terça-feira, 25 de novembro de 2008

Continuação....

Depois de um tempo longe, na verdade o tempo é algo que a cada dia eu tenho menos e acada dia eu queria ter mais. Tenho uma leve sensação de ver a vida passar diante dos meus olhos....será que as promessas de fim de ano se realizam???

Bom dando continuidade, mais uma parte da minha iniciação científica

Faz frio em São Paulo,
pra mim ta sempre bom
Eu to na rua de bombeta e moletom
Din din din rap é o som que
emana dum opala marrom
E aí? Chama Guilherme, chama Bane,
Chama o Dinho e o Kim
Marquinho, chama o Éder
Vamo ai, se os outros mano vem
Pela ordem tudo bem, melhor,
Quem é quem no bilhar, no dominó


Nesse trecho um aspecto do lado bom da favela, os companheiros, aqueles que se chamam de “mano”. Esse tratamento, nas palavras de Maria Rita Kehl, “não é gratuito”, é algo que possui a sua simbologia dentro do universo da linguagem da periferia, e, por conseguinte, na linguagem do hip hop, que procura desfazer os discursos de dominação onde existe um subjugado e um superior, como afirma a psicanalista

"O tratamento de mano não é gratuito. Indica uma intenção de igualdade, um sentimento de fratria, um campo de identificações horizontais, em contraposição ao modo de identificação/dominação “vertical”, da massa em relação ao líder ou ao ídolo. As letras são apelos dramáticos ao semelhante, ao irmão".

No trecho seguinte, o outro lado, aqueles moradores da favela que por motivos declarados na letra se desvirtuaram, entraram no caminho do consumo de drogas

Colou dois manos, um acenou pra mim [...]
Ei Brown, sai fora, nem cola,
Não vale a pena dá idéia pra esse tipo aí
Ontem a noite eu vi na beira do asfalto,
Tragando a morte, soprando a vida pro alto
[...]
Veja bem ninguém é mais que ninguém, veja bem,
veja bem, eles são nossos irmão também
Mas de cocaína e crack, uísque e conhaque,
Os manos morrem rapidinho sem lugar de destaque


Na parte da narrativa transcrita acima existe um diálogo entre Mano Brown e Ice Blue sobre um terceiro “mano” que não merecia sua confiança por ser um viciado. Brown em resposta afirma que não ocupa um papel de julgador, embora, não negue que essas atitudes destroem a integridade do indivíduo. O trecho traz mais algumas referências a elementos religiosos sob o ponto de vista estrutural do discurso, da linguagem, nas falas de complacência e igualdade (ninguém é mais que ninguém, eles são nossos irmão também), que remetem aos conceitos religiosos de aceitação, perdão, igualdade. O que se pode enxergar até esse momento é um dos elementos que cria a cumplicidade dentro do ambiente da periferia expresso no discurso

"Um discurso moral- pontuado por conhecidas imagens e símbolos religiosos que evoca valores comunitários, compartilhadas dúvidas existenciais sobre o sentido da vida e a banalização da morte".

Nesse trecho, também, é possível fazer um recorte sobre existência ainda que de forma implícita, da relação dos integrantes do grupo com o tráfico e consumo de drogas. As posições sobre o assunto são divergentes, no entanto, como já foi explicitado acima, é algo difícil de desvincular do cotidiano da periferia e do rap, que é uma espécie de crônica musicada do ambiente periférico.
Em depoimentos os rappers costumam dizer que se sente como uma fronteira, realmente, entre a polícia e o tráfico, eles são contra o crime, mas muitos que estão nele são pessoas que conhecem desde pequenos, muitos cresceram juntos. Além disso, a ação policial não é o melhor dos exemplos dentro da periferia. Comumente não existe o conflito direito com os traficantes, o respeito é o sentimento prezado, o mesmo não ocorre no relacionamento com a polícia .
Por outro lado, o comportamento apresentado nas estrofes seguintes é “o politicamente correto” afirmado acima pelo jornalista Mário Marques, através de um exemplo de degradação, os enunciadores (Mano Brown e Ice Blue) desse discurso deixam claro o posicionamento adverso em relação ao consumo de drogas.

Você fuma o que vem entope o nariz
Bebe tudo que vê faça o diabo feliz
Você vai terminar tipo o outro mano lá
Que era um preto tipo A
Mó estilo de calça kalvin klein tenis puma eh
Um jeito humilde de ser no trampo e no rolê
Curtia um funk jogava uma bola
Buscava ah preta dele no portão da escola
Exemplo pra nóis mó moral mó ibope
Mas começo cola com os branquinho do shopping
Mano outra vida outro pique
Só mina de elite, balada vários drinque,
Puta de butique, toda aquela porra sexo sem limite.
sodoma e gomorra
Faz uns nove anos,
Tem uns quinze dias atrás eu vi o mano
Se tem que ver pedindo cigarro pros tiozinho no ponto
Dente tudo zuado, bolso sem nenhum conto
O cara cheira mal sente medo
Muito loco de sei lah o que logo cedo
Agora não oferece mais perigo vi
ciado, doente,
fudido, inofensivo

Nessa parte da letra estão inseridas três críticas, ao consumo de droga, ao consumismo desenfreado, e ambos propiciados pela aproximação do “Preto tipo A” com os “branquinhos do shopping”. Assim existe a posição contrária a inserção do “mano” da periferia no circuito mercadológico da classe média e alta que o subverte, o transforma em um “neguinho”.

"O apelo do consumo, do qual os branquinhos são os protagonistas, é uma tentação e sucumbir a ela pode rebaixa-lo da classe A, do seu jeito humilde de ser, para a soberba da ganância e da cobiça. A insistência cínica da publicidade que se impõe sem peias num país miserável".


Constrói-se aí uma crítica aos meios de alienação utilizados pelas classes detentoras do poder, uma tentativa de reverter tudo que os enunciadores buscam através da narrativa presente nos raps - propiciar uma emancipação do indivíduo (negro e morador da periferia) através autoconhecimento e autovalorização. O último trecho deixa claro essa intenção de manipulação que as classes mais altas possuem (agora não oferece mais perigo viciado [...] inofensivo) . A manipulação e alienação promovidas por essa parcela da sociedade têm justamente a função de evitar o “efeito colateral” que o próprio sistema cria, que nada mais são que estes indivíduos pensantes da periferia, “os cronistas do gueto”.
Quanto à presença de elementos religiosos nesse trecho, tem-se aí a figura do Diabo, simbolismo de uma situação limite, da passagem da fronteira do inferno. Nessa parte existe a continuidade da exposição do lado ruim do ambiente periférico, aqui representado pela “tentação”, mais um termo de simbolismo religioso, aos luxos oferecidos de maneira mal intencionada pelos “branquinhos”.
Na seqüência a narrativa muda o cenário sem deixar a crítica ao consumismo, o bombardeio diário das publicidades. A ostentação daquilo que os garotos da periferia foram ensinados a ver e desejar e parar por aí. A partir daí vem a escolha, escolha musicada e cantada por Afro-X em outra música dos Racionais “O sistema limita a nossa vida de tal forma que eu tive que fazer a minha escolha sonhar ou sobreviver...porém o capitalismo me obrigou a ser bem-sucedido..em busca do meu sonho de consumo procurei dá uma solução rápida e fácil para os meus problemas: o crime”.


Notas


Bombeta: boné.

KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
Grifo da autora.

NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90, p.66-83, nov.2001. p.71

Informações retiradas de depoimentos de Edy Rock (Jornal da Tarde 2/12/97); Mano Brown (Caros Amigos Especial 3) e MV Bill (Revista Democracia Viva, nov/fev 2001) transcritos em:
KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.

ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004. Grifos da autora.

RACIONAIS MC´s; AFRO-X. A vida é desafio. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56min 02s), faixa 10 (7min 13s).

domingo, 24 de agosto de 2008

textos de outros...

Esse é do Fernando Bonassi, de um roteiro para Teatro chamado Centro Nervoso...ótimo sobre a dor...

"Onde a dor dói depende de onde a dor foi, por onde a dor vem e pra onde ela vai. Poeque a mesma dor está indefinidamente de passagem por lugares diferentes. Há dores que os doutores sabem explicar perfeiamente, mas não conseguem retirar a dor de parte do doente. É o luxo de uma falação. Uma luxação, ou paenas uma teoria do que a dor doeria, já que uma dor referida em geral não doí mais. Assim, em tese, também não doí menos, por não resistir a qualquer referência, considerando que qualquer dor é uma insistência de e imolar, rebolar, revirar, mas persistir em alguma coisa. Há casos de dores qie nos acomentem em membros ausentes e por pessoas distantes que nem se amolam de se lembrar da gente! Mas as dores incomodam sem parar quando se para pensar em seu movimento renitente. Você pode nem se lembrar que doí até que sente a dor vibrar internamente. Pode ser num dente cariado que quer mastigar o alimento, no estômago enjoado que não consegue digerir um condimento ou na mente perturbada que não consegue decifrar o pensamento que teima em latejar os seus tormentos, pode ser uma dor o corno de quem procura sarna para se coçar, o gozo manhoso do masoquista que gosta de apanhar, o caroço caloso de um tumor no osso, um quisto sebáceo no pescoço chupado, um braço fraturado ou o ombro destroncado, como um Cristo viciado que tivesse carregado uma cruz de pecados e não pudesse despejar os próprios cacos no regaço de um buraco.
é bom dar atenção que a dor é um aviso. A sinalização de um prejuízo que ainda vai acontecer. É uma dor de matar, mas que não chega a morrer, porque o objetivo dessa dor não é se curar, mas permanecer para irritar, complicar, interferir e destruir. É uma dor de cabeça qu eu vou te contar. Um boneco de arame que se amassa. Um vexame que se passa. Uma bosta já basta. Uma miragem que se atravessa. Uma tatuagem que se aplica na testa.
Há uma dor generalizada, criada perlo deprimido para se parofundar em nada. Uma dor de marmelada, mas que pode doer tanto como uma facada no peito. Todos temos um coração a zelar, zerar ou gelar, conforme queiram uns e outros, que preferem esquecer para não sofrer. A memória é fraca para suportar o peso de tanto desamor. É uma deção feia, que bate no ponto nevrálgico de um cartão de compromissos mixos, salários baixos e um profissionalismo ridículo, conformando ume stado de nervos com as contas a pagare as migalhas a receber. Há muita dor em sobreviver nessa situação. À condição de quem já lutou pelo ócio, resta apenas implorar pela droga do vício do trabalho. "Quem paga o pato não o saboreia", doz a velha sabedoria. A dor em si é antiga e sentida por todo os antepassados que herdaram problemas heriditários, mas continua moderna essa dor de preocupação constante e chata, que insiste sem parar até encontrar a localização exata da casca para cutucar e doer a sua natureza. é uma dor localizada com certeza, mas que no isntante que se toca com a mão, a irritação da esfregação das asperezas se espalha pela espinha, por condutas infinitas, terminações nodosas, amarrações confusas e combinações torturantes. Não tem começo a mecha que detona a bomba desse processo. é o susto de uma explosão súbita, como a tensão incendiária de uma dúvida, uma pergunta que não cabe na conjuntura, mas que dura uma eternidade. No entanto, nós insistimos nas apostas. A que será que se destina? Fincar. Fincar. Espremer. Roer até doer ... E assim, esperando essa dor passar, se aprende a deixar a dor doer...Aliás, a dor é uma palavra tão pequena que só mesmo esse dó maior pode ser menor que ela...
Boa noite...
E tentem descansar....apesar do senhor que os acompanha".

Continuando a saga

Mais do meu trabalho de IC parei em Jesus Chorou...e agora continua...caminhando para o fim...
A profecia se fez como previsto

Análise da música Capítulo4, Versículo 3 .


