos das favelas e periferias da “grande floresta de concreto e aço” sempre pagam pelos abusos policiais diante das ondas de terror e pânico que vira e mexe assolam São Paulo.
Hoje eu estava lendo o artigo do Ferréz na Caros Amigos desse mês e, mais uma vez, comprovei o que pensava. Os meninos da periferia pagaram com suas vidas, mais uma vez, o pânico das senhoras da classe média afoitas por um índice satisfatório da ação policial. Em tempo, índice esse medido pelo número de “suspeitos” das facções criminosas que são mortos. Mortos em pseudo-confrontos em que, incrivelmente, nossos bons policiais acertam cinco tiros em cada um, a maioria na cabeça, na parte de trás ou no meio da testa. Fico pensando que pontaria nossos policiais têm, poderiam ser o idealizadores da guerra cirúrgica tamanha precisão que atiram em meio ao um “fogo cruzado”.
O mais espetacular é que, além da pontaria excepcional, eles são inatingíveis, pois, num confronto a baixa de policiais é quase sempre (para não dizer sempre) zero.
Volto a pensar nas senhoras eufóricas da classe média, se passa pela cabeça delas que esses meninos poderiam ser seus filhos. Acredito que não, são a classe média do Brasil. Se julgam inatingíveis, assim como o esquadrão da morte da polícia, inclusive, da parcela de culpa que tem em todos esses acontecimentos.
Ferréz fala de dois jovens, entregadores de pizza, que foram assassinados. É, realmente, os filhos da classe média não são entregadores de pizza. Eles são donos, ou filhos dos donos, dessas pizzarias. Ou, no mínimo, tem a possibilidade de saboreá-la.
Não estou aqui para justificar os acontecimentos desencadeados pelo PCC com meus pensamentos, longe disso. Mas, mais longe ainda é acreditar que a guerra foi controlada, que os inocentes (da periferia ou não) não vão mais morrer, que a polícia está preparada para enfrentar esses acontecimentos, que o Estado vá fazer algo a respeito de disso. Ainda mais longe está a possibilidade da classe média não tapar os olhos novamente, se esconder nos seus muros blindados, não sair às ruas pedindo aumento das penas e redução da maioridade penal. Quando na verdade deviam enxergar que nossas cadeias não passam de um deposito de gente. Mano Brown já falou, “frustração, máquina de fazer vilão”.
Se nada justifica a violência, a cegueira da nossa sociedade está aí para, ao menos, explicar porque ela existe. Vamos continuar colocando a sujeira debaixo do tapete, passando concreto em baixo das pontes, expulsando os mendigos, deixando a cidade “mais bonita”, empurrando as pessoas para as periferias, o outro lado da ponte, a construir grades...É Marilene uma guerra seria muito pouco mesmo...
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