“Devo ter muito inimigo por aí. É que Deus me guarda. Acho que ele sabe das minhas intenções que são boas. Minha intenção é boa.”
Mano Brown (Março de 2003)

Antes de realizar a análise da presente letra é preciso contextualizar o álbum do qual essa música faz parte, uma vez que esse contexto remete a temática analisada, ou seja, os elementos religiosos e o tom messiânico presentes no discurso dos Racionais.
Sobrevivendo no Inferno é o quarto disco dos Racionais, lançado em 1997. O álbum representou a transposição das barreiras da periferia, o rap passou de arte marginal dos subúrbios paulistanos para as paradas de sucesso de várias rádios da cidade, com direito a prêmio de melhor clipe de rap, com o clipe de Diário de um Detento, no Vídeo Music Brasil promovido pela MTV Brasileira.
Quanto a temática, o álbum traz a vida entre o céu e o inferno, metáfora que remete a melhora de vida alcançada, que pode ser representada pelo sucesso com o rap ou ainda as melhorias que o rap e os outros elementos da cultura hip hop propiciaram a periferia - o céu- e as mazelas, injustiças e miséria que ainda fazem parte do cotidiano periférico - o inferno. Assim as letras desse trabalho passeiam por esses dois mundos de forma lírica e recheada de elementos metafóricos que lembram as profecias religiosas.


"Em Sobrevivendo no Inferno [...] discurso torna-se messiânico. Nele, o céu e o inferno, Deus e o Diabo travam uma luta sem trégua na consciência do periférico, que vivendo no mundo das incertezas e simulações não visualiza outra saída senão a de cuidar de si e dos parceiros de batalha".

Versículo 4, capítulo 3 segue a tendência de todo o álbum, apresenta elementos alegóricos do céu e do inferno, viaja entre o mundo da bíblia e da pistola (crime). A escolha dessa música vai além dela possuir esses elementos para análise. A letra sob o pano de fundo de um tom messiânico, algo como a enunciação de uma profecia, aborda as temáticas trabalhadas nas letras anteriores. Assim essa análise faz um retrocesso das anteriores, confirmando a presença desses pontos levantados em várias obras do grupo, porém, em uma linguagem peculiar caracterizada por elementos religiosos.

Minha intenção é ruim, esvazie o lugar.
Eu to em cima, eu to afim.
Um, dois pra atira.
Eu sou bem pior do que você está vendo
A primeira faz pum, a segunda faz ta.
Eu tenho uma missão e não vou parar.
Meu estilo é pesado e faz tremer o chão
Minha palavra vale um tiro e
eu tenho muita munição
[...]
Minha atitude vai além e
Tem disposição pro mal e pro bem


Assim como nas outras músicas o primeiro locutor é representado por Mano Brown, que vai construindo suas falas em cima dessa dualidade céu e inferno, num discurso maniqueísta, sua personalidade “tem disposição pro mal e pro bem”. No entanto, a palavra é a verdadeira arma dele como explicita acima. Os termos “missão” e “minha palavra” logo no início já indicam a característica profética desse discurso. Ele tem uma mensagem para passar aqui e nada pode o deter isso, palavras muito importantes que beiram a força de um tiro. O enunciador exerce assim um papel semelhante de um profeta, que pode ter sua mensagem interpretada para atitudes benéficas como para ações ruins, dependendo para quem se destina e quem assimila essas palavras.
Na seqüência o enunciador segue com a ambientação dos elementos contraditórios, maniqueístas.

Talvez eu seja um sádico, um anjo
Juiz ou réu
Bandido do céu
Malandro ou otário
Insano ou marginal,
Antigo e moderno
Fronteira do céu ou inferno
Verso violentamente pacífico


O uso dos termos contrários (anjo, sádico; juiz, réu; etc) além de seguirem a trajetória da narrativa de representar os dois mundos céu e inferno, e o rap como a linha tênue entre esses dois espaços, indica como o próprio enunciador é visto, como ele pode ser classificado de acordo com quem o classifica. Para os críticos de sua mensagem, ou seja, os críticos do rap, ele é o sádico, o réu, o bandido.
Muitas vezes se questionou uma tendência de exaltação do crime por parte das letras de rap, não só do grupo, mas de todos os grupos em geral, na mídia. As narrativas, que retratam a crueza da vida periférica sem concessões para a violência que é parte integrante desse cotidiano, sofrem críticas justamente nesse ponto, de mostrar a verdade.Característica que é mascarada de culto a violência pelos críticos mais taxativos.

"Existem críticas sobre a maneira ambígua como traficantes e bandidos aparecem nas letras das músicas e nos clipes. Referindo-se aos Racionais, afirmou o jornalista Mário Marques: “Eles são politicamente corretos, são contra drogas, mas não chegam a condenar explicitamente o crime por saberem que o meio em que vivem não é exatamente favorável a uma rotina alheia à marginalidade".

Já os outros termos parecem indicar a forma como os rappers são vistos pelas pessoas da sua comunidade que os admiram, assim como os outros os ativistas do movimento hip hop, aqueles que de alguma forma a cultura hip hop trouxe benefícios. Por isso talvez ele seja um sádico ou um anjo, o adjetivo de sua personalidade é definido conforme a interpretação da sua mensagem e quem realiza essa interpretação. Assim a duplicidade é contínua na presença de dois ouvintes, assim sendo duas interpretações e duas intenções (pro bem e pro mal)

"A música cunha imagens contraditórias e agressivas [...]se volta para o ouvinte, aquele que é seu igual e seu inimigo, aquele a quem pretende aconselhar ao mesmo tempo que confundir, sabotando o raciocínio, abalando os sistemas vitais".

Na continuidade da narrativa a idéia de profecia, de força da palavra nesse discurso é explicitada nos versos seqüentes.


E a profecia se fez como previsto.
1997 depois de Cristo
A fúria negra ressuscita outra vez
Racionais, capitulo 4, versículo 3
Aleluiaaa, Racionais no ar...


Nesse momento a inserção do grupo na missão anunciada no início da letra, é o papel do grupo de rap Racionais na mensagem que está sendo “profetizada”. O previsto seria a volta do grupo que desde de 1993 não gravava um disco, após cinco anos, ou seja, “1997 depois de Cristo” a “fúria negra” (adjetivação dada pelos próprios integrantes) volta com essa mensagem, localizada no Capitulo 4 (referência ao quarto álbum), Versículo 3 (referência ao número da música no álbum). A localização da música, que também é seu título, é feita do mesmo modo que as mensagens bíblicas, mas um referente do discurso profético, de “recorte bíblico” . A finalização desse trecho com o termo Aleluia ressalta essa característica de missão, de palavra a ser proferida e que é “louvada”.
Na seqüência, desse início de estilo definidamente profético em diversos termos e trechos explicitados acima, o enunciador volta a descrição do ambiente periférico, mas uma vez apresentando dois lados da mesma face, a face do dia-a-dia na periferia.

Continua...

Notas

BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.
Alguns trechos da letra foram suprimidos. A letra inteira segue em anexo.

ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.16

NETTO, José Apóstolo. Dos Racionais aos Emocionais Emecis: um olhar marginal da relação música, favela e dinheiro, ago.2003. Disponível em: Espaço Acadêmico: Acesso em: 16 fev. 2005

NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90, p.66-83,nov.2001. p.71

ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.200

Termo utilizado pelo jornalista Bruno Zeni na definição do título da música.

Bombeta: boné.

"Tempo, tempo, tempo faço um acordo contigo"

Nossa...quanto tempo, tempo que não escrevo, na verdade escrevo e muito todos os dias, virei até ghost writter...mas é DA REDAÇÃO o nome certo.
Mas o tempo se esvai para escrever aqui. Minha mente já não funciona da mesma forma, não sobra criatividade, não sobra vontade.
E algumas coisas vão ficando no caminho...o mestrado, será? Tinha que estudar...tinha que fazer tantas coisas..."Tempo, tempo, tempo eu faço um acordo contigo" me dê um dia de 30 horas que eu mudo o mundo...

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Aprendendo

Uma coisa que eu aprendi nesses dias
- Não se vive sem Internet, não se trabalha, não se comunica, não se manda o material necessário sem essa bendita web.
Eu nem mesmo poderia estar dizendo isso aqui se não fosse a Internet. Você pensa em escrver algo, uma crônica quem sabe, como as meninas que trabalham comigo sugeriram, uma crônica de como nossa vida mudou com rede de informações, interatividade, e de transmissão e disseminação de besteiras, não podemos ser utópicos, enfim, eu posso até escrever essas linhas, no word mesmo,no entanto, de nada adianta porque não posso mandá-la para ninguém sem Internet. E hoje com essas possibilidades, o importante é publicar. Só se publica se tiver Internet. Tudo bem você pode publicar no jornal, mas, você não mandou o seu texto por email para o editor? É não tem jeito a nossa vida está enroscada nas "redes" da web.
Sem a rede vivemos um isolamento provocado pela nossa própria ânsia de comunicar tudo e a todos.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

próximo capítulo

No próximo post eu começo a análise da última música...Capítulo4, Versículo3

explicações a parte e mais do projeto

Olá...faz um tempinho que não escrevo, estou um pouco aterefada esses dias e estou prestes a sair do desemprego, toma que eu traga notícias boas aqui na próxima semana. Bom continuando a dose Racionais MC´S eu posto agora mais uma parte do meu relatório.

Continuando a análise de Jesus Chorou

Mesmo a figura de Jesus, em partes da letra, como a transcrita acima, e no próprio título remete a idéia de traição. Segundo os evangelhos - a figura de um líder, que lutou por um ideal e foi traído por aqueles pelo quais lutava e entregue por um discípulo seu, história que é conhecida através do Novo Testamento da Bíblia. Algo semelhante, em escala menor e em outro contexto, é claro, ao que ocorre com o enunciador do discurso.

Nas estrofes seguintes segue essa visão que vai se sedimentando com mais exemplos, enquanto Brown pensa “mil fitas”, mais e mais pessoas da sua comunidade vão gerando o sentimento de frustração e dor no enunciador, por suas atitudes vazias, por seus conselhos que vão à margem contrária de tudo que ele acreditou até o momento como ético.

Periferia- corpos vazios e sem ética
lotam os pagodes rumo a cadeira elétrica.
Eu sei você sabe o que é frustação
máquina de fazer vilão...
eu penso mil fita, vou
enlouquecer...
e o piolho diz assim quando me vê: - Famoso pra
caráio, durão, ih truta
faz seu mundo não Jão,
a vida é curta..
só modelo por ai dando boi...
Rasgar as madrugadas só de mil e cem..
se sou eu truta hã, tem pra ninguém...


No trecho acima o enunciador aponta a falta de perspectivas das pessoas da periferia nos primeiros versos, a cadeira elétrica como símbolo da cadeia, do lugar onde o crime os leva, os pagodes como atividades vazias que vivem lotadas. Tem-se ai um desabafo sobre essas atitudes, não como um tom de censura, mas de frustração, como ele cita na frase posterior. A frustração é outro sentimento frisado nessa letra. A decepção de não atingir as pessoas com a sua mensagem como ele pretendia, através da criação de uma cultura emancipadora diferente de simplesmente freqüentar “o pagode”.

E para finalizar essa parte, mas um exemplo de um indivíduo da sua comunidade que se posiciona de forma crítica ao discurso empregado por Brown. Mas uma vez o enunciador é “aconselhado” a vestir a sua imagem de celebridade e aproveitar o seu status alcançado, sem esse idealismo de fazer para e pela periferia, de retorno sempre às raízes.
O retorno, a importância de ser um indivíduo da favela e de certo modo ter orgulho da sua comunidade é algo intrínseco ao discurso dos Racionais, alguns trechos de músicas do grupo dão veracidade a essa afirmação

O dinheiro tira o homem da miséria, mas não pode arrancar de dentro dele a favela.

A minha área é tudo o que eu tenho. A minha vida é aqui e eu não consigo sair. É muito fácil fugir, mas eu não vou. Não vou trair quem eu fui, quem eu sou. Eu gosto de onde eu vou e de onde eu vim, ensinamento da favela foi muito bom pra mim .

Na rua eu conheço as leis e os mandamentos .

A toda comunidade da zona sul. Mês de janeiro São Paulo Zona Sul
Todo mundo à vontade calor céu azul. Eu quero aproveitar o sol Encontrar os camaradas pra um basquetebol .



Justifica-se novamente nesse momento a dor de Brown expressa em toda a letra de Jesus Chorou, diante da importância que aquelas pessoas representam pra ele, com exceção do primeiro indivíduo que o criticou, que não era daquela área. A constatação, através dos fatos e palavras de que tudo o que acredita parecia não ser o caminho certo para elas, criou, como já foi dito, uma crise de consciência no enunciador.

Nas falas de todos os interlocutores percebe-se que a presença da fama, do dinheiro e do status alcançado pelo enunciador é o desencadeador dessas opiniões, por isso esse discurso personificado na letra de autoria de Brown refletir a relação dele e dos demais integrantes do grupo com o sucesso alcançado. Um misto de frustração, desilusão e revolta.

A trajetória do grupo deixa evidente que eles sempre procuraram a independência em relação à indústria fonográfica, possuem seu próprio selo, sua gravadora, seus meios de distribuição, evitam a exposição em grandes mídias. Ações de visionários, de pessoas que previam a apropriação dos elementos da cultura hip hop pelo mercado. Por outro lado, o que se tem registrado nesse relato de Brown é a fragilidade dele ao lidar com isso quando sai desse meio de controle. No momento em que a roupagem de celebridade é colocada pelas pessoas da sua comunidade e, como já foi dito, as suas verdades são taxadas de hipocrisia (Famoso pra caráio, durão, ih truta faz seu mundo não Jão, a vida é curta/ periferia nada, só pensa nele mesmo, montado no dinheiro e vocês aí no veneno).

O enunciador encerra a música voltando-se para o único apoio que parece existir naquele momento, a sua fé.

Se só de pensar em matar já matou
Prefiro ouvir o pastor: Filho meu,
Não inveje o homem violento
E nem siga nenhum dos seus caminhos...
Lágrimas...
Molha a medalha de um vencedor
Chora agora ri depois,
Ae, Jesus Chorou!


O aparecimento da fé nesse momento vem como algo que dá o suporte, o apoio como em outra música do grupo “aquele que não deixa o mano aqui desandar” . Diante dos percalços apresentados no decorrer da narrativa, a desilusão com seus companheiros e, também, com sua mãe que desacreditaram em algum momento do seu discurso e de seu projeto a favor da comunidade, o que resta ao enunciador é “ouvir o pastor”. Nessas frases pode-se ver um pouco da relação de integrantes do grupo com a fé, com a religião. Recorte analisado mais profundamente na próxima letra, no entanto, tem-se um indício dessa relação de proteção, de apoio diante de situações adversas.

Os versos finais vêm com tom de otimismo, o velho ditado chora agora ri depois deixa claro essa intenção, uma espécie de presságio. Toda a dor expressada nessa letra terá sua recompensa, seu valor será mostrado.

Nesse momento o enunciador ressalta a sua esperança no movimento, na sua caminhada no cenário musical do rap. A qualquer momento isso será reconhecido da forma que se deve: uma cultura marginal que tem as diretrizes para causar uma melhora nas condições da vida na periferia, em virtude de todas as características do movimento que já foram apresentadas até aqui.

Assim a narrativa se encerra, com as lágrimas sendo uma exteriorização, também, da felicidade (“as lágrimas molham a medalha do vencedor”), seguindo o tom mais otimista das estrofes finais.


NOTAS

RACIONAIS MC´s. Negro Drama. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56 min 02s), faixa 5 ( 6min 51s)

BROWN, Mano. Fórmula Mágica da Paz. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 11.

RACIONAIS MC´s. Na fé irmão. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56 min 02s), faixa 7 (6min 05s)

ROCK, Edy; BROWN, Mano. Fim de semana no parque. In: RACIONAIS MC´s. Raio-X Brasil. São Paulo: RDS Fonográfica, p.1993. 1 CD. Faixa 1.

BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Antes de voltar ao projeto - São Paulo

Eu estive fora uns dias por isso fiquei sem escrever. Tive que dar um tempo no projeto porque precisava postar aquele texto sobre o Caso Nardoni. Esses dias fiquei sabendo que o tal caso até virou personalidade do orkut. Enfim, tem muita gente por aí que não tem o que fazer. Em São Paulo eu participei de um Congresso, na verdade, nada de muito novo, muitas coisas acontecendo ao emsmo tempo e remota possibilidade de ver tudo.
Queria ter visto mais coisas sobre a TV Digital, alguns estudos feitos, experiências lá do Mackenzie, onde foi realizado o Intercom do Sudeste. Enfim, mas pouco eu vi. O Tema principal era a Mídia e o Meio Ambiente, coisa que eu vi muito para ajudar meu pai no trabalho de pós dele. Chato contar isso aqui não é, mas, foi minha ajuda que permitiu que ele terminasse esse trabalho. Coisas como responsabilidade social, ambiental e termos afins foram o alvo de vários trabalhos apresentados. Muita informação, no entanto, poucas novidades, as mesmas soluções e idéias que já nos são marteladas todos os dias. Confesso que perdi várias coisas, várias apresentações de trabalhos que poderiam ser mais renováveis. Sobre a TV Digital falou-se muito da tal interação que ainda é um mito por aqui. Temos a HD, no entanto nada mudou para os brasileiros.
Numa tarde depois de um belo almoço, o frango estava um pouco insosso é verdade, fui assistir a uma exibição de documentários feitos por estudantes no Expocom. Dois me interessaram bastante. Um era sobre a Casa do Hip Hop, lugar que tive a oportunidade de conhecer durante a produção do meu TCC (trabalho de conclusão de curso), muito interessante a proposta de mostrar como culturas populares, como o Hip Hop, são importantes para as comunidades onde estão inseridas. O outro era sobre a favela, porém, sob uma ótica diferenciada. A favela na visão das crianças que moram lá. Uma idéia diferente, pena que não deu para ver os documentários na íntegra.
Fora isso, São Paulo é mesmo um lugar terrível de se morar. Pode ser uma visão caipira da minha parte, porque eu sou mesmo, uma menina do interior, nascida, criada e até hoje aqui. Mas, mesmo quem mora lá não gosta, mora por uma necessidade, acho que é só por isso mesmo que se suporta viver na "floresta de concreto e aço". Trânsito, ônibus lotado, pessoas sempre com pressa, a vida passando diante dos olhos sem a contemplação necessária. Sinto-me uma estranha lá. Caminhando, sempre devagar, olhando tudo. Será que é esse meu destino necessário? Tantas cidades no Brasil, será que lá mesmo que devo ir? Vejo a idéia como uma solução, afinal aqui tenho colhido poucos frutos, no entanto, uma idéia que me dá medo.
Enfim, algumas impressões da minha visita à Capital Paulista. Um passeio pelo Consolação e Rebouças. Ruas que antes conhecia apenas do Banco Imobiliário. Lembram desse jogo? No próximo post mais do meu projeto.
Até lá...

sábado, 3 de maio de 2008

Sobre mais uma novela da televisão brasileira

Não é novidade alguma, ainda mais agora que já faz mais de um mês do primeiro capítulo dessa novela que a mídia criou mais uma vez diante de um acontecimento real. A novela que tem o ibope de todos os brasileiros. Um diferencial: ela passa em todos os canais, embora cada emissora tente abocanhar para si um fato exclusivo, uma entrevista inédita. A pequena Isabella Nardoni teve apenas 5 anos e pouco de vida, mas o suficiente para ser uma das principais atrizes de uma história que envolve crime, ciúme, romance, mentiras, polícia, justiça, populares, revolta, enfim, diversos ingredientes para um grande sucesso de audiência, digno das grandes novelas de Aguinaldo Silva. Me desculpe a comparação, não se trata de desrespeito a vítima, uma linda criança que nem tem culpa de nada, e nem de romancear os culpados. Trata-se aqui de uma crítica a forma como fatos assim são explorados e re-explorados pela mídia, como ela transforma um crime hediondo em um folhetim romanesco. Mas, além disso o fato que mais me incomodou foi a forma que, ao criar esse roteiro novelístico, a mídia envolve os chamados "populares" na trama. Pessoas ditas comum que nada tinham em comum com a família Nardoni, nem ao menos já tinham visto o rosto vivo da menina Isabella e hoje se sentem parte integrante da família. Os populares que se tornam linchadores ou pelo menos assim o sentem. Achei que só eu pensava assim, só eu tinha esse sentimento de repúdio àqueles que saem de sua casa, deixam seu trabalho, escola, enfim o que estavam fazendo para se postar em frente a uma delegacia e gritar palavras de ordem como "Lincha", "Justiça", "Assassinos", "Isabella",e chegar ao cúmulo de cantar parabéns a uma menina que até então nem conheciam. Mas, descobri que não. Muitos acreditam também ser absurdo uma atitude dessa. Uma mulher com uma criança no colo no sol, gritava que a família é uma instituição falida. Com certeza minha senhora, já que em vez de estar em casa cuidando do filho a senhora o coloca no desconforto de ficar em pé no sol gritando palavras que ele nem conhece ainda. O sorveteiro aproveita para fazer um trocados em frente a 9º DP, em frente à casa da família Nardoni, da Família Jatobá, do Edifício London. Por que não tirar uma foto da janela de onde a menina foi atirada? Por que não invadir o prédio, a casa de alguém ligado a família? Tudo isso traz emoções a mais ao enredo. Todos os populares são personagens de um tribunal, todos juízes capazes de condenar alguém que não conhecem, pouco sabem da vida a não ser pequenos factoídes divulgados pela mídia para construir todo uma trajetória de traumas e atitudes violentas que indicam a faceta de um assassino. Não cabe a mim também dar uma de "popular" e assinalar aqui culpados ou inocentes. Acho que isso cabe a um julgamento sério, feito por pessoas capacitadas e formadas com esse intuito de julgar réus. Culpados ou não, isso não importa agora, nem para esse texto. O que importa aqui é destacar como a mídia consegue contruir uma história de bem e mal e assim nos redimir de nossos próprios pecados, consegue nos proteger de nossos próprios monstros internos. Parafrasendo, em termos, o que uma amiga minha me disse. É nesse momento que vemos o que nós seres humanos somos capazes de fazer, todos, e vemos como única saída o linchamento, assim nos sentimos menos pecadores por tratar com violência quem praticou violência num eterno ( e terno) círculo...

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Parte II de Jesus Chorou

Mais uma parte do meu relatório...

Análise de Jesus Chorou - PARTE II

tava eu mais dois truta e uma mina
num Tempra prata show filmado ouvindo Guina
o bico se atacou ó, falou uma pá do cê...
Esse Brown aí é cheio de querer ser, deixa ele moscar e cantar
na quebrada, vamo ver se é isso tudo quando ver as quadrada,
periferia nada, só pensa nele mesmo, montado no dinheiro e vocês
aí no veneno [...]
cada um no seu corre [...]
eu mesmo se eu catar voa
numa hora dessa, vou me destacar do
outro lado de pressa, vou comprar uma house de boy
depois alugo,vão me chamar de senhor não por vulgo
mas pra ele só a zona sul que é a pa [...]
porque eu não pago pau pra ninguém [...]


A crítica não está no fato de Brown ter alcançado o status através da música, ser uma referência no cenário nacional, e sim no seu discurso pró-periferia, pró-zona sul (onde o cantor mora e sempre morou), segundo o “bico” o cantor é hipócrita nessas falas. Está montado no dinheiro e na fama enquanto os seus amigos, os chamados “trutas”, continuam no mesmo cotidiano da favela, no mesmo “veneno”. Para ele, Brown deveria assumir que é uma celebridade, comprar uma casa de “boy” e passar para o outro lado (o lado do mercado consumista) e parar de lutar pela sua “quebrada”, como ele mesmo faria, se tivesse a oportunidade (eu mesmo se eu catar voa uma hora dessas). O sentido do verbo voar nesse trecho é de escalada na vida social, é passar de uma classe subjugada para as mais altas, algo alcançável para Brown em virtude do seu status obtido através do rap.
E por que isso abala tanto Brown? Entre os motivos, o principal é que essa imagem criada pelo “bico” desfaz tudo que o hip hop prega, tudo que o enunciador lutou e ainda luta através da sua arte, da sua música. Se caso cedesse a esses “conselhos”, Brown, contribuiria com desmantelamento da “marca identitária” do hip hop

"Não pode ficar nem isolado sem levar a mensagem, nem se submeter à lógica estritamente comercial que predomina no mercado e na mídia, pois, isso colocaria em risco a própria mensagem e anularia a missão".

A falta de compreensão é representada na figura de uma pessoa, no entanto, esse desconhecimento do verdadeiro sentido do movimento cultural no qual o rap se insere é algo que passa por diversos lugares e pela mídia, também. A figura dos Racionais se torna mais suscetível a isso pelo fato de serem avessos as grandes mídias, o que cria uma áurea de arrogância e superioridade em volta dos integrantes.
Milton Salles produtor/ideólogo/interlocutor dos Racionais, em entrevista a Caros Amigos, justifica essa escolha taxativa dos integrantes de não aceitar convites da grande mídia

"O problema, mais do que como a mídia vai tratar o rap, é você ser instrumento de manipulação, massa de manobra. É você estar dando subsídio que vende produto, é de repente você estar dentro do Faustão, dentro da Rede Globo, e com isso você manter o Ibope do dragão".

Por outro lado, esse posicionamento é a “volta para dentro”, a preocupação do grupo, que veio da favela, com a própria favela é fazer algo da periferia para periferia, esse posicionamento está na gênesis do movimento

"O compromisso não está só na mensagem da música, mas na atitude: continuar na quebrada, lutar pelos manos, não se vender à indústria milionária do disco e da televisão que lança e derruba modas".


A dor de Brown está justamente nesse ponto, quando a sua posição é distorcida e seus ideais incompreendidos e transformados em hipocrisia. A resposta do enunciador vem nas estrofes seguintes

Quem tem boca fala o que quer
Pra ter nome, pra ganhar atenção
das mulhé ou dos homens...amo
Minha raça, luto pela cor,
o que quer que eu faça é por nós, por
Amor, não entende o que eu sou,
não entende o que eu faço, não
Entende a dor e as lágrimas do palhaço...


No trecho o enunciador explicita a sua luta, tudo o que faz pelos negros da sua comunidade (raça, cor) e faz isso movido pelo sentimento do amor. Um discurso que pode até apresentar um tom piegas, mas a resposta vem na intensidade da dor, da revolta de ser incompreendido. E isso reflete a própria personalidade de Brown, um traço de preocupação maior com os outros, como se constata em um trecho de outra música de sua autoria

"Se você der um role comigo vai ver que eu sou um cara meio chapado.
Penso mil fitas ao mesmo tempo, tenho solução pra todo mundo, e pra mim mesmo muitas vezes eu não tenho nenhuma".

As pessoas não entenderem o processo de todo o discurso dos Racionais e todas coisas que os integrantes fazem no sentido de revolução na favela, pelo simples fato de serem exemplos de caminhos alternativos ao crime que podem ser seguidos, abala o enunciador, e essa indiferença é originada no seio do ambiente que ele quer transformar. Incompreensão até da própria mãe como segue no trecho seguinte


[...] e a minha mãe diz: Brown acorda, pensa
no futuro que isso é ilusão, os próprio preto não tá nem ai com
isso não, ó o tanto que eu sofri, que eu sou, o que eu fui, a
inveja mata um, tem muita gente ruim
Pô mãe não fala assim que
eu nem durmo, meu amor pela
senhora já não cabe em Saturno


Assim o fato desencadeador se costura com outros acontecimentos, com outros momentos de não assimilação da mensagem real que o rap dos Racionais quer passar. A música foi feita em 2001, mas esses problemas na interpretação tanto da própria mensagem que está sendo passada como, também, das atitudes dos rappers tem gerado discussões recentes. Mano Brown em um encontro em fevereiro desse ano demonstrou-se preocupado com a forma que mensagem estão sendo interpretadas, na época desabafou que parecia que os “manos” não estavam assimilando as letras direito. Algo que ele já anunciava nessa letra (“não entende o que eu sou, não entende o que eu faço, não entende a dor e as lágrimas do palhaço”).
A conexão dos fatos cotidiano narrados e a relação do grupo com a fama se constrói nas estrofes seguintes, no decorrer dessa parte até o final da letra Brown apresenta um discurso fomentado na sua batalha pessoal contra a “venda” dos ideais do rap ,algo cada vez mais perto de ocorrer diante da visibilidade que o estilo tem angariando nos últimos anos.

Dinheiro é bom, quero sim se essa é a pergunta,
Mas dona Ana fez de mim um homem e não uma puta [...]
Sozinho eu sou agora o meu inimigo intimo
Lembranças más vem, pensamentos bons vai.
Me ajude, sozinho penso merda pra caráio
Gente que acredito, gosto e admiro,
Brigava por justiça e em paz levou tiro: Malcon X,
Ghandi, Lennon, Marvin Gaye, Che Guevara, Tupac, Bob Marley e
O Evangélico Martin Luther King...
Lembrei de um truta falar assim: não joga pérola
Aos porco irmão, jogue lavagem
Eles prefere assim, se tem de usar piolhagem .


O enunciador, assim, não é contrário as possibilidades do ponto de vista material que o rap pode proporcionar, no entanto, defende uma visão do conjunto, de nada adianta a fama de um ou outro cantor de rap se não tiver o retorno para a comunidade como prega a ideologia do hip hop, o que importa para eles é a inserção da mensagem na periferia. E, também, é avesso a “venda” da sua arte, ou seja, apropriação e reformulação do rap pelos interesses comerciais. A ascensão social é algo positivo, no entanto, sem a necessidade de desvirtuar os objetivos da cultura hip hop.

"Para eles (Racionais) a questão do reconhecimento e da inclusão não se resolve através da ascensão oferecida pela lógica do mercado, segundo o qual dois ou três indivíduos excepcionais são tolerados por seu talento podem mesmo se destacar de sua origem miserável, ser investidos narcisicamente pelo star system e se oferecer como objetos de adoração, identificação e consolo para grande massa de fãs".

O reconhecimento da grande mídia, do mercado, portanto, não é o objetivo dos integrantes do grupo, mas parece como um agravante da dor de Brown, já que a fama de algum modo gerou um mal estar na própria comunidade, nos seus “manos”. A partir daí se desfaz a ilusão de que aquilo que ele faz por amor, a “luta pela cor”, produz algum sentido. Para sustentar essa derrota, ele se espelha nos seus ídolos, nos seus exemplos de guerreiros (Malcon X, Ghandi, Lennon, Marvin Gaye, Che Guevara, Tupac, Bob Marley e Martin Luther King). Assim como ele foi desacreditado, esses “levaram tiro”.
A última frase (“lembrei de um truta falar assim: não joga pérola aos porco irmão jogue lavagem eles prefere assim, se tem de usar piolhagem”) sintetiza mas uma vez a desilusão do enunciador, um amigo que assim como sua mãe alerta que aquilo não tem futuro. É desnecessário dar “pérolas aos porcos” já que eles foram acostumados à “lavagem”. Uma metáfora que indica que é inútil Brown tentar trazer algo de bom para periferia, travar essa luta através da música de protesto que é o rap, uma vez que “os próprios pretos não estão nem ai pra isso não”, segundo o amigo Brown tem que usar da sacanagem mesmo, assim como o primeiro que criticou o posicionamento do enunciador, passar para o lado de lá, ser “patrão”.
A mensagem destaque até o momento é uma definição de traição para enunciador em relação aos ideais que a cultura hip hop trouxe para periferia , que mesmo que não tenho mudado a estrutura social do país, causaram uma revolução nessa parcela da sociedade. Expressão maior disso é a frase “O hip hop salvou a minha vida”, a qual o jornalista Spensy Pimentel afirmou ter ouvido inúmeras vezes quando realizava o seu trabalho de conclusão de curso e que em poucos anos se espalhou pelas favelas a fora. O próprio Brown faz referencia, em outro música, à importância que o rap tem na sua vida

"Rap é minha vida. Tudo que eu me envolvo eu sou fanático. Eu amo ou eu odeio. Tudo que eu sei falar hoje, se eu sei trocar uma idéia mais ou menos, é por causa do rap. Se você não sair num mundão você não consegue comparar as coisas, saber o que é certo ou errado. O rap me ajudou a ver tudo isso".



NOTAS

Truta:amigos verdadeiros.

Guina: personagem da música “To ouvindo alguém me chamar”.( BROWN, Mano. To ouvindo alguém me chamar. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 4.)

Bico: o cara intrometido, que entra na conversa quando não é chamado e comumente não é bem-vindo.

Uma pá: um monte de alguma coisa.

NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90,nov.2001.p.66-83. p. 68.

VIANA, Natália. Enquanto isso na sala de justiça.Caros Amigos. São Paulo, n.24, jun.2005. Edição especial. p. 07

AMARAL, Marina. De volta para o futuro.Caros Amigos.São Paulo, n.24, jun.2005. Edição Especial. p.05.

BROWN, Mano. Privilégio 2: o tempo é rei. In: JAY, KL. Equilibrio : a busca. São Paulo: 4P Discos Ltda 2001. 2 CDs (1h46min.). Faixa 21 (18min.32s.)

* A reunião, que pretendia discutir os rumos do rap, durou quatro horas não chegou a uma conclusão, mas todos concordam que esses problemas surgiram com a popularização do rap, no momento que esse ultrapassou as fronteiras da periferia. Perdeu-se um pouco o centro, o objetivo de todo movimento, por isso foi a hora de parar e remanejar os caminhos do rap. Mas já em 2002, Brown demonstrava esse descontentamento com os rumos do sucesso que o grupo alcançava, Jesus Chorou é registro disso.

Piolhagem: sacanagem, vacilo.

KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.

* Todas as características e objetivos que já foram apresentados no relatório parcial e sumamente nesse relatório.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Aviso aos navegantes

Assim como Negro Drama eu vou postar a análise de Jesus Chorou em partes. Logo mais eu coloco a segunda parte.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Análise de Jesus Chorou

Essa é a segunda música que eu analisei dos Racionais, fiz essa escolha para abordar o tema da fama, como o grupo lidava com essa questão, uma vez que já tinha alcançado status no cenário musical brasileiro e já era considerado uns dos melhores grupos de Rap Nacional.

Não quero status, nem fama!

Análise da música Jesus Chorou

“Quanto maior a fama, maior o número de inimigos, maior o número de pessoas que querem quebrar as suas pernas, te derrubar. Mais você vai ter que provar para os outros, mais você vai ser registrado e mais, você será cobrado” Mano Brown (Março de 2004) .

Em Jesus Chorou Mano Brown, como enunciador principal na narração, faz relato de “uma fita que o abalou” . A narrativa de um fato normal do cotidiano carrega vários indicativos da relação do grupo com a fama, com as pessoas que se aproximaram devido ao status alcançado pelo sucesso no cenário musical do rap. Essa relação não parece apenas nessa música do álbum, de certa forma essa temática tornou-se recorrente a partir desse trabalho. Sobre o disco

"O disco representa uma face de lirismo, consciência da passagem do tempo e reflexão sobre a posição social do grupo se não é absolutamente inédita nas composições dos Racionais, ainda não havia aparecido de forma tão evidente e tocante".


A narrativa é um desabafo, uma descrição da dor do enunciador ao ver que em determinado momento todos os ideais que prega através da música, os ideais geradores do Hip hop, se esvaecem diante da incompreensão dos invejosos e, também, das pessoas por quem ele lutou até o momento. É desilusão com a fama nos moldes ditados pela indústria cultural.

O que e o que é??
Clara e salgada, cabe em um olho e pesa uma tonelada...tem sabor
de mar,
pode ser discreta, inquilina da dor, morada predileta....na
calada ela vem, refém da vingança, irmã do desespero, rival da
esperança... pode ser causada por vermes e mundanas...e o
espinho da flor, cruel que você ama amante do drama,
vem pra minha cama, por querer, sem me perguntar me fez sofrer..
e eu que me julguei forte...e eu que me
senti...serei um fraco, quando outras delas vir..se o barato é
louco e o processo é lento...no momento...deixa eu caminhar
contra o vento...o que adianta eu ser durão e o coração ser
vulnerável...
o vento não, ele é suave, mas é frio e implacável
borrou a letra triste do poeta
correu no rosto pardo do profeta..
.verme sai da reta...a lágrima de um
homem vai cair...esse é o seu B.O. pa eternidade...
diz que homem não chora...
ta bom, falou...não vai pra grupo irmão ai ....
JESUS CHOROU ! ! !


No início de forma lúdica, num jogo de adivinhação o enunciador descreve o seu momento de dor, nesse instante há apresentação dessa situação de drama. Todo esse discurso remete a maior expressão de exteriorização da dor - a LÁGRIMA. O título Jesus Chorou remete ao tema da música, ele -Jesus- é o exemplo da força, da resistência a tudo que o atingiu até o momento da crucificação e, ao mesmo tempo teve o seu momento de dor e a ação de colocar isso em evidência ao chorar. Não que Brown, o narrador-enunciador, tenha a pretensão de ser um líder como Jesus, mas em seu ambiente de influência, em uma escala menor, ele é exemplo para muitos.


A reportagem de Phydia de Athayde para Carta Capital oferece indicações do que seria o “poder” de Brown na sua “quebrada”

"Ele fala pouco. Quando o faz, jamais é interrompido. Metade, na roda, nada diz. Os de sempre se movem seguindo à risca a liturgia. Liturgia não escrita nem falada. Apenas apreendida. Se Brown anda 5 metros para esquerda, fazem o mesmo. Em silêncio. Não são fãs. São amigos".


E, agora o enunciador admite a sua fraqueza, embora seja considerado um forte pelos amigos, e tenha construído mesmo que inconsciente a fama de durão ele se sente fraco, como ele mesmo afirma “o que adianta ser durão e o coração ser vulnerável”.
Na seqüência o enunciador passa a narrar os acontecimento que desencadearam essa dor e o que fazer agora, quando tudo que ele acredita e lutava parecia se esvaziar no ar. Uma “fita” contada pelo outro locutor dessa música o abalou e criou essa crise interior do primeiro narrador. Embora, a sua voz interior insista no “espírito do Capão”, expressão que simboliza a luta que ele trava pelo seu local de origem por meio da sua força como artista, algo o abalou, fato que criou uma situação de desmoronamento de seus ideais.

O que fazer quando a fortaleza tremeu
E quase tudo ao seu redor melhor
Se corrompeu
Epa pera lá muita calma ladrão!
Cadê o espírito imortal do Capão? [...]
Uma fita me abalou na noite anterior


No próximo trecho aparece o fato desencadeador de todo o discurso dessa música, uma ligação de um amigo sobre o acontecimento da noite anterior, o fato em si não tem a importância central da letra, mas justifica o sentimento apresentado pelo enunciador. Segundo o outro enunciador na noite anterior ele saiu para “fumar um” e nessa “atividade” presenciou o desabafo de outro individuo sobre a posição de Brown - o primeiro enunciador- como artista.
Na história, o segundo enunciador e mais algumas pessoas estavam no local quando apareceu o indivíduo que não era de lá, mas ficou ali para participar da “atividade”, como o grupo estava ouvindo uma música dos Racionais cantada por Brown, ele fez um desabafo sobre o que achava do cantor. Como segue na narrativa

tava eu mais dois truta e uma mina
num Tempra prata show filmado ouvindo Guina
o bico se atacou ó, falou uma pá do cê...
Esse Brown aí é cheio de querer ser, deixa ele moscar e cantar
na quebrada, vamo ver se é isso tudo quando ver as quadrada,
periferia nada, só pensa nele mesmo, montado no dinheiro e vocês
aí no veneno [...]
cada um no seu corre [...]
eu mesmo se eu catar voa
numa hora dessa, vou me destacar do
outro lado de pressa, vou comprar uma house de boy
depois alugo,vão me chamar de senhor não por vulgo
mas pra ele só a zona sul que é a pa [...]
porque eu não pago pau pra ninguém [...]


NOTAS

RACIONAIS MC´s.Jesus Chorou. In:______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 2 (54 min 31s), faixa 4 (7min 51s).
Alguns trechos da letra foram suprimidos. A letra inteira segue em anexo.

ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29 set.2004. p.16

Fita: acontecimento, fato.
Grifo da autora.

ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004
Quebrada: bairro ou rua que é local de moradia.

ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.13.

Fumar um: fumar maconha

quarta-feira, 23 de abril de 2008

ANIVERSÁRIO

HOJE É UM DATA ESPECIAL...

EU FAÇO 24 ANOS!!!!!

E hoje só o que eu quero é o Parabéns dos meus amigos e das demais pessoas que eu amo

Que Deus continue iluminando o meu caminho

quinta-feira, 17 de abril de 2008

parte III

Continuando a postar a análise de Negro Drama, mais uma parte do meu trabalho de Iniciação Científica. Para entender tudo ver o primeiro post sobre isso no dia 28 de fevereiro, é foi há dois meses atrás mais ou menos que eu comecei essa história que ocupou um ano inteiro da minha vida, dos meus estudos e foi muito importante para mim na minha jornada na Unesp e hoje eu divido com as poucas, mas boas pessoas que visitam esse blog. No próximo post já vou começar a análise de JESUS CHOROU.

Obrigada mais uma vez!

Negro Drama: parte III e última

A luta que o enunciador afirma só tem sentido, ou seja, só significa diante da posição de subjugado que o negro ocupa no país, como afirma Darcy Ribeiro

"O fato de ser negro ou mulato, entretanto, custa também um preço adicional, porque a crueza do trato desigualitário que suportam todos os pobres, se acrescentam formas sutis ou desabridas de hostilidade".

Por outro lado, a luta continua, é travada diariamente. O enunciador demonstra isso através do ciclo vicioso. Volta ao passado e termina essa parte mais uma vez com o “negro drama”, de forma pessimista, onde muitas vezes a saída está no crime e não em outras formas como a educação (referência ao “caderno”)

Vi um pretinho e seu caderno era um fuzil , NEGRO DRAMA

A segunda parte da música é cantada por Mano Brown, é uma autobiografia declarada que vem dar veracidade aos argumentos acerca das condições do negro levantadas por Edy Rock na primeira parte e, da mesma forma, demonstrar mais um exemplo de vitória.

Crime, futebol, música, [...],
Eu também não consegui fugir disso aí
Eu sou mais um, Forrest Gump é mato ,
Eu prefiro contar uma história real
Vou conta a minha


Na narrativa de Mano Brown a relação entre o negro pobre da periferia de São Paulo e os receptores do discurso, classe média e alta, sofre maior tensão. Porque nessa narrativa existe a acusação da apropriação da cultura negra, pasteurizada nos costumes da classe média e alta, que veremos mais à frente.
Seguindo a linha da narrativa, Brown descreve o momento da chegada de sua mãe, uma negra, nordestina e mãe solteira, na grande cidade de São Paulo


Uma negra e uma criança nos braços,
Solitária na floresta de concreto e aço.
Veja, Olha outra vez, o rosto na multidão,
A multidão é um monstro sem rosto e coração.
Hey, São Paulo! Terra de arranha-céu
A garoa rasga a carne, é a Torre de Babel,
Família Brasileira, dois contra o mundo,
Mãe solteira de um promissor, vagabundo,
Luz, Câmera e Ação, Gravando a cena vai
O Bastardo mais um filho pardo sem Pai


O trecho descreve como se deu a inclusão desses novos moradores com “a floresta de concreto e aço”. Nesse ponto edifica-se outro aspecto histórico da marginalização, a vinda dos retirantes para São Paulo. Não há uma definição clara na música que a mãe de Brown foi uma retirante, isso é informação de sua biografia. Porém, elucidado esse fato compreende a intenção nesse trecho de demonstrar a dor e solidão daquelas duas pessoas à margem da grande cidade.
A mãe de Brown veio para São Paulo menina, muito antes de ele nascer. O primeiro momento de solidão a menina nordestina no meio da Torre de Babel paulistana, onde ninguém se entende e muito menos a entende, uma multidão sem rosto e sem coração.O segundo momento foi quando foi mãe solteira, como Brown afirma na letra e ela confirma em entrevista a Caros Amigos “meu marido me deixou quando eu estava de um mês” . Nessa parte da narrativa existe a fusão das dificuldades pessoais de Mano Brown com a totalidade de experiências assim que se repetem. A verdadeira família brasileira, aquela gerada no miolo do “povão”.Assim como Edy Rock nas primeiras estrofes, Brown costura mais aspectos do cotidiano do marginalizados. Na sua história particular ele reedifica as falas de Edy Rock.
A relação do homem negro do gueto com a classe média branca assume novos aspectos nessa parte da música

Inacreditável, mas seu filho me imita
No meio de vocês ele é o mais esperto
Ginga e fala gíria, gíria não dialeto
Esse não é mais seu
Entrei pelo seu rádio, tomei, você nem viu [..]
Seu filho quer ser preto, que ironia
Cola o pôster do Tupac ae [...]
Sente o Negro Drama, vai, e tenta ser feliz


Nesse momento aparece a tentativa apropriação da cultura. Os negros sempre sofreram dessa injustiça, foi assim com o blues, com soul e o funk, estilos musicais germinadores do rap . A cultura geminada no cerne das comunidades negras e de suas influências é apropriada pela classe média e pasteurizada a seus costumes. A questão vai além do consumo, não é o “playboy” comprando CDs, ouvindo Racionais no aparelho de som do seu carro importado, é assimilação de um discurso proveniente da periferia, de pessoas que sofrem a discriminação racial, social e cultural como “seu” (do indivíduo da classe média).

"Eles (classe média) vão entrar no rap e começar a falar de outras coisas, vão usar a linguagem deles, e a tendência é somente serem consumidos e o resto ser esquecido, como tudo o que aconteceu. Com o samba foi assim, os sambistas só pararam de apanhar com os instrumentos na costas depois que o homem do asfalto começou a dizer que o samba era bom, começou a produzir e o outro virou coadjuvante".

O garoto filho do “senhor de engenho” não se contenta em ouvir a música, ele quer ser preto. E isso é o lado negativo da explosão do hip hop é a apropriação por parte da classe média, ela compra esse discurso e o faz seu, ela compra as roupas dos meninos e meninas da periferia usam e faz disso uma grife, uma marca. O injusto é que essa apropriação é excludente e exclui justamente os seus idealizadores, tira a legitimidade dos seus percussores.
Por outro lado, na última estrofe do trecho Brown derruba essa intenção com o diferencial decisivo: “o negro drama” narrado em todo o contexto da letra. Por mais que se tente a assimilação, essa não vai passar de algo plástico, porque não tem como parte integrante a experiência cotidiana dos “manos” dos Racionais.

O que você fez por mim?
Eu recebi seu tickt, quer dizer kit,
de esgoto a céu aberto, e parede madeirite,
De vergonha eu não morri, to firmão, eis me aqui,
[...]
Eu sou o mano Homem duro do gueto, Brown,
E de onde vem os diamante?
Da lama, valeu mãe
NEGRO DRAMA, DRAMA, DRAMA.


A estrofe acima é o reforço da mensagem da música. O ressentimento, taxado de “racismo ao contrário”, fundamenta-se nesse ponto, no que sobrou para o coadjuvante na história oficial- negro morador da favela- esgoto a céu aberto e parede maderite, ou seja, a própria favela e todas sua mazelas. Mas de onde vem o diamante se não da lama? Essa é mensagem final de Brown o caminho foi e ainda é adverso, as estrofes do negro drama confirmam, a narrativa se edifica nesse mote. No entanto, a revolução começa a ser feita “a começar pelas armas: sua palavra em primeiro lugar”.Da lama saem os diamantes, do gueto saem os novos cronistas da periferia.
E a estrofe final

E ae na época dos barracos de pau lá da pedreira
o que vocês fizeram por mim
O que vocês deram por mim
Agora ta de olho no dinheiro que eu ganho
Ta de olho no carro que eu dirijo[...]
Ae o rap fez ser o que sou hoje
Ice Blue, Edy Rock, Kl Jay
E Toda família, toda a geração que faz o rap
A geração que revolucionou, e que vai revolucionar [...]
Você sai do gueto, mas o gueto nunca sai de você [...]
O mundo inteiro ta de olho em você pela sua origem
É desse jeito que você vive é Negro Drama
Eu não li, eu não assisti, eu vivo o Negro Drama
Eu sou o Negro Drama
Sou fruto do Negro Drama [...]


O fechamento da música é discurso raivoso de Mano Brown afirmando mais uma vez todas as questões levantadas no decorrer das estrofes. A marginalização/discriminação por parte das classes média e alta branca, a apropriação da arte (Agora ta de olho no dinheiro que eu ganho) e a oportunidade dada pelo Rap, a possibilidade de revolução, ao menos, na auto-afirmação do negro.
Em suma, o retrocesso a toda mensagem passada por essa música a fim de reforça-lo. Com destaque para as últimas fases (Eu não li, eu não assisti, eu vivo o Negro Drama Eu sou o Negro Drama,Sou fruto do Negro Drama), nesses trechos o enunciador deixa explicito que nada do que foi dito é algo que ele soube por intermédios de terceiros ou que ele presenciou como observador. Ele viveu e ainda vive todo esse estigma, assim como sua mãe, por isso ele é “fruto do negro drama”.


Notas


RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentindo do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 235.

Mato:
mentira, invenção, ficção.

KALILI,Sérgio. Mano Brown é um fenômeno.Caros Amigos. São Paulo, n.10, jan.1998. p. 33.

Spency Pimentel em seu livro “Livro Vermelho do Hip hop” (PIMENTEL, Spensy Kmitta. O Livro Vermelho do Hip Hop. 1997.Trabalho de Conclusão de Curso- Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 1997) discorre sobre o que seria a “árvore genealógica musical” do rap. Assim “o rap possui uma árvore genealógica no universo musical, é bisneto do spiritual e do blues, neto do soul, filho do funk, irmão do rock, primo do reggae, do samba, do maracatu e da embolada”.

Homem do asfalto: os indivíduos que não moram na favela, no morro.

CAROS AMIGOS. O hip hop é um instrumento de transformação. In: Caros Amigos. São Paulo, n.99, jun.2005.p.35

segunda-feira, 14 de abril de 2008

mais de Negro Drama

Demorou, mas, está aui mais uma paret da análise de Negro Drama. Partindo de onde eu parei, ou seja o post que está logo abaixo.

Parte II da análise de Negro Drama

A composição dessa imagem é histórica realmente e natural, remete ao próprio estabelecimento das relações em nossa sociedade. Histórica e que se repete, como nas próprias palavras de Mano Brown

Você já nasceu preto, descendente de escravo que sofreu, filho de escravo que sofreu, continua tomando "enquadro" da polícia, continua convivendo com drogas, com tráfico, com alcoolismo, com todos os baratos que não foi a gente que trouxe pra cá. Foi o que colocaram pra gente .

É evidente nesse contexto a relação senzala ontem, favela hoje como o jornalista Bruno Zeni afirma no seu artigo O negro Drama do Rap, segundo Zeni é presente na letra

"A correspondência com a história do Brasil, lugar onde desde o início da colonização, houve o aprisionamento e abate de carne negra e indígena, justificada pela sede do capital [...] como atualmente na periferia das grandes cidades, segundo dizem os Racionais".


A discriminação silenciosa tem suas raízes no chamado mito da cordialidade, a ingênua visão do povo pacífico diante das diferenças e misturas étnicas, sendo o mito uma “narrativa que é solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não se encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade” . Assim tem-se a construção desse país, da cultura senhorial que ainda permeia as relações como afirma Flávio Moura

"Um Brasil idílico foi arraigado no inconsciente do país ao longo dos séculos para tornar um projeto nacional arcaico e mascarar a realidade que ela subjaz: a da iniqüidade e da opressão. Ou seja, por baixo da retórica existe uma sociedade em que relações se dão sempre entre um superior que manda e um inferior que obedece".

E embora a edificação dessas relações tenha a base fincadas nos primórdios do Brasil, quando o negro ainda era escravo e vivia na senzala, o mito tem a funcionalidade de se reinventar em novas situações (ontem senzala, hoje a favela), assim como afirma Marilena Chauí “sob novas roupagens o mito pode repetir-se indefinidamente” .
Nas estrofes seguintes é apresentada uma nova situação, uma possibilidade de reversão desse quadro descrito acima e fundamentado na história. Pretende-se construir um discurso que quebre esse cultural, uma narrativa “onde o lugar do negro seja diferente do que a tradição brasileira indica” .
Uma oportunidade de quebrar esse ciclo natural de desvantagem do negro que, diante da trajetória dos integrantes do grupo foi possibilitada pelo sucesso alcançado através do rap

Eu era a carne,
Agora sou a própria navalha,
Tim, Tim um brinde pra mim,
Sou exemplo de vitórias, trajetos e glórias [...]
Olho para trás e vejo a estrada que eu trilhei,
mo corre ,
Quem teve lado a lado
E quem só ficou na bota


Assim o enunciador é um rapper. Como cantor de rap, ele pôde passar por outro lado, romper a barreira da classe dominante e passar isso para seus iguais. Mas essa superação não se fez de forma fácil, foi e ainda é como uma batalha travada e sua arma é a música (como num trecho de outra música do grupo “minha palavra vale um tiro e eu tenho muita munição”) . Nesse trajeto só os fortes realmente resistem, fortes no sentido do caráter e não força física, aqueles apesar da o status alcançado não esquecem de quem são

"É como se os poetas do rap fossem as caixas de ressonância, para o mundo, de uma língua que se reinventa diariamente para enfrentar o real da morte e da miséria; por isso eles não deixam a favela, não negam a origem".


O dinheiro tira o homem da miséria
mas não pode arrancar de dentro dele a favela
São poucos que entram em campo pra vencer,
a alma guarda o que a mente tenta esquecer
[...]
Negro Drama de estilo,
pra ser se for tem que ser, se temer é milho.
Entre o gatilho e a tempestade,
sempre a provar que sou um homem não um covarde.


Nesse momento a narrativa muda de sentido, o personagem sai do primeiro estado, de negro limitado por sua própria história, por seus 300 anos de escravidão, para um segundo estado proporcionado pelo sucesso que o grupo alcançou, pela possibilidade de lutar por condições melhores e poder utilizar essa forma de comunicação da periferia que é o Rap para fazer algo de bom para sua comunidade, ser “exemplo” para vitória de outros, também, por isso não esquecer nunca quem é, de onde veio. Não se pode arrancar a favela, as raízes desse homem. É justamente ai que está a força dos grupos de rap, ela

"Vem de seu poder de inclusão, da insistência na igualdade entre artistas e público, todos negros, todos de origem pobre, todos vítimas da mesma discriminação e da mesma escassez de oportunidades".

Notas

KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.
Grifo da autora: remete ao trecho da música “desde o início por ouro e prata”

ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004

CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 09

MOURA, Flávio. Chauí e Bianchi contra a ficção dos 500 anos.Disponível em: Fundação Perseu Abramo : Acesso em 6.jul.2005.

CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1996. p. 10.

KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.

Mo corre: maior correria
Ficar na bota: ficar para trás, as pessoas que não persistiram no caminho, foram ficando para trás.

BROWN, Mano. Capítulo 4, Versículo 3. In: RACIONAIS MC´s. Sobrevivendo no Inferno. São Paulo: Cosa Nostra, p.1998. 1CD. Faixa 3.

terça-feira, 8 de abril de 2008

A análise enfim....

Bom se você lembra da minha primeira postagem sobre o projeto, sabe que ele trata-se da análise do discurso em três letras dos Racionais MC´S bom eu vou começar com a primeira Negro Drama, é uma letra extensa, bem como a análise por isso vou postar em pequenas partes...

Primeira Parte - Negro Drama

Senzala versus Casa-grande: Análise da Música Negro Drama

“Quem mora na senzala não vai confiar nunca em quem morou no casarão. Nunca vai confiar. Dificilmente o Brasil vai ter a colaboração de um com o outro”
Mano Brown (Setembro de 2004)

A música Negro Drama do álbum Nada como um Dia após o outro Dia trata-se de uma narrativa acerca do cotidiano do negro no Brasil, o negro pobre e favelado que, na narrativa, vive na grande “floresta de concreto e aço” que é a cidade de São Paulo. A letra é dividida em duas partes distintas, na primeira Edy Rock discorre sobre “o drama de ser negro”, como sugere o título, já a segunda parte cantada por Mano Brown é relato autobiográfico, o drama particular do MC. O discurso de Mano Brown aparece como um exemplo dos relatos do outro MC, embora o discurso de Edy Rock assuma a primeira pessoa em diversas passagens (O trauma que eu carrego, Eu sou irmão, eu era a carne), somente no início da fala de Mano Brown fica claro a intenção de contar sua própria trajetória.

NEGRO DRAMA entre e o sucesso, e a lama,
dinheiro, problemas, Invejas, luxo, fama.
NEGRO DRAMA cabelo crespo, e a pele escura,
a ferida a chaga, a procura da cura
NEGRO DRAMA, tenta vê, e não vê nada,
a não ser uma estrela, longe meio ofuscada.
Sente o drama, o preço, a cobrança,
no amor, no ódio, a insana vingança [...]


O trauma que eu carrego, pra não ser mais um preto fudido.
O drama da cadeia, favela, túmulo, sangue,
Sirene, choros e velas, Passageiro do Brasil, São Paulo.


No trecho inicial transcrito acima, Edy Rock descreve de forma pontual o paradoxo presente no cotidiano do negro brasileiro através das palavras de cunho positivo sucesso, dinheiro, cura, luxo, fama e negativo lama, problemas, inveja, ferida todos termos inerentes a sua simbologia, seja no desejo do ter ou na realidade, respectivamente. Esse “drama” sofrido pelos negros é lugar comum no cotidiano da favela, porém, a mensagem ganha importância no destino a que ela pretende. As letras de rap costumam ter um receptor de cada mensagem definido

"A voz do cantor/narrador dirige-se diretamente ao ouvinte, ora supondo que seja outro mano - e então avisa, adverte, tenta "chamar à consciência" - ora supondo que seja um inimigo - e então, sem ambigüidades, acusa".

O receptor, implícito nessa música, é as classes alta e média, embora retrate o drama dos negros no Brasil, a letra não possui apenas essa parcela da sociedade como alvo. Algo que é comprovado nos trechos abaixo

Você deve tá pensando,
o que você tem haver com isso [...]
Então olha o castelo e
não foi você quem fez [...]
Hey, Senhor de engenho,
eu sei,bem quem é você é [...]
Admito, seus carro é bonito é,
eu não sei fazer, internet, video-cassete [...]
Hey bacana, Quem te fez tão bom assim [...]


Sobretudo na primeira frase está essa intenção do enunciador, de falar com as classes mais altas e não apenas com o seu igual


"A frase é endereçada a quem os escuta, mas certamente não aos negros, não àqueles que vivem o negro drama, a quem não ocorreria dúvida de que o rapper suspeita haver em seu interlocutor. O verso parece expor a consciência de que, afinal, ele não fala apenas para os seus iguais, mas para uma população mais ampla, talvez a sociedade como um todo".


Na mesma simbologia do negro como representante da classe social mais baixa, a figura do branco aparece como o sujeito da classe dominante. Com a definição dos personagens da narrativa e para quem ela fala começa construí-se a relação entre os dois. Um relacionamento permeado pela tensão, num primeiro momento existe a descrição do drama do negro sempre entre dicotomias presentes nas palavras sucesso e lama, dinheiro e problema, fama e inveja, cura e chaga, o objeto de desejo e aquilo que culturalmente sobra pra ele, como já foi afirmado anteriormente - o paradoxo. Depois a indagação ao outro e a resposta está na própria trajetória do negro como escravo no Brasil

Você deve tá pensando,
o que você tem haver com isso
Desde o inicio, por ouro e prata


Com essa resposta o enunciador busca na tradição a razão da situação desprivilegiada do negro, e o destinatário da mensagem é culpado ao passo que é complacente e fomentador dessa tradição como segue

Me vê ,pobre, preso ou morto,
já é cultural, histórias, registros, escritos,
Não é conto, nem fábula, lenda ou mito,
Não foi sempre dito, que preto não tem vez,
então olha o castelo e não foi você quem fez cuzão..


O tom de agressividade embutido pelo enunciador procura ratificar a figura do negro no imaginário social em que ele está sempre em segundo lugar, embora tenha sido essencial para edificação do país. Algo que já é cultural, embora velado. No trecho comprova-se a forma como a sociedade o vê, comum em certos locais (prisão, periferia) e estados (morto, pobre). Segue-se no trecho o enfoque de que é algo real, inegável e registrado ("histórias, registros, escritos/ Não é conto, nem fábula, lenda ou mito").

Notas

RACIONAIS MC´s. Negro Drama. In: ______. Nada como um dia após o outro dia. São Paulo: Zâmbia, p.2002. 2 CDs. CD 1 (56 min 02s), faixa 5 ( 6min 51s)

ATHAYDE, Phydia de. Brown: o mano Charada.Carta Capital.São Paulo, n.310, p.10-17, 29.set.2004. p.16

KEHL, Maria Rita. Fratrias Órfãs. Disponível em: Geocities:
. Acesso em 30 set. 2004.

ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Depois do Capão, a teoria

Bom essa é a parte do meu trabalho que pode parecer a mais chata. Trata-se de um texto sobre a teoria que eu utilizei para realizar a pesquisa, ou seja, a análise das letras dos Racionias que selecionei. Na próxima já vou postar uma parte da análise de Negro Drama.

Análise do Discurso: base teórica da proposta do projeto.

Esta parte do relatório consiste na apresentação das características gerais da teoria utilizada para análise das letras juntamente com a relação com as temáticas levantadas e as músicas escolhidas, enfim, um capítulo introdutório para a proposta do projeto em si. Assim segue a explicitação, em suma, dos aspectos da análise do discurso.
A análise do discurso compreende o estudo do texto como local de produção de conhecimento, seria a forma como aquele texto significa, como constrói significados, o que ele quer dizer, levando em consideração todo o contexto histórico, social e ideológico do discurso e do sujeito discursivo. Segundo Eni Orlandi “a análise do discurso concebe a linguagem como mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social” . Nesse sentido o discurso presente nas letras dos Racionais busca essa interatividade do homem, negro e pobre, com o ambiente da favela, no cerne da emancipação da própria população da periferia, assim como elucidação daqueles que estão além do mundo periférico.
A produção desse discurso compreende os diversos contextos apontados por Eni Orlandi: o contexto imediato, que consiste na letra da música como o texto puro, o que está escrito ali; o contexto sócio-histórico, que abrange a construção dos sentidos no imaginário social, a relação das mensagens dos textos/letras com o ambiente social e histórico nas quais foram elaborados; e o contexto ideológico compreendendo a ideologia do movimento hip hop, como uma cultura marginal significada nos sujeitos da periferia. Além de discursos paralelos, o não dito diretamente, que também fundamentam a mensagem embutida nas letras

"Todo discurso se estabelece na relação com um discurso anterior e aponta pra outro. Não há um discurso fechado em si mesmo, mas um processo discursivo do qual se podem recortar e analisar estados diferentes".

A análise, por fim, constitui-se no estudo da natureza dos materiais analisados (letras), os elementos desencadeadores ou questões levantadas (as três temáticas) e as teorias e campos semânticos relacionados às temáticas.
Balizada pela teoria da análise do discurso, sumamente demonstrada, essa pesquisa procura fazer uma leitura do discurso dos Racionais por meio das letras selecionadas.

Letras Selecionadas

Para a primeira análise acerca da construção da visão do racismo na obra do grupo, a escolha foi a música Negro Drama do último disco lançado do grupo, Nada como um dia após o outro dia. O tema é constante desde o início dos trabalhos do grupo, como foi citado existe, inclusive, um single do grupo sobre as questões étnicas. Porém, nessa música o posicionamento do grupo está bem desenvolvido e fundamentado, apresentando aspectos históricos e registros atuais.
A relação com a fama e suas conseqüências podem ser constatadas na narrativa de Jesus Chorou, a música escolhida para essa temática e que, também, pertence ao último trabalho lançado. Por trás da narração de um fato cotidiano, o enunciador da música, que no caso é o Mano Brown, apresenta vários indícios dessa relação.
Por fim, a análise dos elementos religiosos e tom messiânico foi realizada sob as perspectivas apresentadas na letra de Capítulo 4, Versículo 3. Essa música diferente das anteriores pertence ao álbum Sobrevivendo no Inferno. De uma forma geral esse trabalho apresenta esses elementos em todas as letras, a escolha da terceira faixa, acima citada, compreende vários aspectos, desde o título, de recorte bíblico, a presença simbólica de Deus e outros elementos religiosos.

Notas

ORLANDI, Eni P. Análise do Discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 2001. p.15
ORLANDI, Eni P.op.cit. p.62

quinta-feira, 27 de março de 2008

Mais do mesmo....

Para não perder o "fio da meada", eis aqui mais um capítulo da minha novela de linhas. Agora sim... Racionais MC´S

Capão Redondo: Berço da Rhythm and Poetry dos Racionais MC´s

“Universo, Galáxia, Via –Láctea, Sistema Solar, Planeta Terra, Continente Americano, América do Sul, Brasil, SP, São Paulo, Zona Sul, Santo Amaro, Capão Redondo...Bem-vindos ao fundo do mundo”


Esta é a localização do Capão Redondo dada pelo escritor Férrez no prefácio do seu livro Capão Pecado, uma narrativa que, embora não traga personagens reais, reflete com fidelidade o cotidiano do local, um bairro da Zona Sul paulistana onde os Racionais escreveram suas primeiras letras. Ainda como uma dupla, é verdade, mas muitas das letras feitas por Ice Blue e Mano Brown, vizinhos no Capão Redondo, se tornaram os primeiros sucessos dos Racionais MC´s.
Os quatro integrantes dos Racionais são os MC’s Mano Brown (Pedro Paulo Soares Pereira), Edi Rock (Advaldo Pereira Alves), Ice Blue (Paulo Eduardo Salvador) e o Dj KL Jay (Kléber Geraldo Lelis Simões). O nome do grupo faz alusão ao disco Tim Maia Racional (1975), uma das influências do grupo, outras referências são os cantores Cassiano, Hyldon, Wilson Simonal e Jorge Ben, que é homenageado com uma versão de Jorge da Capadócia no quarto disco do grupo, Sobrevivendo no Inferno.
No início dos anos 90, os Racionais lançam seu primeiro trabalho Holocausto Urbano. O álbum era um reflexo de todos os problemas que moradores da periferia sofriam, inclusive os próprios integrantes, uma vez que todos eram oriundos de zonas pobres da cidade de São Paulo. As músicas traziam temas polêmicos como racismo, miséria, corrupção policial, entre outros problemas da periferia paulistana. Não menos importante foi a atitude pioneira do grupo de realizar um trabalho independente, tanto na sua produção como na divulgação, distanciando-se da indústria fonográfica.
Os Racionais fazem parte da geração que encontrou na praça Roosevelt, em São Paulo, o espaço para divulgação de seu trabalho e para o encontro com outros rappers da cidade. Essa experiência na praça foi crucial para a consolidação do rap como veículo de protesto. O segundo trabalho do grupo, o single Escolha seu Caminho, traz na temática a preocupação sócio-racial desenvolvida nos encontros na praça. O single possuía duas músicas Negro Limitado e Voz Ativa. Escolha seu Caminho foi responsável pela popularização dos Racionais entre os jovens da periferia de praticamente todo o país .
Raio-X do Brasil foi o nome escolhido para o terceiro trabalho dos Racionais, o álbum mostra a evolução do grupo, tecnológica e lírica. Na parte sonora, o Dj KL Jay sampleia e mistura sons de Tim Maia, Jorge Ben Jor, Curtis Mayfild e The Meters, entre outros artistas do funk e do soul antigos. Quanto às letras o grupo desprende-se das letras formais dos trabalhos anteriores, quase didáticas e passam a usar a linguagem da periferia com suas gírias, palavrões e idiomatismos, gerando uma maior identificação com o público alvo: os moradores da periferia. As músicas de maior destaque nesse álbum foram Fim-de-semana no Parque, Mano na Porta do Bar e o hino dos negros, pobres, presidiários, e os demais excluídos da sociedade-Homem na Estrada-, que chegou a ser declamada pelo então senador Eduardo Suplicy em um discurso seu, após jovens da classe média de Brasília serem absolvidos do caso do assassinato do índio pataxó.
Em 1997, após um período de pouca repercussão do Rap nos meios de comunicação, os Racionais produzem e divulgam seu quarto trabalho e, talvez o de maior valor para o grupo e para todo o cenário do rap brasileiro. Sobrevivendo no Inferno representou a consolidação do rap nacional, e elevou o gênero à condição de fenômeno nacional, embora, a independência em relação à indústria tenha sido mantida, uma vez que esse álbum inaugura o selo próprio do grupo- Cosa Nostra.. O álbum possui referências divididas entre a religião e a violência, entre a cruz e a pistola. Mano Brown define esse disco em entrevista ao jornalista da Caros Amigos Sérgio Kalili

"Eu quis fazer uma comparação de um cotidiano violento e da religião. Tipo o que você faz para ter mais segurança? A palavra da Bíblia? Como você vai sobreviver?Às vezes eu vejo os Racionais no meio de um inferno, cercado de uma pá de coisas- é tráfico de um lado, polícia que quer ferrar a gente de outro...Então é como um desabafo de como você faz para sobreviver no meio disso tudo aí."

A música de maior repercussão foi Diário de um Detento escrita por Brown e Jocenir, preso que sobreviveu ao massacre do Carandiru. A letra é ambientada na época do massacre e transmiti a visão “dos perdedores”, além de descrever o cotidiano de um presidiário no Complexo Carcerário do Carandiru. O clipe dessa música rendeu o prêmio de “Melhor Clipe do Ano” do VMB, festival de música brasileira realizado pela MTV.
O mais recente álbum dos Racionais, Nada como um dia após o outro dia, apresenta músicas que abordam a nova situação dos integrantes do grupo, agora reconhecidos em todo o país e considerados um dos grupos de maior expressão dentro do movimento hip hop. O posto de “famosos” acarreta vários problemas como a inveja, desconfiança acerca da simplicidade dos integrantes, a ingratidão de algumas pessoas próximas, sedução da indústria cultural, a aproximação de pessoas “interesseiras”, e todas essas preocupações são refletidas nesse trabalho. O CD é duplo e traz na capa uma sugestão do preço pelo qual deve ser vendido, uma atitude que, talvez, queira evitar a exploração do mercado fonográfico e explicitar mais uma vez a distância, tão prezada pelo grupo, do sistema empreendido pela indústria cultural.
A importância dos Racionais no cenário do rap nacional é algo indubitável, a sua trajetória confunde-se com a própria evolução do estilo dentro dos ideais do hip hop. Como explicita o jornalista Bruno Zeni

"Os Racionais se tornaram um fenômeno específico por alcançar enorme popularidade tanto na periferia como na classe média intelectualizada sem abrir mão de um discurso combativo que, não raro, beira o incentivo ao enfrentamento racial e de classe."

Eles representam, assim, a resistência do rap nacional na relação com a indústria cultural, ao mesmo tempo que são um dos grandes responsáveis pela ascensão do estilo em meio ao turbilhão do comércio fonográfico.
A escolha de parte da obra dos Racionais com objeto dessa pesquisa justifica-se, por fim, em todos esses pontos apresentados, desde da repercussão nacional do grupo até a postura assumida por seus integrantes desde o início, que eles procuram manter na sua essência, no entanto, sem negar a responsabilidade e a importância que possuem na cultura hip hop, tanto na vertente artística como na mobilização social. Algo que se reflete em todas as classes sociais

"A música dos Racionais está trazendo algo que o movimento negro nunca conseguiu: a comunicação de massa para massa. Suas músicas e suas roupas são cantadas e usadas por jovens negros pobres da periferia, jovens negros da classe média, jovens mestiços de todas as classes e jovens brancos do jardim."

Notas

FERRÉZ. Capão Pecado. São Paulo: Labortexto Editorial, 2000.p. 14

Embora o grupo Racionais MC’s faça parte da segunda geração, os seus integrantes participaram das primeiras manifestações do Hip Hop nacional na praça Roosevelt e na estação São Bento, de maneira individual e não como um grupo formado.

KALILI,Sérgio. Uma conversa com Mano Brown. Caros Amigos.São Paulo, n.3, set.1998. Edição Especial. p. 18.

ZENI, Bruno. O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva, fev.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em 5 nov.2004

NOVAES, Regina. Hip-hop: o que há de novo.Proposta: Revista Trimestral de Debate da FASE. Rio de Janeiro: FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), n.90,nov.2001.p.66-83. p.69

Boas novidades

Eu descobri recentemente que esse blog tem mais leitores do que eu imaginava, e eu queria agradecer os meus amigos por isso, pela leitura dedicada às minhas palavras nem sempre boas, nem sempre bem escritas, mas, sempre com as melhores intenções. Eu sei que ultimamaente estou postando coisas que escrevi há um tempo e que é necessário sempre escrever para não "enferrujar", no entanto, eu criei esse blog para poder divulgar coisas que já fiz também, como esse relatório que coloco aqui aos poucos. E assim que essa minha missão terminar, voltarei a colocar minha mente para funcionar e criar novas linhas.

Obrigada...

terça-feira, 25 de março de 2008

Já que estamos falando de Rap

Essa é uma parte de contexto histórico no meu relatório. Mais uma parte desse trabalho - A história do Rap no Brasil.

Contexto Histórico: a origem do rap nacional

Do seu país de origem o rap nacional herdou as características do local onde nasceu, assim como nos EUA, aqui no Brasil o hip hop se desenvolveu no seio de comunidades periféricas localizadas as margens do maior centro urbano do país, as zonas pobres da grande São Paulo. Como já foi citado o primeiro elemento a aportar aqui foi o break disseminado em meados dos anos 70 através passos do grupo de dança Funk & Cia sob o comando do veterano do hip hop Nelson Triunfo, isso quase trinta anos atrás. A música B.boy Original (1982) de sua autoria resume essa gênese do movimento no país

Dança de rua, dance em qualquer lugar,
Mostre a verdade sua,
Mas nunca se esqueça que sua cultura é original de rua!
Saiu do subúrbio pra se projetar,
No centro da cidade chamou a atenção,
Com sua dança mágica como raio
Ele entrou em comunicação para toda a nação.
Foi assim no Brasil, como lá no Bronx
da periferia para ruas.

O centro da cidade, como Triunfo canta, foi o palco do desenvolvimento dos demais elementos do movimento, inclusive o rap. Os primeiros rappers não tinham consciência do papel social que o rap adquiriu e da sua importância para os jovens das periferias norte-americanas. Exemplo disso foi o primeiro registro fonográfico de um rap no país, já em 1980, Melô do Tagarela, que foi gravado comercialmente por um apresentador de televisão, não correspondendo aos objetivos do estilo - ser genuinamente uma cultura de rua-, embora abordasse temas críticos como a situação política e social da época.
Somente alguns anos depois, com a chegada de maiores informações acerca do movimento Hip Hop e de seus ideais, é que se formou uma primeira geração de rappers compromissados com o caráter de cultura de rua que identifica o movimento. Essa geração foi denominada “Velha Escola”, ou os bate-latas. Esses rappers, que bateram lata na Estação São Bento ou participaram das rodas de rap na praça Roosevelt são considerados os pioneiros do rap nacional, a primeira geração de rappers. Anterior às gravações fonográficas do estilo, essa geração representa a máxima do termo “cultura de rua”, pois, foi ali mesmo, nas ruas que o rap angariou centenas de adeptos sem auxilio de grandes gravações. O rapper Thaíde, um dos pioneiros do movimento, fala sobre essa experiência na estação e do termo batedores de lata

Essa história aconteceu que é o seguinte agente tinha uns problemas para usar a energia elétrica lá (São Bento) e eu falei – Olha eu sou Ogun, do candomblé e eu sei fazer percussão aquela parada toda-, então agente começou a fazer um som na lata pra substituir justamente o som eletrônico já que agente não podia usar a eletricidade, mas precisávamos de um som, ai eu comecei a fazer um som nas latas de lixo e deu muito certo. Agente era um monte de adolescente se encontrando para se divertir, agente não tinha idéia do que ta acontecendo hoje. Agente ia com seriedade apesar da diversão, então agente começou a se preocupar com o que estava fazendo, com as letras, começamos a nos aprimorar, os djs também. O hip hop foi tomando conta do país inteiro. Quando agente viu, tinha pessoas fazendo o que agente fazia na São Bento no país inteiro.

Os raps dessa primeira geração buscavam resgatar a cultura negra, eram comuns as letras que falavam de Zumbi dos palmares e outros líderes negros como Malcom X e Martin Luther King. O resgate da cultura possibilitou conscientização dos jovens negros sobre a história de seus ancestrais e a busca por sua identidade. As músicas, no entanto, possuíam um tom mais festivo do que de denúncia.
As primeiras gravações de grupos dessa geração aconteceram 1988 e 89 com o lançamento de três coletâneas Hip Hop Cultura de Rua, Consciência Black vol.1 e vol.2. O período foi caracterizado pelo lançamento de coletâneas, já que se tratava de um novo estilo musical que refletia certa desconfiança por parte das gravadoras, destaque para Consciência Black, porque foi a primeira a colocar em uma das faixas uma música que revelava explicitamente o cotidiano periférico, a música Pânico na Zona Sul de autoria de Mano Brown e Ice Blue, como uma dupla anterior a formação dos Racionais MC´s.
A segunda geração corresponde aos grupos que ingressaram no movimento hip hop no fim dos anos 80 e início dos anos 90. É nessa geração que está o foco da pesquisa: o grupo Racionais MC’s. Como parte da obra deles é o objeto de pesquisa desse projeto a história e trajetória do grupo será apresentada em tópico separado.
A característica principal da nova safra de rappers que surgiram é a maior politização em relação aos veteranos, maiores informações sobre os ideais do movimento foram sendo assimiladas e, também, a partir disso foi se construindo o rap genuinamente brasileiro, afastando-se um pouco dos precursores norte-americanos e incluído influências nacionais nas bases sonoras, como nomes expressivos do soul e black music tupiniquins como Jorge Ben Jor, Tim Maia, Sandra de Sá, Toni Tornado e outros.
Os tons festivos assim cederam lugar as “crônicas” do cotidiano periférico, tendo como um dos temas centrais o resgate da auto-estima do jovem negro, maioria nesses locais. Foi o momento que o hip hop passou a ter uma função social mais forte, se organizar como um movimento, além de cultural, social. Nessa época se estabelece as características do movimento que foram bem definidas nas palavras do antropólogo Luiz Eduardo Soares, autor do livro Cabeça de porco, “o hip hop acena com a paz politizada, que se afirma com agressividade crítica, isto é com o estilo afirmativo do orgulho reconquistado”.

Notas


Entrevista concedida no lançamento do livro biográfico “Pergunte a quem conhece”, realizado no SESC/Bauru no dia 17 de fevereiro de 2005.

ATHAYDE, Celso; MV BILL; SOARES, Luiz Eduardo.Cabeça de Porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 84

quarta-feira, 19 de março de 2008

Sobre o elemento mais visado do Hip Hop - O RAP

Como prometido, vai aqui mais uma parte do meu relatório, uma espécie de justificativa por eu ter escolhido falar sobre o Rap especificamente, dentre todos os elementos do movimento Hip Hop.

Rap: o elemento mais visado do hip hop

O Rap é o elemento de maior difusão do hip hop. Desde de sua origem foi o elemento aglutinador dos demais, foi com a presença do “canto falado” que os demais elementos fundiram-se no movimento hip hop, assim como afirma a pedagoga Eliane Andrade

Na realidade, era comum entre os jovens dos guetos daquela época dançar o break e grafitar (pintar muros e paredes), mas foi a introdução da música Rap que se fundiam os três elementos, fundando o hip hop. A partir dessa junção, tanto o break como o graffite passaram a ter também um sentido, um objetivo, um significado.”

Sendo assim, o rap aparece como uma espécie de hino do hip hop, portanto, como já foi afirmado, o elemento mais visado e o maior responsável pela difusão dos ideais do movimento.
Outras características que facilitam o acesso maior ao rap que os outros elementos é a própria essência da música, ela atinge muito mais pessoas do que a arte visual e a dança. O rap possui a mensagem mais compreensível do hip hop, está ali de forma clara através de palavras e do diálogo entre os MC´s , os ideais do hip hop. Por outro lado os desenhos dos graffites e os passos do break necessitam de um maior conhecimento do contexto do movimento. Não que a consciência dos ideais do hip hop não seja importante na assimilação da mensagem do rap, mas a mensagem através da palavra facilita o entendimento já que o diálogo, a linguagem falada, é o nosso tradicional meio de comunicação. Assim a principal arma do movimento é a disseminação da palavra, no caso exteriorizada por meio da música rap.


Por meio da denúncia dos problemas étnicos e sociais e da apropriação seletiva do passado da população negra, ele (o rap) proporciona uma gama de referências para juventude negra. Tais referências questionam o imaginário social de nossa sociedade.

O rap, assim definido, ganha importância no Brasil por representar a atual música de protesto. Diferente das músicas da década de 60 e 70 que tinham como inimigo definido a Ditadura Militar, o rap procura estancar a realidade da periferia, que era ignorada pela maioria dos governos, da classe média e alta até o momento de transposição dos muros da periferia- quando ocorreu a popularização do rap, do ponto de vista do consumo. Os trechos abaixo abordam esse caráter de protesto do estilo

Os tanques militares não estão mais nas ruas, no lugar deles as viaturas. A censura já não existe mais, mesmo assim a classe oprimida não consegue dizer o que quer. O canto que chegava às ruas pelas brechas dos censores exaltava o dia de amanhã, um "outro dia". Protestava e entrava na história brasileira, o poder da música como expressão popular. Hoje, trinta e cinco anos depois, a imagem da música brasileira de protesto mudou. Vivemos a ditadura da violência, mais mascarada do que podemos imaginar. Discutida e ignorada, um dualismo que marca os grandes centros do país. É nesse cenário que emergem as atuais músicas de protesto e o rap ganha força, conquistando gravadoras e vendendo milhões de discos.
A batida e as letras pesadas que falam do tráfico de drogas, de culturas e de informação, de preconceito racial e social, de pobreza ganham um sentido mais sócio-político,numa espécie de trilha sonora dos tempos mais conflituosos, nos quais a idéia de conciliação social é substituída por um discurso de confronto, afastando-se de certa vertente “cordial” do samba e da MPB .

Outro ponto é o culto ao artista, algo que acontece muito entre os jovens, eles se espelham nos artistas, no seu ídolo. Esse condicionamento é mais propício no rap, pois, os MC´s são parte integrante da sua arte, ela só existe com a sua interpretação. Tanto que não existem regravações ou covers dentro do cenário do rap. Cada rapper tem uma mensagem para passar, mesmo diante das repetições de tema, as abordagens são diferenciadas, as tecnologias depositadas nas mãos dos DJs possibilitam inúmeras bases musicais.
Nos outros elementos, por sua vez, a arte é mais visada que o próprio artista, o desenho do graffite só remete ao seu artista na assinatura, e no break o conjunto de passos se sobressai diante da identificação de quem está dançando. Por isso os rappers serem, comumente, os porta-vozes da cultura hip hop, de certa forma o rap é o espelho dessa cultura.
Justifica-se assim a escolha desse elemento como objeto de estudo. Mais que simples manifestação musical o rap representa uma busca pela identidade dos jovens da periferia, principalmente os negros, a maioria nesses locais

O rap, no contexto específico da periferia, poderia estar contribuindo para o processo de emancipação humana, no sentido marxista, que vai se conformando pela capacidade de adquirir cidadania plena, ou seja, participar socialmente, desenvolvendo as potencialidades de realização humana abertas por essa forma de expressão e apropriando-se dos bens materiais e culturais construídos socialmente pelos homens


Essa foi a forma como os raps ficaram conhecidos em alguns Bailes funk onde eram cantados, isso ocorreu antes da chegada de maiores informações sobre o estilo

Notas

RUBIM, Lindalva. A construção de identidade no Hip Hop e o rap como contra-narrativa, 2000. Disponível em: Intercom . Acesso em: 20 nov.2004.
MC’s: Mestre de Cerimônia é o termo utilizado para denominar os cantores de rap, a sigla que os diferencia do DJ.
ROCHA, Janaína; DOMENICH, Mirella; CASSEANO, Patrícia. Hip Hop- a periferia grita. São Paulo: Fundação Perseu de Abramo, 2001. p.31
GABLIMA, Paula. Direto do Laboratório: os novos rumos da atual música de protesto brasileira, ago.2003. Disponível em: Consciência Net .Acesso em: 14 jul.2005.
BENTES, Ivana; Herschmann, Micael. Espetáculo do Contradiscurso. Folha de São Paulo. São Paulo, 18 ago. 2002. Folha Mais! n. 549, p.11-12.
SILVA, Vinícius Gonçalves Bento da; SOARES, Cássia Baldini.As mensagens sobre droga no rap: como sobreviver na periferia, jul.2004. Disponível em: Revista Scielo Acesso em: 5 nov.2004.